A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 49 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 5

— Os outros humanos já começaram a chamá-la de transportador, um nome muito apropriado — disse a Águia.

Houve um breve silêncio.

— Vamos — disse Nicole em tom irritado —, não brinque comigo... Estou deitada aqui, dopada, mas ainda com dor... Será que vou ter de arrancar essa informação de você?

— Essa fase da operação acabará logo — disse o alienígena. — Alguns de vocês serão transferidos para o transportador e os outros irão para Nodo.

— E depois, o que vai acontecer? — perguntou Nicole. — Como será decidido quem irá para onde?

— Ainda não posso lhe dizer isso — respondeu a Águia. — Só lhe direi que você irá para Nodo... Mas, se contar a qualquer pessoa o que acabei de lhe dizer, no futuro você nunca mais será informada de nada antecipadamente... Queremos que a transição seja feita em ordem...

— Você sempre quer tudo em ordem... Ai! — disse ela ao trocar de posição. — E acho que você não me deu informações muito significativas.

— Você sabe mais do que qualquer um.

— Grande coisa — disse ela zangada, tomando mais um gole de café. — A propósito, você tem algum médico esperto em Nodo que saiba fazer uma mágica para curar esse meu ferimento?

— Não — respondeu a Águia —, mas podemos lhe dar um quadril novo, se você quiser. Ou um pseudoquadril, como você provavelmente diria.

Nicole sacudiu a cabeça e estremeceu quando foi colocar a xícara de café no chão e deu uma batida no quadril.

— Ficar velha é uma merda — disse.

— Sinto muito — falou a Águia, fazendo menção de sair. — Virei visitá-la sempre que puder.

— Antes que vá embora — disse Nicole —, tenho outros assuntos... Prometi a Nai que lhe pediria para interceder por Galileu... Ela gostaria que ele voltasse a viver com a família.

— Isso é irrelevante agora — disse a Águia ao sair. — Vocês todos sairão daqui dentro de quatro a cinco dias... Adeus, Nicole. Não tente andar; use a cadeira de rodas que eu lhe trouxe. Seu quadril só pode melhorar se você não jogar seu peso sobre ele.

 

5

 

Era bem cedo, e a maioria dos humanos ainda dormia. Nicole tinha ficado no longo corredor durante meia hora, experimentando os controles da cadeira de rodas. Ficou surpresa ao ver que a cadeira se movia com rapidez e era silenciosa. Ao passar pela série de salas de conferência, descendo o corredor de um quilômetro de extensão, ficou imaginando que tipo de tecnologia avançada estaria contida na caixa de metal lacrada debaixo da cadeira. Richard teria adorado esta cadeira de rodas. Provavelmente tentaria desmontá-la, pensou.

Nicole passou por alguns humanos no corredor, quase todos tentando fazer sua caminhada matutina. Ela riu para si própria quando dois deles se afastaram depressa do seu caminho. Devo parecer muito estranha; uma velha grisalha zunindo pelo corredor numa cadeira de rodas.

Ela deu meia-volta logo e emparelhou com um trenzinho que levava um bando de passageiros para as áreas comuns, onde tomariam o café da manhã. Continuou a apertar o botão do acelerador até a cadeira correr mais do que o trem. Os passageiros olharam-na atônitos quando ela os ultrapassou, e Nicole sorriu e acenou para eles. Mas quando uma porta cem metros à frente dela abriu-se abruptamente, despejando duas mulheres no corredor, Nicole percebeu que não era seguro andar tão depressa assim. Diminuiu a marcha, ainda rindo consigo mesma pela emoção que sentira com a velocidade.

Quando se aproximou do apartamento, Nicole viu a Águia no final do raio, no ponto onde ele desembocava no anel que rodeava a Estrela do Mar, e foi até lá.

— Parece que você está se divertindo — disse a Águia.

— Estou mesmo. Esta cadeira é um brinquedo fantástico. Quase me fez esquecer a dor no quadril — disse Nicole.

— Você dormiu bem na noite passada? — perguntou a Águia.

— Muito melhor, obrigada. Dormi de lado, com o quadril elevado, como nós achamos que seria melhor. Aliás, o remédio que você me deu realmente diminuiu a dor.

A Águia acenou na direção de um saguão do outro lado do anel.

— Vamos para lá, por favor — disse a Águia. — Eu gostaria de conversar em particular com você.

Nicole guiou a cadeira pelo anel principal até chegar à rampa que dava no saguão. A Águia, que andava ao seu lado, fez sinal para ela continuar. Umas doze octoaranhas estavam sentadas no salão. A Águia e Nicole escolheram um lugar à direita, onde pudessem ficar sozinhas.

— A tarefa do transportador em Nodo está quase terminada — disse a Águia. — Dentro de doze horas, ele vai fazer uma rápida parada perto deste veículo para pegar uns passageiros... Eu vou anunciar depois do almoço quem será transferido para o transportador.

O alienígena virou-se e olhou diretamente para Nicole com seus intensos olhos azuis.

— Alguns humanos talvez não gostem do que eu vou anunciar... Depois que foi tomada a decisão de dividir a sua espécie em dois grupos separados, ficou óbvio para mim que seria impossível essa divisão agradar a todos... Gostaria que você me ajudasse a tornar esse processo o mais suave possível.

Nicole examinou o rosto e os olhos fascinantes do seu companheiro alienígena, e achou que já tinha visto antes aquela expressão nele. Foi lá em Nodo, quando me pediram para fazer o vídeo, lembrou-se.

— O que você quer que eu faça? — perguntou.

— Decidimos permitir um grau de flexibilidade nesse processo. Embora todos os indivíduos da lista de transferência para o transportador tenham de acatar nossa seleção, alguns dos que forem selecionados para Nodo poderão solicitar que seus casos sejam reconsiderados. Como não haverá intercâmbio entre os dois veículos, no caso de fortes ligações emocionais, por exemplo, nós não gostaríamos de forçar...

— Você está me dizendo que essa divisão poderá separar as famílias para sempre? — perguntou Nicole.

— Talvez — respondeu a Águia. — Em alguns casos, um marido poderá ser selecionado para o transportador e a mulher para Nodo. Da mesma forma, haverá casos em que pais e filhos serão separados.

— Puxa! — exclamou Nicole. — Como vocês podem separar arbitra-riamente duas pessoas que vivem juntas e esperar que elas fiquem felizes?... Você terá sorte se não houver uma revolta depois que for anunciada essa divisão.

A Águia hesitou um instante.

— Não há nada de arbitrário no nosso processo — disse o alienígena finalmente. — Há meses estudamos com cuidado os inúmeros dados de cada criatura que vive atualmente na Estrela do Mar. Os registros incluem informações completas de todos os anos em Rama também... Os que foram selecionados para o transportador não preencheram, por uma razão ou por outra, os requisitos necessários para serem transferidos para Nodo.

— E quais são exatamente esses requisitos? — perguntou Nicole.

— Tudo o que posso dizer agora é que em Nodo haverá um ambiente de intercâmbio de espécies... Os indivíduos que têm adaptação limitada foram selecionados para o transportador — disse a Águia.

— Está me parecendo que um subgrupo de humanos do Grande Hotel não foi considerado aceitável, por alguma razão...

— Se entendi bem o que você disse — interrompeu a Águia —, você está insinuando que essa divisão separa os grupos na base do mérito. Não é bem assim. A nosso ver, quase todas as pessoas dos dois grupos serão mais felizes a longo prazo no ambiente para o qual foram selecionadas.

— Mesmo sem seus cônjuges ou filhos? — perguntou Nicole, franzindo as sobrancelhas. — Às vezes fico pensando se você realmente sabe o que motiva a espécie humana. As ligações emocionais, para usar suas palavras, em geral são essenciais para a felicidade dos humanos...

— Nós sabemos disso — falou a Águia. — Depois de revermos cada caso em que as famílias serão separadas por essa divisão, fizemos algumas adaptações. Na nossa opinião, as separações familiares, que não são tão numerosas quanto você está pensando, são todas em função dos nossos dados de observação.

Nicole ficou olhando para a Águia e sacudiu a cabeça.

— Por que essa divisão nunca foi mencionada antes?... Nunca, em todas as discussões sobre a transferência iminente, vocês fizeram qualquer alusão a essa divisão dos humanos em dois grupos...

— Só nos decidimos por isso há pouco tempo. Lembre-se de que nossa intercessão nos negócios de Rama levou-nos a um regime de contingência na nossa matriz de planejamento... Depois que ficou claro que algum tipo de divisão se fazia necessário, não quisemos perturbar o status quo...

— Que bobagem! — disse Nicole de repente. — Não acredito em nada dis-so. Vocês sabiam há muito tempo o que iriam fazer... Mas não quiseram ouvir qualquer objeção...

Nicole virou a cadeira e deu as costas para seu companheiro alienígena.

— Não — continuou ela com firmeza —, não vou ser sua cúmplice numa coisa dessas... E não gostei de você ter comprometido minha integridade não me contando a verdade antes...

Apertou o botão de aceleração e dirigiu-se para o corredor principal.

— Há alguma coisa que eu possa fazer para você mudar de idéia? — perguntou a Águia, andando ao seu lado.

Nicole parou.

— Nesse quadro, eu não posso imaginar uma forma de ajudar vocês... Por que vocês não explicam as diferenças entre os dois ambientes de vida e deixam que cada indivíduo de cada espécie decida por si próprio?

— Acho que isso será impossível — disse a Águia.

— Então não conte comigo — falou Nicole, acelerando a cadeira de novo.

 

Nicole estava de péssimo humor quando chegou à porta do seu apartamento. Inclinou-se para a frente e apertou os números do seu código de entrada.

— Patrick e mamãe estão procurando pela senhora — disse Kepler um instante depois. — Eles ficaram preocupados porque não a encontraram no corredor.

Nicole passou pelo rapaz e foi para o seu quarto. Benjy saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cintura.

— Alô, ma-mãe — disse ele com um amplo sorriso. Porém, ao notar seu ar preocupado, correu para perto dela. — O que houve? Você não se ma-chu-cou de novo, não é?

— Não, Benjy — respondeu Nicole. — Eu estou bem. Só estou preocupada com uma discussão que tive com a Águia.

— Sobre o quê? — perguntou ele, segurando a mão da mãe.

— Mais tarde eu conto — falou Nicole hesitante. — Depois que você se secar e puser sua roupa.

Benjy sorriu e beijou a mãe antes de voltar para o banheiro. A dor de estômago que Nicole sentira enquanto conversava com a Águia tinha voltado. Oh, meu Deus. Benjy não. Espero que a Águia não tenha tentado me dizer que vamos nos separar de Benjy. Lembrou-se do comentário do alienígena sobre capacidades limitadas e entrou em pânico. Não agora. Por favor, não agora. Não depois de todo esse tempo.

Nicole lembrou-se de um momento especial, muitos anos antes, quando toda a família fora levada a Nodo pela primeira vez. Ela estava sozinha no banheiro quando Benjy entrou para tentar saber se queriam que ele voltasse com sua família para o sistema solar, e ficou muito aliviado ao verificar que não seria separado de sua mãe. Ele já sofreu o bastante, disse Nicole para si mesma, lembrando-se da indicação de Benjy para Avalon quando ela estava presa no Novo Éden. A Águia deve saber disso, se é que todos os dados foram bem estudados.

Apesar de seu esforço consciente para manter-se calma, Nicole não con-seguia libertar-se do medo e da raiva que cresciam dentro dela. Preferia ter morrido enquanto dormia, pensou com amargura, esperando pelo pior. Não vou conseguir dizer adeus a Benjy. Ele morreria de tristeza. E eu também.

Uma lágrima solitária desceu do olho esquerdo de Nicole e rolou pelo seu rosto.

— A senhora está bem? — perguntou Kepler, preocupado.

— Estou sim, obrigada, Kepler — respondeu ela, limpando o rosto com as costas da mão e sorrindo. — Gente velha fica muito emotiva. Não é nada demais.

Bateram na porta e Kepler foi atender. Eram Patrick e Nai, seguidos pela Águia.

— Nós encontramos o seu amigo no corredor, mamãe — disse Patrick, dando-lhe um beijo. — Ele disse que vocês dois tiveram uma conversa séria... Nai e eu estávamos preocupados...

A Águia foi para o lado de Nicole e disse:

— Há um outro assunto sobre o qual eu gostaria de falar. Será que dá para conversarmos mais um pouco lá fora?

— Acho que não tenho escolha — respondeu Nicole. — Mas não vou mudar de idéia...

Um trem lotado passou por Nicole e a Águia quando saíam do apartamento.

— O que é? — perguntou ela, impaciente.

— Quero que você saiba que todas as diferentes manifestações da espécie séssil e as aves restantes serão incluídas no grupo que será transferido para o transportador hoje à noite. Se você tiver algum desejo, como indicou uma vez, durante uma conversa que tivemos logo depois que você acordou, de interagir com os sésseis e de experimentar o que Richard descreveu...

— Diga uma outra coisa antes — interrompeu Nicole, agarrando a Águia pelo braço com uma força surpreendente. — Benjy e eu vamos nos separar com essa divisão que será anunciada hoje à tarde?

A Águia hesitou um instante.

— Não, vocês não vão se separar — disse afinal. — Mas eu não posso dar mais detalhes sobre isso...

Nicole deu um suspiro de alívio.

— Obrigada — falou, tentando sorrir. Fez-se um silêncio prolongado.

— Os sésseis — continuou a Águia depois de algum tempo — não poderão mais ser vistos depois...

— Tudo bem — falou Nicole. — Muito obrigada, é uma grande idéia. Eu gostaria de prestar meu respeito a um séssil... Depois do café da manhã, é claro...

Os robôs-blocos menores ficavam em evidência no raio que abrigava as aves e os sésseis. O raio era dividido em várias áreas, separadas por paredes que iam do chão ao teto. Os robôs-blocos policiavam as entradas e saídas dessas áreas, e também ficavam postados em cada uma das paradas do trem.

As aves e os sésseis viviam por trás do raio, no último prédio separado. Um robô-bloco e uma ave guardavam a entrada quando a Águia e Nicole chegaram. A Águia matraqueou e guinchou em resposta a uma série de perguntas da ave. Depois que eles entraram no prédio, foram abordados por um myrmigato, que começou a se comunicar com a Águia em explosões sonoras de alta freqüência, saídas do pequeno orifício circular abaixo dos seus olhos ovais, escuros e leitosos. Nicole maravilhou-se com a fidelidade da resposta da Águia. E ficou também fascinada quando os dois outros olhos do myrmigato, presos a hastes que se elevavam uns doze centímetros de sua testa, continuaram a girar e a inspecionar o ambiente. Quando a Águia terminou de conversar com o myrmigato, a criatura de seis patas, que parecia uma formiga gigante quando ficava de pé, correu pelo corredor com a velocidade e a graça de um gato.

— Eles sabem quem você é — disse a Águia. — Estão encantados por estarem sendo visitados.

Nicole olhou para seu companheiro.

— Como eles me conhecem? — perguntou. — Vi alguns deles nas áreas comuns, mas na verdade nunca me aproximei...

— Seu marido é um deus para essa espécie... Nenhum deles estaria aqui hoje se não fosse ele. Eles conhecem você de imagens gravadas em sua memória...

— Como é possível isso? Richard morreu há dezesseis anos...

— Mas o registro da estada de Richard com eles foi cuidadosamente pre-servado na sua memória coletiva — respondeu a Águia. — Todo myrmigato sai do seu melão-maná com um conhecimento significativo dos componentes-chaves da sua própria cultura e história... O processo embrionário que ocorre dentro do melão não só fornece aumento físico para o crescimento e desenvolvimento do ser como também passa informações básicas diretamente para o cérebro, ou equivalente, do filhote de myrmigato.

— Você está me dizendo que essas criaturas começam sua educação antes de nascerem? E que dentro dos melões-manás que eu costumava comer há conhecimentos armazenados e eles são de algum modo implantados nos cérebros dos myrmigatos ainda não-nascidos?

— Exatamente, e não entendo por que você está tão surpresa. Fisica-mente, essas criaturas são muito menos complexas dos que as da sua espécie. O processo de desenvolvimento embrionário do humano é muito mais sutil e complexo do que o deles. Os recém-nascidos humanos chegam no mundo com uma série de atributos e capacidades físicas. Mas os bebês dependem dos outros membros da espécie para sua sobrevivência e educação. Os myrmigatos nascem mais sabidos, portanto mais independentes, porém têm muito menos potencial de desenvolvimento intelectual.

Os dois ouviram um som estridente vindo de um myrmigato de mais ou menos cinqüenta metros.

— Ele está nos chamando — disse a Águia.

Nicole acelerou sua cadeira de rodas a uma velocidade compatível com o passo da Águia.

— Richard nunca me disse que essas criaturas preservavam informações de uma geração para outra.

— Ele não sabia. Mas conseguiu descobrir o ciclo metamórfico deles, e sabia que os myrmigatos passavam informações para a rede ou teia neural, ou qualquer nome que se dê à manifestação final... Mas ele nem suspeitava que os elementos mais importantes das informações coletivas eram também armazenados nos melões-manás e passados para a geração seguinte... Não é preciso dizer que é um mecanismo de sobrevivência muito forte.

Nicole ficou fascinada com o que a Águia estava lhe dizendo. Imagine se as crianças humanas pudessem nascer sabendo as coisas essenciais da nossa cultura e história. Se, por exemplo, a placenta contivesse, de forma compactada, bastante informação... Parece impossível, mas talvez não seja. Se ao menos uma criatura puder fazer isso, então no final...

— Quantos dados são passados pelos melões-manás para os recém-nas-cidos da espécie deles? — perguntou Nicole quando se aproximavam do myrmigato.

— Cerca de um milésimo de um por cento das informações presentes em um espécime maduro como aquele em que Richard residiu. A função básica da manifestação final da espécie é manipular, processar e compactar os dados em um pacote a ser incluído nos melões-manás... A forma como esse processo de gerenciamento de dados funciona está sendo estudada por nós... Aliás, a rede neural que você vai ver nos próximos minutos, continuou a Águia — era originariamente apenas uma pequena lasca de material contendo dados críticos comprimidos através de um brilhante algoritmo... Calculamos que naquele cilindro pequeno que Richard levou para Nova York, há muitos anos, havia informações equivalentes à capacidade de memória de cem cérebros de adultos humanos.

— Espantoso! — disse Nicole sacudindo a cabeça.

— E isso é só o começo — continuou a Águia. — Cada um dos quatro melões-manás que Richard levou tinha seu próprio conjunto de dados compactados, com ligeiras diferenças, diria eu. E todos eles se transformaram em myrmigatos... Espero que você esteja preparada para uma aventura e tanto.

Nicole parou a cadeira de rodas.

— Por que você não me contou tudo isso antes? Talvez eu tivesse passado mais tempo...

— Duvido — interrompeu a Águia. — Sua prioridade era restabelecer suas conexões com sua própria espécie... Acho que só agora você está preparada para isso.

— Você tem me manipulado, controlando o que eu vejo e sinto — disse Nicole sem rancor.

— Talvez — replicou a Águia.

 

Nicole sentiu muito medo quando finalmente chegou perto da rede neural.

A Águia e ela estavam juntas em um quarto semelhante ao do apartamento de Nicole no raio dos humanos. Dois myrmigatos estavam sentados por trás deles, encostados na parede. A rede, ou teia séssil, ocupava cerca de quinze por cento do quarto, no canto direito. Havia um espaço no centro do denso e macio material branco que dava para Nicole entrar com sua cadeira de rodas. Ela atendeu ao pedido da Águia de dobrar as mangas da blusa e levantar o vestido acima dos joelhos.

— Imagino que ele espere que eu entre naquele espaço para enrolar seus filamentos em volta do meu corpo — disse ela com a voz um tanto trêmula.

— Isso mesmo — falou a Águia. — E está avisado por um dos myrmigatos para soltá-la quando você pedir... Estarei aqui o tempo todo, se é que isso lhe serve de conforto.

— Richard me disse que levou muito tempo para que houvesse uma verdadeira comunicação... — disse ela, ainda hesitando em entrar.

— Isso agora não será problema — respondeu a Águia. — Certamente, parte das informações armazenadas na lasca original era de dados sobre métodos que poderiam ser usados para uma comunicação eficiente com os seres humanos.

— Tudo bem — disse Nicole nervosa, passando a mão nos cabelos. — Lá vou eu; me deseje boa sorte.

Nicole entrou com a cadeira no espaço vazio da rede que parecia algodão e desligou o motor. Em menos de um minuto a criatura a tinha rodeado, e ela nem conseguia ver o contorno da Águia do outro lado do quarto. Tentou sentir-se segura. Isso não vai me machucar, disse para si própria, quando sentiu centenas e depois milhares de fios minúsculos prendendo-se em seus braços, pernas, pescoço e cabeça. Como esperava, os fios eram mais numerosos na cabeça. Ela se recordou da descrição de Richard. Os filamentos individuais eram incrivelmente finos, mas deviam ter partes muito afiadas por baixo. Só percebi que eles eram inseridos bem dentro das camadas externas da minha pele quando tentei puxar um deles.

Nicole olhou para o monte de fios mais ou menos a um metro do seu rosto. Quando aquele monte se aproximou dela, os outros elementos da delicada rede mudaram de posição. Nicole sentiu um arrepio na espinha. E finalmente compreendeu que a rede que a envolvia era uma criatura viva. Só um pouco depois é que as imagens começaram.

Nicole percebeu imediatamente que o séssil estava lendo sua memória. Imagens do início de sua vida passaram-lhe pela cabeça em uma velocidade fantástica, nenhuma demorando o tempo necessário para provocar emoção. Não havia ordem nas imagens: a lembrança da infância na floresta atrás de sua casa no subúrbio parisiense de Chilly-Mazarin era seguida da imagem de Maria rindo das histórias de Max.

Esse é o estágio de transferência de dados, pensou Nicole, lembrando-se da análise de Richard sobre o tempo que ele passara dentro da rede neural. A criatura está copiando a minha memória para a sua, a uma velocidade incrível. Nicole ficou imaginando o que o séssil iria fazer com todas aquelas imagens da sua memória. De súbito, Nicole viu em sua mente nitidamente o próprio Richard numa grande câmara que tinha um mural enorme e incompleto na parede. Essa imagem tornou-se um filme de cinema apresentado na câmara, com uma claridade assustadora. Parecia que ela estava diante de uma televisão colorida localizada dentro do seu cérebro. Dava até para ver os detalhes do mural. Enquanto assistia ao filme, um myrmigato dirigia a atenção de Richard para detalhes específicos das pinturas. Em volta do quarto, outros doze myrmigatos pintavam as seções incompletas do mural.

Era uma soberba obra de arte. Tinha sido criada para informar a Richard o que ele podia fazer para ajudar a espécie alienígena a sobreviver. Parte do mural era um texto de biologia, explicando em figuras as três manifestações da espécie (melão-maná, myrmigato e séssil ou rede neural) e as relações entre elas. As imagens que Nicole viu eram tão precisas que ela se sentiu transportada para o quarto que Richard ocupara. Portanto, levou um susto quando o filme interno de repente perdeu a continuidade e apresentou a imagem de Richard despedindo-se do seu guia myrmigato.

Richard e o myrmigato estavam num túnel no fundo do cilindro marrom. O filme detinha-se em cada detalhe dessa despedida final. Richard, barbudo, parecia desconfortável carregando os quatro pesados melões-manás, dois ovos de aves e o cilindro de material séssil no pacote pendurado às costas. E Nicole, vendo o olhar determinado de Richard ao partir do habitat condenado dos myrmigatos, pôde entender por que ele era um herói para aquela espécie. Ele arriscou sua vida para salvá-los da extinção, lembrou-se.

Sua cabeça encheu-se de imagens do zôo das octoaranhas, registrando os eventos posteriores à germinação dos melões-manás que Richard levara para Nova York. Apesar da clareza dos filmes, Nicole não seguiu as imagens muito de perto, pois ficou pensando em Richard. Desde que acordei ainda não me senti no direito de sentir a sua falta, disse para si mesma, porque achei que isso demonstraria fraqueza da minha parte. Mas agora, vendo seu rosto de novo com tanta nitidez e lembrando como éramos companheiros, vejo como é ridículo forçar-me a não pensar em você. Quando a gente sobrevive ao homem que ama, por que não seria uma aceitável fonte de prazer reviver aquele amor?

Uma imagem rápida de três seres humanos, um homem, uma mulher e um bebê, passou pelos olhos de Nicole e chamou sua atenção. Esperem, pensou Nicole quase gritando. Voltem. Quero ver uma coisa. Mas a rede neural não leu a sua mensagem, e continuou a passar os filmes. Nicole parou de pensar em Richard e focalizou sua atenção nas imagens que apareciam na televisão de dentro do seu cérebro.

Menos de um minuto depois, viu o trio de novo, andando no zoológico com o zelador octoaranha, na frente da área onde ficavam os myrmigatos. Maria estava no colo da mãe. Seu pai, um homem moreno e bonitão, com as têmporas grisalhas, puxava de uma das pernas como se ela estivesse quebrada. Nunca vi esse homem antes, senão me lembraria dele.

Não houve mais imagens dos pais de Maria. A torrente de figuras pas-sando pela cabeça de Nicole mostrava a transferência dos myrmigatos para outro local, longe do zôo e da Cidade de Esmeralda, pouco antes de começar o bombardeio. Nicole supôs que a última seqüência de imagens fosse do período em que todos os humanos e octoaranhas de Rama estavam dormindo. Não muito tempo depois disso, se é que entendi bem o ciclo de vida deles, os quatro myrmigatos que resultaram dos melões de Richard tomaram-se material de rede. Com todas essas memórias intactas.