A Revelação de Rama
Capítulo 9
— Vou até me apoiar em você — disse ela sorrindo.
Foram andando devagar pela rua, Nicole apoiada em dois tentáculos do dr. Azul. Porém as atividades e emoções do dia tinham sugado a pouca energia de Nicole. Ela sentiu-se exausta antes de chegar no carro do transporte.
Parou para descansar. Os sons distantes que ela vinha ouvindo sem pres-tar atenção tornaram-se mais fortes.
— Bombas, muitas bombas — falou Nicole.
— Nós fomos avisados dos ataques de helicópteros — disse a octoaranha. — Mas não sei por que não estamos vendo os clarões...
De repente, parte da cobertura da cúpula explodiu em uma grande bola de fogo. Um instante depois, Nicole ouviu um som ensurdecedor. Apertou com força a mão do dr. Azul e olhou para o inferno a distância. No meio das chamas identificou os restos de um helicóptero. Pedaços incinerados da cúpula caíam do céu, alguns a menos de um quilômetro de distância.
Nicole não conseguia respirar, e o dr. Azul viu a expressão de exaustão em seu rosto.
— Não vou conseguir — disse Nicole, agarrando-se à octoaranha com a força que lhe restava. — Vá ver o Chefe Otimizador sozinho, em meu nome. Peça, ou melhor, suplique para que ele faça alguma coisa por Katie e Robert... Diga que é um favor pessoal... Para mim...
— Vou fazer todo o possível — falou o dr. Azul. — Mas primeiro vamos voltar para sua casa...
— Mamãe! — Nicole ouviu Patrick gritar. Ele veio correndo pela rua e chegou quando o dr. Azul entrava no transporte. Nicole olhou para a cúpula exatamente quando a hélice do helicóptero, ardendo em chamas, caiu do céu e espatifou-se à distância.
9
Katie jogou a seringa na pia e olhou-se no espelho.
— Agora sim, está bem melhor... Não estou mais tremendo —, disse em voz alta.
Estava com o mesmo vestido que usara na audiência do pai. Também tinha tomado uma decisão na semana anterior e contara a Franz o que estava planejando fazer.
Virou-se e viu seu reflexo no espelho. O que será esse inchaço no meu braço?, pensou. Era a primeira vez que reparava naquilo. No braço direito, entre o cotovelo e o pulso, um caroço do tamanho de uma bola de golfe. Era um caroço macio, não coçava nem doía, a não ser quando o apertava.
Katie deu de ombros e foi para a sala de estar mexer nos papéis que deixara em cima da mesa. Fumou um cigarro, organizou os documentos e colocou-os num envelope grande.
Ela recebera o telefonema do escritório de Nakamura naquela manhã. Uma mulher de voz meiga tinha lhe dito que Nakamura poderia vê-la às cinco da tarde. Quando Katie colocou o fone no gancho, mal pôde se conter. Tinha quase perdido as esperanças de ver o grande líder. Três dias antes, quando pediu que marcassem uma hora para falar de assuntos de interesse mútuo, a recepcionista de Nakamura lhe dissera que ele andava muito ocupado com os preparativos da guerra e não estava dando audiência a ninguém.
Katie olhou de novo para o relógio. Faltavam quinze minutos para as cinco. Levaria apenas dez minutos para andar do apartamento até o palácio. Pegou o envelope e abriu a porta do apartamento.
A espera estava abalando sua autoconfiança. Eram quase seis horas e Katie ainda não havia sido admitida no santuário interno, a parte japonesa do palácio onde Nakamura trabalhava e morava. Ela já tinha ido ao banheiro duas vezes, e perguntado na volta se ainda teria de esperar muito. A recepcionista ao lado da porta respondera nas duas vezes com um gesto vago e desinteressado.
Katie lutava consigo mesma. O efeito da droga estava diminuindo e ela começou a ter dúvidas. Enquanto fumava um cigarro no banheiro, tentou esquecer suas ansiedades pensando em Franz. Lembrou-se da última vez em que fizeram amor. Ele estava muito triste quando foi embora. Franz me ama do seu jeito, pensou Katie.
A japonesinha parou na porta e disse:
— Pode entrar agora.
Katie atravessou a sala de espera e entrou na parte principal do palácio. Tirou os sapatos, colocou-os em uma prateleira e andou sobre o tatame só de meias. Uma policial chamada Marge cumprimentou-a e disse a Katie para segui-la. Apertando o envelope na mão, Katie andou uns,quinze metros até chegar a um biombo à direita.
— Pode entrar — disse Marge.
Outra policial, oriental mas não japonesa, com um revólver na cintura, esperava na sala.
— A segurança em torno de Nakamura-san anda especialmente reforçada — explicou Marge. — Por favor, tire suas roupas e jóias.
— Toda a minha roupa? — perguntou Katie. — Até a calcinha?
— Tudo — disse a outra moça.
Suas roupas foram dobradas com cuidado e colocadas em uma cesta marcada com seu nome, e as jóias foram postas em uma caixa especial. Marge examinou-a toda, inclusive suas partes íntimas, e prendeu sua língua para examinar a boca. Katie recebeu um yucata azul e branco e um par de sandálias japonesas.
— Pode ir agora com Bangorn até a última sala de espera — falou Marge. Katie pegou o envelope. Quando estava saindo, a policial oriental a deteve.
— Tudo fica aqui — disse ela.
— Mas é um encontro de negócios — protestou Katie. — O que eu vou discutir com o sr. Nakamura está neste envelope.
As duas mulheres abriram o envelope, tiraram os papéis, examinaram um a um contra a luz e depois passaram os papéis por uma máquina. Finalmente colocaram tudo no envelope e a oriental chamada Bangorn fez sinal para Katie segui-la.
A última sala de espera ficava a mais uns quinze metros dali. Mais uma vez, Katie teve de sentar-se e esperar, e percebeu que estava começando a tremer. Como pude achar que isso iria funcionar?, disse de si para si. Como sou idiota!
Quando se sentou, começou a sentir uma falta desesperada da droga, pior do que todas as outras vezes. Com medo de gritar, disse a Bangorn que precisava ir de novo ao banheiro. A policial acompanhou-a, e Katie pelo menos pôde lavar o rosto.
Quando as duas voltaram, o próprio Nakamura estava na porta. Katie achou que seu coração ia pular do peito. Está na hora, disse consigo mesma. Nakamura usava um quimono amarelo e preto, coberto de flores brilhantes.
— Alô, Katie — disse ele com um sorriso malicioso. — Há quanto tempo não vejo você.
— Alô, Toshio-san — respondeu ela nervosa.
Katie seguiu-o até o escritório e sentou-se de pernas cruzadas ao lado de uma mesa baixa. Nakamura sentou-se na sua frente. Bangorn ficou na sala, em um canto. Oh, não, pensou Katie ao ver que a mulher ia ficar ali, o que eu faço agora?
— Eu devia ter entregue há muito tempo um relatório sobre o nosso traba-lho — começou ela um instante depois, tentando falar normalmente e tirando o documento de dentro do envelope. — Apesar de a economia estar em baixa, nós conseguimos aumentar os lucros em dez por cento. Neste documento, poderá ver que, embora a renda de Vegas não esteja alta, a retirada local, onde os preços são mais baixos, subiu consideravelmente. Mesmo em San Miguel...
Nakamura deu uma olhada rápida no papel e colocou-o em cima da mesa.
— Não é preciso mostrar esses dados. Todos sabem que você é uma ótima mulher de negócios. — Chegou um pouco para a esquerda e pegou uma grande caixa preta de laca. — Seu trabalho foi muito elogiado. Se os tempos não estivessem tão difíceis, você mereceria um grande aumento... Mas como as coisas estão, eu gostaria ao menos de lhe oferecer um presente em sinal da minha apreciação.
Nakamura estendeu a caixa para Katie.
— Obrigada — disse ela, admirando as montanhas e a neve desenhadas na tampa. Era uma caixa muito bonita.
— Abra-a — falou Nakamura, pegando um dos bombons que estavam num prato sobre a mesa.
Ao abrir a caixa e ver que estava cheia de droga, Katie deu um sorriso.
— Obrigada, Toshio-san. O senhor é muito generoso — disse.
— Pode experimentar — falou ele com um riso de escárnio. — Você não vai me insultar.
Katie colocou um pouco do pó na língua e viu que era uma droga de alta qualidade. Sem hesitar, tirou uma quantidade maior da caixa e enfiou na narina esquerda com o dedo mindinho. Depois, tapou a narina, inspirou fundo e ficou esperando a droga fazer efeito. Então, deu uma risada.
— Oba! — disse, desinibida. — Esta é das boas!
— Achei que você iria gostar — falou Nakamura, jogando o papel do bombom em uma grande cesta de lixo ao lado da mesa.
Deve estar por aí em algum lugar, pensou Katie, lembrando-se do que Franz dissera. Em algum lugar que não chame a atenção. Olhe na cesta de lixo. Olhe por trás das cortinas. O ditador do Novo Éden estava sorrindo do outro lado da mesa.
— Você queria me dizer mais alguma coisa? — perguntou. Katie respirou fundo e sorriu.
— Só isso. — Chegou para a frente, colocou os cotovelos na mesa e beijou-o nos lábios. Imediatamente sentiu as mãos ásperas da policial segurando seus ombros. — Um pequeno agradecimento pelo que eu ganhei.
O julgamento de Katie foi correto. O desejo nos olhos dele era incon-fundível. Nakamura fez um sinal para Bangorn sair.
— Pode nos deixar — disse ele para a policial, levantando-se. — Venha cá, Katie, para me dar um beijo de verdade.
Katie deu uma olhada na cesta de lixo quando passou para o outro lado da mesa, mas viu que só continha papéis. É claro, pensou. Aí seria muito óbvio... Agora preciso fazer a coisa certa. Provocou Nakamura, dando-lhe um beijo e de-pois outro, passando a língua pelos lábios dele. Depois afastou-se depressa rindo, e Nakamura seguiu-a.
— Não — disse ela, dirigindo-se para a porta. — Ainda não... estamos só começando.
Nakamura ficou parado e riu.
— Eu tinha me esquecido como você é talentosa. Aquelas meninas têm sorte de tê-la como mentora.
— É preciso um homem excepcional para tirar o máximo de mim — falou Katie, trancando a porta.
Olhou em volta do escritório e seus olhos pararam em outra cesta de lixo menor, do lado oposto. Aquele parece ser o lugar ideal, disse para si mesma, excitada.
— Você vai ficar de pé aí, Toshio, ou vai me dar um drinque? — perguntou Katie.
— É claro — respondeu Nakamura, encaminhando-se para o bar escul-pido à mão. — Uísque puro, não é?
— Sua memória é fenomenal — disse Katie.
— Lembro-me muito bem — falou Nakamura, enquanto preparava dois drinques. — Nunca me esquecerei das suas brincadeiras, especialmente da princesa e do escravo, a que mais gostei... Nós nos divertimos muito naquele dia.
Até você insistir em fazer outras brincadeiras. E duchas douradas. E até mesmo coisas repugnantes, pensou Katie. Você deixou bem claro que eu não bastava.
— Ei, rapaz — gritou em tom imperioso. — Estou com sede... onde está meu drinque?
Nakamura franziu a sobrancelha, mas depois deu um sorriso.
— Sim, excelência — disse, trazendo um drinque de cabeça baixa e fa-zendo uma reverência. — Alguma outra coisa, excelência?
— Sim — respondeu Katie. Tomou o uísque com a mão esquerda, segurou o quimono de Nakamura com a direita, olhou direto nos seus olhos e beijou-o com paixão para excitá-lo.
De repente, deu um passo atrás. Enquanto ele a observava, Katie foi tirando seu yucata lentamente. Nakamura andou na sua direção, mas ela o deteve com os braços.
— Agora, rapaz — ordenou ela —, baixe essas luzes e deite-se ali na esteira, de costas, ao lado da mesa.
Nakamura obedeceu, e Katie foi até onde ele estava deitado.
— Agora — disse, em tom mais suave —, você sabe o que sua princesa precisa, não é? Devagar, bem devagar, sem correria. — Katie baixou-se e começou a acariciá-lo. — Acho que Musashi está quase pronto...
Katie beijou Nakamura, acariciando com os dedos seu rosto e seu pescoço.
— Agora feche os olhos — cochichou no seu ouvido — e conte até dez, bem devagarinho.
— Ichi, ni, san... — disse ele ofegante.
Com uma velocidade incrível, Katie atravessou a sala para examinar a outra cesta de lixo. Pôs uns papéis de lado e encontrou o revólver.
— ... shi, go, ryoku...
O coração de Katie batia furiosamente quando ela pegou a arma, virou-se e voltou para onde estava Nakamura.
— ... shichi, hachi, kyu...
— Isso é pelo que você fez com meu pai — disse Katie, encostando o cano do revólver na cabeça dele e puxando o gatilho enquanto Nakamura abria os olhos assustado.
— E isso é pelo que você fez comigo — disse, atirando três vezes seguidas na sua genitália.
Os guardas arrombaram a porta em poucos segundos, mas Katie foi mais rápida.
— E isso, Katie Wakefield — disse em voz alta, enfiando o revólver na boca —, é pelo que você fez a si própria.
Ellie acordou quando ouviu mexerem nas chaves da sua cela. Esfregou os olhos e perguntou:
— É você, Robert?
— Sou eu, Ellie. — Robert entrou na cela quando ela levantava e abraçou-a. — Que bom ver você — disse ele. — Vim assim que Hans me disse que os guardas tinham saído do posto.
Robert beijou sua esposa atônita.
— Desculpe, Ellie. Eu estava muito, muito errado. Ellie juntou seus pertences em alguns segundos.
— Eles abandonaram o posto? Por quê, Robert? O que está acontecendo?
— Um caos completo e total — respondeu ele sério, com um ar de derrota.
— O que está dizendo, Robert? — gritou Ellie amedrontada. — Nikki está bem, não é?
— Ela está ótima, Ellie... Mas há gente morrendo aos montes... E nós não sabemos por quê... Ed Stafford desmaiou há uma hora e morreu antes de poder ser examinado... É algum tipo de praga monstruosa.
As octoaranhas, pensou Ellie imediatamente, finalmente reagiram. Abraçou-se ao marido e começou a chorar. Passado um instante, ele afastou-a e falou:
— Desculpe, Ellie... Tem havido tanto tumulto... Você está bem?
— Estou, Robert... Faz dias que ninguém me interroga nem me tortura. Mas onde está Nikki?
— Está com Brian Walsh na nossa casa. Lembra-se de Brian, o compa-nheiro de computador de Patrick? Ele tem me ajudado a cuidar de Nikki desde que você foi embora... Pobre rapaz, anteontem quando acordou, viu que seus pais estavam mortos.
Ellie saiu do posto policial com Robert. Ele falava sem parar, passando de um assunto para outro, mas deu para Ellie compreender algumas partes daquela conversa quase incoerente. Segundo ele, mais de trezentas pessoas tinham morrido em Novo Éden em apenas dois dias. E não havia sinal de que as coisas parariam por aí.
— É estranho — observou ele —, só uma criança morreu... Em geral as vítimas são idosas.
Na frente do posto de polícia de Beauvois, uma mulher desesperada, de mais de trinta anos de idade, reconheceu Robert e agarrou-se a ele.
— O senhor tem de vir comigo imediatamente, doutor — gritou a mulher. — Meu marido está inconsciente... Ele estava almoçando comigo e começou a queixar-se de dor de cabeça. Quando voltei da cozinha encontrei-o caído no chão... Tenho medo de que esteja morto.
— Está vendo?... — disse Robert, virando-se para Ellie.
— Vá com ela e depois para o hospital, se precisar... Eu vou para casa cuidar de Nikki, e ficaremos esperando por você... — Deu um beijo no marido e começou a dizer alguma coisa sobre as octoaranhas, mas desistiu.
— Mamãe, mamãe — gritou Nikki, correndo pelo corredor e pulando nos braços de Ellie. — Senti muita falta sua, mamãe.
— E eu senti sua falta também, meu anjo. O que você tem feito?
— Tenho brincado com Brian — respondeu Nikki. — Ele é um homem muito bom. Lê para mim e está me ensinando os números.
Brian Walsh, um rapaz dos seus vinte anos, apareceu no corredor com um livro infantil na mão.
— Alô, sra. Turner. Não sei se está se lembrando de mim...
— É claro que estou, Brian. Pode me chamar de Ellie... Quero agradecer a ajuda que você tem dado com Nikki...
— Foi um prazer, Ellie. Ela é uma criança incrível... Tirou uma porção de pensamentos tristes da minha cabeça...
— Robert me contou sobre seus pais — interrompeu Ellie. — Sinto muito. Brian sacudiu a cabeça.
— Foi tão estranho! Os dois estavam perfeitamente bem quando foram dormir — disse, com os olhos cheios de lágrimas. — Eles pareciam tão pacíficos...
Brian virou-se e pegou um lenço para limpar as lágrimas.
— Vários amigos meus disseram que essa praga, ou o que seja, foi cau-sada pelas octoaranhas. Você acha possível...
— Acho sim — respondeu ela. — Talvez elas tenham sido pressionadas demais.
— Nós todos vamos morrer? — perguntou Brian.
— Não sei. Realmente não sei.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo.
— Bem, pelo menos sua irmã se livrou de Nakamura — disse Brian de repente.
Ellie achou que não tinha ouvido a frase corretamente.
— De que você está falando, Brian? — perguntou.
— Você não ouviu nada sobre isso? Há quatro dias, Katie matou Na-kamura e depois se matou.
Ellie ficou olhando estupefata para Brian.
— Papai me contou ontem sobre a tia Katie — falou Nikki. — Disse que ele é que queria contar para você.
Ellie não dizia nada. Sua cabeça estava girando. Conseguiu despedir-se de Brian e agradecer-lhe de novo, e depois sentou-se no sofá. Nikki foi para o lado da mãe e pôs a cabeça no colo dela. As duas ficaram quietas por um longo tempo.
— E como seu pai ficou depois que eu fui embora? — perguntou Ellie finalmente.
— Ficou bem, com exceção do caroço — disse a menina.
— Que caroço? — perguntou Ellie.
— No ombro, do tamanho da minha mão. Eu vi o caroço quando ele estava fazendo a barba, há três dias. Papai disse que deve ter sido uma mordida de aranha ou coisa parecida.