A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 30 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 8

— Eu não consegui dormir, mamãe. Fiquei com tudo aquilo na cabeça e nada faz o menor sentido... Estou me sentindo como se tivesse sido traída.

— Eu sei, Ellie. Estou sentindo a mesma coisa.

— Eu achei que conhecia as octoaranhas — disse Ellie. — Eu confiava nelas... Pensei que elas eram superiores a nós sob muitos aspectos, mas depois do que vi hoje à noite...

— Nenhum de nós se sente bem vendo alguém matar — disse Nicole. — Até Richard ficou horrorizado no começo... Mas depois que fomos para a cama ele me disse ter certeza de que aquela cena na rua foi cuidadosamente ensaiada para impressionar os jovens da Matrícula... E disse também que nós não devíamos tirar muitas conclusões precipitadas, nem nos deixar levar emocionalmente por um incidente isolado...

— Eu nunca tinha visto um ser inteligente assassinado diante dos meus olhos... E qual foi o crime dela? Deixou de se apresentar para ser exterminada?

— Não podemos julgá-las como julgaríamos seres humanos. As octoaranhas são uma espécie inteiramente diferente, com uma organização social completamente separada, que talvez seja ainda mais complexa do que a nossa. Estamos apenas começando a entender as octoaranhas... Você já se esqueceu de que elas curaram Eponine do RV-41 ? E nos deixaram usar sua tecnologia quando estávamos aflitos com o nascimento de Marius?

— Não, não me esqueci — replicou Ellie, ficando em silêncio por algum tempo. — Sabe, mãe, estou me sentindo tão frustrada quanto me sentia muitas vezes no Novo Éden, quando ficava imaginando como os seres humanos, que são capazes de tanta coisa boa, podiam tolerar um tirano como Nakamura... Agora me parece que as octoaranhas, a seu próprio modo, podem ser tão más quanto Nakamura... Há muita incongruência por todo lado...

Nicole consolou sua filha com um abraço. Não há respostas fáceis, minha querida Ellie, pensou Nicole. Na sua imaginação, ela viu uma montagem ilumi-nada das incríveis atividades da noite, inclusive uma ligeira aparição do que ela acreditava ser um rosto humano no mural das octoaranhas. E o que era aquilo, minha velha senhora?, perguntou Nicole a si mesma. Aquele rosto estava mesmo ali ou sua cabeça cansada e imaginativa criou essa imagem para confundi-la?

 

8

 

Max terminou de fazer a barba e tirou o resto do creme de barbear do rosto. Logo destampou a pia de pedra e a água escoou. Depois de secar o rosto com uma pequena toalha, Max virou-se para Eponine, que estava sentada atrás dele, amamentando Marius.

— Tudo bem, francesinha — falou, dando uma gargalhada. — Tenho de admitir que estou muito nervoso. É meu primeiro encontro com um Chefe Otimizador. — Deu um passo até Eponine e continuou: — Uma vez, quando eu estava em Little Rock numa convenção de fazendeiros, puseram-me ao lado do governador do Arkansas durante um banquete... E eu fiquei um pouco nervoso também.

Eponine sorriu.

— Acho difícil imaginar você nervoso.

Max ficou em silêncio um instante, admirando sua mulher e seu bebê, que enquanto mamava fazia um barulhinho suave.

— Você gosta bem de amamentar, não é? Eponine concordou.

— É um prazer diferente de tudo o que eu já senti antes. A sensação de... não sei que palavra definiria isso exatamente, talvez uma comunhão... é indescritível.

Max sacudiu a cabeça.

— A nossa existência é incrível, não é? Na noite passada, quando eu estava mudando a fralda de Marius, pensei como provavelmente somos se-melhantes a milhões de outros casais humanos, babando com nosso primeiro filho... mas do lado de lá daquela porta existe uma cidade alienígena governada por uma espécie... — Max não terminou seu pensamento.

— Ellie anda diferente desde a semana passada — comentou Eponine. — Ela perdeu a vivacidade, e só fica falando em Robert...

— Ela ficou horrorizada com a execução — comentou Max. — Tenho para mim que as mulheres são mais sensíveis à violência. Eu me lembro que logo depois que Clyde e Winona se casaram, quando ela foi para a fazenda e viu pela primeira vez matarem dois porcos, seu rosto ficou branco como papel... Ela não disse nada, mas nunca mais quis ver aquele tipo de cena.

— Ellie não quer falar sobre aquela noite — falou Eponine, trocando Marius de peito. — E isso não é típico dela.

— Richard fez umas perguntas ontem a Archie sobre o incidente, quando foi pedir as peças para fazer tradutores para nós todos... Segundo Richard, a maldita octoaranha foi muito evasiva e não deu nenhuma resposta direta. Archie nem ao menos confirmou o que o dr. Azul disse a Nicole sobre sua política básica de extermínio.

— Isso é muito assustador, não é? — falou Eponine, fazendo uma careta. — Nicole disse que fez o dr. Azul repetir sua explicação várias vezes, e tentou várias versões na nossa língua na presença dele para ter certeza de que havia entendido tudo direitinho.

— É uma política muito simples — falou Max com um riso forçado —, até mesmo para um fazendeiro. Toda octoaranha adulta cuja contribuição para a colônia durante um período definido não equivaler em valor aos recursos investidos para o seu sustento será colocada na lista de extermínio. Se a contagem negativa não for corrigida durante um certo tempo previsto, essa octoaranha será exterminada.

— Segundo o dr. Azul — disse Eponine depois de um curto silêncio — são os otimizadores quem interpretam as políticas. São eles quem decidem o valor de tudo...

— Eu sei — disse Max, fazendo carinho nas costas do bebê —, e acho que é por isso que Nicole e Richard estavam tão angustiados hoje. Ninguém disse nada explicitamente, mas estamos usando muitos recursos há muito tempo; e é difícil ver que droga de contribuição nós demos...

— Você está pronto, Max? — perguntou Nicole enfiando a cabeça pela porta. — Todos estão lá fora na fonte.

Max abaixou-se e beijou Eponine.

— Você e Patrick vão conseguir cuidar de Benjy e das crianças? — per-guntou.

— É claro. Benjy não é problema, e Patrick tem passado muito tempo com as crianças; já virou um especialista no assunto.

— Eu te amo, francesinha — disse Max, dando um adeus.

 

Havia cinco cadeiras para eles na área de operação do Chefe Otimizador. Mesmo quando Nicole explicou a palavra "escritório" para Archie e o dr. Azul pela segunda vez, seus colegas octoaranhas insistiram que a expressão "área de operação" era uma tradução melhor para o lugar onde o Chefe Otimizador trabalhava.

— O Chefe Otimizador às vezes se atrasa um pouco — disse Archie desculpando-se. — Acontecimentos inesperados na colônia podem forçá-lo a desviar-se do seu planejamento.

— Deve estar realmente acontecendo alguma coisa inusitada — disse Richard para Max. — A pontualidade é uma das características da espécie das octoaranhas.

Os cinco humanos esperaram ali em silêncio, cada qual envolto nos seus próprios pensamentos. O coração de Nai batia descompassado. Ela estava ao mesmo tempo apreensiva e excitada. Lembrava-se de ter tido um sentimento semelhante quando estava no colégio esperando por uma audiência com a filha do rei da Tailândia, a princesa Suri, por ter ganho o primeiro prêmio num concurso acadêmico de âmbito nacional.

Um instante depois uma octoaranha mandou-os entrar na sala seguinte, onde eles foram informados que o Chefe Otimizador e alguns conselheiros iriam vê-los em um instante. A sala tinha janelas transparentes, e eles podiam ver toda a atividade à sua volta. O lugar onde estavam sentados lembrava a Richard uma área de controle de uma usina de energia nuclear, ou talvez de um vôo espacial pilotado. Os computadores das octoaranhas e os monitores visuais espalhavam-se por todo lado, e também os técnicos. Richard fez uma pergunta sobre alguma coisa que acontecia numa área distante, mas, antes que Archie pudesse responder, três octoaranhas entraram na sala.

Os cinco humanos levantaram-se instintivamente. Archie apresentou o Chefe Otimizador, o assistente do Chefe Otimizador na Cidade de Esmeralda e o Chefe Otimizador de Segurança. As três octoaranhas estenderam um tentáculo para os humanos e apertaram-se as mãos. Archie fez sinal para os humanos se sentarem, e o Chefe Otimizador começou a falar imediatamente.

— Estamos cientes de que vocês solicitaram, através do nosso represen-tante, voltar para o Novo Éden a fim de se reunirem aos outros membros da sua espécie em Rama. Essa solicitação não nos surpreendeu por completo, pois nossos dados históricos mostram que espécies mais inteligentes com emoções fortes, depois de viverem um período em uma comunidade alienígena, desenvolvem um senso de alheamento e ficam ansiosos por voltar a um mundo mais familiar... O que nós gostaríamos de fazer nesta manhã seria lhes fornecer mais informações que pudessem influenciar sua solicitação de voltar para o Novo Éden.

Archie pediu que os humanos seguissem o Chefe Otimizador. Eles pas-saram por uma sala semelhante às outras duas onde tinham esperado e en-traram numa área retangular com dezenas de telas de parede espalhadas em volta, no nível dos olhos das octoaranhas.

— Temos observado de perto os desenvolvimentos do seu habitat — disse o Chefe Otimizador quando estavam todos juntos — desde antes de vocês fugirem. Hoje queremos que vocês saibam de alguns acontecimentos observados por nós recentemente.

Um instante depois, todas as telas de parede foram ligadas, e os humanos viram segmentos de filmes da vida diária dos remanescentes do Novo Éden. A qualidade dos vídeos não era perfeita, e nenhum segmento durava mais que um nillet, mas não havia dúvida do que lhes estava sendo apresentado nas telas.

Durante vários segundos, os humanos ficaram sem saber o que dizer. Estavam pasmos, grudados às imagens na parede. Em uma das telas apareceu Nakamura vestido como um shogun japonês, fazendo um discurso para uma grande multidão na praça da Cidade Central. Segurava uma imagem grande, pintada à mão, de uma octoaranha. Embora os vídeos não tivessem som, parecia, pelos gestos e pela imagem, que Nakamura estava exortando todos a agirem contra as octoaranhas.

— Macacos me mordam — falava Max, passando os olhos de uma tela para outra.

— Olhe lá — disse Nicole. — É El Mercado, em San Miguel.

No mais pobre dos quatro vilarejos do Novo Éden, uma dezena de brancos e amarelos, com fitas de karatê na cabeça batia em quatro jovens negros e mulatos diante de dois policiais do Novo Éden e de uma multidão consternada de umas vinte pessoas. Os biotas Tiasso e Lincoln pegaram os corpos quebrados e ensangüentados de tanta pancadaria e colocaram-nos em um grande triciclo de carga.

Em outra tela, um segmento mostrava uma multidão bem-vestida, a maioria de brancos e orientais, chegando para uma festa ou um festival na Vegas de Nakamura. Luzes brilhantes iluminavam o cassino, por cima do qual um imenso cartaz proclamava o Dia de Apreciação do Cidadão e anunciava que todos iriam receber de graça uma dúzia de bilhetes de loteria para celebrar a ocasião. Dois grandes posters de Nakamura, sorrindo e usando camisa branca e gravata, ladeavam o cartaz.

Um monitor na parede por trás do Chefe Otimizador mostrava o interior da prisão da Cidade Central. Uma nova detenta, de cabelo multicor, estava sendo levada para uma cela onde já havia duas outras presas. A recém-chegada parecia estar se queixando da falta de espaço, mas os policiais empurraram-na para a cela e riram. Quando o policial voltou para sua mesa, o vídeo mostrou duas fotografias na parede por trás dele, uma de Richard e outra de Nicole, embaixo das quais via-se a palavra PROCURA-SE escrita em letras de forma bem grandes.

As octoaranhas esperaram que os olhos dos humanos passassem de tela para tela.

— Como é que pode? — disse Richard, sacudindo a cabeça. De repente as telas ficaram brancas.

— Juntamos um total de quarenta e oito segmentos para mostrar a vocês hoje — disse o Chefe Otimizador —, todos tirados de observações feitas nos últimos oito dias no Novo Éden. O otimizador que vocês chamam de Archie vai catalogar esses segmentos, que foram classificados de acordo com o local, o tempo e a descrição do evento. Vocês podem passar o tempo que quiserem aqui, olhando esses segmentos, conversando e fazendo perguntas às duas octoaranhas que os trouxeram para cá. Eu, infelizmente, tenho outros assuntos para tratar... Se no final dessa pesquisa vocês quiserem comunicar-se de novo comigo, estarei à sua disposição.

O Chefe Otimizador foi embora, seguido de seus dois assistentes. Nicole sentou-se em uma das cadeiras, muito pálida e enfraquecida, e Ellie foi ter com ela.

— Você está bem, mamãe?

— Creio que sim — respondeu Nicole. — Logo depois que eles começaram a passar os vídeos, senti uma forte dor no peito, provavelmente pela surpresa e a excitação, mas agora melhorou.

— Quer ir para casa descansar? — perguntou Richard.

— Você está brincando? — disse Nicole com seu sorriso característico. — Eu não perderia por nada esse espetáculo, mesmo que no meio houvesse a possibilidade de cair dura aqui.

 

Eles assistiram aos filmes mudos durante quase três horas, e puderam constatar claramente que não havia mais liberdade individual no Novo Éden e que a maioria dos colonos lutava para manter até mesmo uma vida modesta. Nakamura havia consolidado sua força na colônia e acabara com toda a oposição. Mas a colônia que ele governava era quase toda habitada por cidadãos entristecidos e infelizes.

Os humanos começaram observando o mesmo segmento juntos, mas, depois de uns três ou quatro serem rodados, Richard disse que eles não estavam sendo eficientes olhando um segmento de cada vez.

— Até parece um otimizador falando — disse Max, apesar de concordar com Richard.

Num segmento, Katie apareceu rapidamente. Era uma cena de Vegas à noite. As prostitutas de rua estavam em atividade do lado de fora de um dos clubes. Katie aproximou-se de uma delas, teve uma ligeira conversa sobre um assunto qualquer e depois desapareceu de vista. Richard e Nicole comentaram entre si que Katie estava muito magra, quase esquálida, e pediram que Archie passasse aquele segmento várias vezes.

Outra seqüência era inteiramente dedicada ao hospital da Cidade Central. Não foram necessárias palavras para os humanos compreenderem que havia escassez de medicamentos críticos e de funcionários, e que os equipamentos estavam em estado deplorável. Uma cena especialmente comovente mostrava uma mocinha do Mediterrâneo, possivelmente grega, morrendo depois de um parto doloroso. A sala de parto estava iluminada com velas, e o equipamento de monitoração que poderia ter identificado suas dificuldades e salvado sua vida estava inexplicavelmente desligado ao lado da cama.

Robert Turner era visto por todo lado nas cenas do hospital. A primeira vez em que Ellie o viu andando pelos corredores, não conseguiu conter as lágrimas. Soluçou durante todo o segmento e depois pediu que o passassem de novo. Só quando assistiu ao filme pela terceira vez é que fez seu primeiro comentário.

— Ele está desfigurado, e parece estar trabalhando demais. Robert nunca soube tomar conta de si próprio.

Quando todos estavam emocionalmente exaustos e ninguém pediu que fosse passado mais um segmento, Archie perguntou se eles queriam conversar com o Chefe Otimizador de novo.

— Agora não — respondeu Nicole, em nome dos demais. — Ainda não tivemos tempo de digerir o que acabamos de ver.

Nai perguntou se poderiam levar alguns filmes para casa na Cidade de Esmeralda.

— Eu gostaria de vê-los de novo com mais calma — disse. — E seria ótimo se pudéssemos mostrá-los a Eponine e Patrick.

Archie disse que sentia muito, mas os segmentos só podiam ser vistos em um dos centros de comunicação das octoaranhas.

Na viagem de volta para a zona dos humanos, Richard foi conversando com Archie e mostrando-lhe como o seu tradutor estava funcionando bem. Os testes finais tinham terminado no dia anterior. O tradutor podia traduzir tanto o dialeto natural das octoaranhas como a língua criada especificamente para o espectro visual dos humanos. Archie declarou-se impressionado.

— Aliás — disse Richard, em tom mais alto, para que seus compatriotas pudessem ouvi-lo —, será que haveria possibilidade de você nos contar como conseguiram todos esses segmentos de vídeo do Novo Éden?

Archie não hesitou em responder.

— Quadróides de imagem voadores. Uma espécie mais avançada, e muito menor.

Nicole traduziu para Max e Nai.

— Que merda — disse Max entre dentes. Ele se levantou e foi para o lado oposto do carro de transporte, sacudindo a cabeça vigorosamente. — Nunca vi Max tão solene e tão tenso — disse Richard para Nicole.

— Nem eu. — Os dois estavam fazendo uma caminhada de uma hora depois do jantar com a família e os amigos. Um vaga-lume solitário mantinha-se voando acima de Richard e Nicole, enquanto eles iam e vinham do final do beco sem saída até a praça do outro lado da rua.

— Você acha que Max não vai mais querer ir embora? — perguntou Richard, quando os dois contornavam a fonte mais uma vez.

— Não sei. Acho que ele está em estado de choque... Max detesta pensar que as octoaranhas podem observar tudo o que fazemos. É por isso que ele quer tanto voltar com a família para o Novo Éden, mesmo que nós todos fiquemos aqui.

— Você teve oportunidade de conversar com Eponine sobre isso?

— Anteontem ela trouxe o Marius aqui depois da sesta da tarde. Enquanto eu estava pondo um remédio na assadura do bebê, ela me perguntou se eu disse a Archie que eles queriam ir embora... Parecia um pouco assustada.

Os dois foram até a praça. Sem parar, Richard pegou um paninho e lim-pou o suor da testa.

— Tudo mudou — disse ele, mais para si mesmo do que para Nicole.

— Tenho certeza de que tudo isso faz parte do plano das octoaranhas — replicou Nicole. — Elas não nos mostraram esses vídeos só para comprovar que nada vai bem no Novo Éden. Elas sabiam como nós iríamos reagir depois que avaliássemos o real significado do que havíamos visto.

O casal foi caminhando em silêncio na direção da sua casa temporária. Na próxima volta em torno da fonte, Richard disse:

— Se elas observam tudo o que fazemos, estarão ouvindo nossa conversa?

— É claro — replicou Nicole. — Esta foi a primeira mensagem que as octoaranhas nos transmitiram ao nos deixar ver esses vídeos... Nós não podemos ter segredos. Fugir está fora de questão. Estamos completamente no poder delas... Talvez eu seja a única, mas ainda não acredito que elas pretendam nos prejudicar... E há também a possibilidade de permitirem que a gente volte para o Novo Éden... quem sabe...

— Isso nunca vai acontecer — disse Richard. — Senão elas teriam gasto muitos recursos sem nenhum retorno mensurável, uma situação decididamente não aceitável... Não, estou certo de que as octoaranhas ainda estão tentando programar nossa própria inserção no seu sistema.

Richard e Nicole andavam a toda velocidade na parte final da caminhada. Passaram pela fonte e tomaram um pouco de água.

— Como está se sentindo? — perguntou Richard.

— Muito bem — disse Nicole. — Sem dor, sem falta de ar. Quando o dr. Azul me examinou ontem, não encontrou nenhuma patologia nova. Meu coração está velho e fraco... e é natural que eu venha a ter problemas esporádicos.

— Eu gostaria de saber que nicho iremos ocupar no mundo das octoaranhas — disse Richard um instante depois, quando os dois lavavam o rosto.

Nicole olhou para o marido.

— Não foi você — disse ela — que riu de mim uns meses atrás por fazer suposições sobre os motivos delas?... Como pode estar tão certo de que sabe o que as octos pretendem fazer?

— Não estou tão certo — disse Richard, com um sorriso sarcástico. — Mas é natural achar que uma espécie superior seja pelo menos lógica.

 

Richard acordou Nicole no meio da noite.

— Desculpe incomodá-la, querida, mas tenho um problema.

— O que foi? — perguntou Nicole, sentando-se na cama.

— É complicado. Foi por isso que não falei nada antes... Tudo começou depois do Dia da Fartura... Eu achei que iria passar, mas na semana passada a dor tornou-se insuportável...

— Ora, Richard — falou Nicole um pouco irritada por ter sido impor-tunada no meio do sono —, diga logo de que dor você está falando...

— Toda vez que eu urino tenho uma sensação de queimadura... Nicole tentou controlar um bocejo enquanto pensava.

— E você está urinando com mais freqüência?

— Estou... como é que você sabia?

— Aquiles deve ter sido segurado pela próstata quando foi enfiado no rio Styx — disse ela. — A próstata é certamente a estrutura mais frágil da anatomia masculina... Deite de barriga para baixo para eu poder examinar você.

— Agora? — perguntou Richard.

— Se você me acordou no meio do meu sono porque estava sentindo dor — disse Nicole rindo —, o mínimo que pode fazer é cerrar os dentes enquanto eu tento comprovar meu diagnóstico.

 

O dr. Azul e Nicole estavam sentados na casa da octoaranha. Em uma das paredes haviam sido projetadas quatro composições quadróides.

— A imagem bem à esquerda — disse o dr. Azul — mostra o tumor visto naquela manhã, há dez dias, quando você me pediu para confirmar o diagnóstico. A segunda composição é uma figura muito ampliada de um par de células tiradas do tumor. As anomalias da célula, que vocês chamam de câncer, estão marcadas com a tinta azul.

Nicole sorriu com tristeza.

— Estou tendo dificuldade em organizar meu pensamento — disse ela. — O senhor nunca usa as cores para "doença" quando descreve o problema de Richard, usa sempre a palavra que na sua língua eu defino como "anomalia".

— Para nós — respondeu o dr. Azul —, a doença é uma disfunção causada por um agente externo, como uma bactéria ou um vírus hostil. Mas uma irregularidade na química celular que leva à produção de células impróprias é um problema completamente diferente. Na nossa medicina, os tratamentos são completamente diferentes para os dois casos. Esse câncer do seu marido está mais ligado ao envelhecimento, de um modo geral, do que a uma doença, como pneumonia ou gastroenterite.

O dr. Azul estendeu um tentáculo para a terceira figura.

— Essa imagem mostra o tumor há três dias, depois que a química espe-cial levada por nossos agentes microbiológicos foi espalhada no local da anomalia. O tumor começou a diminuir porque a produção das células malignas parou. Na última imagem, tirada hoje de manhã, a próstata de Richard parece normal de novo. A essa altura, todas as células cancerígenas morreram, e outras não foram produzidas.

— Então ele vai ficar bom? — perguntou Nicole.

— Provavelmente — respondeu o dr. Azul. — Não podemos garantir porque ainda não temos tantos dados como gostaríamos sobre o ciclo de vida das células dos humanos. Há algumas características especiais das células de vocês (como sempre há nas espécies que passaram por uma evolução distinta de quaisquer dos nossos seres anteriormente examinados) que podem permitir um reaparecimento da anomalia. Porém, baseado na nossa experiência com outras criaturas vivas, eu diria que o desenvolvimento de outro tumor na próstata é pouco provável.

Nicole agradeceu ao colega octoaranha.

— Isso foi incrível — disse ela. — Que maravilha seria se o seu conheci-mento médico pudesse ser transportado de alguma forma para a Terra.

As imagens sumiram da parede.

— Isso criaria também muitos problemas sociais — disse o dr. Azul — se é que compreendi bem nossas discussões sobre o seu planeta natal. Se os indivíduos da sua espécie não morressem de doenças ou anomalias das células, a expectativa de vida aumentaria acentuadamente... Nossa espécie passou por um problema semelhante depois da nossa Idade de Ouro da Biologia, quando a duração de vida das octoaranhas dobrou em apenas duas gerações... Só depois de ser fortemente implantada a Otimização como uma estrutura básica é que uma forma de equilíbrio social foi alcançada. Temos muitas comprovações de que, sem um extermínio eficaz e uma política de reposição, uma colônia de seres quase imortais chega ao caos em um período relativamente curto.

O interesse de Nicole foi despertado.

— Entendo o que você está dizendo, pelo menos num plano intelectual — disse ela. — Como os recursos são finitos, se todos vivessem para sempre, ou quase isso, a população em breve acabaria com todos os alimentos e o espaço de vida. Mas devo admitir, especialmente sendo uma pessoa de idade, que a idéia de uma política de exterminação me assusta.

— No início da nossa história — falou o dr. Azul —, nossa sociedade era estruturada de um modo semelhante à sua, com quase todo o poder de decisão nas mãos dos membros mais velhos da espécie. Foi mais fácil limitar a reposição, depois que a expectativa de vida aumentou dramaticamente, do que lidar com o difícil assunto dos extermínios planejados. Porém, depois de um período relativamente breve, a sociedade idosa começou a estagnar-se. Como Archie ou qualquer bom otimizador diria, o coeficiente de ossificação das nossas colônias tornou-se tão grande que finalmente todas as novas idéias foram rejeitadas. Essas colônias geriátricas sucumbiram, basicamente porque não conseguiam lidar com as condições de mudança do universo em torno delas.

— Então é aí que entra a Otimização?

— É — respondeu o dr. Azul. — Se todo indivíduo aceitar o preceito de que o bem-estar da colônia como um todo deve ter o maior peso na principal função objetiva, torna-se claro que os extermínios planejados são um elemento crítico da solução ideal. Archie poderia lhe mostrar quantitativamente como é desastroso, do ponto de vista da colônia como um todo, gastar quantidades imensas de recursos com aqueles cidadãos cuja contribuição integrada é relativamente baixa. A colônia beneficia-se mais investindo nos membros que têm uma vida longa e saudável pela frente, portanto, com grande probabilidade de pagar o investimento.

Nicole repetiu para o dr. Azul algumas das frases mais importantes que ele dissera, para ter certeza de que entendera bem a idéia, e depois ficou calada por um nillet.

— Eu suponho — falou finalmente — que, embora o envelhecimento de vocês seja retardado pelo adiamento da maturidade sexual e por sua fantástica capacidade médica, a uma certa altura preservar a vida de uma octoaranha velha torna-se uma coisa extremamente cara, em certo sentido.

— Exatamente — comentou o dr. Azul. — Nós podemos estender a vida de um indivíduo quase para sempre. Mas há três fatores importantes que tornam a extensão extra de vida contra-indicada para a colônia. Primeiro, como você mencionou, o esforço para estender a vida aumenta muito de custo quando cada subsistema biológico, ou órgão, começa a operar de forma menos eficiente. Segundo, à medida que o tempo do indivíduo se torna cada vez mais consumido pelo simples processo de se manter vivo, a quantidade de energia que a octoaranha teria para contribuir para o bem-estar da colônia diminui consideravelmente. Terceiro — e os otimizadores sociais comprovaram esse ponto controvertido muitos anos atrás —, embora muitos anos depois que a agilidade mental e a capacidade de aprendizado começam a declinar, a sabedoria acumulada seja mais do que compense, em termos de valor para a colônia, a diminuição do poder do cérebro, chega o momento na vida da octoaranha em que o mero peso da sua experiência passada torna extremamente difícil qualquer aprendizado a mais. Mesmo numa octoaranha saudável, essa fase de vida, chamada por nossos otimizadores de Início da Flexibilidade Limitada, indica uma capacidade reduzida de contribuir para a colônia.

— Então os otimizadores determinam quando chega o tempo do extermínio?

— Determinam — disse o dr. Azul —, mas eu não sei exatamente como. Primeiro há um período de experiência no qual a octoaranha entra na lista de extermínio e ganha um tempo para melhorar seu equilíbrio. Esse equilíbrio, se entendi a explicação de Archie, é calculado comparando-se as contribuições daquela octoaranha específica com os recursos necessários para o seu sustento. Se o equilíbrio não melhorar, seu extermínio é programado.

— E como reagem as selecionadas para o extermínio? — perguntou Nicole, tremendo sem querer, ao lembrar-se da véspera da data marcada para a sua execução.

— De formas diferentes — respondeu o dr. Azul. — Algumas, especial-mente as que não são saudáveis, aceitam o fato de não serem capazes de atingir um equilíbrio satisfatório e planejam sua morte de uma forma organizada. Outras pedem conselhos ao otimizador e solicitam novas atribuições que possam permitir que elas atinjam suas quotas de contribuição... Isso foi o que Hércules fez logo antes de vocês chegarem...

Nicole ficou um instante sem fala, e sentiu um arrepio na espinha.

— Você vai me contar o que aconteceu com Hércules? — perguntou ela, juntando coragem afinal.

— Hércules foi repreendido por não ter protegido bem Nikki no Dia da Fartura — disse o dr. Azul. — Ele recebeu uma nova atribuição, mas foi avisado pelo otimizador de extermínio que não havia praticamente nenhuma forma de se recuperar da avaliação altamente negativa do seu último trabalho... E Hércules então solicitou ser exterminado imediatamente.