A Revelação de Rama
Capítulo 11
Depois de uma longa discussão, Patrick foi despachado novamente para sua missão exploratória. Desta vez disseram-lhe para se aproximar o mais possível das octoaranhas e observá-las em silêncio o máximo que pudesse. Mais uma vez, ele ouviu o arrastar das escovas à medida que se aproximava da sala da catedral. Mas quando realmente chegou à sala grande no fundo da rampa, não viu nenhuma octoaranha por lá. Para onde elas foram?, pensou. Seu primeiro impulso foi virar-se e seguir na direção de onde viera. Mas como não havia encontrado, nenhuma octoaranha ainda, decidiu que talvez fosse melhor subir a rampa, sair para Nova York e continuar sua missão.
Patrick ficou chocado ao descobrir, um instante depois, que a saída da toca das octos tinha sido lacrada com uma espessa combinação de varas de metal e um material semelhante a cimento. Ele mal podia ver através da tampa, tão pesada que todos os humanos juntos certamente não conseguiriam levantá-la. Foram as octoaranhas que fizeram isso, pensou imediatamente, mas por que será que nos prenderam aqui?
Antes de voltar com suas informações, Patrick inspecionou a sala da catedral e viu que um dos quatro túneis de emergência também fora lacrado com uma espécie de porta grossa ou portão. Esse deve ser o túnel que levava para o canal, pensou. Patrick permaneceu ali mais uns dez minutos tentando ouvir o som das octoaranhas, mas não ouviu mais nada.
11
— Então as octoaranhas nunca agiram com hostilidade? E o que vocês dizem disso? Estamos encurralados — disse Max zangado, sacudindo a cabeça com força. — Eu sabia desde o começo que era uma burrice vir para cá.
— Por favor, Max — disse Eponine. — Não vamos discutir agora. Ficar brigando com todos aqui não vai adiantar nada.
Todos os adultos, exceto Nai e Benjy, tinham seguido pela passagem de um quilômetro até a sala da catedral, para ver o que as octoaranhas haviam feito. Os humanos estavam, na verdade, trancados dentro da toca. Dois dos três túneis abertos que saíam da câmara davam no corredor vertical, e eles logo descobriram que o terceiro dava em um depósito grande e vazio, sem saída.
— É bom a gente pensar em alguma coisa depressa — disse Max. — Nossa comida só vai durar mais quatro dias, e não temos a menor idéia de como sair daqui.
— Sinto muito, Max — disse Nicole —, mas ainda acho que a decisão de Richard foi certa. Se tivéssemos ficado na nossa toca, teríamos sido capturados e levados de volta para o Novo Éden, onde certamente seríamos executados...
— Talvez sim — interrompeu Max — e talvez não... Pelo menos as crianças teriam sido poupadas. E acho que eles não matariam nem Benjy nem o médico...
— Tudo isso é retórica — falou Richard — e não resolve nosso problema principal. Temos de pensar agora no que faremos.
— Tudo bem, gênio — disse Max em tom sarcástico. — Até agora o show está sendo seu. O que você sugere?
Mais uma vez Eponine intercedeu.
— Você está sendo injusto, Max. Não é culpa de Richard estarmos nessa situação... E, como eu já disse, não adianta...
— Ok, Ok — disse Max, andando na direção da passagem que levava para o depósito. — Vou entrar nesse túnel para me acalmar e para fumar um cigarro — falou, olhando para Eponine. — Quer dividir um comigo? Vão sobrar exatamente vinte e nove cigarros depois que fumarmos este.
Eponine deu um sorriso sem graça para Nicole e Ellie.
— Ele está com raiva de mim porque eu não trouxe todos os nossos cigarros quando saímos da toca — disse ela com calma. — Não se preocupem... Max tem gênio ruim, mas logo melhora... Daqui a pouco a gente volta.
— Qual é o seu plano, querido? — perguntou Nicole a Richard, logo depois que Max e Eponine saíram.
— Não temos muita escolha — disse Richard com ar sombrio. — Um número mínimo de adultos deve ficar com Benjy, as crianças e as aves, e o resto sai para explorar essa toca o mais rápido possível... Não consigo acreditar que as octoaranhas realmente pretendam nos deixar aqui até morrermos de fome.
— Desculpe, Richard — Robert Turner falou pela primeira vez desde que Patrick contara que a saída para Nova York estava barrada. — Mas você não está de novo partindo do princípio de que as octoaranhas são de boa paz? Suponha que elas não sejam ou, o que é mais provável na minha opinião, que a nossa sobrevivência lhes seja totalmente indiferente, e que elas simplesmente nos trancaram nesta toca para se protegerem de todos os humanos que apareceram recentemente...
Robert parou, pelo visto tendo perdido o fio da meada.
— O que eu estava tentando dizer — continuou um instante depois — é que as crianças, inclusive sua neta, estão em perigo tanto psicológico quanto físico na nossa situação atual, e eu seria contra qualquer plano que as deixasse desprotegidas e vulneráveis...
— Você está certo, Robert — interrompeu Richard. — Vários adultos", inclusive pelo menos um homem, devem ficar com Benjy e as crianças. Na verdade, Nai deve estar bem ocupada a essa altura... Por que você, Patrick e Ellie não voltam para junto das crianças agora? Nicole e eu esperaremos por Max e Eponine e nos encontraremos com vocês.
Richard e Nicole ficaram sozinhos depois que os outros se foram.
— Ellie disse que Robert anda muito irritado — falou Nicole com voz calma —, mas não sabe expressar sua raiva de forma construtiva... Ele disse a Ellie que acha que essa aventura foi um erro desde o começo, e passa horas a fio pensando nisso... Ellie disse que está preocupada com a estabilidade emocional dele.
Richard sacudiu a cabeça.
— Talvez tenha sido um erro. Talvez você e eu devêssemos ter ficado aqui sozinhos para o resto da vida. Eu só pensei...
Naquele instante Max e Eponine voltaram para a sala.
— Quero me desculpar com vocês dois — disse Max, estendendo a mão. —
Creio que fui dominado pelo medo e pela raiva.
— Obrigada, Max — falou Nicole. — Mas não precisa se desculpar. Seria ridículo pensar que toda essa gente vá passar uma experiência dessas sem que haja desentendimentos.
Todos estavam juntos no museu.
— Vamos examinar de novo o plano — falou Richard. — Nós cinco vamos descer pelas estacas e explorar a área em volta da plataforma do metrô. Vamos investigar com bastante cuidado todos os túneis que encontrarmos. Depois, se não encontrarmos uma saída e se o trem grande do metrô estiver lá esperando, Max, Eponine, Nicole e eu entraremos nele. Então Patrick voltará para cá.
— Você não acha que é perigoso nós quatro entrarmos no trem? — perguntou Robert. — Por que não só dois de vocês primeiro? E se o trem do metrô sair e nunca mais voltar?
— Estamos correndo contra o tempo — respondeu Richard. — Se não tivéssemos tão pouca comida poderíamos fazer um plano mais cauteloso. Nesse caso, só dois entrariam no trem do metrô. Mas e se o trem for a mais de um lugar? Como já estava combinado que, por medida de segurança, exploraremos a área sempre aos pares, poderíamos levar muito tempo para encontrar o caminho da saída só com duas pessoas procurando.
Fez-se silêncio na sala até Timmy começar a grasnar para sua irmã. Nikki chegou perto das aves e começou a fazer carinho nas suas asas aveludadas.
— Eu não pretendo ter todas as respostas — disse Richard. — Nem estou subestimando a gravidade da situação, mas se houver uma forma de sairmos daqui, e Nicole e eu achamos que deve haver, então é melhor começarmos a procurar logo.
— Presumindo que vocês quatro tomem o trem do metrô — perguntou Patrick —, quanto tempo devemos esperar por vocês aqui no museu?
— Esta pergunta é difícil — respondeu Richard. — Vocês têm comida para mais quatro dias, e a água da cisterna deve mantê-los vivos um pouco mais ... Eu não sei, Patrick. Acho que vocês devem ficar aqui pelo menos dois a três dias... Depois disso, façam como acharem melhor... Se for possível, pelo menos um de nós voltará para cá.
Benjy seguia a conversa com muita atenção. Ele compreendia mais ou menos o que estava acontecendo, pois começou a chorar baixinho. Nicole foi confortá-lo.
— Não se preocupe, filho. Tudo vai acabar bem. O homem-criança olhou para a mãe e disse:
— Espero que sim, mamãe, mas estou com medo.
De repente, Galileu Watanabe deu um pulo para o outro lado da sala, onde os dois rifles estavam encostados na parede.
— Se uma dessas octoaranhas entrar aqui — disse ele tocando no rifle mais próximo, antes de Max tirá-lo de sua mão —, eu atiro nela. Bangue! Bangue!
Com aqueles gritos, as aves começaram a grasnar e a pequena Nikki a chorar. Depois que Ellie secou as lágrimas da filha, Max e Patrick colocaram os rifles no ombro e os cinco exploradores se despediram. Ellie foi até o túnel com eles.
— Eu não queria dizer isso na frente das crianças — falou —, mas o que nós devemos fazer se virmos uma octoaranha enquanto vocês estiverem fora?
— Tente não entrar em pânico — respondeu Richard.
— E não seja agressiva — continuou Nicole.
— Segure Nikki e saia correndo — disse Max, dando uma piscadela.
Nada de mais aconteceu enquanto eles desciam pelas estacas. Como há anos, as luzes do nível mais baixo se acendiam quando alguém se aproximava de uma área escura. Os cinco exploradores chegaram à plataforma do metrô em menos de uma hora.
— Agora vamos ver se esses veículos misteriosos ainda estão funcionando — disse Richard.
No meio da plataforma circular havia um pequeno buraco, também redondo, com espetos de metal saindo dos lados, descendo nas profundezas escuras. Nas duas extremidades opostas da plataforma, noventa graus à direita e à esquerda de onde estavam os cinco, havia dois túneis escuros, cortados na rocha e no metal. Um deles era grande, com cinco a seis metros de alto a baixo, e o que ficava do lado oposto era bem menor. Quando Richard aproximou-se a vinte graus do túnel maior, este de repente se iluminou, mostrando nitidamente todo o seu interior. Parecia um grande cano de esgoto da Terra.
Os outros membros do grupo de exploração foram encontrar-se com Richard assim que ouviram um ruído vindo do túnel. Em menos de um minuto, um veículo subterrâneo veio velozmente de um canto distante e prosseguiu na direção deles, parando com a parte dianteira a mais ou menos um metro do ponto onde o corredor com estacas continuava a descer.
O interior do trem também era iluminado. Não havia bancos, apenas uns canos verticais que desciam do teto até o chão, espalhados a esmo pelo vagão do metrô. A porta de correr abriu-se uns quinze segundos depois que o trem parou. Do lado oposto da plataforma, um veículo idêntico, mas exatamente com um décimo do tamanho, parou uns cinco segundos depois.
Embora Patrick, Max e Eponine tivessem ouvido muitas vezes histórias sobre os dois metrôs-fantasmas, a visão dos veículos deixou-os muito apreensivos.
— Você está falando a sério, meu amigo? — perguntou Max a Richard, depois que os dois examinaram rapidamente a parte externa do trem grande. — Está pretendendo mesmo entrar nessa coisa maldita se não tivermos outro jeito?
Richard fez que sim.
— Mas ele pode ir parar em qualquer lugar — falou Max. — Não temos a menor idéia do que é essa coisa, de quem a construiu, ou o que ela está fazendo aqui. E depois que entrarmos ficaremos à mercê dela.
— É verdade — falou Richard com um sorriso. — Max, você entendeu muito bem a situação.
Max sacudiu a cabeça.
— É bom encontrarmos alguma coisa nesse buraco dos infernos, pois não sei se Eponine e eu...
— Tudo bem — disse Patrick ao aproximar-se dos dois homens. — Acho que chegou a hora da próxima etapa da operação... Vamos, Max. Você está pronto para descer mais um pouco pelas estacas?
Richard não tinha ali nenhum dos seus robôs inteligentes para colocar no trem menor. Mas tinha uma máquina fotográfica em miniatura, com um precário sistema de mobilidade que ele esperava que pesasse o suficiente para ativar o sistema do trem menor do metrô.
— Em nenhuma hipótese — disse ele aos outros — o túnel pequeno será uma saída para nós. Só quero saber por mim mesmo se houve alguma mudança significativa nesses anos. Além do mais, não há nenhuma razão, pelo menos por enquanto, para mais de dois de nós descermos lá para o fundo.
Enquanto Max e Patrick escorregavam devagar pelas estacas, e Richard examinava pela última vez sua máquina fotográfica, Nicole e Eponine ficaram passeando pela plataforma.
— Como você está indo, fazendeiro? — perguntou Eponine a Max, pelo rádio.
— Até agora muito bem — respondeu ele. — Mas estamos só uns dez metros abaixo de vocês. Estas estacas não ficam tão juntas umas das outras como as de lá de cima, por isso temos de ser mais cautelosos.
— Seu relacionamento com Max deve ter se desenvolvido enquanto eu estava na prisão — comentou Nicole um pouco depois.
— É verdade — respondeu Eponine, com naturalidade. — Para ser franca, eu também me surpreendi com isso. Não pensava que um homem fosse capaz de ter um caso sério com alguém que... você sabe... mas eu subestimei o Max. Ele é realmente uma pessoa diferente. Por baixo daquele interior rude e machista...
Eponine parou ao ver o vasto sorriso de Nicole.
— Acho que Max não engana ninguém, pelo menos não os que o conhecem bem. Aquele Max durão, dos palavrões, é uma fachada criada por alguma razão naquela fazenda de Arkansas, provavelmente como autoproteção.
As duas mulheres ficaram algum tempo em silêncio.
— Mas acho que também subestimei Max — acrescentou Nicole. — Ele merece ser admirado por gostar tanto de você, mesmo sem vocês dois poderem...
— Oh, Nicole — falou Eponine de repente, muito emocionada. — Não pense que eu não quis, que não sonhei com isso. E o dr. Turner nos disse muitas vezes que a possibilidade de Max contrair o RV-41 é muito remota se tomarmos cuidado... Mas mesmo essa possibilidade muito remota me preocupa. E se por acaso eu passasse para Max esse flagelo que está me matando? Como eu poderia me perdoar por condenar o homem que amo tanto?
Os olhos de Eponine encheram-se de lágrimas.
— Nós somos íntimos, é claro — continuou ela —, e nos protegemos ao nosso modo... E Max nunca se queixou. Mas posso dizer pelo seu olhar que ele sente falta...
— Tudo bem agora — disse Max pelo rádio. — Estamos vendo o fundo uns cinco metros abaixo de nós. Parece um chão normal, de onde saem dois túneis: um do tamanho do túnel maior aí de cima, e o outro muito pequeno. Vamos descer para inspecionar melhor.
Chegava a hora de os exploradores entrarem no trem do metrô. A máquina fotográfica de Richard não encontrara nada de novo, e não havia definitivamente nenhuma saída que os humanos pudessem usar no único nível da toca abaixo deles. Richard e Patrick terminaram sua conversa particular, revendo em detalhes o que o rapaz iria fazer quando voltasse para se encontrar com os outros. Depois eles se juntaram a Max, Eponine e Nicole, e os cinco foram andando lentamente pela plataforma, à espera do trem.
Eponine estava sentindo dor de estômago, como sentira aos quatorze anos, pouco antes de expor seus trabalhos artísticos no orfanato de Limoges. Ela respirou fundo e disse:
— Não tenho vergonha de dizer que estou com medo.
— Droga — falou Max —, você deve estar apavorada... Richard, como é que vamos saber se esta coisa não vai despencar conosco por aquele penhasco que você disse que existe?
Richard sorriu mas não respondeu até eles chegarem ao lado do trem.
— Tudo bem — disse depois. — Como nós não sabemos exatamente como essa coisa é ativada, temos de tomar muito cuidado. Vamos todos entrar mais ou menos ao mesmo tempo para evitar que as portas se fechem e o trem parta antes de nós todos estarmos dentro.
Ninguém disse nada durante quase um minuto. Ficaram um ao lado do outro, Max e Eponine no canto próximo ao túnel.
— Agora eu vou contar — disse Richard. — Quando eu disser três, todos nós entraremos juntos.
— Posso fechar os olhos? — perguntou Max com um risinho. — Isso ajudava um pouco quando eu era criança e andava na montanha-russa.
— Se preferir, pode — respondeu Nicole.
Os quatro entraram no trem e cada um deles segurou-se a um cano vertical, mas nada aconteceu. Do outro lado da porta aberta, Patrick ficou olhando para eles.
— Talvez o trem esteja esperando Patrick — disse Richard com calma.
— Não sei não — resmungou Max —, mas, se essa droga de trem não se mexer em uns segundos, vou pular fora.
A porta fechou-se devagar logo depois do comentário de Max, dando tempo para que cada um deles respirasse antes que o trem começasse a mover-se velozmente pelo túnel iluminado.
Patrick acenou para eles e seguiu o trem com os olhos até ele desaparecer na primeira esquina. Depois colocou o rifle no ombro e começou a descer pelas estacas. Por favor, voltem depressa, pensou, antes que nós todos fiquemos tomados de incerteza.