A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 38 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 4

— Robert — disse Ellie, segurando a mão dele de novo —, as octoaranhas bloquearam sua memória quando você foi embora, para se protegerem... Talvez isso explique em parte suas ondas cerebrais peculiares.

Robert olhou para Ellie durante longo tempo sem falar nada.

— Elas raptaram você, adulteraram meu cérebro... E só Deus sabe o que terão feito com a nossa filha... E você ainda defende as octoaranhas?

 

Ellie submeteu-se ao eletroencefalograma e os resultados não mostraram nenhuma irregularidade nem grandes diferenças dos testes de rotina que lhe tinham feito nos primeiros dias da colônia, o que deixou Robert muito aliviado. Depois ele disse a Ellie que Nakamura e o governo estavam dispostos a retirar as acusações contra ela e deixá-la voltar para casa com Nikki, onde ficaria em prisão domiciliar, se desse informações sobre as octoaranhas. Ellie pensou bem no assunto e concordou. Robert sorriu e lhe deu um abraço.

— Ótimo. Você vai começar amanhã... Vou lhes dizer imediatamente.

Richard avisara Ellie, durante a viagem no emassauro, que Nakamura po-deria tentar usá-la de alguma forma, provavelmente para justificar a realização da guerra. Ellie sabia que, se aparentemente concordasse em ajudar o governo do Novo Éden, estaria tomando um rumo muito perigoso. Preciso ter cuidado, disse a si mesma enquanto mergulhava numa banheira com água quente, para não dizer nada que possa prejudicar meu pai e Archie. Ou que possa dar às tropas de Nakamura uma vantagem injusta em caso de uma guerra.

De início, Nikki estranhou o seu antigo quarto, mas depois de uma hora brincando com seus brinquedos pareceu muito contente. Foi até a banheira e perguntou à mãe:

— A que horas o papai vai chegar em casa?

— Ele vai chegar tarde, querida. Depois que você for para a cama dormir — respondeu Ellie.

— Eu gostei do meu quarto, mamãe. É muito melhor do que aquele lá no porão.

— Que bom — replicou Ellie. A menininha sorriu, saiu do banheiro e Ellie respirou fundo. Não teria adiantado nada se eu tivesse me recusado, e eles nos mandariam de novo para a prisão.

 

4

Katie não havia terminado sua maquiagem quando ouviu o zumbido. Deu uma baforada no cigarro que queimava no cinzeiro ao seu lado e apertou o botão em que estava escrito "Falar".

— Quem é? — perguntou.

— Sou eu — foi a resposta.

— O que está fazendo aqui no meio do dia?

— Tenho notícias importantes — disse o capitão Franz Bauer. — Abra a porta para eu subir.

Katie tragou o cigarro e largou a guimba. Levantou-se, foi até o espelho e ajeitou o cabelo antes que batessem à porta.

— As notícias devem ser importantes mesmo, Franz — disse Katie abrindo a porta para ele. — Você sabe que eu tenho de dar orientações a duas garotas daqui a uns minutos e detesto me atrasar.

Franz deu uma risada.

— Você pegou as duas saindo da linha de novo? Meu Deus, Katie, eu detestaria se você fosse minha chefe.

Katie olhou para Franz com um ar de impaciência.

— Então? O que era tão importante assim?

Franz começou a andar pela sala sofisticada, onde se via um sofá branco e preto, um conversador, duas cadeiras combinando e diversos objetos de arte interessantes nas mesas laterais e na de centro.

— Não há possibilidade de nossa conversa estar sendo grampeada, não é?

— Você é quem deve saber, sr. Capitão de Polícia. Francamente, Franz — disse ela olhando o relógio —, eu não tenho....

— Nós fomos informados por fonte segura — disse Franz — de que seu pai está no Novo Éden neste instante.

— O quê? Como é possível isso? — falou Katie atônita, sentando-se no sofá e pegando outro cigarro na mesa de centro.

— Um tenente da minha divisão é muito amigo de um dos guardas do seu pai, que disse que Richard e uma daquelas octoaranhas estão presos num porão de uma residência particular perto daqui.

Katie atravessou a sala e pegou o telefone.

— Daria — disse ela —, diga a Lauren e Atsuko que o encontro de hoje está cancelado... Houve um imprevisto... Marque para amanhã às duas horas da tarde... Ah, é mesmo, já ia me esquecendo... Que droga... Tudo bem, marque então para as onze da manhã... Não, onze e meia, eu não quero acordar muito cedo.

Katie voltou para o sofá, pegou o cigarro, deu uma tragada e soprou os círculos para cima da cabeça.

— Quero que você me conte tudo o que soube a respeito do meu pai. Franz informou Katie que, segundo lhe haviam dito, seu pai, sua irmã Ellie, sua sobrinha e uma octoaranha tinham aparecido de repente, uns dois meses atrás, levando uma bandeira branca, no acampamento do extremo sul do mar Cilíndrico. Eles estavam bastante descontraídos e tinham brincado com os sol-dados, disse Franz. Seu pai e sua irmã disseram para as tropas que estavam ali, com um representante das octoaranhas, para ver se evitavam um conflito armado entre as duas espécies através de negociações. Nakamura ordenou que o caso fosse mantido em segredo e os levou... Katie estava andando pela sala.

— Meu pai está vivo — disse excitada —, e está aqui, no Novo Éden... Eu já te disse, Franz, que meu pai é absolutamente o ser humano mais inteligente que já existiu?

— Já disse isso umas dez vezes — disse Franz rindo. — Eu não imagino como alguém possa ser mais inteligente do que você.

Katie balançou a mão.

— Ao lado dele eu pareço uma perfeita idiota... Ele sempre foi muito querido. Eu podia fazer qualquer coisa — disse ela, parando de andar e tragando seu cigarro. Seus olhos brilhavam quando ela soltou a fumaça. — Franz, eu preciso ver meu pai... preciso mesmo.

— Isso é impossível, Katie — disse ele. — Ninguém deve saber que ele está aqui. Eu seria expulso, ou talvez mais que isso, se alguém descobrisse que lhe contei...

— Eu lhe imploro, Franz — disse Katie, atravessando a sala e pegando-o pelos ombros. — Você sabe como detesto pedir favores a alguém... mas isso é muito importante para mim.

Franz adorou que pelo menos uma vez Katie lhe pedisse alguma coisa. Mas mesmo assim lhe disse a verdade.

— Katie, você ainda não entendeu. Há um guarda armado em volta da casa o tempo todo. O porão inteiro está grampeado com monitores de áudio e vídeo. Não há jeito de você entrar lá.

— Há sempre um jeito — falou Katie com ênfase — quando a coisa é muito importante. — Ela enfiou a mão na camisa dele e começou a mexer no seu mamilo. — Você me ama, não é, Franz? — Beijou-o com a boca toda aberta, brincando com a língua dentro da boca de Franz. Depois empurrou-o ligeiramente, continuando a mexer no seu mamilo.

— É claro que te amo, Katie — disse Franz, já muito excitado. — Mas não sou louco.

Katie entrou no quarto e voltou menos de um minuto depois com dois maços de notas.

— Eu vou ver meu pai, Franz — disse ela, jogando o dinheiro na mesa de centro. — E você vai me ajudar... Pode subornar qualquer pessoa com esse dinheiro.

Franz ficou impressionado com a soma de dinheiro.

— E o que você vai fazer por mim? — perguntou, quase brincando.

— O que eu vou fazer por você? O que eu vou fazer por você? — disse Katie puxando-o pela mão para dentro do quarto. — Agora, capitão Bauer, você vai tirar a roupa toda e deitar-se de costas. E vai ver o que eu vou fazer por você.

Ao lado do quarto de Katie havia um quarto de vestir. Ela entrou lá, fechou a porta, destrancou uma grande caixa decorada que estava em cima do balcão e tirou uma seringa que estava preparada desde o começo da manhã. Levantou o vestido e fez um torniquete na coxa com uma borrachinha preta. Esperou até poder identificar claramente uma veia no meio das marcas na sua coxa, e enfiou a agulha com agilidade. Depois de injetar todo o líquido na corrente sangüínea, esperou uns segundos pela fantástica reação e então tirou o torniquete.

— O que eu faço enquanto estou esperando?

— Rilke está no meu ledor eletrônico, querido, em alemão e em inglês. Daqui a um instante vou para aí.

Katie estava voando. Começou a cantarolar, jogou fora a seringa e colocou o torniquete de volta na caixa. Tirou toda a roupa, parou duas vezes para admirar seu corpo no espelho e empilhou a roupa no banquinho da penteadeira. Depois abriu um gavetão da penteadeira e tirou uma venda.

Quando Katie entrou no quarto, Franz ficou olhando embasbacado para aquele corpo flexível.

— Olhe bem — disse ela —, pois é só isso que você vai ver durante toda a tarde.

Katie esfregou seu corpo no dele e beijou-o enquanto amarrava a venda em seus olhos. Depois de certificar-se de que a venda estava bem presa, saiu da cama.

— E agora, o que vai acontecer? — perguntou Franz.

— Você vai ter de esperar para ver — disse Katie em tom de brincadeira, enquanto remexia numa gaveta grande onde havia uma parafernália sexual, inclusive ajudas eletrônicas de todo tipo, loções, cordas e outros equipamentos do gênero, máscaras e vários modelos de genitália. Katie selecionou um vidrinho de loção, um frasco com um pó branco e umas contas enfiadas em um cordão fino.

Ainda cantarolando e rindo para si mesma, Katie foi para a cama e co-meçou a correr os dedos no peito de Franz, beijando-o provocativamente com o corpo colado no dele. Depois sentou-se, despejou a loção nas mãos e esfregou-as com força. Afastou as pernas de Franz, sentou por cima da barriga dele e começou a aplicar a loção nas suas partes mais sensíveis.

— Ummmmm — murmurou Franz quando a loção quente começou a fazer efeito. — Que maravilha!

Katie passou o pó branco na genitália dele e montou-o devagar. Franz entrou em êxtase. Katie ficou se mexendo para a frente e para trás num ritmo lento. Quando notou que Franz estava quase gozando, parou de mexer um instante e passou a mão por baixo dele para enfiar as contas. Voltou a mexer-se mais umas três vezes e parou de novo.

— Não pare agora — gritou Franz.

— Então repita o que eu vou dizer — falou Katie, rindo e dando mais uma mexida. — Eu prometo...

— Prometo qualquer coisa, mas não pare agora — disse Franz.

— Eu prometo — continuou Katie — que Katie Wakefield vai ver seu pai nos próximos dias.

Franz repetiu a promessa e Katie recompensou-o. Quando puxou o cordão depois que ele atingiu o clímax, Franz deu um grito com toda a força dos seus pulmões, como um animal selvagem.

 

Ellie não gostou de seus interrogadores. Eles eram secos, não tinham senso de humor e trataram-na com desprezo.

— Assim não vai funcionar, meus senhores — disse ela exasperada, no primeiro dia de interrogatório. — Se vocês insistirem em fazer as mesmas perguntas a toda hora... Pelo que entendi, vocês queriam que eu desse umas informações sobre as octoaranhas... mas até agora as perguntas todas foram sobre meu pai e minha mãe.

— Sra. Turner — disse o primeiro homem —, o governo está tentando juntar todas as informações possíveis sobre este caso. Sua mãe e seu pai são fugitivos há muitos...

— Olhe — interrompeu Ellie —, eu já disse que não sei nada sobre como, quando e por que meus pais saíram do Novo Éden. Nem sei se eles foram ajudados na sua fuga pelas octoaranhas... Portanto, se vocês não mudarem a linha do interrogatório...

— Não é você, mocinha — falou o segundo homem, com os olhos bri-lhando de raiva —, quem decide quais são as perguntas que devem ser feitas. Talvez você não tenha percebido como sua situação é séria. Você só não será julgada, e devo dizer que as acusações são graves, se cooperar completamente conosco.

— De que sou acusada? — perguntou Ellie. — Estou curiosa para saber... pois nunca fui considerada uma criminosa antes.

— Você pode ser acusada de alta traição — disse o homem — por ajudar deliberadamente e favorecer o inimigo durante um período de declaradas hostilidades.

— Mas isso é absurdo — replicou Ellie, já um tanto assustada. — Não tenho idéia do que vocês estão falando.

— Você nega que, durante o período em que ficou com os alienígenas, passou-lhes informações sobre o Novo Éden que poderão ser usadas durante a guerra?

— É claro que dei informações — disse Ellie, com um riso nervoso. — Contei tudo o que sabia sobre a nossa colônia, e as octoaranhas também nos contaram tudo sobre a colônia delas.

Os dois homens escreviam furiosamente nos seus blocos. Como eles ficaram assim?, pensou Ellie de repente. Como uma criança risonha e curiosa pode se transformar num adulto hostil e inflexível? Será conseqüência do ambiente ou da hereditariedade?

— Vejam bem, meus senhores — disse Ellie quando eles fizeram a pró-xima pergunta —, isso não vai dar certo. Quero fazer uma interrupção para organizar meus pensamentos. Talvez eu faça algumas anotações antes de recomeçarmos... Pensei num processo completamente diferente, numa coisa muito mais descontraída...

Os dois homens concordaram em parar. Ellie atravessou o corredor para encontrar-se com Nikki, que estava sendo cuidada por uma funcionária do governo.

— Pode ir agora, sra. Adams — disse Ellie. — Nós vamos almoçar. Nikki sentiu que sua mãe estava muito preocupada.

— Esses homens estão sendo maus com você, mamãe? — perguntou ela. Ellie não pôde deixar de sorrir.

— Você acertou, Nikki. Você acertou em cheio.

 

Richard deu suas últimas passadas em volta do porão e foi para o tanque no canto da sala, parando primeiro na mesa para tomar um pouco de água. Archie continuava imóvel no chão, por trás do colchão de Richard.

— Bom dia — disse Richard, limpando o suor com um pedaço de pano. — Está pronto para tomar o café da manhã?

— Não estou com fome — disse a octoaranha em cores.

— Você tem de comer alguma coisa — falou Richard animado. — Eu também acho a comida horrível, mas não se pode viver só de água.

Archie não se mexeu nem disse nada. Nos últimos dias, desde que seu suprimento de barrican se esgotara, ele não tinha sido das melhores companhias. Richard não conseguia manter as conversas estimulantes com Archie, e estava preocupado com a sua saúde. Colocou um pouco de cereal na tigela, jogou um pouco de água em cima e passou a tigela para o amigo.

— Tente comer um pouco — disse com gentileza.

Archie levantou um par de tentáculos e pegou a tigela. Quando começou a comer, um feixe cor de laranja jorrou da sua fenda, desceu por um de seus tentáculos e esmaeceu.

— O que foi isso? — perguntou Richard.

— Uma expressão emocional —- respondeu Archie, soltando mais feixes coloridos irregulares.

Richard sorriu.

— OK, mas que tipo de emoção?

Depois de longa pausa, os feixes de cor de Archie ficaram mais fortes.

— Acho que você chamaria isso de depressão — disse a octoaranha.

— É isso que acontece quando o barrican acaba? — perguntou Richard.

Archie não respondeu. A certa altura, Richard voltou para a mesa e pre-parou para si próprio uma tigela cheia de cereais. Depois voltou e sentou-se no chão ao lado de Archie.

— É melhor você falar sobre isso — disse Richard gentilmente. — Não temos mais nada para fazer.

Pelo movimento da lente de Archie, Richard percebeu que a octoaranha o estudava com cuidado. Deu umas colheradas no cereal, antes de Archie começar a falar.

— Na nossa sociedade, os rapazes e as moças que estão atravessando sua maturidade sexual são retirados da sua vida habitual e levados para um am-biente apropriado, com indivíduos que passaram por esse processo antes. Aí eles descrevem o que estão sentindo e são informados de que aquelas emoções novas e complexas são absolutamente normais. Agora eu entendo como esse programa de atenção intensiva é necessário.

Archie fez uma pausa e Richard deu um sorriso simpático.

— Nestes últimos dias — continuou a octoaranha —, pela primeira vez, desde que eu era criança, minhas emoções não aceitaram ser controladas por minha mente. Durante o treinamento de otimização, sempre que tínhamos de tomar uma decisão, separávamos com cuidado todas as evidências disponíveis e eliminávamos todos os pensamentos preconcebidos decorrentes de reações emocionais pessoais. Com a minha atual intensidade de sentimentos, seria quase impossível relegar esses sentimentos a um segundo plano. Richard riu.

— Por favor, não me leve a mal, Archie. Não é de você que estou rindo. Mas você acabou de descrever, numa típica frase das octoaranhas, o que a maioria dos humanos sente o tempo todo. Muito poucos humanos chegam a controlar suas "reações emocionais pessoais" como gostariam... Talvez esta tenha sido a primeira vez em que você realmente nos compreendeu, se é que entende o que estou falando.

— É terrível — continuou Archie. — Estou tendo um profundo senso de perda, sinto falta do dr. Azul e de Jamie, e uma grande raiva de Nakamura por nos manter prisioneiros aqui... Tenho receio de que essa raiva me leve a fazer um ato não-ótimo.

— Mas as emoções que você está descrevendo nem sempre são ligadas à sexualidade, pelo menos entre os humanos — disse Richard. — O barrican também age como uma espécie de tranqüilizante, arrefecendo todos os sentimentos?

Archie terminou de comer antes de responder.

— Você e eu somos criaturas muito diferentes, e, como eu já disse, é perigoso fazer projeções de uma espécie para a outra... Lembro-me das nossas primeiras discussões sobre os humanos na reunião com os Otimizadores, logo depois que você violou a integridade do seu habitat... No meio da reunião, o Chefe otimizador enfatizou que nós não devíamos olhar a sua espécie nos nossos termos. Devíamos observar com cuidado, obter dados e fazer uma correlação congruente entre eles, sem revesti-los com a nossa própria experiência... Suponho que tudo isso leve a um repúdio, em certo sentido, do que vou falar para você. No entanto, tenho para mim, baseado nas minhas observações dos humanos, que para vocês o desejo sexual é a força motora por trás de todas as emoções fortes... Nós, octoaranhas, sofremos uma descontinuidade na maturidade sexual. De uma hora para outra deixamos de ser completamente assexuados e nos transformamos num ser sexual. Nos humanos o processo é muito mais lento e mais sutil. Os hormônios sexuais estão presentes, em quantidades variadas, desde cedo, no desenvolvimento fetal. Sou de opinião, e disse isso ao Chefe Otimizador, que talvez todas as suas emoções incontroláveis estejam ligadas a esses hormônios sexuais. Um ser humano sem nenhuma sexualidade talvez seja capaz do mesmo pensamento otimizado de uma octoaranha.

— Que idéia interessante! — comentou Richard animado, levantando-se e começando a andar em volta. — Então você está sugerindo que mesmo coisas simples como, por exemplo, a recusa de uma criança em compartilhar seus brinquedos podem estar de certa forma ligadas à sexualidade?...

— Talvez — respondeu Archie. — Talvez Galileu esteja praticando a possessividade de sua sexualidade adulta quando se recusa a dividir seus brinquedos com Kepler... Certamente a dedicação do menino à mãe e da menina ao pai é uma prévia de atitudes adultas...

Archie parou, pois Richard estava de costas e tinha intensificado suas passadas.

— Desculpe — disse ele, voltando um pouco depois e sentando-se de novo ao lado da octoaranha. — Passou pela minha cabeça agora mesmo uma coisa na qual pensei ligeiramente hoje de manhã, quando estávamos falando sobre controle de emoções... Você se lembra de que, numa conversa anterior, atribuiu o conceito de um Deus pessoal a uma aberração evolutiva necessária a todas as espécies em desenvolvimento, como uma ponte temporária na transição entre a fase da primeira conscientização e a era de informação? As recentes mudanças ocorridas com você alteraram de alguma forma sua atitude com relação a Deus?

Várias faixas multicores, que Richard reconheceu como uma risada, jor-raram sobre a parte superior do corpo da octoaranha.

— Vocês humanos são absolutamente preocupados com a noção de Deus. Até mesmo aqueles, como você, Richard, que dizem não crer em Deus passam grande do seu tempo pensando no assunto ou discutindo-o... Como falei alguns meses atrás, nós octoaranhas valorizamos em primeiro lugar as informações, de acordo com o que nos ensinaram os precursores... Não há informações sobre nenhum Deus que possam ser constatadas, especialmente sobre um Deus envolvido com os assuntos diários do universo...

— Você não entendeu exatamente a minha pergunta — interrompeu Richard —, ou talvez eu não tenha me explicado bem... O que quero saber é se nesse seu novo estado mais emocional você pode compreender por que outros seres inteligentes criaram um Deus pessoal, para lhes dar conforto e também para explicar todas essas coisas que eles não podem abranger.

Archie riu de novo em cores.

— Você é muito esperto, Richard — disse a octoaranha. — Quer que eu confirme o que você pensa, ou seja, que Deus também é um conceito emocional, nascido de um anseio não tão diferente do desejo sexual. Portanto, Deus também derivaria de hormônios sexuais... Eu não vou até esse ponto. Não tenho informações suficientes. Mas posso dizer que, baseado no tumulto dentro de mim nesses últimos dias, agora compreendo essa palavra "anseio", que antes não fazia sentido para mim...

Richard sorriu. Estava contente. O intercâmbio dos dois voltara a ser como era antes de terminar o suprimento de barrican de Archie.

— Seria ótimo se pudéssemos conversar com todos os nossos amigos da Cidade de Esmeralda, não é? — perguntou Richard de repente.

Archie sabia o que Richard estava sugerindo. Os dois não haviam men-cionado os quadróides, nem tampouco sugerido que as octoaranhas tinham um sistema de coleta de inteligência, pois não queriam que Nakamura e seus guardas soubessem disso. Enquanto Richard observava em silêncio, faixas coloridas passaram em torno da cabeça de Archie. Embora a octoaranha não estivesse mais usando a língua derivativa que fora desenvolvida para a comunicação com os humanos, Richard foi capaz de compreender a essência da transmissão.

Depois de cumprimentar formalmente o Chefe Otimizador e desculpar-se pelo insucesso de sua missão, Archie enviou duas mensagens pessoais, uma curta para Jamie e outra mais longa para o dr. Azul. Durante a transmissão para seu parceiro dr. Azul, cores variadas jorraram de Archie ao longo de sua mensa-gem. Richard, que aprendera a conhecer bem seu companheiro durante os dois meses em que estavam presos, ficou fascinado e comovido com aquela bela demonstração de emoção desinibida.

Quando Archie terminou, Richard chegou perto dele e pôs a mão nas suas costas.

— Está se sentindo melhor agora? — perguntou.

— De certa forma sim — respondeu Archie. — Mas ao mesmo tempo me sinto pior. Estou mais consciente agora de que talvez eu nunca mais veja o dr. Azul e Jamie...

— Às vezes fico imaginando o que eu diria para Nicole — interrompeu Richard — se pudesse falar com ela no telefone. — Ele pronunciou bem as palavras, exagerando o movimento dos lábios. — Eu sinto muito sua falta, Nicole, e te amo de todo o meu coração.

 

Richard não era de ter sonhos vividos. Portanto, não incorporava sons ex-ternos a sonhos. Quando ouviu o que achou que fossem pés arrastando-se acima dele, no meio da noite, acordou depressa.

Archie estava dormindo. Richard olhou em volta e percebeu que a luz do banheiro estava apagada. Alarmado, acordou a octoaranha.

— O que foi? — perguntou Archie em cores.

— Ouvi alguma coisa lá em cima — sussurrou Richard.

Os dois ouviram a porta para as escadas do porão abrir-se lentamente. Depois Richard percebeu um passo cuidadoso e depois outro no alto da escada. Franziu os olhos, mas não conseguiu ver nada naquela escuridão.

— É uma mulher seguida de um policial — disse Archie, cuja lente podia captar o calor infravermelho dos intrusos. — Eles pararam por um instante no terceiro degrau.

Eles vieram nos matar, pensou Richard, apavorado, aproximando-se de Archie. Então ouviu a porta do porão fechando-se lentamente e depois passos na escada.

— Onde eles estão agora? — sussurrou ele.

— Aqui embaixo — disse Archie. — Estão vindo... acho que a mulher é...

— Papai — ouviu Richard, como se estivesse no passado. — Onde está você, papai?

Meu Deus! É Katie! — Aqui, Katie — disse Richard bem alto. — Aqui — repetiu, tentando conter sua agitação.

Uma lanterna pequena iluminou a parede por trás do colchão e acabou clareando a barba de Richard. Um instante depois, Katie tropeçou sobre Archie e literalmente caiu nos braços do pai.

Katie beijou-o e abraçou-o, com lágrimas correndo-lhe no rosto. Richard estava tão espantado com tudo aquilo que de início não conseguiu responder às perguntas da filha.

— Sim... sim... estou bem — disse depois. — Não posso acreditar que seja você, Katie... Oh, Katie... Oh, sim, aquela massa cinzenta lá, na qual você acabou de tropeçar, é meu amigo e companheiro de cela, Archie, a octoaranha...

Um segundo depois, Richard deu um forte aperto de mão em um homem que Katie apresentou como "meu amigo".

— Não temos muito tempo — disse Katie apressada, depois de alguns minutos de conversa sobre a família. — Nós criamos um curto-circuito em toda essa área residencial, e daqui a pouco a energia já deve estar de volta.

— Então nós vamos fugir? — perguntou Richard.

— Não — disse Katie. — Eles pegariam você e o matariam... Eu só queria lhe ver... Quando ouvi o boato de que você estava preso em algum lugar no Novo Éden... Oh, papai, com eu estava com saudades! Eu o amo tanto...

Richard pôs os braços em volta da filha e abraçou-a enquanto ela chorava. Ela está tão magra, pensou ele, parece até um fantasma.

— Eu também a amo, Katie — falou Richard, afastando-a ligeiramente. — Ilumine seu rosto... eu quero ver esses olhos bonitos.

— Não, papai — falou Katie, enfiando o rosto no peito dele. — Estou envelhecida e gasta... Quero que você se lembre de mim como eu era. Minha vida tem sido dura...

— Não é provável que eles os mantenham aqui por muito tempo, sr. Wakefield — disse o homem no escuro. — Quase todo mundo da colônia ouviu a história da sua chegada no acampamento dos soldados.

— Você está bem, papai? — perguntou Katie depois de um longo silêncio. — Estão lhe dando comida direito?

— Estou bem, Katie... mas não falamos nada sobre você. O que anda fazendo? Está feliz?

—- Eu tive outra promoção — falou ela depressa. — E meu novo aparta-mento é bonito... você devia ver... e tenho um amigo que gosta de mim...

— Fico contente com isso — disse Richard, enquanto Franz lembrava Katie que estava na hora de irem embora. — Você sempre foi a mais inteligente das minhas filhas... você merece um pouco de felicidade.

De repente, Katie começou a soluçar e baixou a cabeça no peito do pai.

— Papai, oh, papai — dizia ela aos soluços —, por favor, me abrace. Richard pôs os braços em volta da filha.

— O que foi, Katie? — perguntou ele em tom carinhoso.

— Não quero mentir para você — falou Katie. — Eu trabalho para Naka-mura, gerenciando prostitutas. E sou viciada em drogas... Absolutamente viciada em drogas.

Katie chorou durante muito tempo. Richard abraçou-a com força e bateu em suas costas.

— Mas eu te amo, papai — disse ela, finalmente levantando a cabeça. — Sempre te amei, e sempre te amarei... sinto muito ter decepcionado você.

— Katie, nós temos de ir agora — falou Franz com firmeza. — Se a energia voltar enquanto estivermos aqui, vai ser uma merda.