A Revelação de Rama
Capítulo 6
— Consegue sim... Empurre!
Eponine arqueou as costas, respirou fundo e um instante depois o bebê Marius estava nas mãos de Nicole. Ellie tinha aprontado a tesoura para cortar o cordão umbilical. O menino chorou naturalmente, sem precisar levar uma palmada, e Max entrou no quarto correndo.
— Seu filho chegou — disse Nicole. Terminou de limpar o excesso de líquido, amarrou o cordão umbilical e passou o bebê para o pai orgulhoso.
— Oh, meu... oh, meu... O que eu faço agora? — disse Max radiante, segurando o pequeno Marius como se ele fosse frágil como um cristal e precioso como um brilhante.
— Pode dar um beijo nele — respondeu Nicole com um sorriso. — Seria um bom começo.
Max abaixou a cabeça e beijou Marius cora todo o cuidado.
— E pode trazer o bebê para ele conhecer a mãe — disse Eponine. Lágrimas de alegria escorriam pelo rosto da nova mamãe quando ela olhou seu bebê bem de perto pela primeira vez. Nicole ajudou Max a deitar o pequeno Marius no peito de Eponine.
— Oh, francesinha — disse Max, apertando a mão dela —, como eu te amo... eu te amo demais...
Marius, que estava chorando desde que tinha nascido, acalmou-se na nova posição sobre o peito da mãe. Eponine esticou a mão que Max não estava segurando e acariciou seu filhinho. De repente, os olhos de Max encheram-se de lágrimas.
— Obrigado, querida — disse para Eponine. — Obrigado, Nicole. Obrigado, Ellie.
Max agradeceu a todos no quarto várias vezes, inclusive às duas octoa-ranhas. Nos cinco minutos seguintes, ele virou uma verdadeira máquina de dar abraços, e nem mesmo as octoaranhas escaparam de seus abraços agradecidos.
6
Nicole bateu de leve na porta e enfiou a cabeça no quarto.
— Com licença. Vocês já acordaram?
Eponine e Max se mexeram, mas seus olhos não se abriram para cum-primentar Nicole. O pequeno Marius estava dormindo satisfeito, aninhado entre seus pais. A certa altura, Max resmungou:
— Que horas são?
— Quinze minutos depois da hora marcada para o exame do Marius — disse Nicole. — O dr. Azul vai voltar daqui a pouco.
Max gemeu e cutucou Eponine.
— Entre — disse ele para Nicole. Estava com um aspecto horrível, olhos vermelhos e bolsas debaixo dos olhos. — Por que os bebês não dormem mais de duas horas seguidas? — perguntou, bocejando.
Nicole ficou na porta.
— Alguns dormem, Max... Mas cada bebê é diferente. Logo depois que nascem, eles em geral seguem a mesma rotina a que se acostumaram dentro do útero.
— De que você está se queixando? — perguntou Eponine, tentando sentar-se. — Você ouve o choro dele, muda uma fralda de vez em quando e volta a dormir... Eu tenho de ficar acordada para amamentar... Queria ver você tentar dormir com um bichinho desses sugando seu seio.
— O que é isso? — perguntou Nicole rindo. — Os novos papais já per-deram sua aura de neófitos em apenas quatro dias?
— Ainda não — falou Eponine, forçando um sorriso enquanto se vestia. — Mas, meu Deus, estou tão cansada!
— Isso é normal — falou Nicole. — Seu organismo passou por um trauma. Você precisa descansar... Como eu disse no dia em que Marius nasceu, quando vocês insistiram em fazer uma festa, o único jeito de vocês dormirem nas duas primeiras semanas é adaptando seu horário ao dele.
— Eu sei disso — falou Max, passando aos tropeções pela porta, com as roupas na mão, para ir ao banheiro.
Eponine deu uma olhada ligeira para o tampão retangular azul que Nicole acabara de tirar da bolsa.
— Essa é uma das novas fraldas? — perguntou.
— É — respondeu Nicole. — Os engenheiros octoaranhas fizeram uns aprimoramentos... Aliás, a oferta deles de um devorador especial continua de pé. Eles ainda não criaram nada para a urina de Marius, mas calculam que com o devorador o bebê só faça cocô...
— Max é completamente contra isso — interrompeu Eponine. — Ele disse que seu filho não vai servir de experiência para as octoaranhas.
— Eu não chamaria isso de experiência — falou Nicole. — A espécie de devorador que eles projetaram é uma versão ligeiramente modificada dos que vêm limpando nossos banheiros há seis meses. E pense no trabalho que você evitaria...
— Não — disse Eponine com firmeza. — Mas mesmo assim agradeça às octoaranhas.
Quando Max voltou, estava vestido para o dia, embora ainda não tivesse feito a barba.
— Eu queria te dizer, Max — falou Nicole —, antes de o dr. Azul voltar, que finalmente tive uma longa conversa com Archie sobre a nossa volta para Novo Éden... Quando expliquei a ele que nós todos queríamos voltar e tentei dar algumas das razões para essa nossa decisão, ele me disse que não lhe cabia dar a permissão para nossa partida.
— Então cabe a quem? — perguntou Max.
— Archie disse que é um assunto para o Chefe Otimizador.
— Ah! Então eu estava certo desde o começo. Nós realmente somos pri-sioneiros aqui, e não hóspedes.
— Não, se é que eu entendi bem o que Archie falou. Ele me disse que isso "pode ser arranjado, se necessário", mas que só o Chefe Otimizador compreende bem "todos os fatores" para poder tomar uma decisão.
— Mais blá-blá-blá dessas malditas octoaranhas — resmungou Max.
— Acho que não. Na verdade, eu fui encorajada. Mas Archie disse que só poderá programar um encontro com o Chefe Otimizador depois da Matrícula... um processo que está tomando todo o tempo de Jamie. Aparentemente isso só acontece a cada dois anos e envolve a colônia toda.
— Quanto tempo essa Matrícula leva? — perguntou Max.
— Mais uma semana. Richard, Ellie e eu fomos convidados a participar hoje à noite de uma parte do processo... Estou curiosa.
— De qualquer forma, Marius e eu só poderemos ir embora daqui a algumas semanas — disse Eponine para Max. — Portanto, esperar uma semana não é problema.
Naquele instante, o dr. Azul bateu na porta e entrou no quarto com um equipamento especializado que seria usado para examinar Marius. Max olhou de esguelha para as duas maletas com as criaturas espiraladas que pareciam uma pasta preta.
— O que são essas malditas coisas? — perguntou com a cara amarrada. Nicole terminou de colocar seus próprios instrumentos em cima da mesa, ao lado da cama.
— Max — disse ela sorrindo —, por que você não sai durante uns quinze minutos?
Max franziu as sobrancelhas.
— O que vocês vão fazer com o meu filho? Cozinhar o menininho no óleo?
— Não, não — Nicole deu uma risada. — Mas quem ouve o barulho desses instrumentos pode pensar que estamos fazendo isso.
Ellie pôs Nikki no colo e lhe deu um abraço, e a menininha parou de chorar por algum tempo.
— Mamãe vai sair com a vovó e o vovô, Archie e o dr. Azul — disse Ellie. — Nós só vamos voltar depois que você estiver dormindo... Você vai ficar aqui com a sra. Watanabe e Kepler...
— Eu não quero ficar aqui — falou Nikki no seu tom mais desagradável. — Quero ir com minha mamãe. — Nikki deu um beijo em Ellie. Seu rosto mostrava a expectativa.
Quando Ellie pôs a filhinha no chão, ela recomeçou a chorar.
— Eu não quero... — gritava ela quando a mãe saiu do quarto. Ellie sacudia a cabeça enquanto os cinco seguiam para a praça.
— Não sei o que fazer com ela — disse Ellie. — Desde aquele incidente no estádio ela está grudada comigo...
— Pode estar passando por uma fase normal — falou Nicole. — As crian-ças mudam muito depressa na idade dela... E Nikki não é mais o centro de atenção; agora temos o Marius.
— Acho que o problema é mais profundo — disse Ellie, depois de alguns segundos. Ela se virou para Nicole. — Desculpe, mamãe, mas creio que a insegurança de Nikki tem mais a ver com Robert do que com Marius.
— Mas Robert foi embora há mais de um ano — observou Richard.
— Isso não importa — replicou Ellie. — Em certa medida, Nikki deve ainda se lembrar de quando seus pais estavam juntos... Ela provavelmente acha que primeiro eu a abandonei e depois abandonei Robert. Por isso se sente tão insegura.
Nicole fez um carinho na filha.
— Mas Ellie, se isso for verdade, por que só agora ela está reagindo tanto?
— Não tenho certeza — disse Ellie. — Talvez o encontro com o iguana tenha lhe mostrado como ela é frágil... E como sente falta da proteção do pai...
Eles ouviram o choro de Nikki vindo do outro lado da rua.
— Não sei o que a está perturbando, mas espero que ela consiga superar isso logo. Quando Nikki chora assim, sinto como se meu estômago estivesse queimando.
Não havia nenhum transporte na praça. Archie e o dr. Azul continuaram andando na direção da pirâmide onde as octoaranhas e os humanos em geral faziam suas conferências.
— Esta noite é muito especial — explicou o dr. Azul —, e há muitas coisas que devemos lhes dizer antes de sairmos da sua zona.
— Onde está Jamie? — perguntou Nicole quando eles entraram no prédio. — Pensei que ele iria conosco... E, por falar nisso, o que aconteceu com Hércules? Não o vemos desde o Dia da Fartura.
Enquanto subiam a rampa para o segundo andar da pirâmide, o dr. Azul informou que Jamie e seus colegas estavam ocupados com a Matrícula naquela noite, e que Hércules tinha sido reescalado.
— Meu Deus — disse Richard brincando —, Hércules nem se despediu da gente.
As octoaranhas, que ainda não haviam aprendido a reconhecer muito o senso de humor dos humanos, desculparam-se pela falta de gentileza de Hércules. Depois disseram que não haveria mais uma octoaranha entre os humanos fazendo o papel de observador diário.
— Hércules foi despedido por alguma razão? — perguntou Richard, ainda em tom de brincadeira. Mas as duas octoaranhas ignoraram a pergunta.
Eles entraram na sala de conferências onde Nicole havia sido instruída sobre o sistema digestivo das octoaranhas. Várias folhas do pergaminho ou couro, nas quais as octos haviam feito seus desenhos e diagramas, ainda estavam num canto em frente à parede. O dr. Azul pediu que Richard, Nicole e Ellie se sentassem.
— O que vocês vão ver esta noite — disse Archie — nunca foi visto por uma não-octoaranha desde que a nossa colônia foi criada aqui em Rama. Estamos levando vocês conosco numa tentativa de melhorar a qualidade da comunicação entre nossas duas espécies. É imperativo que vocês compreendam, antes de sairmos desta sala e passarmos para o Domínio Alternativo, não só o que irão ver, mas também como deverão se comportar.
— Em nenhuma circunstância — acrescentou o dr. Azul —, vocês devem interromper os procedimentos ou tentar interagir com alguém ou alguma coisa, na ida ou na volta. Vocês devem seguir todas as instruções. Se não puderem ou não quiserem aceitar essas condições, devem dizer agora, e não os levaremos conosco.
Os três humanos se entreolharam alarmados.
— Vocês nos conhecem bem — falou Nicole finalmente. — Espero que não nos peçam para fazer alguma coisa incompatível com nossos valores ou princípios. Nós não poderíamos...
— Isso não nos preocupa — interrompeu Archie. — Estamos simples-mente pedindo que vocês sejam observadores passivos, independentemente do que vejam ou sintam. Se ficarem confusos ou amedrontados e por alguma razão não puderem localizar um de nós, sentem-se onde estiverem, com as mãos de lado, e esperem que nós chegaremos.
Houve uma breve pausa.
— Não posso deixar de enfatizar — continuou Archie — a importância do comportamento de vocês esta noite. A maioria dos outros otimizadores se opôs quando pedi que permitissem a entrada de vocês aqui. O dr. Azul e eu garantimos pessoalmente que vocês não teriam um comportamento inadequado.
— Nossas vidas estão em perigo? — perguntou Nicole.
— Provavelmente não — replicou Archie. — Mas poderiam estar... E se a noite de hoje for um fracasso por causa de alguma coisa que um de vocês fizer, não sei se... — De forma muito pouco comum às octoaranhas, Archie não terminou a frase.
— Você está nos dizendo — falou Nicole — que nosso pedido para voltar para o Novo Éden está de certa forma ligado a tudo isso?
— Nosso relacionamento chegou ao auge. Ao mostrarmos uma parte crítica do nosso processo de Matrícula para vocês, estamos tentando chegar a um novo nível de compreensão. Neste sentido, a resposta à sua pergunta é sim.
Eles passaram quase meio tert, duas horas humanas, na sala de conferências. Archie começou explicando o que significava a atividade da Matrícula. Jamie e seus companheiros, disse a octoaranha, tinham saído da adolescência e iam entrar no período de transição para a idade adulta. Como jovens, sua vida era controlada, e eles não tinham permissão de tomar decisões de grande importância. No final da Matrícula, Jamie e as outras octos tomariam uma única decisão, uma decisão que iria alterar fundamentalmente a vida deles. O objetivo da Matrícula, e mais ainda do ano anterior à transição, era fornecer às octoaranhas adolescentes informações que as ajudassem a tomar aquela importante decisão.
— Hoje à noite — disse Archie —, os jovens serão levados em grupo ao Domínio Alternativo para verem uma...
Nem Ellie nem Nicole conseguiram de início achar uma palavra para traduzir o que as jovens octoaranhas iriam ver. Mas depois de alguma discussão entre elas e das várias frases de esclarecimento do dr. Azul e de Archie, as mulheres acharam que a melhor interpretação para o que Archie dissera em cores seria "peça de moralidade".
Nos minutos seguintes, a conversa tomou outro rumo, quando o dr. Azul e Archie explicaram, em resposta às perguntas dos humanos, que o Domínio Alternativo era uma seção específica do reinado das octoaranhas que não ficava sob a cúpula.
— No sul da Cidade de Esmeralda — disse Archie — há outra colônia com um estilo de vida absolutamente diferente do nosso. Cerca de duas mil octoaranhas vivem no Domínio Alternativo atualmente, com outras três a quatro mil criaturas de mais de dez espécies diferentes. A vida deles é caótica e desestruturada. As octoaranhas alternativas não têm uma cúpula sobre suas cabeças para protegê-las, nem têm tarefas específicas, diversões programadas, acesso a informações na biblioteca, estradas ou casas, a não ser as que construíram coletivamente. E sua expectativa de vida é de um décimo da expectativa média das octoaranhas da Cidade de Esmeralda.
Ellie lembrou-se que a área de Avalon fora criada por Nakamura para lidar com os problemas que os colonos do Novo Éden desejavam esquecer, e pensou que talvez o Domínio Alternativo fosse uma colônia semelhante.
— Por que — perguntou ela — tantas octoaranhas, cerca de dez por cento, se minha aritmética estiver correta, foram forçadas a viver fora da cúpula?
— Nenhuma octoaranha foi forçada a viver no Domínio Alternativo — disse o dr. Azul. — Todas elas estão lá em virtude de uma decisão crítica.
O dr. Azul foi até o canto e pegou alguns gráficos, e as duas octoaranhas usaram os diagramas durante a longa discussão que se seguiu. Primeiro expli-caram que há centenas de gerações seus biólogos haviam identificado corre-tamente a conexão entre a sexualidade na sua espécie e muitas outras caracte-rísticas comportamentais, inclusive ambição pessoal, agressividade, senso territorial e envelhecimento, para citar só as mais importantes. Essa descoberta foi feita durante um período da história das octoaranhas em que ocorria pela primeira vez a transição para a Otimização, mas, apesar da suposta aceitação universal do que era teoricamente uma base superior para a estrutura da sociedade das octoaranhas, a transição foi impedida pelo desencadeamento de guerras, dissidências tribais e outros problemas semelhantes. Os biólogos octoaranhas da época acreditavam que só uma sociedade assexuada, ou na qual apenas uma pequena fração da população fosse sexuada, conseguiria seguir os princípios da Otimização, segundo os quais os desejos do indivíduo se subordinavam ao bem-estar da colônia como um todo.
Uma sucessão aparentemente sem fim de conflitos convenceu todas as octoaranhas daquele período de que a Otimização nada mais era que um sonho tolo, a menos que encontrassem algum método ou técnica para combater o individualismo que inevitavelmente bloqueava a aceitação da nova ordem. Mas o que se poderia fazer? Só muitas gerações depois é que se fez a brilhante descoberta de que existiam químicas especiais em um produto semelhante à cana-de-açúcar, chamado barrican, que retardava a maturidade sexual das octoaranhas. Passaram-se centenas de anos até que os engenheiros genéticos octoaranhas conseguissem projetar e produzir uma variação desse barrican, que quando ingerido regularmente parava por completo o advento da maturidade sexual.
Os testes nas colônias tiveram um sucesso muito além do esperado pelos biólogos e cientistas políticos progressistas. Octoaranhas sexualmente imaturas eram mais receptivas aos conceitos do grupo de Otimização. E, além de a maturidade sexual não ocorrer nas octoaranhas que comiam o barrican regularmente, seu envelhecimento era muito retardado. Os cientistas octoaranhas aprenderam rapidamente que o envelhecimento se relacionava ao mesmo mecanismo interno da puberdade, e na verdade as enzimas que impediam que as células se recuperassem adequadamente nas octoaranhas mais velhas só eram ativadas num período específico após a maturidade sexual.
A sociedade das octoaranhas passou por rápidas mudanças, afirmaram Archie e o dr. Azul, depois dessas descobertas colossais. A otimização espalhou-se por todo lado. Os cientistas sociais octoaranhas começaram a contemplar uma sociedade na qual as octos seriam praticamente imortais, morrendo apenas de acidentes ou de uma deficiência súbita em um órgão importante. Octoaranhas assexuadas povoaram todas as colônias, e, como os biólogos haviam previsto, a ambição pessoal e a agressividade tornaram-se quase inexistentes.
— Toda essa história ocorreu há muitas gerações — disse Archie —, e é informação básica para ajudá-los a compreender o que é a Matrícula. Sem fazer alusão à complexa história intermediária, o dr. Azul irá resumir como estamos hoje na nossa colônia específica. Todas as octoaranhas que vocês viram até agora — disse o dr. Azul —, com exceção das morfologias midgets e das "repletas", ambas permanentemente assexuadas, são criaturas cuja maturidade sexual foi retardada pelo barrican. Muitos anos atrás, antes que um biólogo esperto mostrasse como um tipo diferente de sexualidade podia ser elaborado geneticamente na nossa espécie, só a octoaranha-rainha podia produzir descendentes... Entre as octoaranhas adultas normais havia dois sexos, mas a única diferença significativa entre os sexos era que um deles, ao atingir a maturidade, tinha capacidade para fertilizar a rainha. Os adultos sexualizados copulavam por prazer, mas, como esse contato não tinha conseqüência, as distinções entre os sexos apagaram-se. Na verdade, ligações a longo termo na colônia ocorriam com maior freqüência entre membros do mesmo sexo, pois eles tinham sentimentos semelhantes e pontos de vista em comum... Agora a situação é muito mais complicada. Na nossa espécie de octoaranhas, graças à engenharia genética de nossos antecessores, uma fêmea adulta é capaz de produzir, através de uma união sexual com um macho adulto, uma única descendente, não-fértil, com expectativa de vida limitada e capacidade um tanto reduzida. Vocês ainda não viram uma dessas morfologias porque elas vivem no Domínio Alternativo. O dr. Azul fez uma pausa e Archie continuou:
— Cada cidadão jovem da nossa colônia, macho ou fêmea, decide se deseja tornar-se sexualmente maduro no período imediatamente posterior à Matrícula. Se a decisão for negativa, a octoaranha coloca sua sexualidade nas mãos dos Otimizadores e da colônia como um todo. Foi o que o dr. Azul, que é fêmea, e eu fizemos muito tempo atrás. Pela lei das octoaranhas, é só imediatamente após a Matrícula que o indivíduo pode fazer sua própria escolha sexual sem quaisquer conseqüências. Os Otimizadores não são tolerantes com aqueles que decidem passar por uma metamorfose sexual, sem a explícita permissão da colônia, depois de suas carreiras terem sido cuidadosamente estruturadas e planejadas.
Mais uma vez o dr. Azul falou:
— De acordo com o que nós lhes expusemos, seria improvável que uma octoaranha jovem tomasse a decisão de uma maturidade sexual precoce. Porém, a bem da justiça, devemos dizer que há fortes razões, pelo menos para algumas octoaranhas jovens, para elas escolherem tornar-se alternativas. Antes de tudo, a octoaranha fêmea sabe que suas chances de ter descendentes são bem menores se ela resolver permanecer assexuada depois da Matrícula. De acordo com a nossa história, só numa emergência um grande número dessas fêmeas será convocado a octoaranhas jovens. Em geral, a capacidade reduzida e a infertilidade desse tipo de prole as tornam menos desejáveis do ponto de vista da colônia como um todo, a não ser que sejam necessárias mais octoaranhas para apoiar a infra-estrutura social. Algumas dessas octoaranhas também consideram inaceitáveis o regime e o organização da nossa vida na Cidade de Esmeralda, e desejam uma existência onde elas possam tomar suas próprias decisões. Outras temem que os otimizadores as coloquem em uma carreira inadequada. Todas as que escolhem uma sexualidade precoce vêem o Domínio Alternativo como um lugar livre e emocionante, cheio de encanto e aventura. Elas não levam em conta aquilo a que estão renunciando... e, na sua exuberância momentânea, a qualida-de da sua vida é mais importante que a sua duração...