A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 29 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 7

Durante toda essa longa conversa, Richard, Nicole e Ellie fizeram poucas interrupções para pedir esclarecimentos sobre os pontos mais significativos. E puderam confirmar, a cada vez, que tinham traduzido adequadamente o que as octoaranhas haviam explicado. A medida que a noite avançava, os três humanos foram se sentindo oprimidos. Havia informações demais para serem assimiladas em uma única exposição.

— Esperem um instante — disse Richard abruptamente, quando Archie indicou que estava na hora de partirem. — Desculpe... mas há uma coisa fundamental sobre isso que ainda não entendi. Por que essa escolha é permitida? Por que os otimizadores não decretam simplesmente que todas as octoaranhas comerão sempre o barrican e permanecerão assexuadas até que a colônia precise que elas se reproduzam?

— Esta é uma boa pergunta — falou Archie — que tem uma resposta complexa. Vou tentar simplificar, em função do tempo, dizendo que a nossa espécie acredita na livre escolha. Além disso, como vocês viram hoje à noite, há algumas funções para as quais só as alternativas são adequadas, e das quais a colônia toda se beneficia.

 

7

 

Depois de deixar a zona deles, o transporte seguiu um itinerário diferente daquele que tomara para levar os humanos ao estádio no Dia da Fartura. Desta vez, passou por ruas de luz mortiça, na periferia da cidade, sem aqueles cenários coloridos que os humanos haviam visto na excursão anterior. Depois de vários fengs, o transporte aproximou-se de um grande portão fechado, muito semelhan-te àquele pelo qual eles haviam entrado da primeira vez na Cidade de Esmeralda.

Duas octoaranhas vieram inspecionar o carro. Archie lhes disse alguma coisa em cores, e uma delas voltou para uma espécie de casa da guarda. A distância, Richard viu cores refletindo-se em uma parede plana.

— Ela está checando com as autoridades — disse o dr. Azul aos humanos.

— Estamos fora do nosso horário de chegada, por isso nosso código não está mais válido.

Enquanto esperavam mais uns nillets, a outra octoaranha entrou no transporte e inspecionou-o detalhadamente. Nenhum dos humanos jamais tinha visto tantas precauções de segurança na Cidade de Esmeralda, e nem mesmo no estádio. O mal-estar de Ellie aumentou quando o agente de segurança octoaranha, sem dizer nada, abriu sua bolsa para ver o que havia dentro. Depois o inspetor devolveu a bolsa a Ellie e desembarcou. Os portões se abriram, o transporte saiu da cúpula verde e estacionou no escuro menos de um minuto depois.

No estacionamento, o transporte ficou no meio de outros trinta a quarenta veículos.

— Esta área — explicou o dr. Azul quando eles desceram do carro e apareceram dois vaga-lumes — é chamada Distrito das Artes. O Distrito e o Zoológico, que não fica longe daqui, são as únicas partes do Domínio Alternativo visitadas com regularidade pelas octoaranhas que vivem na Cidade de Esmeralda. Os otimizadores não aprovam muitas solicitações de visitas às áreas de moradia alternativas que ficam mais ao sul; aliás, a única vista completa do Domínio Alternativo que a maioria das octoaranhas faz é durante um passeio na última semana da Matrícula.

O ar estava muito mais frio do que na Cidade de Esmeralda. Archie e o dr. Azul começaram a andar mais depressa do que os humanos jamais haviam visto uma octoaranha andar.

— Temos de nos apressar — disse Archie virando-se para o grupo —, senão será tarde demais. — Os humanos tiveram de correr para seguir os dois.

Quando se aproximaram de uma área iluminada a uns trezentos metros do seu transporte, Archie e o dr. Azul foram para as duas extremidades da linha dos humanos, de modo que os cinco ficaram lado a lado.

— Estamos entrando na praça dos Artesãos — disse o dr. Azul —, onde os alternativos oferecem seus trabalhos artísticos para transferência.

— O que é "transferência"? — perguntou Nicole.

— Os artistas precisam de créditos para comida e outras coisas essen-ciais. Eles oferecem seus trabalhos a um residente da Cidade de Esmeralda que tenha crédito sobrando — respondeu o dr. Azul.

Por mais que Nicole quisesse seguir a conversa, ela foi atraída pela quanti-dade de objetos inusitados, de octoaranhas e outros animais vistos na praça dos Artesãos. Era uma praça grande, de setenta a oitenta metros quadrados, que atravessava a larga avenida do teatro para onde eles se dirigiam. Archie e o dr. Azul, nas pontas da fila, estenderam um tentáculo nas costas dos humanos para que os cinco se movessem como um só naquela praça barulhenta.

O grupo foi abordado por várias octoaranhas com objetos para serem transferidos. Richard, Nicole e Ellie compreenderam logo o que Archie lhes dissera durante a longa reunião, ou seja, que os alternativos não obedeciam às normas da língua oficial usada pelas octoaranhas na Cidade de Esmeralda. Não se viam faixas definidas de cores em volta da cabeça daquelas octoaranhas, apenas seqüências desmaiadas de manchas de cor de alturas variáveis. Um dos vendedores ambulantes que os abordou era pequeno, obviamente um jovem, e, depois de ter sido mandado embora por Archie, deu um susto em Ellie, ao enrolar um tentáculo em volta do braço dela numa fração de segundo. Archie pegou o agressor com três dos seus tentáculos e jogou-o para fora do caminho, na direção de uma das octoaranhas com uma sacola de pano ao ombro. O dr. Azul explicou que aquela sacola indicava que a octoaranha era um policial.

Nicole andava tão depressa e havia tanta coisa para ver que de repente notou que estava prendendo a respiração. Embora não soubesse para que serviam muitos dos objetos oferecidos para transferência na praça, ela reco-nheceu e apreciou várias pinturas e esculturas, e algumas miniaturas em madeira ou outro material semelhante de todos os diferentes animais que viviam na Cidade de Esmeralda. Em uma seção da praça havia exposições de desenhos coloridos impressos sobre pergaminho. O dr. Azul explicou mais tarde, quando estavam dentro do teatro, que aquela forma artística particular representada pelos desenhos era uma combinação de poesia e caligrafia, conforme o termo dos humanos.

Pouco antes de atravessar a rua, Nicole tinha visto em uma parede a vinte metros de distância um grande mural de rara beleza. As cores eram fortes e atraentes, e a composição era obra de um artista que entendia tanto de estrutura quanto de apelo óptico. A técnica também era impressionante, mas o que mais fascinou Nicole foi a emoção retratada nos corpos e rostos das octoaranhas e outras criaturas do mural.

O Triunfo da Otimização — disse Nicole para si mesma, quando esticou o pescoço para ler o título em cores na parte superior do mural. Na pintura havia de um lado uma nave espacial com uma estrela no fundo, de outro um oceano cheio de seres vivos, e nos cantos opostos uma selva e um deserto. Mas a imagem central era de uma octoaranha gigante, carregando um bastão, de pé no alto de uma pilha de trinta a quarenta animais disparatados, que rolavam na terra debaixo dos seus tentáculos. O coração de Nicole começou a bater forte quando ela viu que um daqueles seres era uma jovem humana, morena, com olhos azuis e cabelos curtos e crespos.

— Olhem! — gritou ela para os outros. — Lá, naquele mural.

Naquele instante algum tipo de animal pequeno começou a importunar os humanos, andando em volta dos seus pés, e conseguiu atrair a atenção de todos. As duas octoaranhas enxotaram o animal e puxaram a fila para o teatro. Quando Nicole atravessou a rua, olhou para o mural de novo a fim de se certificar de que não havia imaginado aquela moça no meio da pintura. Daquela distância, o rosto e as feições da mulher eram imprecisos, mas Nicole estava convencida de ter visto um ser humano na obra de arte. Mas como é possível?, perguntou a si mesma, quando entraram no teatro.

Preocupada com sua descoberta, Nicole ouviu só metade do que Richard falava com Archie sobre sua intenção de usar o tradutor durante a peça. Ela nem sequer olhou quando, depois de eles terem arranjado um lugar na quinta fila, o dr. Azul apontou com um dos seus tentáculos para o setor da direita, onde estavam Jamie e outras octoaranhas da Matrícula. Nicole foi tomada de um forte impulso de voltar à praça e verificar o que vira. Mas então lembrou-se que Archie dissera como era importante seguir as instruções com cuidado naquela noite. Eu sei que vi uma mulher naquela pintura, disse Nicole para si mesma, quando três grandes vaga-lumes desceram e ficaram sobrevoando o palco no centro do teatro. Mas se eu vi, o que isso quer dizer?

A peça não tinha intervalos, e levou pouco mais de dois wodens. A ação era contínua, com um ou mais atores octoaranhas ocupando o palco iluminado o tempo todo. Não havia cenários, nem vestuários. No início da peça, os sete personagens principais deram um passo à frente e se apresentaram: duas octoaranhas da Matrícula, uma de cada sexo, um par de pais adotivos para cada um e um macho alternativo cujas cores brilhantes e bonitas espalhavam-se até a ponta dos seus tentáculos quando ele falava.

Nos primeiros minutos da peça foi mostrado que os dois jovens da Matrí-cula tinham sido amigos íntimos durante anos e que, apesar dos bons conselhos de seus pais adotivos, tinham decidido que teriam uma maturidade precoce juntos. "Meu desejo", dizia a jovem octoaranha fêmea no seu primeiro monólogo, "é ter um bebê de uma união com meu querido companheiro." Ou pelo menos foi o que Richard traduziu. Ele estava contente com o desempenho do seu tradutor aprimorado, e, quando se lembrou de que as octoaranhas eram surdas, falou intermitentemente ao longo da performance.

Os quatro pais octoaranhas vieram juntos ao centro do palco e expressa-ram sua ansiedade sobre o que aconteceria quando as "poderosas novas emoções" que acompanhavam a transformação sexual fossem enfrentadas por seus filhos adotivos. Porém, eles tentaram ser justos, e os quatro adultos admitiram que sua própria escolha de não se tornarem sexualmente maduros depois da Matrícula significava que não podiam dar conselhos baseados numa experiência verdadeira.

No meio da peça, as duas octoaranhas jovens ficaram isoladas em cantos opostos do palco, e o público concluiu, diante do espetáculo pirotécnico dos vaga-lumes e de algumas breves declarações dos atores, que os jovens haviam parado de comer o barrican e estavam sozinhos em um tipo de Domínio de Transição.

Quando as duas octoaranhas transformadas andaram pelo palco e se en-contraram no centro, os padrões coloridos de sua conversa estavam alterados. Era um efeito forte, porém obtido pelos próprios atores: não só as cores individuais eram mais brilhantes do que antes da transição como também as faixas rígidas e quase perfeitas que caracterizavam as primeiras conversas entre os dois jovens já estavam marcadas com desenhos individuais diferentes e interessantes. Em volta deles no palco havia meia dúzia de outras octoaranhas, todas alternativas, a julgar pela sua linguagem, e uns dois animais-salsicha caçando qualquer coisa que pudessem encontrar. O casal estava agora nitidamente no Domínio Alternativo.

Da escuridão das coxias entrou no palco o macho alternativo apresentado no início da peça. Com uma exibição brilhante de desenhos coloridos horizontais e verticais movendo-se em duas direções e criando um movimento ondulado, e depois com padrões geométricos e explosões de fogos de artifício que começavam em torno de sua cabeça, o recém-chegado magnetizou a jovem octoaranha fêmea e tirou-a do seu melhor amigo de infância. Uns nillets depois, o alternativo mais velho, com suas cores fantásticas, obviamente pai do bebê octoaranha carregado pela fêmea, deixou-a "chorando" (tradução de Richard para a sentada no canto do palco e emitindo vários pulsos desestruturados de cores misturadas) sozinha.

Àquela altura da peça, a octoaranha macho que tinha se matriculado nas cenas anteriores surgiu na luz, viu seu amor em desespero com o bebê e pulou para a escuridão que rodeava o palco. Um instante depois, voltou com o alternativo que havia corrompido sua namorada, e as duas octoaranhas macho engajaram-se numa briga terrível mas fascinante no meio do palco. Com as cabeças rodeadas de raios coloridos, eles se bateram, se contorceram e lutaram durante um feng. O macho mais moço acabou ganhando a luta, pois o alternativo ficou imóvel no palco quando a ação terminou. A tristeza expressa nas observações finais do herói e da heroína garantiu que a moral da peça ficasse bem clara. Quando a peça terminou, Richard olhou para Nicole e Ellie e comentou, com um riso irreverente:

— Essa é uma das peças negras, como Othelo, em que todos morrem no final.

Sob a supervisão dos policiais octoaranhas, todos com sacolas, os jovens da Matrícula saíram do teatro primeiro, seguidos por Archie, pelo dr. Azul e seus amigos humanos. O cortejo organizado parou do lado de fora, formando um anel em volta de três outras octoaranhas que estavam no meio da avenida. Richard, Nicole e Ellie sentiram os fortes tentáculos dos amigos nas suas costas quando se colocaram em posição de ver o que estava ocorrendo. Duas das octoaranhas no centro da rua seguravam bastões e usavam sacolas, e a terceira, agachada entre elas, transmitia a mensagem em cores, em largas faixas desestruturadas: "Por favor me ajudem."

— Esta octoaranha — disse um dos policiais — não conseguiu ganhar seus créditos desde que veio para o Domínio Alternativo, depois da Matrícula, quatro ciclos atrás. No último ciclo ela foi avisada de que se tornara um peso morto nos nossos recursos comuns, e recentemente, dois dias antes do Dia da Fartura, disseram-lhe que se apresentasse para ser exterminada. Desde esse dia, ela vem se escondendo entre os amigos no Domínio Alternativo...

De repente, a octoaranha agachada ergueu-se e pulou para o meio dos observadores, perto de onde estavam os humanos. A multidão afastou-se para trás e Ellie, que estava mais próxima do ponto por onde a octoaranha tentara escapar, foi jogada ao chão na confusão que se seguiu. Em menos de um nillet, a polícia, com a ajuda de Archie e de vários jovens da Matrícula, dominou mais uma vez a fugitiva.

— Deixar de se apresentar para uma exterminação programada é um dos maiores crimes que uma octoaranha pode cometer — disse o policial. — A punição é a exterminação imediata depois da prisão. — Um dos policiais tirou da sacola várias criaturas semelhantes a vermes. A octoaranha fugitiva reagiu violentamente na primeira vez em que os policiais tentaram forçá-la a engolir os vermes. Mas depois que cada policial bateu na fugitiva duas vezes com o bastão, a condenada caiu entre eles. Ellie, que já estava de pé àquela altura, não pôde deixar de dar um grito de terror quando as criaturas entraram na boca da octo e ela começou a vomitar. Sua morte foi instantânea.

Nenhum dos humanos deu uma palavra enquanto andavam de braços da-dos com Archie e o dr. Azul pela praça, na direção do seu transporte estacionado. Nicole estava tão pasma com o que presenciara que nem se lembrou da pintura em que havia visto um rosto humano.

 

No meio da noite, Nicole, que não conseguira dormir, ouviu um barulho na sala de estar. Levantou-se da cama bem quieta e vestiu seu robe. Ellie estava sentada no sofá no escuro. Nicole sentou-se ao lado da filha e pegou a sua mão.