A Revelação de Rama
Capítulo 6
— Você ainda duvida de que ela esteja curada? — perguntou Nicole.
— Não sei. Mas devo admitir que estou bastante intrigado com a diferença de comportamento entre essas octoaranhas e as que me examinaram e testaram anos atrás... As octos da Rama II nunca me libertariam daquela planta carnívora.
— Talvez elas sejam capazes de variar seu comportamento. Isso acontece com os seres humanos. Aliás, acontece também com todos os mamíferos mais desenvolvidos da Terra. Por que você esperaria que todas as octoaranhas fossem iguais? — perguntou Nicole.
— Sei que você vai dizer que estou sendo xenófobo — falou Richard — mas é difícil para mim aceitar essas novas octoaranhas. Elas parecem boas demais para serem verdadeiras. Como bióloga, qual você acha que seria a compensação delas por serem boas para nós, para usar a expressão de que você gosta?
— Essa pergunta procede, querido — respondeu Nicole —, e não sei como responder. Mas a idealista que existe em mim quer crer que encontramos uma espécie que em geral se comporta de acordo com a moral, pois quem faz o bem será recompensado.
Richard riu.
— Eu devia saber que a resposta seria essa. Especialmente depois daquela nossa discussão sobre Sísifo no Novo Éden.
6
— Você acharia a língua delas fascinante, papai — disse Ellie enquanto tomava o café da manhã com Richard. A essa altura, Nicole acordou, depois de onze horas de sono. — É absolutamente matemática. Elas usam sessenta e quatro cores ao todo, mas apenas cinqüenta e uma pertencem ao alfabeto. As treze restantes são esclarecedoras, são usadas para especificar tempos dos verbos, números ou comparativos e superlativos. É uma linguagem realmente muito elegante.
— Não consigo imaginar como uma língua pode ser elegante; sua mãe é a lingüista da família — disse Richard. — Consegui aprender a ler alemão, mas quando resolvi falar foi um fracasso.
— Bom dia para todos — disse Nicole espreguiçando-se na cama. — O que temos para o café da manhã?
— Uns legumes novos e diferentes... que talvez sejam frutas, pois não temos equivalente no nosso mundo... Quase tudo o que as octoaranhas comem é o que nós provavelmente chamaríamos de plantas, cuja energia deriva da luz. Os vermes são praticamente a única coisa que elas comem cuja energia básica não provém dos fótons.
— Então todas as plantas dos campos pelos quais passamos são movidas por uma espécie de fotossíntese?
— Alguma coisa desse tipo — respondeu Ellie —, se é que entendi o que Archie me explicou... Não se desperdiça quase nada na sociedade das octoaranhas... Essas criaturas que você e papai chamam de "vaga-lumes gigantes" sobrevoam os campos segundo uma programação semanal ou mensal rígida... E a água é tratada com tanto cuidado quanto os fótons.
— Onde está Eponine? — perguntou Nicole, enquanto dava uma olhada na comida que estava na mesa, no meio da sala.
— Está fazendo as malas — disse Ellie. — Ela achou que não devia participar da conversa que vamos ter agora de manhã.
— Nós vamos ficar chocados de novo, como na noite passada? — perguntou Nicole.
— Talvez — respondeu Ellie. — Não sei como vocês vão reagir... preferem terminar café ou eu digo para Archie que estamos prontos para começar?
— Quer dizer que a octoaranha vai participar dessa conversa e Eponine não? — perguntou Richard.
— Foi ela quem decidiu isso — respondeu Ellie. — Além do mais, como Archie é o representante das octoaranhas, ele está muito mais envolvido no assunto do que Eponine.
Richard e Nicole se entreolharam.
— Você tem idéia do que se trata? — perguntou Richard. Nicole sacudiu a cabeça.
— Mas é melhor começarmos logo — disse.
Depois que Archie sentou-se entre os Wakefield, Ellie informou a seus pais, e todos riram, que desta vez Archie faria o "preâmbulo". Ellie foi traduzindo, às vezes um pouco hesitante, quando Archie começou a pedir desculpas a Richard pela forma como ele fora tratado por suas "primas" anos atrás. Ele explicou que aquelas octoaranhas, as que os humanos haviam encontrado em Rama II antes da chegada em Nodo, pertenciam a uma colônia dissidente, remotamente ligada às octoaranhas que agora viviam a bordo de Rama. E Archie enfatizou que só depois que Rama III entrou na esfera de influência das octoaranhas é que elas, como espécie, concluíram que a grande espaçonave cilíndrica era importante.
Algumas sobreviventes daquela outra colônia, um grupo muito inferior, segundo Archie (nesse ponto Ellie pediu que ele repetisse o que dizia para ela traduzir melhor), ainda estavam a bordo da Rama III quando a nave foi interceptada, no início de sua trajetória, pela atual colônia de octoaranhas que havia sido especificamente selecionada para representar sua espécie. Os sobreviventes do grupo dissidente foram retirados da nave, mas todos os seus arquivos foram preservados. Archie e as outras octoaranhas da colônia souberam com detalhe de tudo o que havia acontecido com Richard naquela época e agora desejavam se desculpar por aquele tratamento.
— Então todo esse preâmbulo, além de ser fascinante — disse Richard —, é também um pedido de desculpas?
Ellie fez que sim e Archie soltou um raio vermelho e outro água-marinha.
— Posso fazer uma pergunta antes de continuarmos? — disse Nicole virando-se para a octoaranha. — Imagino, pelo que você nos disse, que sua colônia entrou em Rama III no período em que estivemos dormindo. Vocês sabiam que nós estávamos lá?
Archie respondeu que as octoaranhas tinham idéia de que os humanos estavam vivendo no habitat do extremo norte, mas só souberam ao certo quando a tranca externa do habitat humano foi violada pela primeira vez. Aquela altura, segundo Archie, a colônia de octoaranhas já vivia a bordo havia doze anos humanos.
— Archie fez questão de pedir as desculpas pessoalmente — disse Ellie dando uma olhada para o pai e esperando que ele respondesse.
— Muito bem, acho que vou aceitar — disse Richard. — Embora não tenha idéia de qual seja o protocolo adequado...
Archie pediu que Ellie lhe explicasse o significado de "protocolo", e Nicole riu.
— Richard, às vezes você fica muito formal.
— De qualquer forma — continuou Ellie —-, já que não temos muito tempo, eu mesma vou contar tudo a vocês. Segundo Archie, os arquivos das octoaranhas dissidentes mostram que elas fizeram várias experiências com você, grande parte das quais é ilegal nas colônias que Archie chama de "altamente desenvolvidas". Uma das experiências, papai, como você muitas vezes sugeriu, foi a introdução no seu cérebro de uma série de micróbios especializados para apagar de sua memória o tempo em que você viveu no meio das octoaranhas. Eu disse para Archie e para os outros que essa experiência surtiu um bom efeito, mas não absoluto... A experiência mais complexa feita no seu corpo foi uma tentativa de alterar o seu esperma. A colônia dissidente das octoaranhas não sabia mais do que a nossa família para onde Rama II estava indo. Elas achavam que talvez os humanos e as octoaranhas a bordo fossem coexistir durante séculos, talvez até pela eternidade, e concluíram que seria absolutamente essencial que as duas espécies se comunicassem. O que elas tentaram fazer foi mudar os cromossomos do seu esperma para que sua descendência tivesse maior capacidade de linguagem e uma melhor resolução visual de cores. Em suma, elas tentaram me trabalhar geneticamente, pois eu fui a única filha que você e mamãe tiveram depois de sua longa odisséia, para que eu pudesse me comunicar com elas sem maiores dificuldades. Em complementação a essa experiência, elas introduziram no seu corpo um conjunto de criaturas especiais...
Ellie parou e viu que Richard e Nicole a olhavam espantados.
— Então você é uma espécie de híbrido? — perguntou Richard.
— Um pouco, talvez — disse Ellie rindo para diminuir a tensão. — Se entendi bem, só uns mil dos três bilhões de quilobases que definem meu genoma foram alterados... E, por falar nisso, Archie e as octoaranhas querem comprovar, para a pesquisa científica delas, que sou de fato o resultado de um esperma alterado. Elas querem tirar amostras do sangue e de outras células suas para poderem concluir, sem sombra de dúvida, que eu não poderia vir de uma união "normal" de vocês dois. Assim, elas saberiam ao certo que minha facilidade para a língua delas foi realmente trabalhada, e não apenas uma sorte incrível.
— Que diferença faz a essa altura? — perguntou Richard. — Acho que o importante é você poder se comunicar...
— Estou surpresa com você, papai; logo você, que sempre foi um entusiasta do conhecimento... Para a sociedade das octoaranhas as, informações são o ponto alto da escala de valores. Elas já estão quase certas, em função dos testes que fizeram em mim e dos arquivos das octoaranhas dissidentes, de que sou o resultado de um esperma alterado. E, se examinarem seus genomas com detalhe, isso poderá ser confirmado.
— Tudo bem, estou às ordens — falou Nicole um pouco hesitante, abraçando Ellie. — De qualquer forma que você tenha sido alterada, você é minha filha e eu a amo de todo o meu coração. E estou certa de que seu pai também vai concordar, depois de pensar um pouco sobre o assunto — concluiu Nicole, olhando para Richard.
Nicole sorriu para Archie, e a octoaranha soltou o raio vermelho seguido de um azul-cobalto e um amarelo brilhante, o que queria dizer "Obrigado" na sua língua.
Na manhã seguinte, Nicole achou que deveria ter feito mais perguntas antes de se propor a ajudar as octoaranhas em sua pesquisa científica. Logo depois do café da manhã, duas outras octoaranhas vieram reunir-se a Archie, o permanente companheiro alienígena, na pequena suíte dos humanos. Um dos recém-chegados, apresentado por Ellie como o "dr. Azul", um acadêmico de medicina muito influente, explicou o que iria ocorrer. O procedimento com Richard seria simples e direto. As octos só necessitavam de dados sobre Richard que corroborassem o arquivo histórico de sua visita à colônia dissidente anos atrás.
Quanto a Nicole, no banco de dados das octoaranhas não havia informações fisiológicas sobre ela. Mas as octos já sabiam, através dos exames detalhados feitos em Ellie, que a forma pela qual as características genéticas dos humanos se expressam é dominada pela contribuição da mãe à sua descendência. Por isso, seria necessário um procedimento muito mais elaborado. O dr. Azul propôs fazer uma complexa série de testes em Nicole, dos quais o mais importante era juntar dados dentro do seu corpo por meio de uma dúzia de criaturas mínimas espiraladas, com cerca de dois centímetros de comprimento e da espessura de um alfinete. Quando o médico octoaranha pegou uma sacola de plástico e Nicole viu as criaturazinhas que seriam introduzidas em seu corpo, ela se encolheu, horrorizada.
— Mas eu achei que vocês só precisariam do meu código genético — disse Nicole —, e isso está contido em todas as células... Não deve ser necessário...
Cores brilhantes circundaram a cabeça do dr. Azul quando ele interrompeu a parte final do protesto de Nicole.
— Nossas técnicas para extrair as informações do seu genoma — traduziu Ellie — ainda não são muito avançadas. Nossos métodos funcionam melhor se tivermos várias células de vários órgãos e subsistemas biológicos diferentes.
Depois, o médico agradeceu gentilmente a Nicole por sua cooperação, terminando com a seqüência de raios azul-cobalto e amarelo brilhante, que ela já tinha aprendido a interpretar. O azul do "obrigado" desceu pela lateral da cabeça do dr. Azul, produzindo um efeito tão bonito que distraiu a atenção da lingüista que havia dentro de Nicole. Manter essas faixas coloridas de forma regular deve ser um comportamento adquirido, pensou ela. E nosso doutor tem algum tipo de dificuldade de fala.
Mas a atenção de Nicole voltou-se forçosamente para o procedimento a ser iniciado, logo depois que o dr. Azul explicou que as criaturas enrascadas correriam por debaixo de sua pele e para dentro do seu corpo, aí permanecendo durante meia hora. Ai, pensou Nicole imediatamente, elas parecem sanguessugas.
Uma foi colocada no seu antebraço, e Nicole levantou o braço para ver o animalzinho abrir caminho £>ela sua pele. Nicole não sentiu nada enquanto estava sendo invadida, mas quando o bichinho desapareceu lá por dentro ela estremeceu sem querer.
Disseram para Nicole deitar-se de costas, e o dr. Azul mostrou-lhe duas criaturas, uma vermelha e uma azul, com oito patinhas e do tamanho de uma mosca.
— Talvez a senhora venha a sentir um certo desconforto — disse o médico através de Ellie — quando as criaturas espiraladas chegarem aos seus órgãos internos. Esses bichinhos podem ser usados como anestesia se a senhora quiser ser aliviada da dor.
Menos de um minuto depois, Nicole sentiu uma picada aguda no peito. Era como se alguma coisa estivesse cortando uma das câmaras do seu coração. Quando o dr. Azul viu o rosto de Nicole vincado de dor, ele colocou as duas moscas anestésicas no seu pescoço e em poucos segundos ela entrou num estado peculiar, entre a vigília e o sonho. Ainda ouvia a voz de Ellie explicando o que estava acontecendo, mas não sentia mais nada dentro do seu corpo.
Nicole se descobriu fixando o olhar na frente da cabeça do dr. Azul, que supervisionava todo o procedimento. Para seu grande espanto, ela achou que estava começando a reconhecer expressões de emoção nas rugas do rosto da octoaranha. Lembrou-se de que quando era criança teve certeza de ter visto seu cachorro sorrir. Há muita coisa para ver, pensou ela com seu espírito flutuante, muito mais do que a gente costuma ver.
Nicole teve uma imensa sensação de paz. Fechou os olhos um instante e quando os abriu de novo se viu como uma meninazinha de dez anos, chorando ao lado do pai quando a tumba de sua mãe foi sendo consumida pelas chamas em uma cerimônia de funeral adequada à rainha Senoufo. Seu velho avô Omeh, com uma máscara para espantar os demônios que tentassem acompanhar a mãe de Nicole na sua vida no além, aproximou-se e pegou sua mão.
— A profecia se realizou, Ronata — disse ele, usando o nome senoufo de Nicole —, nosso sangue foi espalhado pelas estrelas.
A máscara do xamã desapareceu e Nicole viu outro conjunto de cores em volta da cabeça do dr. Azul e ouviu a voz de Ellie. Minha filha é híbrida, pensou ela sem emoção. Eu gerei uma coisa mais que humana. Uma novo tipo de evolução teve início.
Seu espírito ficou flutuando de novo e ela sentiu-se como um pássaro voando alto na escuridão acima das savanas da Costa do Marfim. Nicole tinha saído da Terra, virado as costas para o Sol, e passado como um foguete pelo vazio mais além do sistema solar. E ela via claramente o rosto de Omeh.
— Ronata — chamava ele no céu escuro da Costa do Marfim —, não se esqueça. Você foi a escolhida.
E ele poderia saber disso, pensou Nicole, ainda na zona fronteiriça da vigília, há tantos anos, lá na África, na Terra? E se soube, como foi possível? Ou será que há ainda outra dimensão que estamos apenas começando a compreender?
Richard e Nicole estavam sentados na semi-escuridão, temporariamente sozinhos. Ellie e Eponine tinham saído com Archie para fazer os preparativos para a viagem de volta na manhã seguinte.
— Você andou muito quieta o dia inteiro — disse Richard.
— É, estou me sentindo esquisita, como se estivesse drogada, desde aquela última intervenção de hoje de manhã... Minha memória está muito ativada. Tenho pensado nos meus pais e em Omeh. E estou tendo visões que costumava ter anos atrás.
— Você ficou surpresa com o resultado dos testes? — perguntou Richard depois de um instante de silêncio.
— Não muito. Acho que tanta coisa já nos aconteceu... E ainda me lembro de quando Ellie foi concebida... Você ainda não tinha voltado completamente a ser você próprio.
— Conversei muito com Ellie e Eponine esta tarde, enquanto você estava dormindo. As mudanças que as octoaranhas induziram em Ellie são permanentes, como mutações. Nikki provavelmente tem algumas dessas características; depende da exata mistura genética. É claro que a dela será diluída ao longo de outra geração...
Richard não terminou seu pensamento. Deu um bocejo e pegou a mão de Nicole. Os dois ficaram quietos durante vários minutos, até Nicole quebrar o silêncio.
— Richard, você se lembra de eu ter falado sobre as histórias dos senoufos? Sobre a mulher da tribo, a filha de uma rainha, que diziam que levaria o sangue senoufo "até as estrelas"?
— Vagamente — respondeu Richard. — Já faz muito tempo que conversamos sobre isso.
— Omeh tinha certeza de que eu era a mulher dessa história... "a mulher sem companhia", como ele dizia... Você acredita que há alguma possibilidade de se poder conhecer o futuro?
Richard riu.
— Tudo na natureza segue certas leis. Essas leis podem ser expressas como equações diferenciais no tempo. Se soubermos precisamente as condições iniciais do sistema em uma certa época e as equações exatas que representam as leis da natureza, então teoricamente podemos predizer todos os acontecimentos futuros. Mas é claro que não podemos, pois nosso conhecimento é sempre imperfeito, e as regras do caos limitam a aplicabilidade de nossas técnicas de avaliação...
— Suponha — disse Nicole, apoiando-se no cotovelo — que houvesse indivíduos ou até mesmo grupos que não conhecessem matemática, mas pudessem de certa forma ver ou sentir as leis e as condições iniciais que você mencionou. Será que eles solucionariam intuitivamente pelo menos parte das equações e prediriam o futuro através de um insight que não podemos modelar nem quantificar?