A Revelação de Rama
Capítulo 6
Nicole reconheceu para si mesma que não era provável que uma criação tão fantástica como Nodo tivesse sido duplicada bilhões de vezes em algum grande processo cósmico de montagem. A hipótese de Richard fazia mais sentido. Mas, ela pensou depressa, era muito triste que nossa entrada no Banco Galático de Dados contivesse tantas informações negativas.
— Então onde as aves, os sésseis e nossas velhas amigas, as octoaranhas, se encaixam nesse cenário? — perguntou Nicole um pouco depois. — São apenas parte da mesma experiência, como nós?... E se for assim, você está sugerindo que há também um colônia de octos a bordo, só que ainda não topamos com ela?
Richard fez que sim.
— Essa conclusão é inevitável. Se a fase final de cada experiência for observar uma amostra representativa dos viajantes espaciais sob condições controladas, faz sentido as octos estarem aqui também... — disse ele, dando um sorriso nervoso. — Talvez até alguns dos nossos amigos de Rama II estejam na nave espacial conosco neste exato momento.
— Como você tem idéias incríveis antes de dormir — disse Nicole sorrindo. — Se você estiver certo, nós dois temos mais quinze anos para passar em uma nave espacial habitada não só por seres humanos que querem nos capturar e matar, mas também por aracnídeos possivelmente inteligentes, cuja natureza não compreendemos.
— Lembre-se — disse Richard dando uma risadinha — que eu posso estar errado.
Nicole levantou-se e caminhou para a porta.
— Para onde você está indo? — perguntou Richard.
— Para a cama — respondeu ela rindo. — Acho que vou ter uma dor de cabeça. Só consigo contemplar o infinito durante um tempo finito.
6
Na manhã seguinte, quando Nicole abriu os olhos, Richard estava a seu lado segurando duas mochilas.
— Vamos explorar e procurar octoaranhas — disse ele animado — por trás da tela preta... Deixei comida e água para Tammy e Timmy para dois dias, e programei Joana e Eleonor para entrarem em contato conosco em caso de emergência.
Nicole ficou observando o marido enquanto tomava o café da manhã. Os olhos dele estavam cheios de energia e de vida. Este é o Richard de quem me lembro melhor, pensou consigo mesma. Aventura sempre foi a coisa mais importante para ele.
— Voltei aqui duas vezes — disse Richard, assim que se enfiaram por baixo da tela levantada. — Mas nunca cheguei ao final dessa primeira passagem.
A tela se fechou por trás deles, deixando-os no escuro.
— Não há perigo de ficarmos presos aqui desse lado, há? — perguntou Nicole, enquanto eles checavam suas lanternas.
— De jeito nenhum. A tela só se levanta ou abaixa a cada minuto mais ou menos. Mas se alguém ou alguma coisa ainda estiver nessa área daqui a um minuto, a tela se levanta automaticamente.
— Quero avisar antes de começarmos a andar — continuou ele um pouco depois. — Essa passagem é muito longa. Já segui um quilômetro por aqui antes, mas não encontrei nada. Nem mesmo um desvio. Não há luz de espécie alguma. Portanto, a primeira parte vai ser muito monótona, mas tem de nos levar a alguma coisa; os biotas que trazem nossas provisões devem passar por esse caminho.
Nicole pegou a mão dele:
— Lembre-se, Richard, que não somos mais tão moços como antes. Richard iluminou com a lanterna o cabelo de Nicole, que estava completamente grisalho, e depois sua própria barba grisalha.
— Nós somos um casal de velhos medrosos, não é? — perguntou, contente.
— Fale por você mesmo — disse Nicole, apertando a mão dele.
A passagem tinha muito mais de um quilômetro. Richard e Nicole iam andando e conversando sobre suas assombrosas experiências no segundo habitat.
— Fiquei absolutamente apavorado quando a porta do elevador abriu e eu vi os myrmigatos pela primeira vez — disse Richard.
Ele descreveu para Nicole sua estada com as aves, e começou a contar sobre a hora em que desceu até o fundo do cilindro.
— Fiquei literalmente congelado de medo. Os myrmigatos estavam a três ou quatro metros de distância, olhando fixamente para mim. O líquido cremoso de seus enormes olhos inferiores ovais movia-se de um lado para o outro, e os dois olhos superiores nos pedículos giravam em redor para me verem de outra perspectiva. Nunca me esquecerei daquele momento.
— Agora vou ver se entendi bem a biologia — disse Nicole um instante depois, quando eles se aproximaram do que parecia ser uns galhos no corredor subterrâneo. — Os myrmigatos se desenvolvem nos melões-maná, vivem pouco, mas sua vida é muito ativa, e morrem dentro de um séssil, onde todas as suas experiências de vida, como diz você em teoria, são acrescentadas à base da rede neural do conhecimento. O ciclo vital se completa quando os melões-maná crescem no interior dos sésseis. Essas criaturas são então colhidas na época apropriada pela população myrmigática ativa.
Richard fez que sim.
— Talvez não seja exatamente assim, mas deve ser quase isso.
— Então o que nos falta são apenas as condições necessárias para que os melões-maná comecem seu processo de germinação?
— Eu gostaria que você me ajudasse nesse quebra-cabeça — disse Richard. — Afinal, doutora, você é a única de nós que tem treinamento formal em biologia.
O corredor abriu-se em um Y, cada uma das extremidades formando um ângulo de quarenta e cinco graus com a passagem longa e reta que saía da toca deles.
— Qual é o caminho, Cosmonauta dos Jardins? — perguntou Richard com um sorriso, iluminando com a lanterna as duas direções. Os dois túneis não apresentavam nenhuma diferença.
— Vamos primeiro à esquerda — disse Nicole, um instante depois de Richard desenhar um mapa em seu computador portátil. O caminho da esquerda começou a mudar umas centenas de metros depois. O corredor se alargou formando uma rampa, que descia em espiral em torno de um poste muito grosso, até pelo menos uns cem metros de profundidade na concha de Rama. A medida que eles desciam, iam vendo as luzes lá embaixo. No fundo encontraram um canal longo e amplo com margens planas e largas. A esquerda viram um par de biotas-caranguejos fugindo deles no lado oposto do canal, e também uma ponte a distância, para além dos biotas. A direita, uma barcaça passava pelo canal, levando uma carga de objetos desconhecidos e variados, cinzentos, pretos e brancos, para algum destino naquele mundo subterrâneo.
Richard e Nicole observaram a cena em volta e depois se entreolharam.
— Chegamos ao mundo encantado de Alice — disse Richard com uma risadinha. — Por que não comemos alguma coisa enquanto eu estudo toda essa área no meu fiel computador?
Enquanto os dois comiam, um biota-centopéia aproximou-se do lado do canal onde eles estavam, parou um instante como que examinando-os e afastou-se, subindo a rampa que Nicole e Richard tinham acabado de descer.
— Você viu algum biota-caranguejo ou centopéia no segundo habitat? — perguntou Nicole.
— Não — respondeu Richard.
— E nós os tiramos propositalmente dos planos para o Novo Éden, não foi? Richard riu.
— Foi mesmo. Você convenceu a Águia e a mim que os seres humanos comuns não saberiam lidar bem com eles.
— Então a presença deles aqui significa que há um terceiro habitat? — perguntou Nicole.
— Possivelmente. Afinal de contas, não temos idéia do que há agora no Hemicilindro Sul. Não vamos lá desde que Rama foi remodelada. Mas pode haver uma outra explicação. Talvez caranguejos, centopéias e outros biotas ramaianos simplesmente façam parte do território, se é que você me compreende. Talvez estejam funcionando em todas as partes de Rama, em todas as viagens, a menos que tenham sido especificamente proscritos por um determinado viajante espacial.
Quando Richard e Nicole terminaram a refeição, uma outra barcaça apareceu à esquerda. Como a anterior, estava carregada de objetos brancos, pretos e cinzentos.
— Esses objetos são diferentes dos primeiros — observou Nicole. — Aquelas pilhas me fazem lembrar as peças sobressalentes dos biotas-centopéias que foram guardadas na minha cova.
— Talvez você esteja certa — falou Richard ficando de pé. — Vamos seguir o canal para ver onde ele vai dar. — Olhou em volta, primeiro para o teto arqueado de dez metros e depois para a rampa que ficara para trás.
— A não ser que eu tenha cometido um erro no computador ou que o mar Cilíndrico seja muito mais fundo do que eu pensava, esse canal corre do sul para o norte, por baixo do próprio mar.
— Então, se seguirmos a barcaça, voltaremos para o Hemicilindro Norte? — perguntou Nicole.
— Creio que sim — respondeu Richard.
Os dois seguiram o canal durante mais de duas horas. Exceto três biotas-aranhas que se moviam rapidamente juntas na margem oposta, Richard e Nicole não viram nada de novo. Duas outras barcaças passaram com o mesmo tipo de carga, e eles de vez em quando encontravam biotas-centopéias e biotas-caranguejos, com os quais não estabeleceram qualquer interação. Então caminharam ao longo de mais uma ponte sobre o canal.
Richard e Nicole descansaram duas vezes, para beber água ou fazer um lanche enquanto conversavam. Na segunda parada, Nicole sugeriu que seria melhor voltarem. Richard olhou e relógio e falou:
— Vamos ficar mais uma hora. Se meu senso de direção estiver certo, já devemos estar debaixo do Hemicilindro Norte. Mais cedo ou mais tarde, vamos descobrir para onde aquelas barcaças estão carregando todas aquelas coisas.
Richard estava certo. Depois de caminharem mais um quilômetro ao longo do canal, viram, a distância, uma grande estrutura pentagonal. Ao chegarem mais perto, notaram que o canal seguia diretamente para o centro do pentágono. O prédio em si tinha seis metros de altura, com um telhado chato, sem janelas, e o lado de fora pintado de um branco cremoso. Cada uma das suas cinco seções ou alas estendia-se uns vinte a trinta metros a partir do centro da estrutura.
A calçada ao longo do canal terminava em uma escada que subia para uma pista que circundava todo o pentágono. Do outro lado do canal havia uma configuração semelhante; um biota-centopéia estava usando a pista como ponte para mudar de um lado do canal para o outro.
— Onde você acha que ele está indo? — perguntou Nicole quando os dois chegaram para o lado a fim de dar passagem ao biota.
— Talvez para Nova York. Nas minhas longas caminhadas antes das aves saírem da casca, eu às vezes via uma delas a distância.
Os dois pararam em frente à única porta que dava para o pentágono, que ficava do lado do canal.
— Nós vamos entrar?
Richard fez que sim e empurrou a portinha. Nicole abaixou-se e entrou no prédio. Os dois se viram em uma sala grande e bem iluminada, com um total aproximado de mil metros cúbicos e um teto de cinco metros de altura. O passadiço ficava uns dois ou três metros acima do chão, de modo que Richard e Nicole podiam observar a atividade que ocorria lá embaixo. Operários biotas robôs que eles nunca haviam visto antes, programados para uma tarefa especializada, descarregavam as duas barcaças na sala e separavam a carga de acordo com um plano predefinido. Muitas peças separadas das pilhas eram colocadas em caminhões-biotas, que desapareciam por uma das portas do fundo assim que ficavam lotados.
Depois de observarem tudo por um instante, Richard e Nicole continuaram andando pelo passadiço até onde ele se cruzava com outro caminho, logo acima do centro da sala. Richard parou e fez umas anotações no computador.
— Espero que a planta do prédio seja simples como parece — disse a Nicole. — Seguindo à direita ou à esquerda, chegaremos em outra ala do pentágono.
Nicole resolveu ir pela direita, porque os caminhões-biotas que ela achava que carregavam peças para o biota-centopéia tinham seguido naquela direção. Suas observações estavam corretas. Logo depois que ela e Richard entraram na segunda sala, exatamente do mesmo tamanho da primeira, perceberam que os biotas-centopéias e caranguejos eram fabricados no chão abaixo deles. Os dois pararam durante uns minutos para observar o processo.
— Absolutamente fascinante — disse Richard, terminando o diagrama da fábrica de biotas no computador. — Você está pronta para continuar?
Quando Richard se virou para Nicole, ela viu que os olhos dele estavam arregalados.
— Não olhe agora — disse ele logo depois —, mas temos companhia. Nicole girou nos calcanhares e deu uma olhada em volta. Do outro lado da sala, a quarenta metros de distância, um par de octoaranhas aproximava-se lentamente pelo passadiço. Richard e Nicole não tinham ouvido o barulho característico delas, semelhante a escovas metálicas sendo arrastadas, devido ao barulho da fábrica de biotas.
As octoaranhas pararam quando notaram que os humanos as tinham visto. O coração de Nicole começou a bater forte quando ela se lembrou do seu último encontro com uma octoaranha, quando teve de tirar Katie da toca delas em Rama II. Naquele dia, como agora, seu primeiro impulso tinha sido fugir.
Ela agarrou a mão de Richard e os dois ficaram olhando para os alienígenas.
— Vamos embora — disse Nicole.
— Estou com tanto medo quanto você — disse Richard —, mas vamos ficar mais um pouco. Elas não estão se mexendo. Quero ver o que vão fazer.
Richard concentrou-se na octoaranha de chumbo e tentou gravar na cabeça a forma dela. Seu corpo principal, quase esférico, era cinza-grafite, com cerca de um metro de diâmetro, tendo como único detalhe um corte de alto a baixo, de vinte a vinte e cinco centímetros, onde o corpo se abria em oito tentáculos pretos e dourados, com dois metros de comprimento cada, espalhados pelo chão. Dentro do corte vertical viam-se muitos botões e dobras desconhecidos (certamente sensores, pensou Richard), sendo o maior deles uma grande lente retangular contendo uma espécie de líquido.
Quando os dois seres se olharam pela sala, uma larga faixa de um roxo brilhante clareou a cabeça da octoaranha de chumbo. Essa faixa de luz, saída de uma das pontas paralelas do corte vertical, moveu-se em torno da cabeça da octoaranha e desapareceu no lado oposto do corte. Uns segundos depois apareceu uma faixa colorida formada de vermelho, verde e umas faixas sem cor, que seguiu o mesmo trajeto em volta da cabeça da octoaranha.
— Foi exatamente o que aconteceu quando aquela octoaranha confrontou-se comigo e com Katie — disse Nicole nervosa. — Ela disse que estava falando conosco.
— Mas não temos como saber o que ela está dizendo — retrucou Richard. — O fato de ela poder falar não quer dizer que não vai nos agredir...
Enquanto a ocotoaranha de chumbo continuava com sua conversa colorida, Richard lembrou-se de repente de um episódio ocorrido com ele anos antes, durante sua odisséia em Rama II. Naquela dia, ele estava deitado numa mesa, rodeado de cinco a seis octos com as luzes coloridas por cima da cabeça. Ele se recordava bem do pânico que sentira ao ver umas criaturazinhas, aparentemente sob controle das octoaranhas, rastejarem pelo seu nariz.
A cabeça de Richard começou a latejar.
— Elas não foram muito gentis comigo — disse ele para Nicole. — Quando... Naquele instante a porta do outro lado da sala se abriu e mais quatro octoaranhas entraram.
— Já chega — disse Richard, sentindo a tensão de Nicole. — É bom irmos embora.
Os dois caminharam depressa pelo centro da sala, onde o passadiço, como na sala anterior, cruzava Com o caminho que dava do lado de fora do prédio. Viraram na direção da saída, mas, depois de darem alguns passos, pararam. Mais quatro octoaranhas estavam entrando pela porta da saída também.
Não havia muito o que fazer. Os dois giraram nos calcanhares, voltaram para o passadiço interno principal e correram na direção da terceira ala do pentágono sem olhar para trás, até entrarem na terceira ala. Essa parte do prédio estava absolutamente às escuras. Richard parou um instante para examinar a área com sua lanterna. Viram no chão abaixo deles um equipamento de aspecto sofisticado, mas não notaram nenhuma atividade.
— Será que devemos tentar sair de novo? — perguntou Richard guardando sua lanterna no bolso.
Ao ver Nicole fazendo que sim, pegou a mão dela e os dois correram para o cruzamento, onde viraram à direita e seguiram na direção da saída do pentágono.
Alguns instantes depois, encontraram-se em um corredor escuro, um território absolutamente desconhecido. Ambos estavam muito cansados, e Nicole sentia dificuldade para respirar.
— Richard, eu preciso descansar. Não posso continuar correndo assim. Richard e Nicole andaram uns cinqüenta metros pelo corredor escuro e vazio até que viram uma porta à esquerda. Richard abriu a porta com cuidado, olhou para dentro e examinou a sala com a lanterna.
— Deve ser uma espécie de depósito — disse. — Mas no momento está vazio.
Richard entrou na sala, olhou pela porta dos fundos e viu outra sala vazia. Voltou para onde Nicole estava e os dois se sentaram de costas para a parede.
— Quando voltarmos para nossa toca, querido — disse Nicole um pouco depois —, quero que você me ajude a checar meu coração. Tenho sentido umas dores esquisitas ultimamente.