A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 40 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 6

— Acho que eles se sentiram mais tranqüilos com o que o Chefe Otimizador me disse — Nicole comentou com o dr. Azul. — É claro que Max teve suas dúvidas... Ele não acredita que as octoaranhas darão prioridade à nossa segurança, caso a situação se torne desesperadora.

— Isso é muito pouco provável — replicou a octoaranha. — Qualquer retomada de hostilidades terá uma maciça retaliação... Muitas octoaranhas vêm trabalhando nesses planos há quase dois meses.

— Será que entendi bem? — perguntou Nicole. — É verdade que qualquer membro da sua espécie que se envolver no projeto e na realização dessa guerra será exterminado quando a guerra acabar?

— É isso mesmo — respondeu o dr. Azul. — Mas eles não serão mortos imediatamente... Serão notificados de que foram colocados na lista de exter-mínio... O novo Chefe Otimizador definirá o programa exato do extermínio, dependendo das necessidades da colônia e do ritmo do reabastecimento.

Nicole e seu colega octoaranha estavam almoçando juntos no hospital. Eles tinham passado a manhã tentando em vão salvar a vida de duas criaturas utilitárias de seis braços, que haviam sido feridas pelas tropas dos humanos enquanto trabalhavam em uma das plantações remanescentes de cereais, ao norte da floresta.

Durante o almoço, um biota centopéia apareceu no corredor ao lado deles, e o dr. Azul notou o ar intrigado de Nicole.

— Quando entramos em Rama, antes de preenchermos todo o nosso quadro de animais de apoio, nós usávamos os biotas disponíveis nas tarefas de rotina, como manutenção... Agora estamos precisando da ajuda deles de novo.

— Mas como o senhor lhes dá instruções? — perguntou Nicole. — Nós nunca conseguimos nos comunicar com esses biotas.

— A programação deles é feita na hora em que são fabricados... O que fazíamos antigamente, com um tipo de teclado semelhante ao que você tem na sua toca, era pedir aos ramaianos que alterassem a programação deles para nosso uso específico... É para isso que todos os biotas estão aqui... para serem transformados em empregados úteis pelos passageiros a bordo.

Bem, Richard, pensou Nicole, pelo menos esse conceito nós não conhecíamos. Na verdade, acho que essa idéia nunca nos ocorreu...

— ...Queríamos que nosso assentamento aqui em Rama não se distin-guisse de todas as nossas outras colônias — dizia o dr. Azul. — Portanto, como não precisamos mais dos biotas, pedimos que eles fossem então retirados do nosso território em Rama.

— E desde então vocês não tiveram mais nenhum contato direto com os ramaianos?

— Não muito — respondeu o dr. Azul. — Mas mantivemos a possibilidade de comunicação com as fábricas de alta tecnologia, debaixo da superfície... basicamente para podermos solicitar a fabricação de certas matérias-primas que não temos em nossos armazéns...

Uma porta do corredor abriu-se e uma octoaranha entrou. Ela falou ra-pidamente com o dr. Azul em sua língua oficial, com faixas coloridas muito estreitas. Nicole reconheceu as palavras permissão e esta tarde, mas quase nada além disso.

Depois que a octoaranha saiu, o dr. Azul disse a Nicole que tinha uma surpresa para ela.

— Hoje uma das nossas rainhas vai expelir o ovo. Seus atendentes calcu-lam que isso vá acontecer em menos de um tert. O Chefe Otimizador atendeu o meu pedido para você assistir... Ao que eu saiba, você é a única alienígena, fora os precursores, que teve o privilégio de assistir à rainha expelindo o ovo... Penso que vai achar interessante.

Durante o percurso no transporte até o Domínio das Rainhas, em uma parte da Cidade de Esmeralda onde Nicole nunca estivera, o dr. Azul lembrou-lhe alguns dos aspectos mais inusitados da reprodução das octoaranhas.

— Em tempos normais, cada uma das três rainhas da nossa colônia é fertilizada uma vez a cada três ou cinco anos, e só uma pequena fração dos ovos fertilizados chega à maturidade. Porém, em razão dos preparativos de guerra, o Chefe Otimizador declarou recentemente um Evento de Reabastecimento. Nossas três rainhas estão agora produzindo um conjunto completo de ovos. Elas foram fertilizadas pelos novos machos guerreiros, as octoaranhas selecionadas para os preparativos de guerra que passaram recentemente pela transição sexual. Essa atividade é muito importante, pois garante, ao menos simbolicamente, que todas essas octoaranhas terão um permanente envolvimento genético na colônia... Lembre-se de que eles sabem, assim que são indicados como guerreiros, que seu tempo de extermínio não está muito longe.

Sempre que penso que temos muito em comum com as octoaranhas, refletiu Nicole, vejo alguma coisa bizarra que me faz lembrar como somos diferentes. Mas, como diria Richard, como poderia ser de outra forma? Elas são produto de um processo totalmente alheio a nós.

— ...Não fique alarmada com o tamanho da rainha... e, por favor, em nenhuma circunstância expresse outra coisa senão admiração pelo que vir. Quando sugeri que você assistisse à expulsão do ovo, um dos membros da equipe do Chefe Otimizador fez objeção, e disse que não havia hipótese de você poder apreciar o que iria ver. Outros membros da equipe ficaram receosos de que você manifestasse mal-estar ou nojo, influenciando negativamente outras octoaranhas que ainda deveriam passar por aquela experiência...

Nicole garantiu ao dr. Azul que ela não agiria de forma inconveniente durante a cerimônia. Sentiu-se envaidecida por ter sido incluída naquela atividade, e ficou muito agitada quando o carro de transporte deixou-os do lado de fora do grossos muros do Domínio das Rainhas.

O prédio em que ela entrou com o dr. Azul era construído em pedra branca, com teto em forma de cúpula, pé-direito de uns dez metros, e cobria uma área de aproximadamente três mil e quinhentos metros quadrados. Havia um grande mapa no hall de entrada e uma mensagem escrita em cores explicando onde teria lugar a expulsão do ovo. Nicole, o dr. Azul e várias outras octoaranhas subiram duas rampas e depois desceram por um longo corredor. No final desse corredor viraram à direita e chegaram a um balcão, quatro metros acima de uma área retangular de quinze metros de comprimento e cinco a seis de largura.

O dr. Azul levou Nicole para a primeira fila, protegida por uma balaustrada de um metro de altura. As outras cinco filas por trás deles ficaram logo lotadas. Do outro lado havia outro balcão semelhante, onde se aglomeravam umas sessenta octoaranhas.

Ao olhar para baixo, Nicole viu um curso de água parecendo um amplo canal, que corria pelo chão e desaparecia sob um arco à direita. Dos dois lados do canal havia um passadiço estreito. Mas, do lado oposto, esse passadiço alargava-se e acabava numa plataforma de cerca de três metros, que terminava na parede de pedra à esquerda da grande sala. Nessa parede, pintada com várias cores e desenhos variados, embutiam-se uns cem bastões de prata, ou pregos, com um metro de saliência da parede. Nicole percebeu imediatamente a semelhança entre essa parede e o corredor em declive e forma de barril por onde ela e seus amigos tinham descido na toca das octoaranhas em Nova York.

Menos de dez minutos depois de os dois balcões ficarem lotados, o Chefe Otimizador apareceu de uma porta lateral lá embaixo, postou-se ao lado do canal e fez um curto discurso. O dr. Azul esclareceu as partes do discurso que Nicole não conseguiu interpretar. O Chefe Otimizador lembrava à platéia que nunca se sabia o tempo exato para a expulsão do ovo, mas que tudo indicava que a rainha estaria pronta para entrar na sala dentro de mais uns fengs. Depois de comentar a importância vital do reabastecimento para a continuidade da colônia, o Chefe Otimizador saiu da sala.

E teve início a espera. Nicole passou o tempo observando as octoaranhas do balcão em frente e tentando ouvir as conversas. Ela compreendia um pouco do que estava sendo dito, mas não tudo. E pensou consigo mesma que ainda tinha muito a aprender antes de se tornar fluente na língua natural das octoaranhas.

Finalmente as grandes portas da extrema esquerda do corredor abriram-se e a rainha apareceu. Ela era colossal, com pelo menos seis metros de altura e um corpo gigantesco acima dos seus oito longos tentáculos. Parou na plataforma e disse alguma coisa para a platéia. Cores brilhantes espalharam-se em profusão por todo o seu corpo, criando um verdadeiro espetáculo. Nicole não entendeu o que a rainha estava dizendo porque não conseguiu acompanhar a seqüência exata das cores que saíam de sua fenda.

A rainha virou-se lentamente para a parede, estendeu seus tentáculos e deu início ao trabalhoso processo de subir pelos pregos. Ao longo da escalada, desordenadas explosões de cor decoraram seu corpo. Nicole supôs que fossem algum tipo de expressão emocional, talvez de dor ou de cansaço. Ao olhar novamente para o outro balcão, notou que ninguém conversava na platéia.

Quando finalmente se posicionou no centro da parede, a rainha enrolou os oito tentáculos em volta dos pregos e expôs sua barriga de cor creme. O trabalho de Nicole no hospital deixara-a familiarizada com a anatomia das octoaranhas, mas ela nunca imaginara que o tecido macio debaixo da barriga delas pudesse se distender tanto. Enquanto Nicole observava, a rainha começou a balançar-se ligeiramente para a frente e para trás, fazendo a parede de pedra vibrar a cada movimento. As cores emocionais continuaram a jorrar do seu corpo, chegando ao auge de intensidade quando um líquido preto esverdeado escorreu da lateral da rainha, seguido imediatamente de um fluxo de objetos de tamanhos diferentes contidos em um líquido grosso e viscoso.

Nicole estava estupefata. Abaixo dela, umas doze octoaranhas espalhadas dos dois lados do canal faziam cair na água uns ovos e parte do líquido que se encontravam nos passadiços. Outras oito octoaranhas esvaziavam na água o conteúdo de imensos containers. A água fervilhava de sangue, de ovos e do líquido viscoso misturado aos ovos. Em menos de um minuto, toda aquela mistura que sujava o canal passou por baixo do arco à direita.

A rainha continuava na mesma posição. Depois que a água ficou limpa, todas as lentes viraram-se para olhá-la. Nicole ficou espantada ao ver como a octoaranha tinha encolhido. Calculou que a rainha havia perdido metade do seu peso na fração de segundo que o ovo e os líquidos levaram para sair do seu corpo. Ainda estava sangrando quando duas octoaranhas de tamanho normal subiram na parede para lhe dar assistência. A essa altura, o dr. Azul bateu no ombro de Nicole, em sinal de que estava na hora de irem embora.

 

Sentada sozinha em uma das salinhas do hospital das octoaranhas, Nicole lembrava-se sem parar da cena da expulsão do ovo. Não tinha imaginado que aquele acontecimento pudesse afetá-la tanto, do ponto de vista emocional. Nicole ouviu só a metade das explicações do dr. Azul quando voltavam para o hospital. Os containers esvaziados no canal continham animaizinhos que iriam procurar e matar embriões específicos. Daquela forma, as octoaranhas controlavam a composição exata da próxima geração, inclusive o número de rainhas, de "repletas", de morfoses midgets e todas as outras variações.

A mãe dentro de Nicole lutava para compreender o que uma rainha octoaranha deveria sentir durante a expulsão do ovo. De certa forma, Nicole sentia-se profundamente ligada àquela criatura colossal que tinha subido nos pregos das paredes. No instante da expulsão do ovo, o corpo de Nicole tinha se contraído, e ela se lembrara da dor e da alegria do parto de seus seis filhos. O que acontece no parto, pensou ela, que une todas as criaturas que já passaram por isso?

Lembrou-se de uma conversa, muito tempo atrás, em Rama II, com Michael O'Toole, depois que Simone e Katie tinham nascido, quando tentou lhe explicar o que a mulher sentia no parto. Depois daquela conversa ela concluíra, com certa relutância, que o parto era uma experiência impossível de ser transmitida de uma pessoa para outra. O mundo divide-se em dois grupos, dissera na época. O das mulheres que passaram pela experiência do parto e o das que não passaram. Agora, dezenas de anos depois e a bilhões de quilômetros de distância, ela gostaria de acrescentar um corolário a essa sua observação anterior. As mulheres que são mães têm mais em comum, fundamentalmente, com mães de outras espécies do que com mulheres humanas que nunca tiveram filhos.

Enquanto continuava a refletir sobre a cena que tinha presenciado, Nicole foi tomada por um desejo de comunicar-se com a rainha octoaranha, para saber o que aquela outra mãe inteligente sentiu e pensou imediatamente antes e durante a expulsão do ovo. Teria a rainha, em meio à dor e à maravilha do momento, sentido uma serenidade divina, uma visão da sua própria prole e da prole seguinte, continuando, no futuro imprevisto, o milagroso ciclo da vida? Teria sentido uma profunda e inefável paz logo depois da expulsão, uma paz que criatura alguma jamais sentiu senão logo após o parto?

Nicole sabia que aquela conversa imaginária com a rainha nunca aconte-ceria. Fechou os olhos mais uma vez, tentando reconstruir exatamente os jatos de cor que vira no corpo da rainha pouco antes e depois do acontecimento. Aquelas cores mostravam às outras octoaranhas o que a rainha estava sentindo? Através de sua rica linguagem de cores, as octoaranhas podiam comunicar sentimentos complexos como o êxtase, melhor do que os humanos com sua limitada linguagem de palavras?

Não houve respostas. De repente, Nicole lembrou-se de que tinha coisas a fazer no hospital das octoaranhas, mas que ainda não estava pronta para sair do seu isolamento. Não queria que as fortes emoções que estava sentindo fossem arrefecidas pelas exigências da vida diária.

Algum tempo depois, Nicole começou a sentir uma profunda solidão. A princípio não ligou essa solidão à expulsão do ovo. Mas sabia que estava sentindo um forte desejo de conversar com um amigo íntimo, de preferência Richard. Queria compartilhar com alguém o que tinha sentido e visto no Domínio da Rainha. No seu isolamento, Nicole lembrou-se de repente de umas linhas de um poema de Benita Garcia. Abriu seu computador portátil, e depois de muito procurar encontrou o poema inteiro.

 

Em momentos de profunda dúvida ou intensa dor,

Quando sou subjugada pela vida,

Procuro por todo lado possível

Caridosas almas com força para mitigar

O que me faz tremer, chorar e meditar.

Elas me dizem que não posso viver do meu jeito

Quando todos os meus sentimentos regem minha consciência.

Preciso me controlar antes do ato,

Ou aceitar o que há tanto tempo agüento,

Os dias brutais de solidão e cegueira.

 

Houve vezes, não muitas mas algumas,

Em que o bálsamo calmante de alguém

Pôs termo à minha angústia ou dor.

Mas a idade ensinou-me uma regra simples.

Dentro de mim preciso conter os gritos,

Quaisquer que sejam os demônios a enfrentar,

As lições aprendidas não mais serão perdidas.