A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 15 de 56

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A Revelação de Rama

A Operação Arco-Íris

 

 

1

 

Nicole estava deitada de costas, acordada no meio da noite. Na luz fraca do quarto ela via Richard dormindo profundamente ao seu lado. A uma certa altura ela levantou-se quietinha e atravessou o quarto, saindo para o grande salão da sua casa temporária.

O processo que controlava a iluminação facilitava o sono dos humanos, reduzindo consideravelmente a claridade da cúpula de arco-íris durante aproximadamente oito horas em cada período de vinte e quatro horas. Nesses intervalos de "noite", o salão debaixo da cúpula ficava ligeiramente iluminado, e os quartos individuais, incrustados nas paredes e sem luz própria, ficavam bem escuros e possibilitavam um sono reparador.

Durante várias noites consecutivas Nicole vinha dormindo mal, acordando no meio de sonhos aflitivos dos quais não conseguia se lembrar. Naquela noite específica, enquanto lutava em vão para recordar-se das imagens que haviam perturbado seu sonho, Nicole andou lentamente em volta do grande salão circular, no qual sua família e seus amigos passavam a maior parte do tempo. Na extremidade do salão, perto da plataforma vazia do metrô, parou e ficou olhando o túnel escuro que ia dar no mar Cilíndrico.

O que está acontecendo aqui?, pensou. Que poder ou inteligência estará nos mantendo agora?

Fazia quatro semanas que o pequeno contingente humano chegara àquela magnífica caverna construída por baixo do Hemicilindro Sul de Rama. As novas acomodações tinham sido projetadas especificamente para eles, com um considerável esforço. Os quartos e banheiros das alcovas eram semelhantes aos do Novo Éden. O primeiro trem de metrô que voltou depois de eles terem chegado à cúpula trouxera mais comida e água, e também sofás, cadeiras e mesas para mobiliar as salas. Os humanos receberam até pratos, copos e utensílios de cozinha. Quem-, ou o quê, sabia tanto sobre a atividade diária deles para lhes fornecer materiais tão detalhados?

É claro que foi alguém que vem nos observando cuidadosamente, pensou Nicole. Lembrou-se da Águia e percebeu que estava sendo otimista. Mas quem mais poderia ter sido? Só os ramaianos e a Inteligência Nodal têm bastante informação...

Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho vindo de trás. Nicole virou-se e viu Max Puckett chegando do outro lado do salão.

— Você também não consegue dormir? — perguntou ele ao chegar perto de Nicole.

Nicole sacudiu a cabeça.

— Nessas últimas noites tenho tido sonhos ruins.

— Eu continuo aflito com Eponine. Ainda vejo o terror nos olhos dela quando a levaram à força. — Max virou-se em silêncio e olhou para o túnel do metrô.

E você, Ellie, pensou Nicole, sentindo uma enorme ansiedade, está segura com as octoaranhas? Ou Max está certo a respeito delas? Richard e eu estamos fantasiando quando dizemos que as octos não pretendem nos fazer mal?

— Não consigo mais ficar aqui assim — disse Max para Nicole. — Preciso fazer alguma coisa para ajudar Eponine... Ou pelo menos me convencer de que estou tentando.

— Mas o que você pode fazer, Max? — perguntou Nicole depois de uma curta pausa.

— Nosso único contato com o mundo lá fora é esse maldito metrô — falou Max. — Da próxima vez em que o trem trouxer comida e água, que deve ser hoje à noite ou amanhã, vou entrar e esperar lá dentro até ele partir de novo. Só vou descer quando o trem parar, e então vou tentar encontrar uma octoaranha e fazer com que ela me capture.

Nicole percebeu o desespero no rosto do amigo.

— Isso é uma ilusão sua — disse ela com carinho. — Você só vai encontrar uma octoaranha se elas quiserem... Além do mais, nós precisamos de você...

— Que merda, Nicole, eu não sou necessário aqui — falou Max elevando a voz. — Não temos absolutamente nada para fazer, a não ser conversar e brincar com as crianças. Pelo menos na toca de vocês nós sempre podíamos dar uma volta em Nova York... Enquanto isso, Eponine e Ellie podem estar mortas, ou desejando estar. Está na hora de fazermos alguma coisa...

Enquanto Max falava surgiram as luzes a distância no túnel do metrô.

— Lá vem o trem de novo. — Eu te ajudo a descarregar depois que acabar de arrumar minhas coisas — disse Max, correndo para o seu quarto.

Nicole ficou esperando o trem se aproximar. Como sempre, as luzes apareciam na frente quando ele zunia pelo túnel. Uns minutos depois o trem entrou na sua fenda, uma incisão no chão circular, e parou abruptamente. Quando as portas se abriram, Nicole foi examinar o que havia lá dentro.

Além de quatro grandes potes de água havia uma quantidade de produtos frescos que os humanos tinham aprendido a comer e a gostar, e um tubo grande com uma substância pegajosa, com gosto de laranja e mel. Mas onde é plantada toda essa comida?, perguntou Nicole a si mesma pela centésima vez, enquanto descarregava os alimentos, lembrando-se das várias discussões familiares sobre o assunto. Todos acabavam sempre concluindo que devia haver grandes fazendas em algum lugar no Hemicilindro Sul.

Quanto a quem fornecia tudo aquilo para eles, cada um tinha uma opinião diferente. Richard tinha certeza de que eles eram alimentados pelas próprias octoaranhas, basicamente porque todos os alimentos passavam pelo território que ele considerava ser delas. Era difícil argumentar com essa lógica. Max concordava que os alimentos talvez fossem fornecidos pelas octos, mas achava que elas deviam ter segundas intenções. Não iriam alimentá-los com fins humanitários.

Por que as octoaranhas seriam nossas benfeitoras?, pensava Nicole. Eu concordo com Max quando ele diz que não faz sentido elas nos alimentarem e ao mesmo tempo raptarem Eponine e Ellie... Não poderia haver outra espécie interessada em interceder por nós? Apesar da caçoada de Richard quando os dois estavam na intimidade do seu quarto, uma parte de Nicole se prendia obstinadamente à idéia de que devia haver um "pessoal do arco-íris", hierarquicamente superior às octoaranhas e interessado na preservação dos humanos vulneráveis, e que eram eles quem ordenavam que as octoaranhas os alimentassem.

No meio das coisas trazidas no trem havia sempre uma surpresa. Dessa vez, no fundo do carro, Nicole viu seis bolas de vários tamanhos, cada uma com uma cor mais brilhante que a outra.

— Olhe, Max — disse Nicole, que tinha voltado com sua mochila e estava ajudando-a a esvaziar o carro. — Eles mandaram até bolas para as crianças brincarem.

— Que maravilha! — disse Max com sarcasmo. — Agora podemos apreciar as crianças brigarem para ver quem fica com a bola mais bonita.

Quando os dois terminaram de tirar tudo do carro, Max entrou e sentou-se no chão.

— Quanto tempo você vai esperar aí? — perguntou Nicole.

— O tempo que for preciso.

— Você contou o que vai fazer a alguma outra pessoa?

— É claro que não — respondeu Max com veemência. — Por que eu iria contar?... Nós não vivemos numa democracia aqui — disse ele, inclinando-se para a frente. — Desculpe, Nicole, mas eu estou enfurecido. Eponine foi raptada há um mês, meus cigarros acabaram, e eu me enfureço com facilidade. — Forçou um sorriso e continuou: — Clyde e Winona me diziam, quando eu agia assim, que meu pavio era muito curto.

— Tudo bem, Max — disse Nicole um pouco depois, abraçando-o antes de ir embora. — Espero que você não corra perigo aonde quer que resolva ir.

O trem não partiu, mas Max recusou-se a sair de lá até mesmo para ir ao banheiro. Seus amigos lhe levaram comida, água e o material necessário para que ele mantivesse o trem limpo. No final do terceiro dia, o suprimento alimentar começou a ficar escasso.

— Alguém precisa falar com Max — disse Robert aos adultos, depois que as crianças foram dormir. — Está claro que o trem não vai se mover do lugar enquanto ele estiver lá dentro.

— Estou pensando em discutir essa situação com ele amanhã de manhã — falou Nicole.

— Mas já estamos quase sem comida agora — protestou Robert. — E não sabemos quanto tempo leva...

— A gente pode racionar o que sobrou — interrompeu Richard — e fazer com que a comida dure pelo menos mais uns dois dias... Olhe, Robert, nós todos estamos tensos e cansados... É melhor falarmos com Max depois de uma boa noite de sono.

— E o que vamos fazer se Max se negar a sair do trem? — Richard perguntou a Nicole, quando eles ficaram sozinhos.

— Não sei. Patrick me fez essa mesma pergunta hoje à tarde... Ele está com medo do que poderá acontecer se tentarmos forçar Max a sair de lá... Patrick disse que Max está cansado e muito bravo.

Richard já tinha pegado no sono, mas Nicole continuou a fazer conjecturas sobre a situação de Max. Um confronto deve ser evitado a todo custo, pensou ela. Por isso é melhor eu falar com ele sozinha, sem ninguém por perto... Mas o que vou dizer? E como devo reagir se Max se negar a me atender?

Quando Nicole finalmente dormiu estava exausta. Mais uma vez seus sonhos foram aflitivos. No primeiro deles, a vila de Beauvois estava pegando fogo, e ela não conseguia encontrar Geneviève. De repente o sonho mudou e Nicole viu-se com sete anos, na Costa do Marfim, participando de uma cerimônia Poro. Ela nadava seminua no pequeno lago no centro de um oásis. Nas margens do lago havia uma leoa rondando, procurando a menina que tinha mexido no seu filhote. Quando Nicole subiu à tona para respirar a leoa tinha ido embora, mas três octoaranhas patrulhavam o lago.

— Mamãe, mamãe — Nicole ouviu Ellie dizendo.

Olhando por cima da água, Nicole tentou ver se havia alguém na margem do lago.

— Nós estamos bem, mamãe — dizia Ellie nitidamente. — Não se preocupe conosco.

Mas onde estava Ellie? Em seu sonho, Nicole viu uma silhueta humana na mata por trás de três octoaranhas, e chamou:

— Ellie, é você, Ellie?

A figura escura respondeu "Sou eu" com a voz de Ellie e afastou-se, ficando bastante visível à luz do luar. E Nicole reconheceu imediatamente aqueles dentes brancos e brilhantes.

— Omeh — gritou ela, com um arrepio na espinha. — Omeh... Nicole acordou com uma cutucada insistente, e viu Richard sentado na cama ao seu lado.

— Você está bem, querida? — perguntou ele. — Você estava gritando o nome de Ellie.... e de Omeh.

— Tive mais um dos meus pesadelos — falou Nicole levantando-se e vestindo a roupa. — Alguém me disse no sonho que Eponine e Ellie estão bem.

Quando Nicole terminou de se vestir, Richard perguntou:

— Aonde você vai a essa hora?

— Vou falar com Max — respondeu ela.

Nicole saiu depressa do banheiro, passou para o salão debaixo da cúpula, e ao olhar para cima viu uma coisa que não se lembrava de ter visto antes. Parecia um desembarcadouro ou uma plataforma, cortada uns sete metros abaixo da cúpula. Por que eu nunca vi aquilo antes?, ficou pensando enquanto corria para o metrô. Será que as sombras são diferentes durante o dia? Ou será que o desembarcadouro foi construído recentemente?

Max estava dormindo por cima de uma bola no canto do trem. Nicole entrou devagarinho e, antes de tocar nele, ouviu-o murmurar o nome de Eponine duas vezes e balançar a cabeça.

— Sim, querida — disse ele nitidamente.

— Max — chamou Nicole. — Acorde, Max. Quando ele acordou parecia ter visto um fantasma.

— Eu tive um sonho fantástico, Max — falou Nicole. — Agora sei que Ellie e Eponine estão bem... Vim pedir para você sair daqui para que eles nos mandem mais comida. Sei que você quer muito fazer alguma coisa...

Nicole parou. Max tinha se levantado e preparava-se para sair do trem, ainda com a mesma expressão assombrada no rosto.

— Vamos embora — disse ele.

— Agora mesmo? — perguntou Nicole surpresa, ao não encontrar resistência da parte dele.

— É — disse ele descendo do trem. Um instante depois de Nicole ter descido as portas se fecharam e o veículo afastou-se rapidamente.

— Quando você me acordou — disse Max, vendo o trem desaparecer —, eu estava no meio de um sonho. Estava falando com Eponine. Um segundo antes de ouvir a sua voz, ela me disse que você ia me trazer uma mensagem importante.

Max estremeceu, depois riu e começou a andar na direção das alcovas.

— É claro que eu não acredito nessa merda toda, mas foi de fato uma grande coincidência.

 

O trem voltou antes de escurecer, dessa vez com dois carros. O da frente era brilhante e aberto, cheio de comida e água como sempre. O segundo estava totalmente escuro, e as portas e janelas continuaram fechadas.

— Muito bem, muito bem — disse Max, andando para a ponta da fenda do metrô e tentando em vão abrir a porta do segundo carro. — Vamos ver o que há aí.

Depois que a comida e a água foram retiradas, o trem não partiu como de costume. Os humanos esperaram, mas o segundo carro misterioso recusava-se a expor seus segredos. A uma certa altura, Nicole e seus amigos resolveram ir jantar. A conversa durante a refeição foi desanimada e cheia de especulações sobre o novo invasor.

Quando o pequeno Kepler inocentemente sugeriu que talvez Eponine e Ellie estivessem dentro do carro escuro, Nicole contou de novo a história do dia em que ela encontrara Richard em coma, depois de uma longa estada com as octoaranhas. E um pressentimento espalhou-se entre eles.

— Nós devíamos ficar de vigília a noite toda — sugeriu Max depois do jantar — para que não haja possibilidade de algum truque enquanto estivermos dormindo. Eu dou o primeiro plantão de quatro horas.

Patrick e Robert também se ofereceram como voluntários. Antes de irem para a cama, todos, inclusive Benjy e as crianças, foram até a ponta da plataforma e ficaram olhando o trem.

— O que pode haver lá dentro, ma-mamãe? — perguntou Benjy.

— Não sei, querido — respondeu Nicole, abraçando o filho. — Eu realmente não tenho idéia.

Na manhã seguinte, uma hora antes de as luzes da cúpula se intensificarem, Richard e Nicole foram acordados por Patrick e Max.

— Venham — disse Max todo agitado —, vocês precisam ver uma coisa.

No centro do salão principal havia quatro grandes criaturas pretas, segmentadas, com os dois lados simétricos, forma e estrutura de formigas. Em cada um dos três segmentos do seu corpo prendiam-se um par de pernas e um par de acessórios desdobráveis, que se ocupavam em empilhar materiais. Era uma maravilha apreciar aquelas criaturas. Cada um dos braços longos de serpente tinha a versatilidade da tromba de um elefante, com uma habilidade adicional (e útil). Quando um braço não estava sendo usado para levantar alguma coisa ou para equilibrar um peso carregado pelo membro oposto, ele se enfiava dentro da sua cápsula na parte lateral, e aí ficava enroscado até voltar a funcionar. Portanto, quando esses seres alienígenas não estavam desempenhando nenhuma tarefa, seus braços não eram vistos.

Os humanos, estarrecidos, continuaram a observar aquelas criaturas bizarras, de quase dois metros de comprimento e um metro de largura, que esvaziaram rapidamente o conteúdo do carro escuro do metrô, examinaram as pilhas e depois partiram no trem. Assim que os alienígenas desapareceram, Max, Patrick, Richard e Nicole foram examinar as pilhas. Havia objetos de todas as formas e tamanhos, mas o objeto dominante era uma peça chata e longa parecendo um degrau de escada.

— Se me pedissem para dar um palpite — disse Richard pegando uma pecinha com forma de caneta-tinteiro —, eu diria que a resistência dessa coisa está entre o cimento e o aço.

— Mas para que serve isso, tio Richard? — perguntou Patrick.

— E quem são eles? — perguntou Max. Richard deu de ombros e sacudiu a cabeça.

— Essas criaturas que acabaram de sair me pareceram animais domésticos avançados, capazes de desempenhar complexas funções em seqüência, mas não de pensar.

— Então eles não são o pessoal do arco-íris de quem a mamãe fala? — perguntou Patrick.

— É claro que não — disse Nicole com um sorriso.

 

Os outros humanos, inclusive as crianças, foram detalhadamente informados sobre as novas criaturas durante o café da manhã. Todos os adultos concordaram que se aqueles alienígenas voltassem, como eles esperavam, ninguém devia interferir em nenhuma de suas tarefas, a não ser que ficasse claro que suas atividades constituíam alguma espécie de perigo.

Quando o trem do metrô parou na sua fenda, três horas depois, dois dos novos seres saíram do carro da frente e foram para o centro do salão principal, carregando um potinho no qual a toda hora enfiavam um dos braços e iam deixando marcas vermelhas e brilhantes no chão. Essas linhas vermelhas circunscreveram uma área que incluía a plataforma do metrô, todo o material que fora empilhado e mais ou menos metade do salão.

Em seguida, mais uns dez desses animais enormes com acessórios em forma de troncos saíram dos dois carros do metrô, carregando nas costas umas estruturas curvilíneas grandes e pesadas. Por trás deles vinham duas octoaranhas, com cores extremamente brilhantes girando em volta das suas cabeças esféricas. As octos andaram pelo meio do salão, inspecionaram as pilhas de material e ordenaram que as criaturas formigas começassem uma espécie de construção.

— Então a coisa é essa — disse Max para Patrick quando os dois observavam a cena a distância. — São nossas amigas octoaranhas que controlam tudo por aqui. Mas que diabo elas estão fazendo?

— Quem pode saber? — disse Patrick, impressionado com o que via.

— Olhe, Nicole — disse Richard —, por cima daquela pilha grande. Aquela formigona está definitivamente lendo as cores da octoaranha.

— E o que nós vamos fazer agora? — disse Nicole baixinho.

— Eu acho que devemos olhar e esperar — respondeu Richard.

 

A construção toda foi feita dentro das linhas vermelhas pintadas no chão. Várias horas depois, quando outra carga de metrô com os componentes curvilíneos foi retirada, a forma da construção ficou bem clara. De um lado da sala estava sendo levantado um cilindro vertical de quatro metros de diâmetro, com a parte do alto colocada no mesmo nível do fundo da cúpula. Dentro do cilindro, os degraus da escada foram colocados de forma a subirem em espiral no centro da estrutura.

O trabalho continuou durante trinta e seis horas ininterruptas. As octoaranhas arquitetas supervisionavam as formigas gigantescas de braços versáteis. Só houve uma única interrupção significativa durante a atividade. Kepler e Galileu, cansados de observar durante horas a construção alienígena, deixaram inadvertidamente uma bola cair na tinta vermelha e em cima de uma formiga. O trabalho parou no mesmo instante, e uma octoaranha retirou a bola e verificou se a operária estava bem. Com um movimento ágil de dois dos seus tentáculos, a octoaranha jogou a bola de volta para os meninos e o trabalho foi retomado.

Todos, menos Max e Nicole, estavam dormindo quando os alienígenas terminaram a escada, pegaram a sobra dos materiais e partiram no trem do metrô. Max foi até o cilindro e enfiou a cabeça para dentro.

— Muito impressionante — disse com um ar esquivo. — Mas para que serve?

— Deixe de brincadeira— disse Nicole. — É claro que eles estão esperando que a gente suba as escadas.

— Que merda, Nicole. Eu sei disso. Mas por quê? Por que essas octoaranhas querem que a gente suba?... Você sabe que elas vêm nos manipulando desde que nós entramos na toca delas. Raptaram Eponine e Ellie, nos deslocaram para o Hemicilindro Sul e recusaram-se a me deixar voltar para Nova York... O que aconteceria se não seguíssemos o plano delas?