A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 12 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 10

— Ali — disse ela em outra ocasião, quando estavam num grande celeiro com poços e esferas estranhas —, fiquei presa muitos dias e achei que ia morrer.

A grande família desenvolveu um conjunto de regras para manter as crianças seguras. Essas regras não eram necessárias para Nikki, que não saía de perto da mãe e do embevecido avô, mas os gêmeos Kepler e Galileu eram difíceis de serem contidos. A energia deles parecia infinita. Uma vez foram encontrados balançando-se nas redes dos tanques suspensos, como se as redes fossem trampolins. Outra vez pediram emprestado as lanternas da família e saíram sozinhos para explorar Nova York. Foram dez horas de tensão até eles serem localizados no labirinto de ruas e vielas do outro lado da ilha.

As aves treinavam seu vôo quase diariamente. As crianças adoravam passear com elas nas praças, onde Tammy e Timmy tinham mais espaço para mostrar seus progressos. Richard sempre levava Nikki para ver as aves voando. Na verdade, ele levava a neta para todos os lugares aonde ia. De vez em quando, ela andava, mas em geral Richard a carregava numa trapizonga confortável que ele colocava nas costas. O casal sui generis era inseparável. Richard também passou a ser professor de Nikki, e logo depois anunciou para todos que sua neta era um gênio matemático.

À noite ele contava para Nicole as últimas façanhas de Nikki.

— Você sabe o que ela fez hoje? — perguntava, em geral quando os dois estavam sozinhos na cama.

— Não, querido — dizia sempre Nicole, sabendo muito bem que nem ela nem Richard dormiriam antes que ele contasse.

— Eu lhe perguntei quantas bolas ela teria se já tinha três e eu lhe desse mais duas (pausa dramática). E sabe o que ela respondeu? (outra pausa dramática) Cinco! Ela disse cinco. E essa menininha acabou de fazer dois anos...

Nicole estava encantada com o interesse de Richard por Nikki. Tanto para a menininha quanto para aquele homem mais velho, a combinação era perfeita. Como pai, ele nunca conseguira superar seus próprios problemas emocionais reprimidos nem seu agudo senso de responsabilidade, portanto era a primeira vez na vida que ele sentia a alegria do amor verdadeiramente inocente. O pai de Nikki, por outro lado, era um grande médico, mas não era uma pessoa muito calorosa, e não dava muito valor a esses momentos de descontração que os pais devem ter com os filhos.

Patrick e Nicole tiveram várias conversas sobre Katie que deixaram Nicole muito deprimida. Patrick não escondeu da mãe que Katie estava envolvida nas maquinações de Nakamura, que bebia muito e que era sexualmente promíscua. Mas não contou que Katie gerenciava o prostíbulo de Nakamura, nem que achava que ela se tornara viciada em drogas.

 

10

Essa existência quase perfeita em Nova York foi interrompida numa manhã em que Richard e Nikki passeavam juntos pelas muralhas ao norte da ilha. Aliás, foi a menina quem viu primeiro a silhueta dos navios e apontou para a água escura.

— Olhe, vô. Nikki está vendo uma coisa.

Os olhos cansados de Richard não conseguiram distinguir nada no escuro, e a luz de sua lanterna não alcançava a distância da coisa que Nikki estava vendo. Richard pegou os potentes binóculos que sempre carregava e realmente viu dois navios no meio do mar Cilíndrico. Colocou Nikki nas costas e correu para a toca.

Os outros membros da família estavam acordando, e levaram um certo tempo para compreender por que Richard estava tão alarmado.

— Mas quem poderia estar no navio? — disse ele. — Especialmente no lado norte? Só pode ser um grupo de exploração enviado por Nakamura.

Fizeram um concilio familiar à mesa do café e todos concordaram que estavam enfrentando uma crise séria. Quando Patrick confessou que tinha visto Katie no dia da fuga para se despedir dela, e que ela lhe fizera umas perguntas a partir de comentários seus, Nicole e os outros ficaram em silêncio.

— Eu não disse nada específico — falou Patrick, desculpando-se —, mas foi burrice minha... Katie é muito esperta. Depois que todos nós desaparecemos, ela deve ter juntado as peças do quebra-cabeça.

— E o que vamos fazer agora? — perguntou Robert Turner com voz apreensiva. — Katie conhece Nova York muito bem, pois era quase adolescente quando saiu daqui. E pode trazer os homens de Nakamura diretamente para a nossa toca. Seremos presas fáceis para eles.

— Há algum outro lugar para onde possamos ir? — perguntou Max.

— Não — respondeu Richard. — A antiga toca das aves está vazia, mas não teríamos meios de nos alimentar lá. A toca das octoaranhas também estava vazia quando estive lá há alguns meses, mas não voltei mais ali desde que Nicole chegou em Nova York. Porém, de acordo com o ocorrido comigo e com Nicole quando saímos para explorar a região em volta, nossas amigas de tentáculos dourados e pretos ainda devem estar por aí. E mesmo que não estejam vivendo na sua antiga toca, teríamos problemas para conseguir comida se nos mudássemos para lá.

— E a área atrás da tela preta, tio Richard? — perguntou Patrick. — Você disse que é lá que eles fabricam nossa alimentação. Talvez a gente consiga encontrar uns dois quartos por lá...

— Não tenho muita ilusão quanto a isso — falou Richard depois de algum tempo —, mas sua sugestão é provavelmente a nossa única opção a essa altura.

A família decidiu que Richard, Max e Patrick fariam o reconhecimento da área por trás da tela preta, para tentar descobrir onde a comida dos seres humanos era produzida e para determinar se havia outro lugar adequado para morarem. Robert, Benjy, as mulheres e as crianças ficariam na toca. A tarefa deles era começar a elaborar os preparativos para uma rápida evacuação de seu quartel-general, caso se tornasse necessário.

Antes de partir, Richard terminou de testar um novo sistema de rádio que havia projetado nas horas vagas. O rádio era forte o bastante para os exploradores e o resto da família se manterem em contato durante todo o tempo em que estivessem separados. Em função da possibilidade de comunicação por rádio, Richard e Nicole conseguiram convencer Max Puckett a deixar sua espingarda na toca.

 

Os três homens não tiveram dificuldade para seguir o mapa do computador de Richard e chegar à sala das caldeiras que Richard e Nicole haviam visto na sua exploração anterior. Max e Patrick ficaram olhando assombrados para as doze caldeiras imensas, o amplo setor de matérias-primas muito bem organizado e a variedade de biotas andando por ali. A fábrica estava em grande atividade. Na verdade, cada uma das caldeiras estava ocupada com algum tipo de processo de fabricação.

— Tudo bem — disse pelo rádio para Nicole lá na toca. — Estamos aqui e estamos prontos. Faça o pedido do jantar para vermos o que acontece.

Menos de um minuto depois, uma das caldeiras mais próximas dos três homens terminou sua atividade. Nesse meio-tempo, não longe da barraca por trás das caldeiras, três biotas parecendo um vagão com mãos começaram a mexer na reserva de matéria-prima e a pegar rapidamente pequenas quantidades de vários artigos diferentes. Depois convergiram para o sistema da caldeira que estava desativado perto de Richard, Max e Patrick, e descarregaram os containers na esteira rolante que entrava na caldeira. Imediatamente, os homens ouviram a caldeira começar a funcionar. Um biota comprido e esguio, parecendo três grilos amarrados em fila, cada um deles com uma carapaça arredondada, subiu na esteira rolante quando o curto processo de fabricação estava quase no final. Passado um instante, a caldeira parou novamente e o material processado saiu pela esteira rolante. O biota-grilo segmentado retirou uma concha arredondada de sua parte traseira, colocou toda a comida humana nas costas e saiu rapidamente.

— Que coisa incrível — disse Max ao ver o biota- grilo desaparecer pelo corredor por trás da barraca. Antes que qualquer um deles dissesse alguma outra coisa, outro conjunto de vagões com mãos carregaram as esteiras rolantes com varas grossas e longas, e, em menos de um minuto, a caldeira que processara a comida funcionava com outra finalidade.

— Que sistema fantástico — exclamou Richard. — Deve haver um processo complexo de interrupção, sendo o pedido de comida sempre prioritário. Não posso acreditar que...

— Pare um instante — interrompeu Max — e repita o que você acabou de dizer em inglês normal.

— Nós temos sub-rotinas de tradução automática lá na toca, que eu programei quando estivemos aqui uns anos atrás — disse Richard entusiasmado. — Quando Nicole digitava galinha, batata e espinafre no seu computador, uma lista de comandos do teclado correspondendo às complexas químicas daqueles alimentos específicos era registrada no seu buffer. Quando eu fazia sinal de que estávamos prontos, ela digitava aquela seqüência de comandos no teclado. Esses comandos eram imediatamente recebidos aqui, e o que obtínhamos era a resposta a eles. Quando todos os sistemas de processamento estavam em atividade, entretanto, o equivalente ramaiano de um computador desta fábrica reconhecia que o pedido era de comida, e dava prioridade a ele.

— Você quer dizer, tio Richard — falou Patrick —, que o computador que controla isso aqui interrompeu a operação daquela caldeira para ela fazer a nossa comida?

— É isso mesmo — respondeu Richard.

Max se afastara um pouco e estava observando as outras caldeiras da imensa fábrica. Richard e Patrick foram juntar-se a ele.

— Quando eu era um menininho de oito ou nove anos — disse Max —, meu pai e eu fomos acampar pela primeira vez nas montanhas Ozarks, a várias horas de distância da nossa fazenda. A noite estava linda, com o céu todo estrelado. Eu me lembro que estava deitado de barriga para cima no meu saco de dormir, olhando aquelas coisinhas brilhando no céu... Naquela noite, tive um pensamento muito profundo para um menino de Arkansas daquela idade. Fiquei pensando quantas crianças alienígenas, de alguma parte do universo, estariam olhando as estrelas naquele exato momento e percebendo, pela primeira vez, como o domínio delas era pequeno comparado à totalidade do cosmo.

Max virou-se e sorriu para seus dois amigos.

— Essa foi uma das razões para eu continuar fazendeiro — disse, com uma risada. — Com as minhas galinhas e porcos, eu era sempre importante. Era eu que lhes dava comida. Era um grande acontecimento quando o velho Max aparecia no galinheiro...

Max fez uma pausa e os outros ficaram em silêncio.

— Acho que no fundo eu sempre quis ser astrônomo — continuou — para ver se podia entender os mistérios do universo. Mas toda vez que pensava nos bilhões de anos e trilhões de quilômetros, ficava deprimido. Não conseguia agüentar a sensação de completa e total insignificância que tomava conta de mim. Era como se uma voz dentro de mim dissesse sem cessar: "Puckett, você é um cocô. Você é um zero absoluto."

— Mas conhecer essa insignificância, e especialmente ser capaz de medi-la, torna os seres humanos muito especiais — disse Richard com serenidade.

— Agora estamos falando de filosofia — replicou Max —, e eu me sinto completamente fora do meu elemento. Sinto-me bem com os animais da roça, com tequila e até mesmo com aqueles temporais terríveis do centro-oeste. Essas coisas aí — disse Max, balançando os braços na direção das caldeiras e da fábrica — me amedrontam muito. Se quando me inscrevi para aquela colônia marciana soubesse que veria máquinas mais inteligentes do que os homens...

— Richard, Richard — dizia Nicole pelo rádio, com voz aflita. — Temos uma emergência aqui. Ellie acabou de voltar da costa norte e viu quatro barcos grandes prontos para desembarcar... Ellie disse que tem certeza de ter visto um dos homens com uniforme de polícia... E disse também que viu uma espécie de arco-íris grande no sul... Vocês podem voltar para cá depressa?

— Não, não podemos — respondeu Richard. — Ainda estamos na sala das caldeiras. Devemos estar a pelo menos três ou quatro quilômetros de distância... Ellie disse quantas pessoas havia em cada barco?

— Acho que de dez a doze, papai — disse Ellie. — Não fiquei lá contando... Mas não foi só os barcos que vi quando estava lá no alto. Quando eu vinha correndo para a toca, o céu do lado sul iluminou-se com várias cores que deram lugar a um arco-íris gigantesco... Foi perto de onde você disse que o Grande Chifre devia estar.

Dez segundos depois, Richard gritou no rádio:

— Prestem atenção, Nicole, Ellie, todos vocês. Saiam imediatamente da toca. Levem as crianças, os filhotes de aves, os melões, o material séssil, as duas espingardas, toda a comida e o máximo possível de coisas pessoais que vocês puderem carregar. Deixem as nossas coisas aí; já temos o bastante nas costas para sobreviver em uma emergência. Vão diretamente para a toca das octoaranhas e esperem por nós na sala grande, que costumava ser uma galeria de fotografia... As tropas de Nakamura irão nos procurar primeiro na toca. Quando eles não nos encontrarem e se Katie estiver junto, talvez nos procurem na toca das octoaranhas. Mas acho que eles não vão atravessar todos aqueles túneis...

— E você, Max e Patrick? — perguntou Nicole.

— Nós vamos voltar o mais depressa possível. Se alguém... aliás, Nicole, deixe um transmissor ligado no volume máximo no Salão Branco e outro no quarto das crianças. Assim, saberemos se há alguém na toca... De qualquer forma, como eu ia dizendo, se nossa casa não tiver sido invadida, nós nos encontraremos logo. Se os homens de Nakamura estiverem ocupando nossa toca, tentaremos encontrar outra entrada aqui embaixo para a toca das octoaranhas. Deve haver uma...

— Tudo bem, meu querido — interrompeu Nicole. — Temos de começar a arrumar as coisas... Vou deixar o receptor ligado caso você precise de nós.

— Então você acha que estaremos mais seguros na toca das octoaranhas? — disse Max, depois que Richard desligou o transmissor.

— É uma chance — respondeu Richard sorrindo. — Há muitos pontos desconhecidos por trás da tela. E nós temos certeza de que não estaremos seguros se a polícia e as tropas de Nakamura nos encontrarem... As octoaranhas talvez nem estejam vivendo mais na toca. Além do mais, Nicole disse muitas vezes que não temos uma prova irrefutável de que elas sejam hostis.

 

Os homens saíram dali o mais depressa possível. A certa altura, deram uma parada para Patrick transferir um pouco da carga da mochila de Richard para a dele. Richard e Max suavam muito quando chegaram no Y do corredor.

— Precisamos parar um instante — disse Max a Patrick, que ia na frente dos dois homens mais velhos. — Seu tio Richard precisa descansar.

Patrick tirou uma garrafa de água de sua mochila e passou-a para o tio. Richard bebeu avidamente, secou a testa com um lenço e um minuto depois começou a correr de novo na direção da toca.

A uns quinhentos metros da pequena plataforma por trás da tela preta, o receptor de Richard começou a captar ruídos indistintos do interior da toca.

— Talvez alguém da família tenha esquecido alguma coisa importante — falou Richard, tentando ouvir melhor — e tenha voltado para pegar. Pouco depois, os três homens ouviram uma voz que não conseguiram identificar. Ficaram parados e esperaram.

— Parece que algum tipo de animal estava vivendo aqui — disse uma segunda voz. — Por que não vem dar uma olhada?

— Droga! — disse a segunda voz. — Eles estiveram aqui recentemente... Há quanto tempo será que partiram?

— Capitão Bauer! — gritou alguém. — O que o senhor quer que eu faça com toda esse material eletrônico?

— Deixe aí por enquanto — respondeu a segunda voz. — Quando os outros soldados chegarem, dentro de alguns minutos, decidiremos o que fazer.

Richard, Max e Patrick sentaram-se quietos no túnel escuro. Durante cerca de um minuto não ouviram nada no receptor. Aparentemente nenhum dos membros do grupo de busca estava no Salão Branco ou no quarto das crianças naquela hora. Depois ouviu-se a voz de Franz Bauer de novo.

— O que é isso, Morgan? — perguntou Bauer. — Mal consigo ouvir você... Há uma espécie de ruído... O quê? Fogos de artifício? Cores?... O que você está dizendo? Tudo bem. Tudo bem. Vamos subir imediatamente.

Durante uns quinze segundos o receptor ficou em silêncio.

— Ah, aí está você, Pfeiffer — disse o capitão Bauer. — Junte os outros homens e vamos voltar lá para cima. Morgan disse que viu uns fogos incríveis no céu do lado sul. Os soldados já estavam impressionados com os arranha-céus e o escuro. Eu vou subir para acalmar os nervos deles.

— Esta é a nossa chance — sussurrou Richard, levantando-se. — Eles vão ficar fora da toca alguns minutos. — Começou a correr e depois parou. — Talvez a gente precise se separar... Vocês se lembram de onde fica a toca das octoaranhas?

Max sacudiu a cabeça.

— Eu nunca estive lá...

— Olhe aqui — disse Richard, passando seu computador portátil para Max. — Digite um M e um P para ter uma vista geral de Nova York. A toca das octoaranhas está marcada com um círculo vermelho... Se você apertar um L, seguido de outro L, vai aparecer um mapa do interior da toca... Agora vamos, enquanto ainda temos algum tempo.

Richard, Max e Patrick não encontraram soldados dentro da toca. Porém dois guardas estavam postados a poucos metros de distância da saída para Nova York. Felizmente os guardas estavam tão embevecidos com os fogos no céu de Rama, que não ouviram os três homens subirem as escadas por trás deles. Como medida de segurança, os três se separaram, cada um tomando um caminho diferente para chegar à toca das octoaranhas.

Richard e Patrick chegaram ao seu destino com um minuto de diferença um do outro, mas Max se atrasou. Por azar, o caminho que ele escolheu deu numa das praças onde cinco a seis soldados estavam vendo os fogos. Max correu por uma viela e escondeu-se atrás de um dos edifícios. Abriu o computador e estudou o mapa no monitor, tentando imaginar um caminho alternativo para a toca das octoaranhas.

Enquanto isso, o show espetacular dos fogos continuava. Max olhou para cima e ficou maravilhado quando uma grande bola azul explodiu, jogando centenas de raios de luz azul em todas as direções. Durante quase um minuto, Max ficou olhando hipnotizado aquela exibição. Era mais linda do que tudo que ele já tinha visto na Terra.

Quando ele finalmente chegou na toca das octoaranhas, desceu a rampa depressa e entrou na sala da catedral, da qual saíam os quatro túneis que iam dar nas outras partes da toca. Max digitou dois Ls no computador e o mapa do interior da toca apareceu no monitor minúsculo. Ele ficou tão distraído com o mapa que não percebeu logo o barulho de arrastar de escovas mecânicas, seguido de um gemido baixinho e agudo.

Max só olhou para cima quando o barulho ficou mais alto. Quando finalmente levantou a cabeça, a octoaranha grande estava de pé a uns cinco metros dele. Ao ver aquela criatura, Max sentiu um arrepio na espinha. Ficou imóvel e controlou-se para não sair correndo. O líquido cremoso da lente única da octoaranha movia-se de um lado para o outro, mas o alienígena não avançou para Max.

De um dos recortes paralelos nos dois lados da lente jorrou um jato roxo em torno da cabeça esférica da octoaranha, seguido de jatos de outras cores, todas desaparecendo no segundo corte paralelo. Quando a mesma cor foi repetida, Max, com o coração batendo tão forte que parecia que ia pular pela boca, sacudiu a cabeça e disse:

— Eu não compreendo.

A octoaranha hesitou um instante e depois levantou dois tentáculos do chão, apontando claramente na direção de um dos quatro túneis. Como se quisesse reforçar sua indicação, a octo arrastou-se naquela direção e repetiu o gesto.

Max levantou-se e andou devagarinho na direção do túnel indicado, tentando não se aproximar muito da octoaranha. Ao chegar na entrada, outra série de raios coloridos passou pela cabeça do alienígena.

— Muito obrigado — disse Max gentilmente, virando-se e entrando pela passagem.

Ele só parou para olhar o mapa quando já tinha caminhado uns três a quatro metros no túnel. Enquanto caminhava, as luzes se acendiam automaticamente à sua frente e se apagavam nos segmentos do túnel pelos quais ele havia passado. Quando finalmente examinou o mapa com cuidado, descobriu que não estava longe da sala indicada.

Alguns minutos depois, Max entrava com um riso nos lábios na câmara onde o resto da família estava reunida.

— Vocês não vão acreditar quem eu acabei de ver — disse um instante antes de Eponine abraçá-lo.

Logo depois que Max acabou de divertir o pessoal com a história de seu encontro com a octoaranha, Richard e Patrick voltaram para a sala da catedral, parando a cada cem metros para tentar ouvir atentamente os sons dos alienígenas. Mas não ouviram nada, nem viram ou ouviram nada que indicasse que os soldados despachados do Novo Éden estivessem nas vizinhanças. Quase uma hora depois, Richard e Patrick voltaram para junto do grupo a tempo de participar da discussão sobre o que deveria ser feito em seguida.

A grande família tinha comida bastante para cinco dias, ou talvez seis, se as porções fossem racionadas com cuidado. Água havia à vontade na cisterna, perto da sala da catedral. Todos concordaram logo que o grupo de busca do Novo Éden, pelo menos o primeiro deles, provavelmente não ficaria muito tempo em Nova York. Houve uma ligeira discussão sobre a possibilidade de Katie ter indicado ou não ao capitão Bauer a localização da toca das octoaranhas. Sobre um ponto crítico não havia o que discutir: durante um ou dois dias, eles corriam grande risco de serem descobertos pelos outros humanos. Em conseqüência disso, exceto para necessidades físicas, ninguém da família saía da sala grande, na qual já estavam há trinta e seis horas.

No final daquele período, o grupo todo, especialmente os filhotes de aves e os gêmeos, estavam com uma crise de claustrofobia. Richard e Nai levaram Tammy, Timmy, Benjy e as crianças pequenas pela passagem, tentando em vão mantê-las quietas, e as afastaram da sala da catedral, seguindo para o corredor vertical com as estacas salientes que desciam até o fundo da toca das octoaranhas. Richard, com Nikki nas costas quase o tempo todo, alertou várias vezes Nai e os gêmeos sobre o perigo da área da qual se aproximavam. Mesmo assim, logo que o túnel se alargou e eles chegaram ao corredor vertical, o impetuoso Galileu subiu no buraco em forma de barril antes que sua mãe o pudesse deter. Mas logo ficou paralisado de medo, e Richard teve de tirar o menino do seu poleiro precário sobre duas estacas, logo abaixo do nível do passadiço que rodeava a parte superior do imenso abismo. Os filhotes de ave, felizes por poderem voar de novo, flutuaram livremente pela área e desceram vários metros no abismo escuro, mas sem afundar demais a ponto de acionar a próxima fileira de luz.

Antes de voltar para o grupo, Richard levou Benjy para uma rápida inspeção do que ele e Nicole chamavam de museu das octoaranhas. Essa sala grande, a centenas de metros do corredor vertical, ainda estava completamente vazia. Algumas horas depois, por sugestão de Richard, metade da grande família mudou-se para o museu, para que houvesse mais espaço para todos.

No terceiro dia de sua estada na toca das octos, Richard e Max decidiram que alguém devia tentar descobrir se as tropas da colônia ainda estavam em Nova York. Patrick foi a escolha lógica para ser o explorador da família. As instruções de Max e de Richard a Patrick foram bem objetivas: ele deveria ir com cuidado até a sala da catedral e depois subir a rampa para Nova York. Dali, usando a lanterna e o computador portátil o mínimo possível, devia atravessar para a costa norte da ilha e ver se os barcos ainda estavam lá. Qualquer que fosse o resultado de sua investigação, ele deveria regressar diretamente à toca, para dar todas as informações esperadas.

— Há outra coisa muito importante para você se lembrar — disse Richard. — Se a qualquer hora você ouvir uma octoaranha ou um soldado, deve voltar imediatamente para cá. Mas deve tomar um cuidado especial: em hipótese alguma um humano pode ver você descendo para a toca. Você não pode fazer nada que nos ponha em perigo.

Max insistiu com Patrick para levar uma das duas espingardas. Richard e Nicole não discutiram. Depois de todos lhe desejarem boa sorte, Patrick partiu para sua missão exploradora. Mal tinha andado quinhentos metros pelo túnel quando ouviu um barulho à sua frente. Parou para escutar, mas não conseguiu identificar nada. Algumas centenas de metros adiante, alguns sons começaram a ficar mais distintos. Patrick ouviu definitivamente o ruído de escovas se arrastando várias vezes. Ouviu também um barulho de objetos de metal batendo uns nos outros ou contra a parede. Patrick ficou escutando durante alguns minutos e, lembrando-se das instruções, voltou para onde estavam seus amigos.