A Revelação de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 11 de 56

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A Revelação de Rama

Capítulo 9

Nicole não conseguia conter sua excitação. Quando deu os últimos retoques na decoração no quarto das crianças, ficou imaginando como seria o quarto quando elas o dividissem com as duas aves. Timmy, que estava quase do seu tamanho, chegou perto dela para inspecionar seu trabalho e matraqueou um pouco, mostrando sua aprovação.

— Pense só, Timmy — disse Nicole, sabendo que a ave não podia entender suas palavras, mas podia interpretar o timbre de sua voz. — Quando Richard e eu voltarmos, traremos seus novos companheiros de quarto.

— Está pronta, Nicole? — perguntou Richard. — Está quase na hora de sairmos.

— Estou, querido. Estou aqui no quarto das crianças. Por que você não vem dar uma olhada?

Richard enfiou a cabeça pela porta e fez uma inspeção superficial na nova decoração.

— Ótimo, maravilhoso. Agora precisamos nos mexer. Essa operação vai requerer uma cronometragem perfeita.

Quando os dois andavam para O Porto, Richard informou a Nicole que não tivera mais notícias do Hemicilindro Norte. A falta de notícias podia indicar que Joana e Eleonor estavam muito envolvidas na fuga, ou muito perto de um possível inimigo, ou então que a realização da fuga estivesse sendo ameaçada. Nicole não se lembrava de ter visto Richard tão nervoso assim, e tentou acalmá-lo.

— Até agora não sabemos se Robert está vindo? — perguntou ela um pouco depois, quando eles se aproximavam do submarino.

— Não. E não sabemos nada da reação dele quando Ellie lhe expôs o plano. Eles apareceram juntos em Avalon, conforme combinado, mas estavam cuidando dos pacientes. Joana e Eleonor não tiveram oportunidade de conversar com Ellie depois que ajudaram Nai a tirar Benjy da enfermaria.

Richard havia checado o submarino pelo menos duas vezes no dia anterior. No entanto, deu um suspiro de alívio quando o sistema operacional funcionou e o submarino deslizou na água. Quando submergiram nas águas do mar Cilíndrico, Richard e Nicole permaneceram em silêncio, cada um deles pensando a seu modo na reunião emocionante que ocorreria dentro de uma hora ou menos.

Haverá alegria maior, pensou Nicole, do que reunir os filhos depois de esperar não os ver nunca mais? Imagens de seus seis filhos lhe vieram à cabeça. Pensou em Geneviève, sua primeira filha, nascida na Terra em conseqüência de sua união com o príncipe Henry. Depois pensou na serena Simone, que fora deixada em Nodo com um marido quase sessenta anos mais velho. Depois das duas meninas mais velhas vinham mais quatro filhos ainda vivendo em Rama: sua difícil filha Katie, sua meiga Ellie, e os dois filhos que tivera com Michael O'Toole, Patrick e Benjy, este último com retardo mental. Eles são tão diferentes. Cada um deles um milagre, a seu próprio modo.

Eu não acredito em verdades universais, refletiu Nicole, enquanto o submarino se aproximava do túnel sob a parede que fora outrora um habitat ave/séssil, mas não pode haver muitos seres humanos que tenham vivido a experiência singular de serem pais sem serem irrevogavelmente modificados pelo processo. Certamente, todos nós pensamos, quando nossos filhos se tornam adultos, o que fizemos ou deixamos de fazer, que contribuiu ou deixou de contribuir, para a felicidade desses seres especiais que trouxemos ao mundo.

Nicole estava numa excitação enorme. Quando Richard checou o relógio e começou a manobrar o submarino para a posição em que se daria o encontro, suas lembranças mais recentes de Ellie, Patrick e Benjy dançaram entre as lágrimas que enchiam seus olhos. Nicole apertou a mão de Richard quando a embarcação subiu à tona.

Pela janela, eles viram oito figuras de pé, à beira d'água, na localização indicada. Quando a água parou de correr pelo vidro da janela, Nicole reconheceu Ellie, seu marido Robert, Eponine, Nai segurando a mão de Benjy, e as três crianças pequenas, inclusive sua neta, que recebera seu nome e que ela ainda não conhecia. Nicole bateu no vidro, embora soubesse que ninguém poderia ouvir nem ver nada de tão longe.

Richard e Nicole ouviram os tiros assim que abriram a porta. Robert Turner, preocupado, olhou para trás e levantou a filhinha Nicole do chão. Ellie e Eponine pegaram os gêmeos de Nai Watanabe. Galileu reagiu a Eponine e foi repreendido pela mãe, que estava tentando guiar Benjy para o submarino.

Houve outra rajada de balas, dessa vez mais perto, quando o grupo entrava no navio. Não houve tempo para abraços.

— Max disse para sairmos assim que todos estiverem a bordo — disse Ellie apressada para os pais. — Ele e Patrick estão agüentando os soldados enviados para nos capturar.

Richard estava se preparando para fechar a porta quando duas figuras armadas surgiram dos arbustos próximos.

— Apronte-se para dar a partida — gritou Patrick, dando dois tiros com seu rifle. — Eles estão logo atrás de nós.

Max caiu, mas Patrick carregou o amigo ferido pelos últimos cinqüenta metros até o submarino. Três soldados da colônia atiraram no navio quando ele submergiu no fosso. Durante um instante ninguém a bordo deu uma palavra. Depois, o compartimento mínimo explodiu numa confusão de sons. Todos gritavam e choravam. Nicole e Robert debruçaram-se sobre Max, que estava sentado contra a parede.

— Você está muito ferido? — perguntou Nicole.

— É claro que não — disse Max, impetuosamente. — Foi só uma bala solitária que me pegou não sei onde. É preciso muita pólvora para matar um filho da puta como eu.

Quando Nicole virou-se para trás, viu Benjy ao seu lado.

— Ma-mãe — disse ele com os braços estirados e o corpo maciço tremendo de alegria. Nicole e Benjy ficaram abraçados por longo tempo no centro do compartimento. Os suspiros de felicidade do rapaz refletiam o sentimento de todas as pessoas do submarino.

Enquanto estavam a bordo do submarino, com os recém-chegados sentindo-se em trânsito entre dois mundos alienígenas, eles trataram quase o tempo todo de assuntos pessoais. Nicole conversou em separado com cada um dos filhos e segurou sua netinha pela primeira vez. A pequena Nicole não sabia o que fazer com aquela mulher de cabelos grisalhos querendo abraçá-la e beijá-la.

— Esta é sua avó — dizia Ellie, tentando persuadi-la a corresponder ao carinho de Nicole. — Ela é minha mãe, Nikki, e tem o mesmo nome que você.

Nicole sabia o suficiente sobre crianças para compreender que a menina levaria algum tempo para aceitá-la. De início houve uma certa confusão com a repetição do nome, e, toda vez que alguém dizia Nicole, avó e neta olhavam em volta. Mas depois Ellie e Robert começaram a chamar a filha de Nikki e o resto do grupo fez o mesmo.

Antes do submarino chegar a Nova York, Benjy mostrou à mãe que sua leitura havia melhorado bastante. Nai era uma excelente professora. Benjy trouxera seus livros na mochila, uma coleção dos contos de Hans Christian Andersen escritos havia três séculos. Sua história favorita era "O patinho feio", que ele leu toda, para grande alegria da mãe e da professora, sentada ao seu lado. Sua voz encheu-se de entusiasmo quando o patinho feio rejeitado transformou-se num belo cisne.

— Estou muito orgulhosa de você, querido — disse Nicole secando as lágrimas quando Benjy finalmente terminou a leitura. — E quero agradecer a você, Nai, do fundo do meu coração.

— Foi extremamente gratificante trabalhar com Benjy — respondeu a tailandesa. — Eu tinha me esquecido como é emocionante ensinar um aluno atento e interessado.

Robert Turner limpou o ferimento de Max Puckett e retirou a bala. O curativo foi assistido pelos gêmeos Watanabe, de cinco anos, que ficaram fascinados com as entranhas de Max. O agressivo Galileu ficou empurrando para poder ver melhor, e Nai teve de interferir a favor de Kepler em duas brigas.

O dr. Turner disse que o ferimento de Max não era sério, como o próprio Max já pressentira, e prescreveu um curto período de repouso.

— Creio que vou ter de sossegar um pouco — falou Max, piscando para Eponine. — Aliás, era exatamente isso que eu estava planejando fazer. Acho que não deve haver muitos porcos ou galinhas nessa cidade alienígena de arranha-céus. E não conheço nada sobre biotas.

Nicole conversou um pouco com Eponine, logo antes da chegada do submarino em O Porto, agradecendo à antiga professora de Ellie por tudo o que ela e Max haviam feito pela família. Eponine aceitou os agradecimentos gentilmente, e disse a Nicole que Patrick fora "absolutamente fantástico" nos preparativos da fuga.

— Ele é um rapaz maravilhoso — disse ela.

— E como está a sua saúde? — perguntou Nicole delicadamente. A francesa deu de ombros.

— Nosso bom médico diz que o vírus RV-41 ainda está lá, esperando uma oportunidade para tomar conta do meu sistema imunológico. Quando isso acontecer, terei entre seis meses e um ano de vida.

Patrick contou para Richard que Joana e Eleonor tinham tentado desviar a atenção dos soldados de Nakamura fazendo uma barulhada, como combinado, e que certamente foram capturadas e destruídas.

— Sinto muito sobre Joana e Eleonor — disse Nicole para Richard no único instante em que os dois tiveram tempo para se falar a bordo do submarino. — Sei quanto esses robôs significavam para você.

— Elas cumpriram a sua missão — observou Richard, forçando um sorriso. — Afinal de contas, não foi você quem me disse um dia que elas não eram como gente de verdade?

Nicole levantou-se e deu um beijo no marido.

 

Nenhum dos foragidos estivera em Nova York quando adulto. Os três filhos de Nicole haviam nascido na ilha e passado seus primeiros anos de vida lá, mas a criança vê os lugares de modo muito diferente do adulto. Até mesmo Ellie, Patrick e Benjy ficaram perplexos quando desceram do submarino e viram as silhuetas finas e altas elevando-se para o céu de Rama, quase escuro agora.

Max Puckett ficou sem fala, o que raramente lhe acontecia, segurando a mão de Eponine, assombrado com as altas torres subindo mais de duzentos metros acima da ilha.

— Isso é demais para um fazendeiro de Arkansas — disse ele depois de algum tempo, sacudindo a cabeça.

Max e Eponine foram seguindo o cortejo que se encaminhava para a toca que Richard e Nicole haviam transformado em um apartamento multifamiliar a ser compartilhado por todos.

— Quem construiu tudo isso? — perguntou Robert Turner para Richard quando o grupo fez uma breve parada em frente a um gigantesco poliedro. Robert estava cada vez mais apreensivo. De início relutara em acompanhar Ellie e Nikki, e agora estava tentando se convencer de que cometera um grande erro.

— Provavelmente os engenheiros de Nodo — respondeu Richard. — Mas não se pode ter certeza. Depois os seres humanos fizeram novas construções no seu habitat. É possível que as pessoas ou as coisas que viveram aqui muito tempo atrás tenham construído alguns ou todos esses fantásticos edifícios.

— Onde eles estão agora? — perguntou Robert de novo, um tanto assustado com a possibilidade de encontrar seres com a tecnologia necessária para criar construções tão impressionantes.

— Não há como saber. Segundo a Águia, essa espaçonave Rama tem feito viagens para descobrir espécies que viajam pelo espaço há milhares de anos. Em algum lugar na nossa parte da galáxia existe outro viajante espacial que se sentiria confortável num ambiente como este. Quem era, ou é, essa criatura e por que ela queria viver no meio de arranha-céus incríveis é um enigma que provavelmente nunca será decifrado.

— E as aves e as octoaranhas, tio Richard? — perguntou Patrick. — Ainda estão vivendo aqui em Nova York?

— Eu não vi nenhuma ave na ilha desde que cheguei, com exceção, é claro, dos filhotes que estamos criando. Mas ainda há umas octoaranhas por aí. Sua mãe e eu encontramos umas doze quando explorávamos por trás da tela preta.

Naquele instante, um biota-centopéia aproximou-se do grupo, vinda de uma ruela lateral. Richard iluminou o caminho com sua lanterna. Robert Turner congelou de medo, mas seguiu as instruções de Richard e saiu do caminho para o biota passar.

— Arranha-céus construídos por fantasmas, octoaranhas, biotas-centopéias — resmungou Robert. — Que lugar encantador!

— Na minha opinião é muito melhor do que viver sob o jugo daquele tirano Nakamura — disse Richard. — Pelo menos somos livres e podemos tomar nossas próprias decisões.

— Wakefield — gritou Max Puckett de trás da fila. — O que aconteceria se não saíssemos do caminho daquele biota-centopéia?

— Não sei ao certo, Max. Mas provavelmente ele passaria por cima de nós, ou em volta, como se fôssemos objetos inanimados.

 

Desta vez foi Nicole quem serviu de guia turístico quando chegaram à toca, mostrando as acomodações reservadas para cada um do grupo. Havia um quarto para Max e Eponine, outro para Ellie e Robert, um terceiro, onde fora colocada uma divisória, para Patrick e Nai, e um outro grande para as crianças, Benjy e as duas aves. Em uma salinha pequena seriam feitas as refeições comunitárias.

Enquanto os adultos tiravam das mochilas seus escassos pertences, as crianças tiveram seu primeiro contato com Tammy e Timmy. As aves não sabiam como agir com esses seres humanos, principalmente com Galileu, que insistia em puxar ou apertar qualquer coisa que tocasse. Depois de uma hora desse tipo de brincadeira, Timmy deu um ligeiro arranhão em Galileu com uma de suas garras, à guisa de aviso, e o menino fez um escândalo.

— Eu não entendo — disse Richard, desculpando-se com Nai. — As aves são sempre muito mansas.

— Eu entendo — retrucou Nai. — Galileu deve ter feito alguma arte — completou ela, suspirando. — É incrível. A gente educa duas crianças exatamente da mesma forma e elas crescem tão diferentes. Kepler é tão bom que parece um anjo; preciso até ensiná-lo a se defender. E Galileu não presta a menor atenção ao que lhe digo.

Quando todos terminaram de arrumar suas coisas, Nicole mostrou o resto da casa: dois banheiros, os corredores, os tanques suspensos onde a família tinha ficado na época da alta aceleração entre a Terra e Nodo, e finalmente o Salão Branco, com a tela preta e o teclado, que também servia de quarto de dormir para Richard e Nicole. Richard demonstrou como a tela preta funcionava quando acionada, e recebeu uma hora depois alguns brinquedinhos para as crianças. Deu a Robert e a Max a cópia de um glossário de comando com instruções para o teclado.

As crianças dormiram logo depois do jantar, e os adultos se reuniram no Salão Branco. Max fez perguntas sobre as octoaranhas. Quando Nicole começou a descrever suas aventuras por trás da tela preta e disse que tinha sentido dores no coração, Robert ficou preocupado e logo depois foi examiná-la no quarto.

Ellie ajudou Robert no exame. Ele trouxera o máximo de equipamento que cabia na sua mochila, inclusive todos os instrumentos e monitores em miniatura necessários para um eletrocardiograma. Os resultados não foram bons, mas não tão ruins quanto Nicole pensava. Robert informou ao resto da família que os anos tinham definitivamente desgastado o coração de Nicole, mas não achava que ela precisaria ser operada num futuro próximo. Aconselhou Nicole a levar a vida com calma, mesmo sabendo que sua sogra provavelmente ignoraria suas recomendações.

Quando todos foram dormir, Richard e Nicole afastaram os móveis para colocar os colchonetes no chão, e deitaram-se lado a lado, de mãos dadas.

— Você está feliz? — perguntou Richard.

— Estou, muito. É uma maravilha estar rodeada de todos os nossos filhos.

— Debruçou-se sobre Richard e lhe deu um beijo. — E estou também exausta, meu marido, mas não vou dormir sem primeiro agradecer a você por ter conseguido tudo isso.

— Eles também são meus filhos.

— Eu sei, querido — falou Nicole, deitando-se de novo. — Mas sei também que você não teria feito tudo isso se não fosse por mim. Você se contentaria em ficar aqui com os filhotes, sua parafernália e os mistérios extraterrestres.

— Talvez, mas também estou felicíssimo por estar com todos na nossa toca... A propósito, você teve oportunidade de falar com Patrick sobre Katie?

— Só ligeiramente — respondeu Nicole com um suspiro. — Pude ver pela expressão dele que ainda está muito preocupado com a irmã.

— Assim como nós todos — acrescentou Richard. Os dois ficaram em silêncio por um instante, e então Richard sentou-se apoiado nos cotovelos.

— Quero que você saiba que achei nossa neta absolutamente maravilhosa.

— E eu também — falou Nicole, dando uma risada.

— Ei, será que com Nikki aqui não vou poder chamar você de Nikki nem nos momentos especiais?

Nicole virou-se para olhar Richard, que estava com um sorriso matreiro que ela conhecia de longa data.

— Trate de dormir. Estou emocionalmente exausta para fazer qualquer outra coisa esta noite.

 

No começo, o tempo passou muito depressa. Havia muito a fazer, muito território fascinante a ser explorado. Embora fosse eternamente escuro na misteriosa cidade acima deles, a família fazia excursões regulares a Nova York. Quase todos os lugares da ilha tinham uma história especial que Richard ou Nicole contavam.

— Foi aqui — disse Nicole numa tarde, iluminando com a lanterna a imensa treliça pendurada entre dois arranha-céus como uma teia de aranha — que eu salvei uma ave que tinha sido apanhada, estava presa, e que depois me convidou para ir à sua toca.