Como uma Joia
Capítulo 9
JONAS
EU A DEIXO no quarto, sabendo que ela precisa desse momento sozinha para respirar um pouco e se acalmar. Me pergunto se ela ainda vai me olhar com bons olhos depois de eu ter me aproveitado da situação e apalpado sua bunda. Fecho a porta atrás de mim e encaro o Luiz Miguel.
— Desculpe eu ter interrompido seu momento de paixão lá dentro, cara — diz enquanto dá um gole no copo de bebida.
— Foi quase isso. Na verdade, muito mais complicado de explicar agora — olho para os lados — Você viu o Moreira por aí?
— Aquele seu diretor gorducho e baixinho? Eu o vi sair todo atordoado minutos antes de eu ter batido em sua porta. Ele provavelmente deixou a cobertura — me encara — O que foi? Aconteceu alguma coisa?
— O puto tentou agarrar uma camareira lá dentro — explico, mesmo sabendo que não sou tão melhor que ele.
— Que filho da puta. E aí? Como a moça está?
— Mais ou menos — suspiro — Mas ela vai ficar bem. Agora tenho que pegar o desgraçado antes que ele suma.
— Vamos lá — abandona o copo em algum canto qualquer, pronto para me acompanhar.
— Não, nada disso. Fique. Preciso de alguém de confiança aqui. Posso cuidar do Moreira sozinho.
Bato no ombro do Luiz Miguel, passo por ele e caminho pela cobertura, desviando-me de vários corpos que estão se movendo enquanto a música eletrônica toca alto. As luzes coloridas piscam e me mostram alguns sorrisos femininos em minha direção.
— Ei, gostosão. Você ainda não dançou comigo — uma loira que certamente é uma das modelos do novo catálogo da Luxus aparece na minha frente, me abraçando e se enroscando em mim.
Paro e minha mão brinca com os fios de seus cabelos. Eu até poderia levá-la pra cama mais tarde se não estivesse tão obcecado pela simples camareira. A modelo agarra meu pescoço e colo meus lábios em sua orelha:
— Eu não posso agora, baby, mas quando puder, farei tudo o que você quiser.
Sinto seu sorriso se expandir na mesma hora, acreditando em cada palavra que saiu da minha boca. Ela finalmente me solta e me deixa seguir o meu caminho. Deixo a festa para trás. Pego o elevador e subo até o estacionamento. Tenho certeza de que é lá que vou encontrar Moreira.
Meu celular toca e vejo o nome de Paula no visor. Coloco o aparelho no meu ouvido.
— Oi, minha gata mais linda do mundo.
Ela sorri do outro lado. É tão fácil enganá-la. Eu só preciso paparicá-la e fazê-la acreditar que se não é a única (claro que Paula sabe que não é a única), mas ainda assim, a mais importante em minha vida. O maior problema para ela talvez não seja me dividir com alguém e sim me perder de vez. Contanto que eu sempre volte para ela, vivemos bem.
— Ah, meu super Jonas, eu adoro ouvi-lo tão carinhoso assim quando fala comigo. Baby, tenho sentido tanto a sua falta... acho que vou encurtar minhas férias e voltar correndo ao Brasil.
— Ah, não, baby — pigarreio porque preciso soar natural — Quero dizer, você ama tanto viajar, honey, e Miami é a sua segunda casa. Você ama esse lugar.
— Eu não sei... eu tenho medo de estar sendo muito negligente com o melhor homem do mundo.
— Sou seu, Paula, não tenha dúvidas.
O elevador finalmente abre e dou uma desculpa a ela, pois preciso desligar.
— Promete me ligar mais tarde? — ela suplica — Amo você, Jonas.
— Idem.
Saio do elevador, guardando o celular no bolso, e caminho pelo estacionamento bem iluminado e com seguranças por toda parte. Avisto Moreira dentro de seu Audi. Dou duas batidas no vidro da janela e ao me ver, o filho da puta arregala os olhos de susto.
— Abra — murmuro entredentes.
Ele hesita à princípio, mas acaba cedendo. Sabe que não é um grande negócio me desafiar. Dou a volta no Audi e me sento no banco carona. Posso vê-lo melhor agora que está na minha frente. Está com o canto a boca sangrando do soco que dei. Não me importo com isso. Fecho a porta por dentro e digo:
— Dirija até a primeira avenida que encontrar. A gente precisa conversar, desgraçado.
— Jonas, posso explicar tudo... — coloca o carro em movimento — não acredito que está bravo comigo só por causa daquela camareira de merda. Ela é só uma qualquerzinha, cara.
— Cala a boca e dirija!
O filho da puta acelera o carro enquanto permanece se explicando, se defendendo, e tentando me convencer de que não fez nada tão grave.
— Como não fez nada? Você agarrou a garota. Tem noção do que fez, filho da puta? Foi uma tentativa de estupro. Você é um criminoso. Poderia ter ferrado a Luxus, miserável! Você tem bosta na cabeça?
— Eu só queria uns beijos... ela me deu mole a noite toda...
Eu não me seguro porque tudo isso é mais forte que eu. Acerto um murro em seu rosto que o pega de surpresa. Moreira bate a cabeça na janela oposta e leva a mão ao nariz. Estaciona o carro de qualquer jeito enquanto grita:
— Você quebrou meu nariz! Você quebrou meu nariz, cara! — choraminga, a mão no rosto, o sangue escorrendo por sua face. Eu não me importo. Lembro-me da cena que vi, do modo como encontrei a garota apavorada dentro do quarto, da forma covarde como Moreira estava sobre ela, a dominando, então um soco é muito pouco ainda. Eu o agarro pelo colarinho e aviso:
— Você tem até amanhã para aparecer na empresa e pedir demissão. Também vai me passar os seus 10% de ações ou vou acabar com a sua vida e com a sua porcaria de carreira. A partir de hoje não quero mais nenhum vínculo seu com a minha empresa...
— Jonas... que isso, cara?
— Estou avisando, se não fizer isso, vou acabar com a sua raça. Juro por Deus que vou sujar todo o seu nome e vai ter que fugir do país. Todo mundo vai saber que além de espancador de mulheres você é um maldito estuprador.
— Por favor, não faça isso... eu posso ir preso...
— Que se foda. Eu não sei o que aquela garota que você tentou agarrar no meu quarto vai fazer a respeito, mas se depender de mim, você está fodido, filho da puta. Amanhã, Moreira.
Empurro a porta e saio do carro, deixando o desgraçado com o rosto sangrando. Endireito-me e me recomponho. Atravesso a avenida e pego um táxi de volta para o hotel.
VERÔNICA
— ESTÁ ME DIZENDO que um dos hóspedes agrediu você e tentou agarrá-la? Mas que loucura é essa? Tem noção do que está me dizendo, menina? — o gerente do hotel, o Sr. João Carlos Nogueira, está atordoado, com as mãos afundadas nos bolsos da calça social, me encarando.
— Isso mesmo. E tenho testemunha. O anfitrião da festa, ele viu tudo e me defendeu.
O gerente, leva a mão à boca, mas não parece chocado e sim preocupado - provavelmente com o que pode acontecer com o emprego dele. Começa a andar de um lado para o outro, sem dizer mais nada, completamente tenso. Ao meu lado, Leila, a supervisora das camareiras, permanece pensativa.
De repente o Sr. João Carlos para na nossa frente e cruza as mãos na cintura.
— Você já falou com ela sobre como casos como esse terminam, Leila? Nossa amiguinha aí sabe mesmo o que está fazendo?
— Eu tentei explicar a ela, senhor, mas...
— Do que estão falando? — quero saber, olhando de João Carlos para Leila.
— Então explique pra ela de uma vez por todas — ele vocifera, sem se dirigir diretamente a mim, como se eu não fosse mesmo nada significante.
— Verônica, preste atenção ao que vou dizer — Leila diz, me encarando — Esse não foi o primeiro caso que aconteceu no Gallante e nem será o último. Esse tipo de situação acontece em qualquer lugar onde há homens ricos e poderosos.
— O que quer dizer? Como assim? Vocês querem tapar o sol com a peneira?
— Quero dizer que — ela suspira — se levar isso a frente, vai ser pior pra você. Pense por esse lado: vai enfrentar muita exposição, muita gente poderosa e poderá nunca ganhar a causa. Esses homens têm contato com advogados renomados e juízes.
— O que quer dizer? — me ergo num pulo, me sentindo indignada e coibida — Que eu devo esquecer tudo o que aconteceu e deixar aquele verme nojento ficar impune?
— Aqui é Brasil, Verônica. Não se esqueça disso. Coisas mais sérias ficam impunes, você sabe. Você é uma garota inteligente e bem informada. Você lê jornais e assiste a noticiários. Sabe do que estou falando.
— Eu só quero que ele pague pelo que fez! É isso o que quero! — grito, batendo o pé com força, sentindo muita revolta e raiva — Ele bateu em meu rosto! Me tocou de um modo sujo, me disse palavras horríveis, tudo o que quero é que pague por isso e não faça mais nada parecido com nenhuma outra funcionária — estou sentindo tanta indignação, que já estou chorando e no fim da frase me afundo outra vez na cadeira, me sentindo sozinha e desamparada.
O gerente ainda se mantém frio e seco, sai da sala, nos deixando sozinhas, provavelmente porque não dá a mínima para o meu choro e para o que passei lá dentro com um homem desconhecido. Eu poderia ter sido violentada e morta e ele não estaria nem aí. Leila fica outra vez em minha frente e pega em minhas mãos.
— Olhe pra mim — suspira, olhando para o lado para ver se o gerente foi mesmo embora — Acredite, vai ser melhor assim. Esse tipo de gente é poderosa e perigosa. Já vi casos desses acontecerem e garotas morrerem misteriosamente. Muitas delas as famílias nem souberam ao certo o que aconteceu. Então pense muito bem. Tem noção do que ele pode fazer se você levá-lo ao tribunal? Revistas e jornais divulgarão o caso, você será exposta, sua família. Eles não querem ter a imagem prejudicada. Ele vai esperar passar o tempo e vai se vingar. Nós sabemos o que homens como esse são capazes de fazer, Verônica. Você me entende?
Balanço a cabeça, completamente atônita e apavorada, concordando com ela. Leila suspira outra vez e diz:
— Vá pra casa, descanse, pense no que falei e passe o dia de amanhã com a sua família. Vou te dar dois dias de folga, ok? Se cuide.
Assinto com a cabeça, sem condições de falar mais nada.
Limpo meus olhos úmidos de lágrimas, então ajeito minha bolsa no ombro e me ponho de pé. Deixo o escritório do gerente e sigo pelo corredor. Estou tão pra baixo e me sentindo tão pequena, que nem me despeço do porteiro, que sempre é legal comigo e um grande amigo.
— Ei! Tudo bem, moça? — ele me avalia, preocupado.
— Oh, sim. Tudo, Seu Antônio. Obrigada.
— Você está com uma carinha tão triste.
— Não é nada.
— Tem certeza?
— Tenho. Não se preocupe.
— Certo. Vá com Deus, moça — ele diz.
Forço um sorriso e me despeço. Logo avisto uma figura imponente próxima à porta giratória. Ele está de jeans escuro e vestindo uma camisa escura. Seu olhar avalia meu semblante e parece perceber que ainda estou abalada com tudo o que aconteceu na cobertura dele.
— Você está bem? — caminha em minha direção, com as mãos afundadas nos bolsos do jeans.
— Estou.
Paro em sua frente.
— Sei que não posso fazer muito e que não posso mudar o que aconteceu, mas se precisar de qualquer coisa, se precisar que eu testemunhe contra aquele desgraçado, é só me procurar —pega um cartão do bolso e me entrega.
— Obrigada. Você foi muito legal comigo.
— Não foi nada. Eu gostaria de ter feito mais.
A gente fica em silêncio por alguns segundos que parecem eternidade. Lembro-me do momento em que ele me salvou e depois do momento em que me beijou. Eu não tive medo ou raiva ou mesmo nojo. Foi diferente. Eu gostei.
— Está muito tarde — o bonitão diz, me trazendo de volta ao agora — Me diz onde mora, que posso deixá-la em casa.
— Não precisa... vou ligar pra casa e pedir pro meu namorado vir me pegar.
— Namorado? — estica os lábios num sorrisinho sem graça e desvia o olhar por um instante — Que sujeito de sorte.
Não consigo responder nada, mas o avalio. Ele realmente é lindo, alto, forte, musculoso, cheiroso... não sei por que tem flertado comigo... não sou o que chamariam de seu tipo.
— Olha — ele me encara outra vez e seus olhos azuis brilham — Você pode ligar pro seu namorado e dizer que vou levá-la. Pode dar meu nome a ele. Sou Jonas Malta, um executivo bem conhecido. Sei que está abalada com tudo o que aconteceu esta noite, mas posso garantir que não precisa ter medo de mim. Tenho certeza de que se algo acontecer no caminho, qualquer pessoa vai saber.
Assinto. Realmente seria praticamente impossível voltar sozinha para casa. E Cidão, do jeito que está chateado comigo, não viria me buscar.
— Está bem. Vou aceitar a carona. Obrigada.
Jonas pisca, charmoso e satisfeito com a minha decisão.
— Você chegará em segurança em casa. Tem a minha palavra.