Como uma Joia
Capítulo 42
JONAS
É DOMINGO. Sol escaldante, céu azul, temperatura nas alturas lá fora. Minutos mais cedo, olhei para a piscina e gostei de saber que a água estava tão límpida que até era possível ver o meu reflexo nela. Agora estou no meu escritório dentro da mansão. Luiz Miguel está comigo no telefone.
— Por onde anda? Está todo mundo comentando que se casou em segredo e por isso esse desaparecimento, que você anda meio domesticado — zomba.
Ele, mais que qualquer outra pessoa, sabe o quanto tenho repugnância por casamentos. É o meu melhor amigo e já experienciamos muitas coisas juntos.
— Eu não posso explicar agora, mas não casei, é óbvio. Você teria recebido um convite. O fato é que ainda estou com a garota. Digamos que estamos curtindo uma lua de mel informal.
— Está com ela na mansão? Cara, dessa vez você está ferrado. Um cara não leva uma mulher para a própria casa quando só quer trepar com ela. Você até rompeu com a Paula. Você está envolvido, amigo, não se engane.
— Não estou. É claro que não. E quanto à Paula, foi ela que terminou comigo — tento convencer a mim mesmo que o que Luiz Miguel fala não faz sentido.
— Imagino que ela tenha tido seus motivos — debocha, rindo.
— Jonas? — de repente ouço a voz de Verônica chamando por mim, então abaixo o tom para voltar a falar com Luiz Miguel:
— Eu preciso desligar agora.
— Certo.
— Jonas? — a voz de Verônica está um pouco mais próxima.
— Oi? Estou aqui! — já estou encerrando a ligação e abro a porta do meu escritório.
Ela está linda, do outro lado, de biquíni branco com listras pretas e usando uma saída de praia kimono longo da mesma cor.
— Oh, me desculpe. Eu não sabia que estava trabalhando...
— Não, tudo bem. Eu só estava falando com um dos sócios. Já terminei.
Saio do cômodo e fecho a porta às minhas costas. Largo o aparelho com o visor ainda aceso no primeiro móvel que encontro e volto toda a minha atenção para Verônica.
— Está linda.
Chego mais perto, eu a puxo pela cintura, a trazendo completamente para mim. Também já estou com meu traje de banho e tento me conter para que o meu pau não fique volumoso dentro da cueca, demonstrando o quanto estou excitado. Minha boca encontra a sua. Um beijo longo e intenso. Nossas línguas já se entendem muito bem, como se tivessem sido feitas uma para a outra.
Subitamente meu celular toca de novo, acabando com nosso clima. Pego o aparelho e quando vejo o nome no visor, resmungo. Não é alguém com quem queira falar.
— Não vai atender? — os olhos chocolate de Verônica me avaliam enquanto o aparelho continua tocando.
— Não deve ser nada importante — interrompo a ligação e coloco o celular de volta ao móvel.
Volto a procurar pela boca de Verônica, lhe dando mordidinhas pelo caminho, fazendo-a rir enquanto joga os braços em volta do meu pescoço.
— Isso é muito bom, sabia? — sussurra em minha boca, toda sensual, me excitando ainda mais.
— É?
— Nós dois aqui juntos.
O celular volta a tocar, insistentemente.
— Ah, porra.
— Atende, amor — a palma de sua mão acarinha meu rosto e me convence — Pode ser importante.
Assinto, mesmo suspirando, contrariado, e sabendo que vou me aborrecer. Estico o braço para pegar o aparelho no móvel. Nem me dou ao trabalho de consultar o visor.
— Alô — digo, seco.
— Jonas, sou eu — fala a voz feminina do outro lado da linha.
— Eu sei que é você — respiro fundo, tentando controlar a irritação — O que você quer? Eu estou ocupado agora.
— Tarde demais, filhote. Já estou aqui no seu lindo jardim, e daqui mesmo posso ver o quanto está ocupado... mas fique tranquilo, não quero atrapalhar o seu romance.
— O que você quer? — eu me afasto de Verônica e vou até à porta de vidro dupla que dá para o jardim e a piscina. Vejo a mulher lá fora, chapéu de sol e óculos escuros no rosto. Ela está sorrindo — Como entrou aqui?
— Expliquei ao segurança que sou sua mãe e que queria lhe fazer uma surpresa. Ele não acreditou na hora, mas mostrei minha identidade e a nossa foto juntos. Ele me deixou passar.
Passo pela porta, desligo o celular e caminho até ela.
— Não é bem-vinda aqui, então pode ir embora.
— Calma. Me deixe ao menos explicar o que estou fazendo aqui.
— Ah, não precisa explicar. É dinheiro. Eu já sei falar a sua língua — pego minha carteira que está ali na mesa branca perto da piscina e tiro algumas notas de cem e cinquenta — Aqui está o que tanto deseja.
— Isso é jeito de tratar sua mãe? — tira os óculos escuros do rosto e vejo seus olhos verdes se desviarem para alguém atrás de mim.
Verônica.
Não me importo que ela esteja vendo tudo isso. Não suporto a presença de Stela aqui. Tudo o que faço é dar a ela o que deseja para que em seguida me deixe logo em paz.
— Olá, meu bem. Sou Stela, a mãe dele — estica a mão para Verônica e ambas se cumprimentam — Imagino o que Jonas tenha falado de mim. Bom, não leve a sério tudo o que diz. Ele não chegou ao topo falando só verdades. Mocinhos bonzinhos não sobem tão alto, né, Jonas?
— O dinheiro está aqui — entrego as notas a ela — Pode ir agora.
Stela pega as notas, conta quantas tem e, em seguida, as guarda dentro da bolsa.
— E a loira? O que aconteceu com ela? Vocês, playboys, não valem nada mesmo — dá uma risadinha.
— Já tem o seu dinheiro. Pode ir — digo, prestes a perder minha paciência.
Sei que Verônica, atrás de mim, com os braços cruzados na altura do peito, está calada e constrangida com o modo como minha mãe e eu lidamos. Bom, mas não posso fingir ser quem não sou. Não com Stela.
— Nunca falei que podia entrar na minha casa. Muito menos sem avisar. Que isso não se repita — digo à minha mãe antes de girar o corpo e me afastar dela.
— Se não, você vai fazer o quê? Chamar a polícia para sua própria mãe, seu desnaturado?
Como já estou tomando distância, começa a gritar para que eu ouça as merdas que fala. Mas não me importo. Vou para o outro lado do jardim e disco para os seguranças.
— Quero minha mãe fora daqui.
VERÔNICA
— ELE NÃO puxou nadinha ao pai — comenta a mãe de Jonas, pegando um cigarro e o acendendo na minha frente — Aliás, é muito mais bonito e charmoso que aquele infeliz. Não é à toa que faz tanto sucesso com as mulheres. E também porque tem dinheiro, claro. Vocês adoram um bonitão rico.
— Não estou aqui por causa do dinheiro do seu filho — sou firme e séria.
— Ah, todas dizem isso — solta a fumaça do cigarro antes de me avaliar — Você é bonita, admito. Mas não vai levá-lo ao altar, se é o que imagina.
— Bom, também não estou pensando em casamento — suspiro, me sentindo ofendida — A gente só está deixando as coisas acontecerem naturalmente. Gosto dele e ele gosta de mim. Ou não teria me trazido pra cá.
— Tenho certeza de que está aqui porque Jonas quer. Quero dizer, ele não faz nada por acaso. Bom, acho melhor eu ir agora.
Nesse momento avisto um segurança fortão se aproximar de nós duas.
— Bem, já sei que não sou bem-vinda nessa casa. Foi bom te conhecer, mocinha.
Não respondo. Não sei se gosto dela. Achei errado o modo como Jonas tratou a mãe, mas também não achei certo o modo como ela se utilizou de meios para arrancar dinheiro dele. Isso não é coisa que uma mãe deveria fazer. Além disso, tenho certeza de que há uma razão muito forte para ele ter agido do modo como agiu.
O segurança pede para que a mãe de Jonas o acompanhe e ela, já aparentemente satisfeita com o dinheiro que recebeu e com as coisas que falou do filho, nem se ofende. Coloca os óculos escuros no rosto e acompanha o homem. Eu a vejo ir embora e me pergunto o que pessoas como Stela e como Vanessa, por exemplo, ganham por serem tão venenosas e desagradáveis. Acho que são pessoas amargas, infelizes, que por serem assim, se sentem bem ao destruir o dia das outras pessoas.
Eu até penso em ir atrás do Jonas e conversar com ele a respeito de sua relação com a mãe. Mas pensando bem, ele deve estar chateado agora. É melhor deixá-lo um tempo sozinho. Talvez seja melhor nem tocar mais no assunto. Se Jonas, um dia, quiser conversar comigo sobre o relacionamento que tem com a mãe, ele mesmo se abrirá.