Como uma Joia
Capítulo 46
VERÔNICA
APÓS NOSSA CÁLIDA noite de amor, sinto sua mão firme me puxar para mais perto. De olhos fechados, estico meus lábios em um sorriso de contentamento. Estou apaixonada. Tenho certeza. Não, mais que isso, eu o amo.
Minha bochecha roça em seu peito rígido e musculoso. Tudo fica ainda mais gostoso quando me envolve com seus braços fortes e afunda o rosto em meu cabelo.
— Gosto de você assim, toda minha... — soa, a voz rouca que tanto amor ouvir.
— Você tem um lado romântico, sabia? — deposito beijinhos em seu peito aconchegante — E eu amo isso.
— Eu gosto de reservar meu melhor a você.
— Ah, é? — pouso meu queixo em seu peito, para poder vê-lo melhor — Então acho que sou mesmo uma mulher de sorte.
Dou uma risadinha, adorando esse nosso novo clima. Horas mais cedo, quando estávamos voltando do evento, eu jurava que Jonas estava distante e frio comigo, que ele não queria a minha presença com ele na viagem para São Paulo. E isso estava me angustiando. Agora percebo que era só uma cisma boba. Está tudo bem entre a gente, que nada do que imaginei era real. Ele continua sendo o mesmo cara atencioso, carinhoso, disposto a me proporcionar momentos maravilhosos.
— No que está pensando? — quer saber, de repente, enquanto a ponta de seu dedo polegar está deslizando pelo meu braço, alisando a minha pele.
— Em nada importante. Besteira minha.
— Fiquei curioso.
— Bom, é que hoje quando estávamos voltando pra cá... — mergulho minha mão nos pelos negros de seu peito — tive a impressão de que você estava chateado e distante.
— E por que achou isso?
Dou de ombros.
— Bem, sei lá. Você comentou que ia viajar pra São Paulo e pareceu que não queria muito a minha companhia.
— Sempre vou querer a sua companhia — continua deslizando o polegar pelo meu braço — Você me faz bem. É gostosa, quente, inteligente. Não só um corpinho bonito. Gosto das nossas conversas.
Sorrio.
— Também gosto de ficar com você — é a minha vez de tocar seu rosto, estou acarinhando sua barba rala — Você tem me surpreendido positivamente.
A gente fica assim, abraçadinhos e em silêncio. Volto a beijar seu peito. Jonas continua alisando minha pele, agora desliza a ponta do dedo até meu cotovelo. Ele não diz que está apaixonado, mas também não cobro nada. Uma coisa que aprendi é que são nas atitudes que uma pessoa demonstra o que sente, e não palavras.
***
A gente se amou pela terceira vez na noite. Agora estamos novamente jogados um nos braços do outro. Eu nunca havia conhecido o real significado da paixão antes de conhecer o Jonas. E sexo, para mim, nunca foi algo tão incrível como tem sido. Aliás, eu nem curtia muito sexo. Vanessa me chamava de frígida. Agora entendo que o problema nunca foi com a relação sexual em si e sim porque eu não gostava de Cidão, e portanto, transar com ele era sempre um fardo. Não um deleite.
Mas agora com Jonas tudo é diferente. Quero fazer sexo todo dia, se possível. As transas são sempre boas, prazerosas, satisfatórias. Jonas tem se mostrado um amante generoso. Não visa seu próprio prazer. Faz sempre questão de me saciar também. E a cada dia me sinto mais à vontade para experimentar novas coisas e posições.
— Você está feliz aqui? — pergunta de repente, enquanto fico observando suas tatuagens no ombro.
— Estou. Como há muito tempo não estive — sou sincera.
— É bom ouvir isso — leva minha mão ao seu lábio com carinho.
Ele não diz mais nada. Nem eu digo. Aconchego-me mais a ele e me pergunto se vamos dormir assim grudadinhos hoje.
— O que Cássio Fontana queria com você? — indaga de repente, a voz macia, mas não deixo de notar uma pontada de ciúmes nela.
— Apenas conversar, eu acho — tento me fazer de boba. — Por quê?
— Por nada.
Silêncio. Ele parece ainda mais pensativo agora.
— Então vocês já se conhecem?
— É. Nos conhecemos um dia desses no clube.
— É, você disse.
Um novo silêncio paira sobre o ambiente e mordo meu lábio inferior, esperando que Jonas fale mais alguma coisa sobre o assunto. Adoraria ler seus pensamentos agora. Tenho quase certeza de que está morrendo de ciúmes.
— E por que ele estava segurando o seu braço quando cheguei?
— Eu não sei. Foi algo muito rápido. Eu queria ir embora, então ele disse que eu não precisava fugir dele.
— Vocês já tinham se encontrado na festa?
— Sim. A gente tinha dançado na pista.
— Ah, é? E que hora foi isso?
— No momento em que você sumiu e me deixou sozinha.
Jonas não responde e não posso ver sua feição agora, mas tenho certeza que está pensativo, se dando conta de que a culpa foi toda dele. Disfarço o sorrisinho porque estou adorando o rumo desta conversa, mas não quero que note. Não acredito que esteja ardendo de ciúmes! Quem acreditaria que uma simples camareira como eu iria causar tanto efeito num homem poderoso como ele?
— Eu não devia tê-la deixado sozinha. Me desculpe. Foi grosseiro da minha parte.
— Ok. Está desculpado.
Ergo novamente meu rosto e pouso meu queixo em seu peito para observá-lo melhor.
— E quanto a vocês dois? Você e Cássio já se conhecem há muito tempo?
Jonas me encara profundamente.
— Por que quer saber?
— Curiosidade.
— Bom, nunca tivemos nenhuma razão para sermos amigos. Eu já tinha o meu grupo de contato e ele sempre foi mais reservado, mais na dele. Além disso, somos inimigos e rivais. Concorrentes — explica. — Não confio nele. Afinal, sua empresa disputa espaço com a minha... mas vamos deixar isso pra lá. Não quero terminar a noite falando sobre esse cara.
E me puxa outra vez para si. A gente fica abraçadinho até pegar no sono.
JONAS
O SILÊNCIO da madrugada é sempre um momento oportuno para se pôr a mente em ordem. É isso que estou tentando fazer agora. Verônica está a meu lado e eu a observo adormecer. Toco a ponta de meu dedo indicador em seu rosto com cuidado para não acordá-la e me pergunto se estou apaixonado. Não, não pode ser. Ela é tão agradável, tão delicada... tão gostosa. É muito bom estar em sua companhia. Então talvez seja paixão. É isso o que as pessoas sentem quando gostam de alguém: querem sempre estar perto.
Desço a ponta do dedo até seus lábios quentes que tanto beijei nas últimas horas e permaneço a observando dormir, velando o seu sono. Após algum tempo, afasto suavemente a mão de seu rosto. Talvez eu esteja agindo como um romântico inconsequente. Talvez meus amigos comecem a questionar. Como posso tê-la trazido para dentro de casa? Para o meu intocável reino. Será que não estou sendo tolo e precipitado?
Mal conheço a garota e não sou do tipo de cara que aprecia tanta intimidade assim com alguém. Nem mesmo com Paula havia dividido o teto algum dia. O que, afinal, está acontecendo comigo? Será que estou mesmo envolvido? Que estranho de acreditar... Logo eu, um cara tão frio e equilibrado, que sempre soube separar amor de sexo? Estou de quatro por uma mulher? Bom, talvez não de quatro. Só apaixonado. Talvez apaixonado seja a palavra mais adequada. Mas de qualquer forma, paixão é uma coisa que vem e vai. Não é algo duradouro, permanente. Não, claro que não. Ainda bem que não.
Meus olhos voltam para Verônica adormecida. Ela é encantadora, de fato, mas é apenas uma mulher. Mulheres costumam ir e vir a todo instante em minha vida. Antes de Verônica vieram tantas outras, e depois dela, certamente, virão mais outras. Continuarei seguindo o meu modo de viver sem interrupções, sem mudanças, sem me prender a ninguém.
Mas por que raios estou tão apegado à sua companhia? Ao seu calor, seu cheiro e seu corpo? É fato também que não quero magoá-la, afinal, ela já havia passado por maus bocados na vida. Não merecia ser mais castigada. O que estou fazendo, caramba?
Esfrego minha barba enquanto estiro-me outra vez na cama. Suspiro profundamente e penso. Falta pouco para as cinco da manhã e ainda estou aqui, acordado. Só havia conseguido cochilar um pouco após a última transa e o sono agora não vinha. Levantaria cedo dentro de poucas horas e pegaria o primeiro voo para São Paulo. Resolveria assuntos importantes sobre a empresa e aproveitaria toda essa distância para ficar um pouco longe de Verônica e para poder reorganizar meus pensamentos e sentimentos. Na volta tomaria a melhor decisão possível e seja lá qual fosse ela, tentaria ser sincero.
Olho mais uma vez para Verônica adormecida a meu lado e penso na vida desregrada que tenho e na vida diferente que poderia ter a seu lado. Será que em minha vida caberia uma relação sólida com alguém? Será que eu seria capaz de levar um relacionamento mais a sério, que passasse de um noivado? Um casamento? Será que conseguiria desejar alguém por tanto tempo assim, desejando amar e proteger? E se viesse um filho? E se Verônica desejasse um filho? Eu nunca havia pensado na ideia de ser pai, mas será que estava mesmo preparado para isso? Egoísta e individualista do jeito que sempre fui?
Talvez fosse melhor para ambos se Verônica seguisse o próprio caminho e fosse feliz com alguém que a amasse de verdade, assim como Paula também deveria fazer. Eu sei que não sou o homem certo para relacionamentos sérios e nem o homem ideal para nenhuma das duas. Não atendo aos scripts de um marido perfeito. Se elas sonhavam em se casar e ter filhos, que procurassem outros homens e fossem felizes com eles. Suspiro outra vez.
Confuso com meus próprios pensamentos, tento pegar no sono. Cerro os olhos. E então, quando menos espero, adormeço.
Acordo duas horas depois com o som do despertador. Levanto-me rapidamente, enfrento o chuveiro frio e me arrumo. Antes de sair, olho pela última vez para Verônica desmaiada na minha cama. Sinto algo bom, a observando ali. Um sentimento de solidez, de conforto. Em seguida, saio, deixando-a para trás.