Como uma Joia
Capítulo 27
VERÔNICA
ABRO OS MEUS OLHOS. Pisco uma, duas vezes. Não preciso olhar para saber que está ali ao meu lado. Eu o sinto. A gente fez amor por um bom tempo antes de pegar no sono. Imagino que dormimos por algumas horas. Lembro-me do momento do sexo e como me tomou, me beijou, me chupou, fez tudo o que nenhum homem fez. Foi o sexo mais selvagem que tivemos até agora. Mas foi gostoso. Aliás, a cada dia que se passa tem ficado ainda mais gostoso. Ele vai conhecendo meu corpo, acertando nos pontos onde me dá mais prazer, e eu vou fazendo a mesma coisa com ele. Ou pelo menos tento. Nós fizemos três vezes entre pausas. Cada uma superando a anterior.
Agora Jonas está apagado na sala, como um tigre cansado. Eu o balanço delicadamente, tentando despertá-lo, mas é inútil. Ele deve estar realmente muito cansado. Cruzo os meus braços na altura do peito, me dando conta de que não vai adiantar muito ficar ali, tentando acordá-lo. O melhor a fazer é deixá-lo dormir em paz, afinal de contas, já é madrugada.
Eu me ponho de pé devagar e com cuidado para não interromper o seu sono. Olho para o programa de auditório que está passando agora na tevê e constato que ela esteve ligada desde o momento do Scooby Doo até agora. Procuro pelo controle remoto que ficou abandonado em algum canto do sofá, mas não o encontro. Retiro o pote de pipoca do outro lado do tapete e o levo para a cozinha. Jogo as pipocas frias e velhas na lata do lixo. Subitamente a imagem de Vanessa vem à minha mente e me divirto com ela. Se estivesse aqui resmungaria pelo fato de eu ter me desfeito das pipocas.
Depois de apagar a luz da cozinha, levo os meus pés até o quarto, ainda bocejando. Lembro-me de Jonas adormecido lá no carpete da sala. Pego um edredom grosso, e volto para a sala com ele em minhas mãos. Cubro Jonas. Olho para o sofá e finalmente encontro o controle remoto. Eu o miro na TV, a desligando. Meus olhos voltam à imagem de Jonas no carpete. Fico o observando dormir. É lindo até dormindo. Não. É maravilhoso. Faz coisas impressionantes na cama e me faz sentir a mulher mais gostosa e admirável que já existiu.
Gosto do seu beijo de língua, do modo como suas mãos grandes me tocam ora com delicadeza, ora com um pouco mais de brutalidade, mesmo sem me machucar. Gosto do modo como seus joelhos afastam minhas pernas e como seu quadril se ajeita entre minhas coxas, do modo como seus braços musculosos se posicionam ao lado do meu rosto, me engaiolando, me fazendo sentir protegida. Do modo como seu peitoral amplo e duro esmaga meus mamilos e seios, do modo como sua barriga definida cola na minha. Gosto do modo como sua boca exigente procura pela minha no mesmo instante em que seu membro entra em mim e vai deslizando até se alojar completamente no meu fundo. E talvez esse seja o meu maior medo: ficar viciada nele.
Suspiro. Deixo Jonas dormir na sala e caminho para o nosso quarto. Afundo na cama e tento dormir de novo. Meus pensamentos subitamente vão até minha casa, até à minha família... na saudade que estou sentindo deles... depois vão até Cidão.... em como ele estaria... penso em Jonas... no que temos feito e nos momentos que temos passado juntos... na forma como ele sabe transar comigo e não me deixar enojada... até que tudo vai ficando... escuro...
***
Na manhã seguinte, desperto com vozes e barulhos que parecem vir da sala. Esfrego os olhos com as mãos. Continuo ouvindo as vozes. Afastando o cobertor de cima de mim, sento-me na cama e ajeito meus cabelos desgrenhados. Miro o relógio da parede. São oito e vinte da manhã. As vozes estão vindo cada vez mais próximas... elas estão aqui na suíte - provavelmente na sala de estar.
Levanto-me num pulo, calço os chinelos e vou até à porta para tentar ouvir melhor o que está se passando lá fora. São vozes, definitivamente, de pessoas que estão na sala de estar - e realmente dentro da suíte! E vozes de pessoas alteradas. Ao menos uma delas está alterada. Uma discussão. Uma voz é de Jonas, eu a reconheço. Um timbre firme e controlado. Ele está falando mais baixo, tentando contornar a situação. A outra voz é de uma mulher. Ah, merda. Com o coração pulsando, me afasto da porta e me caminho até o centro do quarto. Começo a andar de um lado para o outro, angustiada, me perguntando o que está acontecendo lá fora e quem é essa mulher que está discutindo com ele. Volto a me aproximar da porta, querendo entender o que falam e quem é ela. Será que é a namorada dele?
— O que está acontecendo aqui, Jonas? Por que não conta logo de uma vez? — a voz feminina brada — O que tanto me esconde? Me diz! Pois cansei de bancar a ingênua! Cansei!
— Você pode falar mais baixo, por favor, Paula? Nova Iorque inteira não precisa participar disso! — Jonas parece incomodado com o show que ela está fazendo.
— Dane-se Nova Iorque! Dane-se as boas maneiras! Dane-se você! Eu quero saber a verdade! Me diz! — de repente seu tom parece de alguém angustiada e realmente sofrida. — É outra, não é? Você está me traindo com outra mulher! É claro que está! E não seria a primeira vez, não é verdade? — começa a chorar descontroladamente: — É claro que está me traindo... por que eu sou tão burra?... — ouço barulho de socos no peito e sei que está batendo nele.
— Paula, calma. Vamos conversar...
— Vamos conversar? Como tem coragem de me pedir isso? — grita. — Eu não quero conversar coisa nenhuma! E não quero ficar calma! Eu quero descobrir quem é a puta que está com você aqui dentro! Eu vou acabar com ela! Quero ver com meus próprios olhos...
— Paula!...
Jonas grita, e tenho certeza de que a mulher está vindo até o quarto onde estou. Ouço passos apressados se aproximarem cada vez mais. Aflita, afasto-me da porta. Os passos de Jonas atrás dela só confirmam que a mulher se aproxima do quarto, como uma louca. Recuando ainda mais, vejo o exato momento em que a porta se escancara e que seus olhos encontram os meus. Seus olhos como chamas de fogo. Não sei o que fazer. Seus olhos estão vermelhos de tanta tristeza e sofrimento. Por um momento, só vejo aflição e dor. Ela grita, chora, e parte para cima de mim, como uma louca, furiosa. Pensando apenas em me defender, ergo os braços como um escudo, enquanto a mulher traída, histérica, avança. Eu a empurro para longe antes que agarre o meu cabelo e não o solte por nada. Jonas chega a tempo, puxa a namorada enfurecida pela cintura, gritando com ela e mandando que pare com o show. Como nada é capaz de acalmá-la, ele a carrega com firmeza e a leva de volta para fora do quarto e para longe de mim.
Com o meu coração batendo feito um tambor, o tremor em meu corpo, o choque tomando a minha mente, corro até à porta e viro a chave na maçaneta, trancando-me lá dentro - fazendo o que eu devia ter feito assim que escutara a discussão.
Ponho as mãos nos ouvidos porque não quero mais ouvir os gritos da mulher traída lá fora. Eu me sinto mal com tudo isso, eu me sinto uma grande vadia. As lágrimas descem por meus olhos e não consigo contê-las. Tenho vontade de ir embora, de sumir de uma vez. Lamento tê-lo conhecido um dia naquele hotel. Por um segundo lamento ter aceitado vir. No entanto, sei muito bem que se estou aqui nessa situação a culpa não é dele. Jonas não me obrigou a nada. Por mais que a minha vergonha e revolta nesse instante falam mais alto que qualquer coisa, preciso entender: ele não me obrigou a nada. Mas eu jamais vou esquecer a tristeza e a dor que avistei nos olhos da loira.