Como uma Joia
Capítulo 18
VERÔNICA
O SOL BRILHA à essa altura da tarde e está visivelmente disposto a queimar a pele de quem estar indiferente a ele. Há uma sombra perto do jardim e de lá é possível contemplar as verdejantes folhas das árvores. Na primavera isso, sem dúvida, ficará lindo. Meneio a cabeça. Com tantos problemas para pensar, ainda tenho mente para imaginar como ficarão floridas as árvores do hotel na primavera?
Suspiro. Olho ao redor. No horário combinado, me vejo sozinha e angustiada, bem longe do prédio principal. O nervosismo não passa, então massageio as mãos. Entrara em contato com o careca engravatado e agora eu o aguardo próxima a uma das piscinas exuberantes da ala leste. Aflita, começo a andar de um lado para o outro, tentando reunir coragem para o que virá depois. De repente, eu o sinto, sua presença. Encaro-o. Ele, de fato, não é bonito. Nem sedutor ou coisa parecida. Mas possui uma certa elegância no modo de portar-se. Assim como no modo de falar.
— Senhorita.
— Oi, senhor...
— Augusto — estica a mão para mim e eu a aperto.
Ambos estamos nervosos ou desconfortáveis com essa situação.
Sem deixar de fitá-lo, passo a língua nervosamente pelos lábios, então murmuro:
— Eu liguei porque... bom, porque...
— Tudo bem. Não precisa explicar. Muito menos entrar em detalhes — cruza as mãos brancas à frente do paletó e pigarreia. — Antes de mais nada, preciso dizer uma coisa: meu patrão é quem está por trás da proposta e ele está seguindo hoje para Paris. Portanto, não vai dar tempo de acompanhá-lo. Contudo a levarei ao encontro dele logo que possíve...
— O que disse?
Ele balança os cílios por dentro dos óculos de grau, confuso. Tanto ou mais que eu.
— Perdão? — ele diz para mim.
— Bom, é que você falou "meu patrão"... eu pensei que a proposta...
— Ah, sim. Me desculpe. A culpa foi toda minha. Eu não lhe expus toda a situação desde o princípio. Peço perdão. O fato é que essa proposta não é minha. Nunca foi.
Permaneço o encarando, e esperando que termine o que começou a dizer.
— Meu patrão. É ele quem está interessado na senhorita. Foi ele que me pediu que entrasse em contato e fizesse a proposta.
Sei que minha boca está aberta em um imenso O e não consigo falar mais nada. Tento arrumar a minha mente, organizar o que acabo de descobrir agora, mas não consigo juntar as peças.
— Bom, o que posso dizer é que ele é um homem confiável e íntegro. E que desde que a viu ficou encantado.
— E posso saber quem é ele?
— Um empresário importante. É tudo o que posso dizer no momento.
— Oh, meu Deus... em todo esse tempo achei que fosse você... — levo minhas mãos ao rosto, me sentindo cada vez mais confusa com toda essa situação. Quem é esse homem misterioso, afinal?
— A senhorita já viajou pra fora do país? Tem passaporte?
— Sim... eu tenho... quer dizer, é que uma vez quase fui trabalhar fora. Estados Unidos. Eu fiz um passaporte, mas acabou que o trabalho não vingou, mas isso já faz um tempinho... não vem ao caso...
— Entendo. Certo. Ainda hoje providenciarei as passagens aéreas e os exames.
— Exames?
— Sim, um Check up. Você compreenderá melhor quando der uma olhada no contrato.
— Está bem.
Imagino que seja algo para comprovar que não estou grávida e que estou bem de saúde, além de não possuir doenças venéreas.
— Aproveite e tire o dia para ir ao shopping e comprar tudo o que precisar. Estarei à disposição para ajudá-la, caso prefira.
Eu o encaro, pensando que minha expressão deve ser de alguém que viu um fantasma ou não entendeu nada. Do que ele está falando? Estou tão enrolada com dinheiro, com uma enorme dívida para quitar, e ele vem falar em shopping e em compras?
— Não se preocupe com dinheiro — comenta, me encarando, como se fosse capaz de ler meus pensamentos. — Foi deixada uma boa quantia para que a senhorita pudesse se organizar melhor antes da viagem. Meu patrão pensou em tudo.
Engulo em seco, meus olhos arregalados.
— Uma quantia?
— Sim. Mas podemos também conversarmos sobre o contrato. O que acha?
— Claro.
Abre uma maleta preta e retira alguns papéis dela.
— Aqui está — me entrega algumas cópias. — Leia com atenção e caso tenha alguma dúvida, pode me perguntar.
Agitada, pego os papéis da mão dele e sento-me num banco da madeira ali perto, antes de começar a folhear os documentos. Leio superficialmente. Estou muito nervosa e tensa para raciocinar direito. Tudo o que quero é acabar logo com isso antes que o arrependimento me faça recuar. Em seguida, assino.
— Bom — ele diz, pegando uma das vias de volta. —, assim que marcar a viagem entrarei em contato. Devemos partir bem cedo. Tome, aqui está um cheque para as compras. Compre tudo o que precisar. Não se perturbe. Como disse, é para a senhorita gastar mesmo.
— Obrigada — pego o cheque de sua mão e observo o careca elegante girar o calcanhar e ir embora depois de se despedir de mim.
***
Minha mãe não consegue entender o porquê de eu querer viajar tão repentinamente e confesso que está sendo uma barra mentir tanto para ela. Parte o meu coração vê-la tão preocupada, mas ainda assim mantenho as mentiras porque lá na frente tudo isso será por uma boa causa. A nossa casa.
— Não entendo, filha. Você simplesmente comenta que conseguiu um emprego no exterior e que vai viajar dentro de poucos dias...
Mamãe está me observando fazer as malas.
— Vai ser por uma boa causa, mãe. Não se preocupe, está tudo bem. Vou receber um bom dinheiro lá fora. Tudo em euros. E vou quitar a nossa casa.
Ela fica alguns minutos em silêncio, pensativa.
— Apesar de não estar entendendo nada, você é tão forte, tão batalhadora, filha, que dá orgulho de ver — sorri com ternura, até que então novamente a preocupação volta a estampar seu rosto — Mas, filha, me explique direito essa história de viagem... E o seu trabalho no hotel? E a faculdade?
— Mãe, está tudo certinho. Tranquei a matrícula da faculdade e não se preocupe com o hotel. Consegui um emprego melhor lá na França. Vamos conseguir o dinheiro pra pagar a dívida da casa.
Eu paro um pouco de mexer nas malas. Chego mais perto da mãe e pego nas mãos dela.
— Confie em mim, vai dar tudo certo, ok? Não dá para explicar agora, mas depois explico tudo direitinho, com mais calma. Prometo.
— Mas quanto tempo vai ficar lá fora? Você nunca foi pra fora do Brasil, Verônica... você nem sabe inglês ou francês, filha...
— Vai ser por pouco tempo — beijo suas mãos calejadas — Ei, fique tranquila. É um emprego temporário. Em breve estarei de volta. Aquiete seu coração, dona Selma.
— Mas como aquietar meu coração? Você vai com quem? Confia nessas pessoas? Sabe quem eles são de verdade?
— Confio. São pessoas sérias e honestas — minto — É tudo seguro, pode ficar sossegada.
— E quando vai partir?
— Amanhã bem cedo — suspiro. — Vou para a França. Já imaginou? Vou conhecer Paris, uma cidade linda e cheia de oportunidades!
Mamãe me encara, um pouco melancólica.
— Eu não sei, filha...
Respiro fundo e ainda mantenho suas mãos quentinhas nas minhas.
— Confie em mim, por favor. Estou fazendo por nós. E vou conseguir o dinheiro e salvar nossa casa. Em pouco tempo estarei de volta — eu a abraço com ternura.
— Certo... mas vê se manda notícias. Assim fico menos preocupada.
— Vou mandar, mãe. Claro que vou. Não se preocupe também com isso — beijo seu rosto.
***
Deitada na cama, passo a noite com gemidos inexprimíveis e lágrimas. Eu me contenho para que Vanessa, que está dormindo na cama ao lado, não ouça. Sei que não há como voltar atrás, nem se eu quisesse. É tarde demais. Amanhecerá o dia e partirei para a França, ao encontro de um cara que sequer conheço, para ser sua acompanhante de luxo, sua amante, seu objeto sexual. Jamais superarei isso, tenho certeza. Caí numa armadilha do destino. E não posso recuar. Minha família depende de mim, precisa desse sacrifício. E por mais que seja difícil, é no bem de nós todos que preciso me concentrar antes de qualquer coisa. Se tenho como ajudar, ainda que de forma inapropriada, preciso ajudar. Não conseguirei ver meu pai doente e minha mãe, e mesmo minha irmã sem terem onde morar. Correndo o risco de viver embaixo da ponte. Isso seria um golpe ainda mais forte para superar.
***
O voo foi longo e cansativo. Durara cerca de doze horas e me deixou exausta. Augusto e eu havíamos saído do Rio às cinco da manhã e chegado à Paris exatamente às cinco da tarde. Após tomarmos um táxi, dirigimos para um restaurante ao ar livre antes de seguirmos para o hotel. Ele pedira Coq au Vin do cardápio, que fiquei sabendo que se trata de uma típica comida francesa, e vinho tinto para acompanhar a deliciosa refeição.
— A cidade é linda, você vai se apaixonar — comenta o homem à minha frente enquanto toma um gole do vinho tinto da taça.
— Sim, eu espero — dou uma garfada na comida do prato. Em seguida, levo o garfo até a boca, me esforçando para ser educada.
Ele me avalia por alguns segundos.
— Está nervosa?
— Um pouco... — admito. — Mas não pelo lugar, na verdade...
— Entendo — desvia o olhar. — Bom, ele não é tão ruim quanto pode parecer à primeira vista... bom, o que quero dizer é que vocês vão se entender bem, tenho certeza.
— Eu tenho minhas dúvidas... quer dizer, eu não sei... sinceramente, não sei o que pensar de um cara que faz um tipo de proposta como essa. Não me parece muito... confiável.
— Homens ricos e poderosos. No geral são assim. Convivo nesse meio há anos e tudo o que posso dizer é que me acostumei com o modo de serem.
Um silêncio paira no ar e observo o homem à minha frente. Augusto até que tem se esforçado e se mostrado uma pessoa bacana comigo. No entanto, é o empregado do homem que sonha em me carregar para a cama, e, portanto, devo ter muito cuidado com o que falo para ele.
— Você o conhece há muito tempo? — pergunto.
— Há um tempo suficiente para saber como é de verdade. Sou seu assistente e uma espécie de seu homem de confiança. Faço um pouco de tudo. Mas não posso reclamar porque ganho muito por isso. Um salário realmente invejável.
— E não pode nem me dizer o nome dele? Ouço muito você falar "ele", "meu patrão", mas nunca o nome dele.
— Bom, prometi que manteria segredo. Mas tudo o que posso lhe dizer é que tem menos de quarenta, muito dinheiro na conta bancária além de uma fortuna milionária. Seu rosto está sempre estampado em revistas. Ele tem negócios espalhados pelo mundo e é excelente no que faz. E, claro, tem muito orgulho disso.
— Céus, só não me diga que ele é casado...
— Oh, não. Não é do tipo que se prende a alguém. Gosta de liberdade. Na verdade, preza por ela. Gosta de estar no controle de tudo, inclusive de seus sentimentos. No entanto possui uma namorada fixa.
— Uma namorada?
— Sim. Na verdade, eles passam muito pouco tempo juntos, mas quando o assunto é eventos e jornalistas, gostam de posar como um casal apaixonado. Para a sociedade, formam uma junção perfeita.
Desvio o olhar, abraçando-me, sentindo um frio repentino. Acho que a conversa não tem me feito bem.
— Tudo bem? — Augusto me observa, preocupado.
— Tudo... Só estou um pouco nervosa... nunca fiz uma coisa dessa. É meio... assustador.
— Compreendo — limpa a boca com um guardanapo. —, mas se isso a consola, será por pouco tempo. E você vai receber uma boa quantia no final de tudo isso.
Quando chegamos ao hotel, fico atônita. Parece que estou dentro de um cenário desses filmes hollywoodianos sobre executivos ricos e poderosos. O lugar é esplêndido. Muito mais luxuoso que o hotel onde trabalhei. Encontro muitas pessoas elegantes pelo caminho. Mulheres chiquérrimas e sorridentes falando francês. Homens engravatados, que exalam poder. Só não me sinto tão mal porque estou devidamente vestida, com um elegante vestido preto e branco, na altura dos joelhos. Calço saltos e no meu cabelo há um coque perfeito. A bolsa é de marca e os acessórios também.
Havia passado apenas o batom e a sombra no rosto, já que nunca fui muito fã de maquiagem. Augusto me ajudara durante as compras ainda no Brasil. Nesse exato momento, ele dirige-se à recepção e troca algumas palavras em francês com o atendente. Enquanto isso vejo as malas serem formalmente carregadas pelo bellboy. Observo ao redor. Estou na França. Caramba, dá pra acreditar?! Se alguém me dissesse que isso iria acontecer um dia eu não acreditaria! Em plena Paris! E vestida como uma senhora de respeito em um dos mais luxuosos hotéis do mundo! Sorrio pela primeira vez em treze horas de tensão. O que o destino ainda me reservará? Não tenho ideia.
Ao chegar no quarto, fico ainda mais perplexa com a incrível suíte. Ela é impecável, dessas que a gente só vê pela TV. Possui portas de madeira maciça, móveis de marfim, uma dupla de vidraça chiquérrima, que dá acesso à varanda delineada e florida. O piso é todo forrado com tapete vermelho e o do quarto é especialmente adornado com carpetes felpudos brancos.
— A senhorita ficará aqui à princípio — Augusto comenta. — Pedi para trazerem alguma coisa para comer. Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa que seja, é só me telefonar. Estarei em uma das suítes ao lado. Na suíte em frente à sua estará o patrão.
— E quando terei que vê-lo? — mordo meu lábio inferior porque a ideia já me causa calafrios.
— Bom, ele está numa reunião de negócios agora, na companhia de alguns empresários — consulta o relógio no pulso. — Mas acredito que mais tarde vocês provavelmente jantarão juntos. Recomendo que vista algo bem elegante e que esteja deslumbrante. Tudo bem?
Concordo com a cabeça.
— Certo.
— Então até mais, senhorita. Desejo-lhe toda a sorte do mundo.
— Obrigada.
Augusto gira o calcanhar, passa pela porta e me deixa sozinha na minha suíte. Tranco a porta e olho em volta, observando cada detalhe desse imenso quarto de hotel. Sinto um misto de sentimentos. Fascínio, insegurança, curiosidade, alegria e pavor. Examino cada pedaço do ambiente e fico ainda mais maravilhada com a ideia de que estou sozinha. Ao menos por algumas horas.
Levo os meus pés para o quarto dentro da suíte. Quartos e camas chiques são uma espécie de minha fixação. Aproximo-me da cama imensa e macia e me deixo afundar nela. Encaro o teto por alguns segundos. É mesmo um sonho estar neste lugar. O problema é a razão da hospedagem. Não estou nesse local por causa de uma viagem qualquer ou por diversão, mas sim como uma mera acompanhante de luxo de um homem que sequer vi, com quem nunca troquei palavras.
Estremeço com a ideia de ter que encontrá-lo mais tarde. Sim, terei que fazê-lo. E pior: terei que beijá-lo, terei que dormir com ele, que sentir seu corpo sobre o meu, sentir seu cheiro, seu órgão dentro de mim. Como será isso? Desde que me tornei mulher só conheci Cidão na cama, e mesmo assim já não transamos há muito tempo... mas aqui, nessa cama ou na dele terei que dormir com esse desconhecido, terei que sentir o toque de suas mãos em meu corpo, sua boca na minha... serei praticamente o seu brinquedinho de luxo. Suspiro. Não quero mais pensar nisso. Deito-me na cama, me abraço ao travesseiro e fecho os olhos, querendo que o sono me pegue.