Como uma Joia
Capítulo 30
VERÔNICA
MAIS QUE UMA SEMANA havia se passado e, com ela, muitos momentos ao lado de Jonas. Alguns bons, outros nem tanto. Contudo nem o tempo estava sendo capaz de tirar do meu coração o Jonas antigo, o Jonas que eu conheci ainda no hotel, por quem me apaixonei primeiramente. Cada segundo ficava mais claro para mim: eu já o amava. E pensando bem, nem era tão difícil assim entender o porquê. O modo como vinha sendo atencioso comigo, generoso, carinhoso, gentil me fazia lembrar do Jonas de semanas atrás. O modo como vinha me tocando, beijando e me amando na cama todas as vezes em que ficávamos juntos, fosse dia ou noite, isso tudo também, essa coisa de corpo no corpo, pele na pele, alma na alma me deixava ainda mais envolvida e apegada.
O curioso é que com Cidão isso nunca aconteceu. Nunca me senti realmente apaixonada por ele. Nem mesmo quando assumimos a relação. Já com Jonas é tudo completamente diferente. Eu já estava envolvida antes mesmo de começarmos a ir para a cama.
Estou caminhando neste momento pelo jardim de um clube, afastada de todos do salão. Jonas e eu chegamos cerca de duas horas atrás. Antes mesmo de chegarmos eu já imaginava o quanto seria entediante. Por mais que eu me vista com os mais lindos vestidos, que eu seja apresentada a homens e mulheres de alto escalão e que eu até seja aceita por grande parte deles, não sou como qualquer um deles. Não me identifico com as conversas das madames - sempre falando sobre a nova tendência de moda ou criticando alguma outra nova rica que já esteve na companhia delas - e nem aprecio os drinques coloridos que tanto tomam.
Antes de chegarmos ao local do almoço, Jonas já havia me explicado que não precisaria de muito esforço para sobreviver a elas.
— Não há muito mistério. No geral, são mulheres fúteis e burras. Não importa a idade que tenham — disse — Sempre vão querer parecer melhores do que realmente são. Não se impressione ou se intimide pelo que falam.
— E o que me sugere? — indaguei enquanto o auxiliava a dar o nó na gravata.
— Não precisa muita coisa. Só diga o quanto gostou de Paris e o quanto está gostando de Nova Iorque. E sorria. Sempre sorria. Elas entenderão que você está feliz.
O ar está fresco aqui fora. Usei isso como justificativa para me afastar das perguntas indiscretas a respeito de Jonas e eu. Foi a melhor coisa que fiz. Só agora consigo respirar, aliviada. Nada melhor que um pouco de ar fresco e silêncio. Eu sempre gostei de ficar sozinha por uns minutinhos. É bom para concentração e para mergulhar em nossos próprios pensamentos. Sem falar que é uma experiência imprescindível para a prática do autoconhecimento.
À medida que vou caminhando, vou conversando comigo mesma e refletindo sobre a convivência com o Jonas. Está nítido que após uma semana e meia inteira já estamos nos entendendo bem melhor. E preciso admitir que fui severa demais quando disse a ele que jamais o veria como o homem que conheci no hotel. É claro que não vou esquecer o fato dele ter mentido e encenado. Todavia durante toda a semana consegui identificar nele alguns traços que eu tanto adorava no primeiro Jonas: ele é sempre muito atencioso comigo, é sempre gentil e protetor. Isso sem mencionar que na cama faz questão de me satisfazer completamente.
Sorrio comigo mesma, me sentindo uma iludida. Ah, Verônica, pare. Não idealize nada. Pare com tudo isso antes que se machuque feio.
Levando os meus pés pelo terreno plano, por entre os arbustos, noto a presença de alguém atrás de mim e viro o rosto para encará-lo. Um homem alto, loiro e com um par de olhos castanhos gentis. Paro na hora. Ele faz o mesmo.
— Oi — estica os lábios em um sorriso agradável. — Desculpe, não queria incomodar. Sou o Cássio. Como vai? — estica a mão para mim.
Olho para a sua mão esticada em minha direção e penso se devo apertá-la. Ah, meu Deus, que negócio é esse, Verônica? Claro que deve. Foi essa a educação que sua mãe lhe deu?
— Verônica — pego em sua mão, o cumprimentando.
— Então, cansou também daquele bando de gente chata lá dentro?
Deixo escapar um sorriso nos lábios, mas me pergunto se é uma boa ideia me afastar tanto do salão e ficar conversando aqui fora com esse desconhecido. Digo qualquer coisa a ele e me despeço. Continuo o meu caminho e noto que Cássio continua a me acompanhar.
— Será que posso caminhar com você? Prometo não incomodá-la.
Ele é um rapaz bonito, embora não tenha uma beleza chamativa como a do Jonas e nem seja também charmoso ou sexy quanto o Jonas e os amigos dele. O homem ao meu lado tem a aparência de um inglês, no entanto, pelo seu português perfeito dá para saber que é brasileiro. Veste um sobretudo caramelo, possui olhos grandes e ternos.
— É bom encontrar brasileiros aqui — comenta, ao meu lado — Você é de onde?
— Rio.
— Hum. Moro no Rio também. Quer dizer, eu nasci no Paraná. Mas já vivo no Rio há alguns anos.
— Imagino que seja algum empresário ou executivo.
— Sim, sou. Trabalho na Montrel. Já ouviu falar?
Na verdade, não, mas faço que sim com a cabeça para não parecer rude ou desinformada.
— Também somos do ramo de joias — explica, como se soubesse da minha ignorância referente à sua empresa. — Assim como a Luxus.
A gente até que fica conversando sobre coisas interessantes e o quanto tem sido legal conhecer Nova Iorque. Em um determinado momento da conversa, ele me indaga:
— Você veio acompanhada de alguém, certo?
— Sim — eu o encaro, vendo em seus olhos castanhos que ele já sabe quem é o meu acompanhante e só espera ouvir a minha confirmação.
— Entendo... sujeito de sorte.
— Está começando a ficar frio aqui fora... acho melhor voltar pro salão. Foi um prazer conhecê-lo.
— O prazer foi todo meu, Verônica.
JONAS
ISOLADO DE TODOS, em um pequeno atelier de artes que fica do outro lado do clube, analiso alguns quadros espalhados pelas paredes enquanto bebo um gole do meu Jack Daniel's. Eu percebo a sua chegada, o som que seus saltos fazem, o seu cheiro. Mas permaneço parado, bebendo o meu uísque e estudando os quadros.
— Jonas — a voz arrastada e feminina diz.
— O que você quer, Suzana? — nem me dou ao trabalho de me virar para encará-la.
Estou cansado de vê-la sempre onde chego e de ser perseguido por seu faro. Uma sombra. A porra de uma sombra em desespero. Uma espécie de mulher vazia, problemática, fraca, que não se dá o valor. Já terminamos a séculos. Não sobrara nada. Nem amizade ou admiração. Eu sequer gosto de lembrar dos momentos que tivemos juntos. O fato é que não a quero mais e qualquer pessoa com um mínimo de inteligência possível já teria compreendido isso. Mas Suzana não.
— Como vai, Jonas?
— Como você acha? — rebato, de forma impaciente, sem me importar em ser gentil com ela. Eu já cansei de ser compreensivo e complacente.
A mulher loira, magra e elegante já está na minha frente. Seus olhos castanhos mel estão arregalados e atentos a qualquer movimento que eu faça. Sempre desesperada, esperando por uma chance.
— Há seis anos espero por isso, Jonas — declara, trazendo seus dedos ao meu rosto, mas me esquivo de seu toque — Jonas, por que está agindo desse jeito?
— O que você acha? Me deixa em paz, porra. Desencana de uma vez — dou mais uma tragada em minha bebida e me afasto de Suzana.
Subitamente sinto suas mãos e braços sobre mim, me abraçando enquanto sua voz agora dramática tece um monte de declarações de amor.
— Eu não consigo parar de pensar em você, Jonas! Eu não consigo! Me ajuda... por favor, me ajuda — faz uma trilha de beijos em meu pescoço e minhas costas.
Eu me giro de novo e fico de frente a ela, seguro suas mãos agitadas e olho bem em seus olhos.
— Suzana, pelo amor de Deus, se controle. Estamos num local aberto. Qualquer pessoa pode aparecer aqui.
— O que você fez comigo, Jonas? Eu te amo, eu te quero! Eu só penso em você. Por que me pune tanto desse jeito?
— Suzana, acalme-se... — peço, contendo-a, tentando contornar a situação. Sei que além de desequilibrada, Suzana sempre apreciou um bom show. — Espere, me ouça. Lamento se a magoei muito no passado, mas agora precisa superar isso. Não é mais tempo de relembrar a nossa história. Ela chegou ao fim.
— Você nunca acha que é um bom momento... — retruca, novamente agarrada ao meu pescoço, praticamente me arranhando. — Por que está fazendo isso comigo? Por que me castiga e me trata como lixo? Por que sempre me menospreza? Eu não sou boa o suficiente? — tenta me beijar, mas não a beijo de volta — Por favor, vamos matar a saudade... eu o amo... não sabe o quanto esses anos de afastamento têm me feito mal...
— Suzana, chega, porra! — digo com menos paciência, sendo mais enérgico, segurando suas mãos e fitando-a nos olhos. — Você está fora de si. O que aconteceu entre nós dois acabou. Aceite isso. Entenda que o que tínhamos era bacana e foi quente, mas terminou. Um dia tudo tem que terminar.
Eu a sinto relaxar em minhas mãos, desgostosa, perdendo as forças.
— Vamos deixar isso pra lá — continuo — Eu não a amo. Estou com outra pessoa agora e você tem o seu marido. Não vale a pena se humilhar dessa forma.
Seus olhos cheios de lágrimas me encaram, seus lábios estão entreabertos.
— Por que terminou com a Paula então?
— Não foi por você, Suzana. Nunca te prometi nada. E sobre o passado, eu só tinha vinte e poucos anos. Eu só estava começando a minha vida. Nossa história foi bacana, mas acabou. E por mais difícil que seja, precisa me esquecer — percebendo o quanto estou sendo duro, amacio um pouco a voz. — Você ainda tem o Ralph. Fique com ele.
Eu me afasto, deixando-a imóvel no lugar. Levo os meus passos para mais longe dela, até sumir de seu campo de visão. No entanto sou capaz de ouvir seu grito histérico seguido de um choro angustiado.
Não volto.
VERÔNICA
— Ele não vai gostar de saber que esteve conversando com outro — comenta uma voz, me surpreendendo e me fazendo olhar para o loiro que apareceu do nada. Eu o conheço. Já fomos apresentados. É um dos amigos do Jonas. O irmão mais novo do outro loiro.
— Verônica, certo? Como vai?
— Bem... você é o Henrique, né?
— Isso mesmo — se aproxima um pouco mais.
Ele é alto. Perfumado. Seus olhos verdes brilham vistos assim mais de perto.
— O que você tem contra o Cássio? — pergunto, já que ele comentou que Jonas não gostaria de me ver com o outro.
— Eu? Nada. Bom, ele é um filho da puta invejoso, mas pessoalmente não tenho nada contra o cara. Mas Jonas tem.
— E por quê?
— Coisas relacionadas a negócios, você ficaria de saco cheio.
Gosto do Henrique. De todos os três, é o que parece menos rico e arrogante. Ele é do tipo que conversa com cada pessoa como se fosse igual, sem distinção entre porteiro, faxineiro, presidente.
— Verônica?
A voz de Jonas surge, nos fazendo olhar para ele.
— Eu não disse? — Henrique sussurra para mim — Graças a mim ele não a viu com o outro — brinca.
Henrique passa por Jonas. Fala alguma coisa sem importância para ele e em seguida volta para o salão, sumindo do alcance dos meus olhos. Jonas chega mais perto de mim.