Como uma Joia
Capítulo 21
JONAS
— NÃO SABIA que estava te pagando para tomar suco à beira da piscina e mergulhar nela — comento, tentando disfarçar todo o meu incômodo com o fato de Verônica parecer muito mais à vontade com Augusto do que comigo.
— Peço desculpas, senhor. Não era a minha intenção chateá-lo. Prometo que isso não vai mais se repetir.
Bebo um gole do meu uísque, tentando controlar a minha raiva. No fundo o fato de Verônica me rejeitar e me desprezar é algo com que não contava quando planejei usar a dívida da casa para tê-la. Porra! Eu deveria ter pensado nisso antes de pensar em jogar sujo.
Um movimento de Augusto me faz lembrar que ele ainda está presente na minha frente. Eu o fito. Pergunto:
— E o que os dois estiveram conversando às minhas costas?
Augusto permanece imóvel, me encarando, mas sou capaz de observar sua expressão mais tensa, como se estivesse preocupado com o que irá responder.
— Na verdade sobre nada em especial — explica — Acho que ela só não queria ficar sozinha e por isso me convidou para lhe fazer companhia na piscina.
— E o que vocês costumam conversar quando estão juntos e a sós? Ela fala sobre mim?
— Sim, pergunta como o senhor é e tenta entender por que fez a ela esse tipo de proposta.
— E o que você responde?
— Que tenho certeza de que vocês se entenderão.
Tomo mais um gole do meu uísque, aprovando a resposta que deu, mas me perguntando se não está sendo um tanto otimista.
— Eu tenho minhas dúvidas.
— A garota só precisa de um tempo, senhor. Só precisa confiar mais.
Penso um pouco nessas suas últimas palavras. Assinto. Pode ser. Também gostaria que Verônica parasse de me ver como um monstro cruel.
— Avise a ela que gostaria que me acompanhasse hoje à noite a um evento. Ela não precisa se preocupar com roupas agora.
— Farei isso.
Abandono o meu copo vazio na mesinha de centro e em seguida me levanto.
— Diga que é importante que esteja linda e que pareça feliz a meu lado.
— Sim, senhor.
Sigo para o meu quarto, deixando Augusto para trás na sala de estar da suíte, e penso no que fazer esta noite para agradar Verônica e começar o meu processo de reconquistá-la. A primeira coisa a ser feita é aplacar essa raiva que está sentindo de mim.
VERÔNICA
— O PATRÃO IRÁ a um jantar de gala esta noite — Augusto comunica assim que passa pela minha porta. — A senhorita irá acompanhá-lo. Se vista com o melhor que tiver. O evento é realmente glamouroso. Caso não encontre nada adequado, podemos sair para comprar algo melhor.
— O problema não são os vestidos, nem mesmo a maquiagem... bom... é que não sei se vou saber me portar em eventos como esses... na hora da comida, quero dizer, como vou saber, por exemplo, qual talher escolher? Eu não sei se dou conta disso...
Augusto sorri de um modo paciente e terno.
— Fique tranquila, vou orientá-la. Não é um bicho de sete cabeças. Só preste a atenção em todos os detalhes que eu disser.
— Certo. Obrigada.
Continuo o encarando e me lembro de como Jonas pareceu detestar o fato de vê-lo comigo na piscina mais cedo.
— Espero que ele não tenha brigado por ver você comigo na piscina.
— Ele reclamou, mas já está tudo bem. Não me demitiu, como na hora imaginei.
Estou um pouco mais aliviada agora. Augusto é um sujeito bacana. Ele me conduz à mesinha de centro e coloca vários talheres nela. Explica com paciência para que serve cada um deles. Aos poucos percebo que tem razão: não é um bicho de sete cabeças. Já consigo identificar a maior parte dos garfos e colheres, e já consigo mostrar um sorriso.
— Tudo ok? — me encara, ainda agachado próximo à mesinha.
— Tudo. Obrigada.
Algum tempo depois, quando Augusto vai embora, corro para o banheiro e levo um bom tempo relaxando embaixo da água espumante da banheira de mármore. Minha mente voa longe, vai até o Brasil e eu me dou conta de que desde que cheguei a Paris só dei dois telefonemas à minha mãe: um, na mesma noite em que cheguei; e outro hoje logo após o almoço. Bem que eu gostaria de ligar de novo, mas como não vou poder demorar, é melhor deixar para telefonar mais tarde após o evento.
A água já está começando a ficar fria. Puxo o roupão cinza que deixei ali perto e me levanto um pouco enquanto me cubro com ela.
Saio da banheira com cuidado, ajeitando o cinto do roupão cinza, vou até o closet escolher o vestido ideal. Examino vários deles e fico feliz por encontrar um que me valoriza. Jamais pensei que um dia teria tantas roupas lindas e caras para escolher. Puxo um cabide preto e pego um vestido verde-limão. É bonito, elegante, sofisticado e, obviamente, adequado para a ocasião. Calço um par de saltos pretos. Depois de pronta, prendo meus cabelos perfeitamente em um coque e, em seguida, cuido da maquiagem. Nada exagerado. Apenas sombra, base, blush e batom. Depois de completamente pronta, me avalio um pouco no espelho e, apesar de tudo, fico satisfeita com o resultado. Estou bonita e elegante.
***
Um pouco mais tarde, já na suíte dele, respiro fundo e tento não mostrar a ele o quanto pode ser capaz de me desestabilizar ainda que seu olhar penetrante esteja em minha direção. Viro o meu rosto e tento me concentrar no que terei que fazer daqui a algumas horas. Aprendi mais cedo com Augusto sobre como usar os talheres e a forma como me portar em um evento como o que Jonas irá me levar, então não posso falhar. Também não posso desmoronar, mesmo que eu me sinta um mero objeto pendurado numa vitrine cuja finalidade é ser cobiçado e usado. Suspiro. Tento manter a calma, mas fico um pouco mais nervosa agora que Jonas está se aproximando lentamente. Sou capaz de sentir sua colônia envolvente de almíscar e, por um momento, me envolvo não só pelo cheiro que exala dele, mas também por sua beleza e altivez. Ele é maravilhoso, de fato. Alto, elegante, charmoso, sexy. Ergo meus olhos e não há como ignorar o seu smoking carvão impecável.
— Você está linda — há um sorriso no canto de seus lábios e tenho certeza de que esses lábios são muito experientes no que diz respeito a beijos — Aliás, linda é pouco. Você está maravilhosa.
Não consigo respirar, mas me esforço para murmurar um “obrigada”. Jonas permanece me observando, toca meu rosto com o seu dedo polegar e o indicador. Chega ainda mais perto de mim, me fazendo estremecer e virar o rosto. Segura meus cabelos na altura da nuca com firmeza e fecho os olhos quando sinto que vai me beijar. Logo seus lábios pressionam os meus e sua língua invade a minha boca, não me dando outra alternativa senão me esquivar. Ele percebe meu desinteresse e, mesmo não querendo, recua dois passos. Pigarreia, aparentemente um pouco contrariado.
— Bom, acho melhor a gente ir.
Ele abre o caminho para eu passar primeiro. Quando saio de sua suíte, caminho até o elevador, segurando a minha bolsa de mão com firmeza, despejando nela todo o meu desespero. Sinto Jonas a todo momento atrás de mim. Seu cheiro delicioso mexe comigo de uma forma que eu não gostaria e isso me deixa confusa e ainda mais nervosa.
Estamos apenas nós dois no elevador elegante. Jonas aperta o botão do painel e se coloca ao meu lado. Ele não diz nada, mas enquanto mantenho meus olhos fixados na porta de alumínio do elevador, sinto seus olhos sobre mim.
— Você já ligou para a sua mãe? — pergunta de repente, me surpreendendo. Tanto que eu o encaro.
— Sim... já.
— Espero que ela não esteja preocupada.
— Não se preocupe. Estou cuidando de tudo.
A porta do elevador finalmente se abre e Jonas mais uma vez me deixa passar primeiro. Eu o ouço cumprimentar em francês alguns outros hóspedes que encontramos pelo caminho. Já na rua, há uma limusine branca estacionada. Com gentileza Jonas abre a porta para que eu entre primeiro, como sempre. Tenho que admitir, ele é um cavalheiro. Ele se senta ao meu lado no elegante banco traseiro. Isso me deixa ainda mais nervosa. Especialmente depois do beijo que tentou me dar. Não consigo relaxar. Fico o tempo todo pensando no que ele espera de mim, não sei o que fazer... bom, se concordei em estar aqui com ele em Paris, tenho que começar a agir como uma profissional.
Um alívio toma a minha alma quando Jonas atende o celular e gasta um bom tempo conversando com outra pessoa. Em seguida com mais outras. Ao que parece, fala sobre negócios, coisa que não entendo e nem mesmo me esforço para entender. Quanto menos souber da vida dele, melhor. Não quero prestar a atenção no que diz. Tento relaxar e acabo me distraindo um pouco ao observar as ruas parisienses, as construções, o modo como as pessoas se comportam e se vestem. É como se eu estivesse em outro mundo completamente diferente. Volto à realidade apenas quando sua mão firme pega na minha com gentileza e a leva até os lábios.
— Fique tranquila — murmura com a voz aveludada. — É só uma festa estúpida com um monte de gente mais estúpida ainda. Assim que puder, voltaremos para o hotel.
Viro o meu rosto para fitá-lo e pela primeira vez olho bem dentro de seus lindos olhos azuis. Abro minha boca, mesmo sabendo que deveria mantê-la fechada.
— E quanto à sua namorada? — não sei de onde saiu isso, mas agora é tarde demais.
Eu gostaria de poder voltar alguns segundos e morder a língua, mas isso é impossível. Ele me encara e seu cenho está franzido, no então não responde à minha pergunta. Nesse instante seu celular volta a tocar e ele o leva ao ouvido. Respiro fundo, dizendo a mim mesma que devo ficar calada.
Mais meia hora se passa e Jonas ainda está falando com alguém no celular. De repente o motorista avisa que chegamos.
Ao chegar ao salão principal, percebo alguns olhares em nossa direção. Homens de smoking, muito bem alinhados, ao lado de glamourosas mulheres. Algumas muito mais jovens do que eles. Serão amantes? Provavelmente. Apesar de estarmos em plena Paris, muitos convidados parecem ser brasileiros — isso me deixa um pouco mais aliviada. Não tenho nenhuma noção de francês e não gostaria de ficar boiando.
— Ei, Jonas! — uma voz, de repente, chama. É de um homem alto, grisalho, de aparentemente cinquenta e poucos anos, e magro. Ao lado dele há uma mulher também magra, quarentona, morena, de cabelos curtos. — Que coincidência encontrá-lo aqui!
— Como vai, Ralph? — Jonas o cumprimenta com um aperto de mão — Não sabia que estavam em Paris.
— Chegamos há alguns dias — Ralph responde e Jonas desvia o olhar para a mulher ao lado dele.
— Olá, Suzana — ele a cumprimenta também.
A tal de Suzana abre um sorriso que para mim soa controlado. Em seguida, mira os olhos em mim.
— Bom, esta é Verônica — Jonas diz, e dirigindo-se a mim: — Estes são Ralph e Suzana. Dois velhos amigos.
— Velhos? Uau. Não sou velha coisa nenhuma — Suzana está com o sorriso forçado nos lábios finos. Ela é uma mulher charmosa e elegante. Claramente é muito areia para o caminhãozinho do marido, que é bem mais velho e feio — Essa é a sua nova namorada, Jonas? — ela quer saber.
— Foi um prazer vê-los — Jonas diz para ela, se despedindo e deixando claro que não quer responder à sua pergunta indiscreta.
No entanto Suzana permanece com os olhos curiosos sobre mim. Jonas volta a agarrar meu braço enquanto me conduz para longe do casal.
— Pensei que fossem amigos — comento, provocando o fato de ele ter dito isso e ter fugido do casal.
— Nem tudo o que falamos é verdade — confidencia enquanto caminhamos — No fundo ninguém é amigo de ninguém. Você ainda não viu nada.
Imagino como esse meio de gente rica e importante deva ser superficial e repugnante. Sinto pena dessas pessoas vazias e infelizes, que na verdade pensam que por terem dinheiro e prestígio são os seres humanos mais especiais do mundo.
— Jonas! — uma outra voz surge de repente, me assustando. — Oh, cara, que bom vê-lo!
Virando-se na mesma hora, Jonas abre um sorriso que dessa vez parece ser mais sincero. Avisto dois desconhecidos. Ambos loiros.
— Henrique. Luiz Miguel — ele os cumprimenta com um aperto de mão e em seguida com um abraço.
Observo os rapazes desconhecidos. Luiz Miguel é loiro, alto e muito charmoso. Henrique é loiro, mais jovem e muito extrovertido. Os três aparentemente se dão muito bem e agora estão trocando algumas piadas. De repente sinto o olhar de curiosidade e interesse dos desconhecidos em minha direção. Jonas também deve ter sentido, pois logo me encara e trata de falar:
— Esta é Verônica... Verônica, estes são Luiz Miguel e Henrique.
— Oi — digo a eles.
— É um prazer, Verônica — Luiz Miguel pega a minha mão e a leva aos lábios, todo sedutor e me deixando sem jeito.
O irmão dele faz o mesmo em seguida.
Eles voltam a falar sobre a última vez em que estiveram juntos em Paris e nesse momento começo a sentir vontade de ir ao banheiro. Mordo o lábio inferior, pensando numa forma de dizer a Jonas que preciso ir ao banheiro - mas por alguma razão - talvez sem sentido - não quero falar isso na frente dos amigos dele. Jonas me encara e parece notar o meu desconforto.
— Tudo bem? — pergunta em meu ouvido.
— Preciso ir ao banheiro — digo no ouvido dele.
— Certo. Há um do outro lado do salão, é só seguir pela direita.
— Ok, volto logo — seguro um pouco a barra do meu vestido, sorrio novamente para os rapazes assim que peço licença e passo por eles, me afastando dos três.