Como uma Joia
Capítulo 43
VERÔNICA
VESTIDA COM UMA camisa de manga comprida cinza e com uma saia salmão na altura dos joelhos, dirijo-me à Luxus. A empresa é muito bem localizada. Um prédio extremamente luxuoso, arejado, amplo e confortável. Decorado com toda a sofisticação necessária. Os saltos altos me dão mais firmeza ao andar, contudo é preciso andar devagar para não parecer que estou rebolando.
— Olá. Em que posso ajudar? — a moça da recepção do primeiro andar me encara com amigáveis olhos castanhos escuros.
— Oi. Eu me chamo Verônica. Sou a nova secretária — digo, abrindo a minha bolsa e pegando o meu crachá provisório para mostrar a ela.
Eu o entrego a ela, que analisa.
— Certo — me devolve o cartão — É só pegar o elevador para o quinto andar.
— Deixe que cuido disso. Obrigado, Leandra — Augusto surge do nada de repente, falando com a moça.
— Oi, Augusto — sorrio para ele — É bom vê-lo.
— É bom vê-la também, senhorita. Venha, vou levá-la.
— Está bem.
Guardo meu crachá na bolsa e caminho atrás do Augusto, que já está chamando o elevador.
Dentro do elevador, gosto de saber que o quinto andar é um lugar bastante reservado e pouco movimentado. Não há quase ninguém, exceto o próprio Jonas, o Augusto e o segurança. Eu imaginava que umas duas ou três secretárias estivessem me esperando e já estivessem incomodadas com a minha chegada, mas de acordo com Augusto, as três secretárias ficam no quarto andar. O quinto, onde a sala de Jonas fica, é o último, e completamente isolado de todos os outros.
— Pronto, chegamos — avisa quando a porta se abre e nós dois pisamos no chão mais limpo que a casa onde eu morava com meus pais — É aqui que você ficará — aponta para uma mesa preta e confortável — Aquela é a sala do patrão — aponta para uma enorme porta dupla de vidro.
Estreito os olhos, tentando ver alguma coisa ali dentro e me dou conta de que apesar de ser vidro, não dá para se ver nada do que acontece em seu interior.
— Augusto, obrigada por me receber e por me explicar tudo.
— Ah, imagina.
Vou para o meu posto. Coloco a bolsa em cima da mesa, afundo na cadeira macia e fico encarando o meu computador. Perto dele há uma máquina de cópias. Olho para o lado e vejo também um aparelho telefônico. Bom, tenho tudo o que uma secretária precisa. Não posso negar que é o emprego dos sonhos. Observo tudo. As agendas, o computador, o telefone, onde fica cada coisa, cada detalhe.
— É tudo perfeito. Nem acredito que estou aqui.
Augusto se mantém parado em minha frente, as mãos formalmente na frente do terno elegante.
— O bom é que ficará isolada da maioria dos funcionários. Só terá a minha companhia. À propósito, aquela ali é a minha mesa — aponta para uma mesa bem parecida do outro lado, mas diferentemente da minha, a dele está cheia de anotações e trabalhos — Eu gostaria de poder avisar ao patrão que você chegou. No entanto ele está muito ocupado na sala de reuniões.
— Está bem. Depois falo com ele.
JONAS
ESTOU NA SALA de reuniões, que é composta por uma gigantesca mesa de vidro escuro e várias cadeiras acolchoadas em volta. De pé, com ambas as mãos no tampo de vidro preto da extensa mesa, olho nos olhos de cada um dos que estão presentes e digo o que precisa ser dito. Conseguir o cargo mais alto da Luxus não foi tão fácil como muita gente imagina. Ganhei espaço e notoriedade porque mostrei meu valor, porque provei que eu era capaz, que não era só um herdeiro idiota. Provei que eu era a grande aposta, a alma que faria a empresa ficar de pé.
Foi alcançando as metas e elevando o nosso nome para o exterior que consegui ganhar o respeito e a confiança de todos, até mesmo dos mais velhos.
E, embora eu seja rígido quando o assunto é trabalho, costumo ser sensato o suficiente para ouvir e avaliar o que meus funcionários têm a dizer, ainda que nem sempre seja o que espero ouvir. Na medida do possível, tento ser paciente e justo. Sei que um bom líder precisa incentivar a equipe e não desmotivá-la.
— Quero falar agora sobre a concorrência — digo, tocando nos botões do meu terno. — Aqueles caras da Montrel estão no nosso encalço, tentando nos provar que vieram pra ficar. Bom, sabemos muito bem que o crescimento rápido é uma grande armadilha, no entanto, parecem encorajados. Certamente querem dividir o cenário conosco, mas não iremos permitir.
Volto a pousar minhas mãos na mesa.
— Todos sabemos que a Luxus é a maior empresa do país. Uma das maiores do mundo. Trabalhamos com os melhores diamantes e com o melhor designer. Nossas peças são de qualidade e sofisticadas. Formarmos a melhor equipe do planeta. Isso inclui todos vocês. E isso, claro, inclui todos vocês. Nossos serviços são de primeira e por isso chegamos onde estamos. Vamos continuar fazendo o nosso melhor. Não vamos deixar a concorrência chegar perto. Nem em sonho.
Os outros se entusiasmam com meu discurso e vozes começam a falar ao mesmo tempo. Fernandez pede a palavra.
— A propósito, Jonas... outro dia um sujeito me procurou. Um cara inteligente e com carisma. Não com o seu brilhantismo, é claro, mas ele segue bem o seu estilo. Mas o fato é que queria sondar e ver se conseguia descobrir alguma coisa a nosso respeito. Naturalmente dei uma resposta evasiva e ele se afastou. Como você bem disse, a empresa dele ainda tem que comer muito arroz com feijão pra chegar perto de nós.
Os outros concordam.
— Cássio Fontana, você quer dizer — digo a Fernandez.
— Sim, o próprio. Você o conhece?
— Sim. De fato, a empresa dele está se expandindo e conquistando espaço. Ficaremos de olho. Por hoje é só, senhores. Reunião encerrada.
***
Esta noite será inesquecível.
Giro a maçaneta e empurro a porta devagar. Eu a encontro sentada em frente à penteadeira de mogno, penteando o cabelo. Paro. Tombo o ombro no batente da porta e cruzo os braços no peito.
— Eu já estou terminando — ela diz, me olhando através do reflexo no espelho.
— Eu poderia ficar durante horas aqui, só te admirando.
Ela abaixa a cabeça e dá sorrisinho tímido.
Iremos a um evento de gala dentro de algumas horas e será a primeira vez que Verônica aparecerá do meu lado agora não como uma acompanhante qualquer, embora eu ainda não esteja certo do que realmente representa para mim. O fato é que ando bem ultimamente e isso tem acontecido desde que veio morar comigo. Já nem sinto mais tanta falta das farras, das bebedeiras e de trepar com outras mulheres. Verônica tem provido todas as minhas necessidades. Posso dizer que estou feliz.
Dentro de um smoking preto feito sob medida, desencosto-me do batente, descruzo os braços e dou passos até onde Verônica está sentada. Há uma coisa especial comigo e quero que veja. Eu me agacho em sua frente e analiso seu rosto.
— Estou pronta — anuncia, seu olhar me revelando o quanto também está feliz ao meu lado.
Verônica veste um vestido amarelo de cetim longo com decote tomara que caia. Desço meus olhos para observá-la melhor.
— Ainda falta uma coisa — aviso, pegando algo do meu bolso do paletó.
Verônica acompanha meus movimentos com os olhos e fica momentaneamente sem falar quando se depara com a linda caixa felpuda que tenho na mão. Abro a caixa com cuidado e nós dois contemplamos um dos colares de diamantes mais bonitos que existe. É uma pedra alaranjada e brilhante tão viva quanto o núcleo do sol.
— Oh, meu Deus, Jonas, é lindo...
— Este é o Aurora. Uma das principais joias do catálogo da Luxus. — digo, todo orgulhoso, mostrando o colar entre meus dedos. —, quero que o use esta noite.
— Não... — me encara, os olhos arregalados — De jeito nenhum. Eu não posso.
— É claro que pode — me divirto com seu choque — Combina com você.
Ergo o colocar com delicadeza e o levo até seu pescoço bem feito.
— Ah, Jonas, não é uma boa ideia...
— É uma cortesia da Luxus para esta noite.
Afasto seu cabelo gentilmente para o outro lado do rosto.
Ela suspira, parecendo contrariada, mas não discute mais comigo.
— Você está como uma joia, doçura... e vai ser a mais bonita da festa.
Seus lábios cor de vinho se esticam em um sorrisinho lindo. Termino de fechar o colar em seu pescoço.
— Pronto. Agora, sim, está perfeita.
— Obrigada por ser tão maravilhoso comigo.
— É você que desperta o melhor em mim.
Eu a olho profundamente nos olhos. Com o Aurora no pescoço ficou ainda mais sedutora. Se ela soubesse o valor do colar... Verônica não tem ideia de que a peça está avaliada em torno de cinco milhões de dólares. É uma das mais caras do novo catálogo da empresa.
— Espere. Não é só isso. Ainda tem mais — puxo outra caixa de veludo, essa bem menor, do meu bolso. — Esse aqui é pra você, estou dando — abro a caixa e pego um par de brincos de ouro branco com diamantes e apatitas verdes — Poderá usá-lo quando e onde quiser. É um presente meu.
— Não, eu não posso aceitar... — olha em meus olhos enquanto toca delicadamente em minha mão.
— É claro que pode. Não se recusa um presente — sorrio, colocando alguns fios de seu cabelo que saíram do lugar para trás da orelha — Coloque-os. Quero vê-los em você.
— Jonas — suspira — eles são lindos. Eu os amei. Mas, sério, não posso aceitá-los.
— Por favor. Não faça essa desfeita comigo.
Seus olhos castanhos chocolate me avaliam, então Verônica respira profundamente e assente.
— Está bem.
— Ótimo.
— Eles são mesmo lindos — sorri timidamente e agradece. Em seguida começa a colocar o primeiro brinco na orelha. Depois o outro.
— Ficaram perfeitos — sussurro, quase sem voz.
Ela não tem ideia que os brincos estão avaliados em vinte e oito mil dólares.
— Vamos então? — chamo, me erguendo de novo e ficando de pé.
— Claro.
Ofereço meu braço gentilmente para Verônica e ela se segura em mim.