Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 13 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 13

 

JONAS

 

— OI, RAPAZES — um trio de garotas diz, encarando Luiz Miguel, Ricardo e eu e não preciso ser esperto para imaginar o que querem conosco. Na verdade, está claro como água cristalina que desde que pisamos nesse velho barzinho de plena Zona Norte da cidade, a maior parte dos olhares femininos pousam em nós.

Luiz Miguel, o mais simpático de nós três, estica a mão para a primeira garota e sorri para todas as outras, dizendo que é um prazer conhecê-las.

Fabrícia?

Gleice?

Vanessa?

Cada nome que é entoado entra em minha mente e sai dela da mesma maneira. Nenhuma dessas garotas ganham o meu interesse, então simplesmente as ignoro.

— E você, qual o seu nome? — a que se chama Vanessa me encara, seus lábios carnudos bem desenhados de vermelho e seus olhos castanhos chocolate brilhantes descem por todo o meu peito.

É claro que pode estar interessada no meu peitoral, mas é ainda mais certo de que se importe ainda mais com o tamanho do meu bolso ou com o quanto há em minha carteira.

— Meu nome é Jonas — digo a ela, pegando em sua mão já esticada para mim, mas não querendo perder muito o meu tempo.

— Uau... Jonas, é realmente um nome lindo, forte e... — faz uma pausa, passando a língua pelo lábio inferior de um jeito malicioso — másculo. Combina com você.

Enquanto as outras duas garotas ficam jogando charminho para os meus amigos o olhar de gavião de Vanessa não sai de cima de mim. Luiz Miguel logo é convencido a sambar com uma mulata, Ricardo permanece conversando com a loira e ninguém deve imaginar o quanto desejo me livrar de Vanessa.

— Olha só, Jonas — ela diz, enrolando alguns fios de cabelo em seu dedo indicador — ficamos aqui só nós dois.

A tal Vanessa sorri ainda mais intensamente para mim enquanto meus olhos procuram por Verônica. Eu a vejo sair do banheiro feminino, ajeitando o cabelo comprido. Adoro o ritmo em que suas pernas longas e bonitas se mexem. Ela está incrivelmente sexy de vestido curto e minha mente voa para além da imaginação. De repente o pagodeiro a pega pela mão e mesmo estando visivelmente contrariada, ela aceita ir para a pista de dança com ele. Não consigo tirar os olhos do casal.

— Ah — Vanessa segue meu olhar e suspira com ar de irritação antes de confidenciar — Aquela ali é a minha irmã. Bom, ninguém diria que somos irmãs se não fosse pela semelhança que temos. Somos muito diferentes por dentro. Sei lá, ela é do tipo certinha, enjoada, daquelas que só vive trabalhando e quase não sai de casa.

Não gosto do modo como fala da própria irmã, mas como quero saber mais a respeito de Verônica, olho para Vanessa, mostrando-me interessado.

— Vocês moram há muito tempo no bairro?

— A minha vida inteira — dá de ombros, em seguida suspira: — Sabe como é... nem todo mundo nasce com a bunda virada para a lua. Eu tenho alma de rica, mas a minha realidade é de pobre.

— Sua irmã, de fato, parece um pouco diferente de você... — aponto para o casal dançando no meio do salão — a julgar pelo modo como parece feliz onde está.

— Pois é, aquele ali é o Cidão, o homem mais burro e ignorante que conheço. Como vê, os dois se dão muito bem — chega mais perto de mim — inclusive em outros aspectos... — toca meu peito sobre a minha camisa e começa a brincar com o tecido — Se você quiser, posso provar, Jonas.

Olho para a sua mão delicada em meu peito e não sinto nada. Tesão, desejo. Nada. Pelo contrário, vejo em Vanessa a imagem de uma cobra venenosa.

— O que foi? Não sou bonita o bastante pra você?

Eu a encaro, então me inclino um pouco para baixo e colo meus lábios em sua orelha:

— Você é deslumbrante, só que eu gosto de ir atrás da caça e não de ser caçado.

Dito isso, afasto minha boca de sua pele e sigo para longe da garota, imaginando o quão indignada e ofendida a deixei.

Acontece que não me importo.

VERÔNICA

 

— SABE O QUANTO agradeço a Deus por você ser minha namorada? — Cidão comenta ao pé do meu ouvido enquanto seu pé literalmente pisa no meu. Ele até pode entender bem de pagode e samba, mas nunca foi um bom dançarino — Há quanto tempo a gente não faz aquele "nheco nheco" que eu tanto gosto... esse seu vestidinho tá meu deixando maluco...

— Hoje não, Cidão. Nem pensar.

— Você fala isso há anos. Sempre diz "hoje não". Então vai ser quando? Nem parece que somos namorados, pô... você tem que entender que tenho minhas necessidades, Verônica... um homem precisa de amor e carinho na cama... eu me toco todo dia, pensando em você...

Paro no meio do salão, interrompendo a nossa dança e então olho em seus olhos.

— Cidão, a gente precisa conversar sério — aviso.

Ele me puxa pela cintura de volta para perto dele, sorrindo e agindo como se levasse meu comentário na brincadeira.

— Cidão, estou falando sério — insisto, mas ele me segura com firmeza e me obriga a voltar a dançar com ele, me embalando no pagode meloso que está tocando agora no bar — Cidão, é sério! — insisto outra vez, mas ele continua ignorando meu tom de voz.

Detesto a forma como leva as coisas: sempre ignorando meus pedidos e vontades e agindo como um homem das cavernas. A verdade é que a culpada disso tudo sou eu, que permiti que as coisas chegassem a esse ponto. Cidão sempre foi um cara sem instrução, mal educado e sem limites. Um verdadeiro bronco, como Vanessa costuma dizer. Sua boca volta a procurar a minha, mas estou com tanta raiva e pronta para acabar logo com isso, que empurro seu peito e nesse momento alguém aparece o chamando para reiniciar o show.

— Tenho uma surpresa pra você no final da noite — Cidão diz para mim antes de acompanhar o colega de grupo e voltar para o palco do bar.

Não estou nem aí para a surpresa que tem para me dar. Só quero que todo esse pagode acabe e que a gente possa ter a nossa conversa definitiva. Já estou decidida a romper e não vou voltar atrás.

Saio do centro do salão e caminho de volta para a mesa onde estão minhas amigas e vizinhas. Todavia, antes disso, não consigo deixar de o notar me olhando. Ele, Jonas. Permanece por perto e penso no bilhetinho que me mandou meia hora atrás. Não quero olhar para ele porque tenho medo de fraquejar, mas sinto seu olhar o tempo todo sobre mim. Isso pode ser loucura porque mal o conheço, mas a verdade é que já o desejo. Além do mais, esse cara é tudo o que Cidão não é.

De repente Mere se inclina ao meu lado e confidencia em meu ouvido:

— Aquele bonitão ali não tira os olhos de você.

Eu me faço de desentendida e comento que é só impressão dela, que há muitas garotas bonitas e solteiras para ele paquerar no bar.

— Pode ser, mas ele nem disfarça, Verônica. Ele está encantado. Se você não tivesse o Cidão...

— Bom, mas eu tenho o Cidão — corto logo porque no fundo preciso dizer isso a mim mesma antes que eu faça alguma coisa da qual possa me arrepender.

— Vish... olha só quem já tá de olho nele... — Mere comenta e sigo seu olhar até onde Jonas e Vanessa estão.

O que minha irmã está fazendo lá? Desde quando ela o conhece? Será que está dando em cima do cara? Eu realmente estou impressionada. Sei que minha irmã nunca perde tempo e gosta de homens ricos e de preferência, bonitos, mas em todo esse tempo que Jonas chegou ao bar nunca passou pela minha cabeça que Vanessa cairia em cima dele. Logo dele...

— Sua irmã é bem esperta, Ve. Aquela ali vai longe — Mere sorri, ainda observando o casal que está conversando na lateral do bar.

Eu detesto ter que concordar com a nossa vizinha, mas a verdade é que Mere tem toda razão. De onde estou vejo Vanessa falar algo ao pé do ouvido dele enquanto Jonas leva um copo de cerveja à boca para um gole. Ele, de fato, é incrivelmente lindo e sexy. Não só Vanessa, mas muitas outras estão de olho nele e nos amigos dele. Começo a me remexer na cadeira de lata, me sentindo desconfortável e um pouco incomodada com a ideia dos dois juntos. "Ah, Verônica, não pire. Eles são livres e desimpedidos e você tem namorado! Namorado!", digo comigo mesma. "Pare de olhar para eles". No entanto, não consigo me controlar. Olho outra vez para os dois juntos e Vanessa já está com os braços em volta do pescoço dele, como se já fossem íntimos o suficiente. Eu me levanto da cadeira, dizendo:

— Eu preciso de um pouco de ar.

Mere me encara, surpresa, e diz que vai guardar o meu lugar. Pego minha bolsa e caminho para fora do bar.