Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 41 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 41

 

 

VERÔNICA

 

NO SÁBADO, Jonas dispensou todos os funcionários para que nós dois pudéssemos ter o nosso primeiro fim de semana mais à vontade na casa. Ele já tinha tudo planejado: faríamos muito sexo o dia inteiro e, à noite, sairíamos para comer em algum lugar da cidade. Eu escolheria. E prometeu que concordaria com qualquer que fosse a minha escolha.

— É boa na cozinha? — me lança um olhar provocador.

— Por quê?

— Bom, senhorita, preciso lembrá-la de que hoje seremos apenas você e eu nessa imensa casa. Se pretende passar as próximas horas do dia alimentada, é melhor contar com seus dotes culinários. Ou podemos pedir que tragam comida.

Aceito o desafio, afinal, a cozinha de Jonas é um sonho. O armário é branco, com vidro preto na torre, além do basculante preto. Há também uma bancada de granito preto, com quatro cadeiras vermelhas. Uma típica bancada de cozinha americana. Qualquer pessoa se sentiria encorajada para se aventurar nesse espetáculo de lugar.

— Está preparado pra comer qualquer coisa que eu preparar? — provoco.

— De olhos fechados.

— Muito bem então. Vamos começar — dirijo-me a uma das portas de vidro de cima. — Onde temos farinha de trigo aqui?

Olho para ele e reconheço seu olhar confuso. Não prendo a vontade de rir.

— Não acredito que não sabe onde ficam os mantimentos da sua casa — brinco.

Ele parece pensar rápido, os olhos brilhando. É extremamente competitivo. Dei-lhe um desafio e não sossegará enquanto não resolvê-lo.

— Espere, claro que sei... — vira-se para encarar o extenso armário. — Experimente a porta da esquerda, logo atrás dos enlatados.

Sigo suas instruções e encontro o que procuro.

— Muito bem. Nota 9 pela performance — brinco de novo.

— E por que não 10?

— Porque demorou um pouquinho pra pensar.

Jonas sorri, contrariado.

— Eu merecia um 9.5, pelo menos — retruca. — Mas não tem problema. Dá próxima vez vou ganhar um 11, só pra descontar.

— Não existe 11, seu bobo — zombo, rindo.

— Na minha contagem existe.

— Certo. Que tal uma lasanha de peru de frango? — sugiro, abrindo a geladeira e pegando queijo, uma caixa de leite, e uma embalagem de peito de peru.

— Ótimo. E já que está toda empenhada com o almoço, me comprometo a fazer a sobremesa.

Fecho a geladeira, já com o peito de peru na mão, simulando surpresa.

— Sério? Vai nos preparar o quê? — caminho até à pia.

— Surpresa. Mas garanto que nunca experimentou nada igual.

— Uau.

Jonas move-se pela cozinha, pega tigelas, ingredientes, e começa a criar uma massa enquanto estou concentrada na minha comida. Minutos depois se aproxima de mim.

— Prove isso — leva uma colher de pau melada de massa à minha boca.

É uma massa deliciosa. Algo doce com muito chocolate.

— Hmmm... que delícia... o que é isso?

— Éclair. Um doce francês. Sabia que iria gostar.

— Eu amei.

Ele volta a se concentrar em sua tigela.

— E aí, o que acha de sairmos mais tarde? Podemos dar uma volta na orla, pegar um cineminha ou fazer um outro programa bacana. Você pode escolher.

— Qualquer lugar?

— Qualquer lugar.

— Nossa, você está muito bonzinho hoje. Primeiro o cardápio, agora o programa da noite... — brinco, piscando para ele.

Chego mais perto e enlaço seu pescoço com meus braços. Segura a minha cintura e diz baixinho em meu ouvido:

— Eu sou sempre bonzinho pra você. Isso é só o começo.

E lá vem mais um beijo.

***

A gente caminha por uma longa e movimentada rua de Vista Alegre. O cinema ficaria para outro dia. A gente gostaria de poder fazer várias coisas ao mesmo tempo, aproveitar todo o momento em que estamos juntos, mas nem sempre é possível. Jonas disse que eu poderia escolher o programa da noite. Qualquer coisa. Então estamos aqui, terminando de comprar dois hot dogs numa carrocinha.

— Senta. Vou pegar as bebidas — Jonas diz — Você vai querer o quê?

— Pode ser uma coca.

Cuido dos nossos lanches que estão sobre uma mesa branca de plástico e afundo na cadeira em seguida. Olho para o lado e vejo Jonas atravessar a rua e voltar à carrocinha. Sorrio. Ele parece tão mais humano, tão mais real vestindo apenas um jeans e camiseta azul escuro.

Minutos antes, havia deixado o carro em um estacionamento privado. O nosso plano era comer, passear um pouco e depois voltar para casa. Confesso que estou ansiosa para voltar para casa e deitar na cama. A noite será longa.

Jonas volta com os nossos refrigerantes e me encontra dando a primeira mordidinha em meu cachorro.

— Você vai amar — mastigo e limpo os cantos da minha boca.

Jonas se senta em minha frente e leva o cachorro-quente para sua primeira mordida. Bebo a minha coca-cola. Jonas balança a cabeça, aprovando o lanche.

— Mas que negócio estranho é esse? — aponta para o próprio lanche.

Dou uma risadinha.

— Que foi? Vai ficar rindo? — resmunga, entre sério e divertido, lambendo o dedo sujo de molho.

— Está vendo só o que dá não comer cachorro-quente na infância? Não sabe nem segurar um.

— Ah, sua engraçadinha — joga um pedaço de guardanapo em meu rosto — Para sua informação, já comi muitos cachorros-quentes na vida. Em Nova Iorque, por exemplo, eu comia todo dia. Mas nunca provei um molho estranho como esse.

— Oh, meu Deus, como é metido... já comi muitos cachorros-quentes em Nova Iorque, por exemplo — zombo, o imitando e provocando.

— Hoje você tirou o dia pra me perturbar, doçura. Já entendi — volta a morder seu lanche.

A gente fica um bom tempo ali na mesa, comendo e conversando sobre várias coisas banais, eu em todo tempo implicando com ele.

— Hmmm... que negócio gostoso... vou comprar outro. Vai querer outro também? — termina o cachorro-quente e arremessa o papel amassado na lixeira à distância.

— Não, já estou satisfeita.

— Quer mais coca-cola?

— Não, estou bem com essa.

— Certo. Eu já volto.

Jonas se distancia e volto a beber a minha coca. Está uma noite tão bonita e movimentada, que pela primeira vez em semanas, sinto falta do bairro e dos fins de semana que eu passeava por ali com Érica ou com Cris. De repente uma voz familiar surge e logo em seguida o rosto de minha irmã aparece na minha frente.

— Oi, Ve. Você por aqui?

Vanessa se senta na cadeira que antes estava sendo ocupada pelo Jonas. Sorri, seus lábios de batom violeta.

— Oi, Nessa.

— E aí, quem é o novo bofe?

Não quero falar sobre o Jonas com a minha irmã, mas não serei capaz de escondê-lo, já que ele logo voltará e também porque provavelmente Vanessa já nos viu aqui juntos antes de se aproximar.

— Como está tudo lá em casa? — desconverso, estou mais interessada em notícias da mãe e até mesmo do pai.

Mesmo após o modo como me tratou, ainda sinto um imenso carinho por ele e me preocupo com sua saúde.

— Está tudo bem. Tudo na mesma. Mas pelo menos temos a nossa linda casa de volta. Graças a você, claro.

— Vanessa, por favor...

— Ah, olha só, o bofe está voltando.

Sei que está se referindo ao Jonas. Imagino que ele já a tenha visto também. Ele volta para a mesa e a cumprimenta de um modo seco.

— Oi, bonitão — ela o encara — Uau, mesmo assim meio disfarçado você é um gato!

Eu a vejo se levantar rapidamente e sussurrar algo no ouvido dele. Prendo a respiração, louca para que a minha irmã vá embora logo e nos deixe em paz. Sei o quanto gosta de ser desagradável e venenosa.

Vanessa se senta outra vez e sorri para mim.

— Ele te chamou para sair também? Bom, uma vez ele também me convidou.

Vanessa diz assim e algo estranho fica no ar. Imediatamente lanço meu olhar para Jonas, tentando entender se perdi alguma coisa.

— Bom, foi logo depois do pagode. Ele esteve lá em casa, te procurando, mas acabou me chamando pra jantar. Foi tipo: não tem uma irmã, leva a outra — dá uma risada.

Estou tão surpresa, que não sei como me comportar. Divido meu olhar entre os dois.

— Ele não te contou? — Vanessa me encara, simulando inocência — Não contou pra ela, Jonas? — ela o encara, depois volta a me encarar — Bom, não pode nem negar. A nossa mãe é testemunha. Agora só falta o pai conhecê-lo. Que tal levar o bonitão lá em casa e dizer tipo assim: aqui, pai, o cara que pagou a nossa casa.

— Já chega — Jonas fala firme com ela, fazendo-a encará-lo por um bom tempo — É melhor você ir — Jonas diz, pousando a mão na cadeira onde ela está sentada.

Vanessa pisca e posso ver o quanto se sentiu intimidada. Desviando os olhos de Jonas, me encara.

— Certo. Acho que estou atrapalhando — diz, se levantando, pronta para ir — A gente se vê por aí.

Vanessa gira o calcanhar e vai embora. Só então suspiro, aliviada.

— Que garota insuportável — Jonas se senta novamente em seu lugar — Como você aguenta?

Estou chocada com tudo o que acabou de acontecer aqui, mais ainda com a forma como a minha própria irmã agiu. Ela é minha irmã! Por que falou aquelas coisas para mim? Por que nunca dá uma trégua?

— Ela é minha irmã. Não tenho como me livrar — suspiro, não querendo pensar em como se divertiu com o fato de eu ter me prostituído para garantir a nossa casa.

Se Vanessa já me perseguia antes, agora mesmo é que vai sempre esfregar isso na minha cara. Sem piedade.

— Ela não vale um centavo. Como podem ser tão diferentes?

Eu o encaro. Penso nas coisas que Vanessa falou sobre eles dois, embora isso não tenha me deixado enciumada.

— E você? A levou pra sair? Estiveram juntos?

— Ah, não. Não leve a sério o que diz. Sua irmã é uma vigarista. Só jantamos juntos. Eu só queria informações sobre você.

— Ok.

— Não está chateada, está?

— Não. Na verdade, o que mais me dói é saber que minha própria irmã me odeia.

— Você não é a única, doçura. Há um monte de gente passando por coisa parecida por aí.

Eu o avalio.

— Você se dá bem com o seu irmão?

— Sim, na medida do possível. Ele não é o meu maior problema.

— É a sua mãe?

— É, mas vamos deixar isso pra lá. Não gosto de pensar nela.

— Ok. A gente pode ir agora — já não estou mais com vontade de continuar o passeio. Perdi todo o clima depois de reencontrar a minha irmã.

— A gente pode ir pra outro lugar.

— Prefiro ir pra casa.

— Certo, vamos.

Jonas me abraça e, novamente, pergunta se estou chateada com ele por causa do que Vanessa falou. Digo que não. Por fim, me deixo ser envolvida por seus braços. O que mais me abalou não foi o fato de descobrir que ele e minha irmã já jantaram juntos, e sim ter que admitir que ela, a minha própria irmã, me odeia.