Como uma Joia
Capítulo 17
VERÔNICA
— FILHA, A GENTE precisa conversar — é a primeira coisa que a mãe diz logo assim que piso os meus pés em casa.
Surpresa com o anúncio e agora preocupada com o seu semblante de tristeza e profunda angústia, seguro minha bolsa com força, sem deixar de encarar a mãe.
— O que foi? Está tudo bem? — pergunto.
— Não, querida, não está.
Logo uma série de coisas vem à minha cabeça. Como está o pai? Será que aconteceu alguma coisa com ele depois da briga feia que Vanessa e eu tivemos? Ou será que aconteceu alguma coisa com o Cidão depois que terminei com ele? Será que ele fez alguma besteira? Ah, meu Deus...
— A casa, filha — seu rosto de angústia se transforma em derrota — a gente vai perder a nossa casa.
— O quê?
A mãe inesperadamente cai aos prantos, me deixando completamente triste e assustada. Meu coração se parte ao meio e uma sensação horrível toma o meu peito.
— Mãe, calma — pego em suas mãos — do que a senhora está falando?... como assim? Quem disse isso?
Ela ainda está aos prantos e tudo o que penso em fazer é abraçá-la e lhe dar todo o meu conforto.
— É uma dívida antiga, Verônica — diz em meio às lágrimas — A gente nunca contou nada pra vocês porque seu pai sempre achou que estava tudo bem, que ele teria dinheiro pra pagar prestação por prestação... até que as coisas complicaram, ele se aposentou e a dívida se tornou alta demais...
Enquanto minha mãe explica, fico imaginando a angústia e o sofrimento deles enquanto faziam tudo em segredo para não preocuparem as filhas, o quanto se esforçaram para resolver uma situação que nunca conseguiriam fazer sozinhos. Eu abraço minha mãe com muita força e deposito um beijo em sua cabeça.
— Mãe, deveriam ter falado antes... sabe que pode confiar em mim.
— A gente não tem esse dinheiro, filha... não tem dinheiro pra pagar pela nossa própria casa...
Conduzo à mãe ao sofá e me ajoelho na frente dela. Peço que tenha calma e que respire fundo, que todo esse nervosismo só fará com que as coisas piorem.
— O que está acontecendo aqui? — Vanessa surge do nada, retirando os fones dos ouvidos e nos olhando com interesse.
— Fique aqui com ela, que vou pegar um copo de água com açúcar — peço à minha irmã que pela primeira vez na vida obedece a algo sem me questionar.
Corro para a cozinha, tentando bancar a forte, mas no fundo minhas mãos tremem e luto para manter a respiração normal. Começo a encher o copo com água, vou pegar o açúcar e mexo a colher no copo. Enquanto faço isso minha cabeça vai até ao que acabei de descobrir agora: corremos o risco de perder a nossa casa! Meu Deus! Levo minha mão à boca, resistindo fortemente a vontade de chorar. Volto para a sala e ofereço o copo de água com açúcar para a minha mãe beber.
***
Horas mais tarde, meus pais já estão dormindo tranquilamente e eu não consigo pegar no sono. Amanhã vou ter que acordar cedo e voltar ao trabalho no hotel. No entanto não sinto sono nenhum. Ando de um lado para o outro na pequena sala de estar, pensando em como farei para conseguir o dinheiro que precisamos. É muito dinheiro... levo minha mão ao rosto, pensando, tentando encontrar uma solução, mas não vejo nenhuma luz no fim do túnel. Nem que eu trabalhasse a minha vida inteira conseguiria...
Subitamente a voz do careca engravatado lá do hotel surge em meu ouvido. Fecho os olhos. Lembro-me das coisas que falou. Uma proposta... uma grande soma de dinheiro em troca de... oh... só de pensar nisso me dá arrepios... em me vender... nunca passei por uma coisa como essa antes... nunca me imaginei fazendo uma coisa como essa ainda que eu precisasse... Raciocinando rápido, há apenas uma solução para que esse grande problema seja resolvido. Eu jamais cogitaria essa hipótese se a situação não fosse tão séria como é. Suspiro com tristeza. Lembro-me da imagem da mãe quando cheguei em casa e me comovo até agora com o estado em que estava. O semblante sofrido, os olhos vermelhos de tanto chorar... lembro-me do que falei para ela depois que tomou a água com açúcar e se acalmou um pouco.
— Não vamos perder a casa, mãe. Vamos dar um jeito nisso. Não se preocupe. Tem que haver uma saída.
— Não sei, querida... você não ganha muito, e seu pai... aquela aposentadoria de porteiro não dá pra nada... e quanto à sua irmã... Bom, Vanessa nem tem um emprego...
— Vou dar um jeito nisso, mãe. Confie em mim. Vou pensar numa solução — eu a abracei com força. — A gente não pode perder a nossa casa...
***
Os pingos da torneira semiaberta caem e estalam alto, ecoando no meu ouvido. Sinto-me como a Polegarzinha nesse banheiro frio e amplo do hotel. A impressão que dá é que há uma torneira gigantesca por causa do barulho ensurdecedor que ela faz. Não que o barulho dos pingos seja algo realmente irritante, mas para quem está com a cabeça cheia de problemas, torna-se uma coisa insuportável.
É hora do almoço e não consigo me concentrar em outra coisa que não seja a dívida da casa. Minha mãe me dera uma bomba e agora preciso desativá-la. Desgostosa, levo as duas mãos ao rosto e o seguro. Me esforço para não chorar. Mas não consigo. Quero chorar, gritar, lamentar, mas não posso, pois estou dentro do hotel, o meu local de trabalho. Érica já está me aguardando no refeitório, onde costumamos nos encontrar para almoçar. Suspiro, levanto-me e prometo a mim mesma que não entrarei em pânico. Não. Não me desesperarei e clamarei a ninguém.
Lavo meu rosto na pia, o enxugo e depois saio do banheiro. Respiro fundo e caminho em direção ao restaurante. Minutos depois encontro uma Érica inquieta, já sentada à mesa. Controlando-me para não desmoronar em lágrimas, levo as mãos até os cabelos, tensa. Minha amiga comove-se com meu estado e lamenta por não poder fazer nada para ajudar.
— Então, vai aceitar mesmo a proposta? — pergunta, abalada com toda a história.
Dou um profundo suspiro antes de responder.
— Não tenho escolha. Meu mundo caiu, Érica. Estamos prestes a perder a casa. Você não tem ideia de como estou arrasada... — Contenho-me outra vez para não desmoronar aqui.
— Que barra, hein...
Limpando com a palma da mão uma lágrima que cai do rosto, comento:
— Já liguei para o cara. Ele ficou de me encontrar daqui a pouco no hotel.
Um silêncio impregna o ambiente.
— E os seus pais? Você não vai contar nada a eles, vai?
— Claro que não! De jeito nenhum! Nem em sonho! Deus me livre que eles saibam de uma coisa dessa! — meus olhos estão completamente arregalados, fico em pânico só de pensar nessa ideia. — Seria a maior humilhação do mundo pra eles. O maior desgosto que eu poderia dar. Nem quero imaginar.
— Você pode confiar em mim, ok? Não vou contar nada a ninguém. Fique tranquila.
— Eu sei — sorrio com carinho para ela, pegando em suas mãos — Confio em você.
— Claro que pode confiar. Afinal, somos amigas, quase irmãs — passa a língua pelos lábios nervosamente, tentando dizer coisas para me confortar. —, mas se isso serve de consolo, pelo menos você não vai ter que ficar com aquele gordinho baixinho...
Dou de ombros, desgostosa.
— Baixinho, careca, bonitão... é tudo a mesma coisa... a situação vai ser a mesma. Não tenho nada pra comemorar e muito menos pra onde fugir. Vou estar agindo de qualquer forma como uma... ah, você sabe.
— Não, Ve, não fale assim. Não se puna dessa forma. Preste a atenção: você está fazendo o que é necessário. E ponto-final. Se o cara vai te dar os cem mil, beleza. Você já quita tudo de uma vez e fica livre da dívida. Melhor que perder a casa que seus pais levaram a vida toda pra conseguir. Você não está fazendo nada porque gosta ou porque quer. Está fazendo porque está precisando, certo?
Seguro novamente em suas mãos, lágrimas descendo dos meus olhos.
— Obrigada.
— Não tem de quê. Pode contar comigo sempre. Sabe disso.