Como uma Joia
Capítulo 37
VERÔNICA
— ENTÃO EU TAVA certo, né? — uma voz masculina bem familiar surge do nada enquanto ainda estou olhando o carro de Jonas desaparecer do meu campo de visão.
— Cidão? — eu o encaro.
— Você tava mesmo me traindo com outro — afirma, um semblante sombrio e estranho.
— Quê? Ah, não me venha com essa conversa de novo. A gente terminou. Acabou, Cidão. Vê se enfia isso de uma vez por todas na sua cabeça!
Chega mais perto de mim, puxa o meu braço com força e me fulmina com olhos vermelhos. Me pergunto como em todo esse tempo fui cega. Cidão sempre foi um homem tóxico e danoso. Seu ciúme excessivo, machismo e ignorância eram só reflexo do sujeito nocivo que ele sempre foi. Mas fui ingênua o bastante para não perceber isso.
— Foi por ele que me largou? — insiste, ainda apertando meu braço e agindo como se tivesse algum direito sobre mim — Me fala, que eu vou fazer uma besteira agora mesmo!
— Você está louco? Me solta! Para, que está me machucando! — tento me desvencilhar de sua mão, mas não adianta nada.
Ele sequer escuta. Só grita, convencido de que tem razão sobre toda a história fantasiosa que criou na cabeça.
— Me fala quem é o desgraçado! Me conta logo o nome dele!
— Não! Me deixe em paz!
Como num surto, segura meus ombros e começa a me sacudir. Eu o empurro com força, mas em vez de me deixar em paz, sua mão me acerta um tapa na boca. Levo a ponta do dedo até meu lábio e vejo sangue. Com raiva porque me bateu, eu o empurro de novo com força e grito que o odeio, que nunca o amei, que só quero que me deixe em paz!
A essa altura, toda a rua já está nos assistindo. Alguns estão rindo e outros estão zombando de nós. Eu nunca passei tanta vergonha em minha vida!
Cris surge de repente, me puxa pela mão e me leva para dentro de casa, me arrancando de toda essa confusão.
***
— O que aconteceu? — a mãe nos encara, os olhos arregalados.
Não tenho condições de explicar o que ocorreu no meio da rua minutos atrás, então fico aliviada quando Cris conta o episódio à minha mãe, que fica tão chocada e nervosa, que leva as mãos à boca, e me pergunta se estou bem.
— Como você tá, filha? Minha nossa senhora, eu não sabia que Cidão era covarde assim.
— Cidão é mesmo um covarde, dona Selma — Cris diz, me conduzindo ao sofá — Bateu na Verônica aqui mesmo no portão de casa. A maior falta de respeito com vocês.
— E falou coisas horríveis pra mim — digo, me esforçando para não chorar e dar esse gostinho a todos os que riram e zombaram.
Afundo no sofá, tocando meu lábio que foi acertado pelo tapa de Cidão. Covarde cretino! Vanessa surge da rua, perguntando o que aconteceu e dizendo que toda a vizinhança está falando da confusão. Minha mãe pede a ela que prepare um copo de água com açúcar para mim e depois me questiona por que chegamos a esse ponto de agressão física.
— Ele não aceita o término por nada, mãe — explico — E agora me persegue o tempo todo. Quer fazer da minha vida um inferno.
— Como que pode uma coisa dessa? Vocês dois quebrando o maior pau na rua? O que está acontecendo, filha? O que os vizinhos vão dizer?
— Ele que me agrediu. Só tentei me defender — digo, minha mão ainda tocando meu lábio inchado. — Ele não passa de um grosseirão, louco e covarde.
— Você fez a melhor coisa quando deu um chute na bunda dele, Ve — minha irmã diz, voltando da cozinha e me entregando o copo de água com açúcar.
— Tô muito decepcionada com o Cidão — diz Cris enquanto viro o copo em minha boca — Isso não se faz. Em mulher não se bate nem de brincadeira.
— Essas atitudes do Cidão estão ficando perigosas. Quantos casos de feminicídio vemos por aí — Vanessa comenta, se sentando no sofá oposto ao meu. Eu até diria que está se divertindo um pouco com o acontecido.
— Vire essa boca pra lá, Nessa! Não vai acontecer nada com sua irmã! — a mãe briga com ela.
— Não estou dizendo que ele vai matar a Ve, mas é assim que as coisas começam. Não é, Cris?
Cris começa a falar sobre uma prima distante que sofria violência doméstica, mas estou tão cansada disso tudo, que me levanto do sofá, precisando de um banho e de um tempo sozinha para esfriar minha cabeça. Acho que, no fundo, estou meio deprimida. Estou assim desde que me despedi do Jonas.
JONAS
APÓS VOLTAR DA LUXUS, estou sentado atrás da mesa em meu escritório de casa. Já passam das onze da noite. Não quero dormir. Só preciso de uns segundos para relaxar. Cerro os olhos. A lembrança de hoje de manhã vem com força em minha cabeça. Verônica aqui mesmo em minha casa, adormecida em minha cama... de uma forma surpreendente que não sei explicar isso me fez bem, tê-la aqui me fez bem. No início era uma ligação só sexual, algo descarado e sujo. Agora é diferente.
Lembro-me da primeira vez em que a vi na minha cama de hotel. Meus olhos foram captados imediatamente e levaram a imagem de sua silhueta perfeita ao meu cérebro. Ela não era nada além de um corpo bonito. Não a via como uma pessoa que tinha um coração que bate, como uma pessoa que respira. Era só um mero objeto de prazer. Também lembro do momento em que a vi assistindo ao Scooby Doo.
Foi especial.
Levo minha mão ao queixo enquanto meus pensamentos estão longe. Verônica não lambe o chão onde piso como quase todas fazem. Não se joga em meu pescoço e diz o tempo todo que me ama, que precisa de mim. E isso tem sido o separador das águas, o fator decisivo para ganhar minha atenção. Talvez eu precise de uma garota assim, que tenha a coragem de dizer na minha cara que nem sempre tenho razão, que não sou tudo isso que imagino, que me mostre que o mundo não gira ao meu redor.
O telefone de repente toca, me tirando dos devaneios. Começo a falar com um dos seguranças, que me avisa que uma mulher loira está procurando por mim. Digo que a deixe entrar. Depois de algum tempo, a porta se abre, me mostrando Paula em minha frente e diz:
— Olá, baby. A empregada me avisou que você estava aqui.
Eu a observo. Paula está dentro de um vestido azul-turquesa sexy, saltos altos e tem um batom vermelho nos lábios. Ainda sorrindo, caminha de uma forma sensual até minha mesa. Eu me levanto, as mãos em meus bolsos.
— Estava com saudades... — diz, sensual, contornando a minha mesa e colando seu corpo no meu. Em seguida, envolve meu pescoço com seus dois braços finos.
— O que está fazendo aqui, Paula?
— O que acha? — desliza os lábios por meu peito sobre a camisa azul. — O que você acha, meu super Jonas? Hum, adoro esse seu cheiro de macho alfa...
Retiro gentilmente seus braços do meu pescoço e me afasto de seu alcance. Caminho até o bar, escolho uma bebida e jorro um pouco do líquido em meu copo.
Aparentemente contrariada por eu tê-la esnobado, Paula afunda na cadeira em frente à minha mesa e cruza as pernas de um modo muito sexy.
— Quando é que vai parar de beber assim? — me provoca. — Está virando um alcoólatra, sabia?
Divirto-me com esse comentário enquanto fecho a garrafa outra vez.
— E quando é que vai parar de comprar tanto? Está virando uma consumidora compulsiva, sabia?
— Ora, Jonas, não tem nem comparação — rebate. — Eu faço uma coisa saudável, você não.
Saboreio um gole do meu Jack Daniel's e volto para a presença dela.
— Eu não sabia que comprar roupa e sapato todo dia era uma coisa saudável, honey. Só se for pra uma mulher como você.
Paula descruza as pernas e levanta-se imediatamente, ficando novamente diante de mim.
— Está certo, você tem razão, não é — toca meu peito através do tecido da camisa. —, mas não quero que fique enchendo a cara desse jeito. Ora, amor, por que não vamos pro quarto fazer algo gostoso?
Penso um pouco nessa proposta enquanto tomo meu último gole. Não amo Paula, mas é fato que sua beleza e o seu apetite sexual me impressionam. Enquanto a mulher desabotoa a minha camisa, me mordiscando o peito, feito uma felina carente, largo o copo em uma mesa ali perto e, então, meus braços a suspendem. Paula grita, dando risadinhas e resmungando besteiras em meu ouvido enquanto a levo até o quarto.
VERÔNICA
SAIO DE MANHÃ CEDO à procura de emprego. Já quitei a dívida da casa e por isso só me restaram cerca de vinte mil do que recebi de Jonas. Esse dinheiro está na poupança e não pretendo mexer nele tão cedo. Por causa da viagem com Jonas, larguei o emprego no hotel e também a faculdade. Preciso agora reorganizar a minha vida. Quero arregaçar as mangas e procurar um novo trabalho. Também quero voltar a estudar. Érica tentou me convencer a voltar para o hotel, mas para lá não voltarei. Jamais vou esquecer que quase fui violentada lá. Além do mais, chega de hotéis de luxo e de homens ricos promíscuos. Quero algo que se encaixe comigo.
No centro da cidade, distribuo meus currículos. Em duas ou três agências até consigo entrevistas. A volta para casa, no entanto, é a pior parte do dia. Já exausta, enfrento ônibus cheio e um trânsito infernal. Para piorar, passo a maior parte do percurso em pé.
Quando finalmente piso em casa, meus pés estão doloridos, estou faminta e ansiosa por um banho. Abro a porta, encontro o pai e a mãe com o semblante fechado, me encarando.
Preocupada, fecho a porta atrás de mim e pergunto:
— Aconteceu alguma coisa?
A mãe abaixa a cabeça, abatida e até mesmo chorosa.
— Filha, nós...
— Deixe que falo, Selma... — interrompe o pai, ríspido e sério.
Eu o avalio, me perguntando o que está acontecendo.
— Por que esses semblantes preocupados?
Sinto o olhar duro do pai em minha direção e ele me faz estremecer.
— Vou fazer apenas uma pergunta e quero a verdade. Apenas a verdade — avisa, me deixando ainda mais nervosa. — Que tipo de trabalho foi fazer na Europa? — quer saber, me atingindo como uma bala de canhão.
Passo a língua nervosamente pelos lábios, tentando processar tudo rápido, mas sei o quanto é praticamente impossível enganar o pai. Além do mais, me sinto mal por isso. É como se eu estivesse cometendo um crime. Acho que já não sou mais capaz de continuar com essa farsa. O que farei, não sei, mas não há dúvidas de que preciso contar a verdade.
— Fui à França porque... — murmuro, minha voz muito baixa, denunciando que isso não é tudo, que ele tem razão em desconfiar.
— Eu quero a verdade! — insiste.
É como se já soubesse a verdade e só precisasse de uma confirmação.
Eu o encaro, mesmo sentindo vergonha e tristeza. Ele tem o olhar duro como nunca vi antes.
— Filha, por favor... — a mãe murmura, já chorando.
— Deixe que cuido disso, mulher! — o pai novamente a interrompe, exasperado.
— Pai... o que quer que eu diga?
— Cidão nos contou a verdade — explica, seu semblante ainda duro em minha direção — Tudo o que você foi fazer lá.
— Que verdade? O que ele contou?
— O seu namorado, aquele que foi traído e humilhado por você — continua o pai, o olhar cheio de decepção e mágoa. —, nos contou tudo o que houve ontem e o real motivo da briga de vocês... e estou aqui até agora perplexo... que tipo de filha criei?
— Pai, por favor, eu posso explicar...
— Não minta pra mim, que não sou nenhum idiota! Eu quero a verdade!
Não consigo conter o choro. É tarde demais. Tudo está perdido. Tudo desmorona na minha frente, na minha vida. Toda a minha dignidade, a minha moral, a confiança de meus pais, tudo isso se esvai.
— Cidão nos contou tudo... — continua o pai, me apunhalando no coração e me fazendo chorar, me fazendo sentir pequena e imunda. — Contou que você estava aos beijos com outro homem dentro do carro. Um carro importado... foi com esse homem que foi para a França? Foi com ele que conseguiu todo o dinheiro? Que tipo de mulher é você?
— Pai... — levo a mão ao rosto e caio de joelhos, aos prantos, arrasada, nocauteada, pisada.
A verdade está escancarada e não há mais como negá-la. Todo o filme volta à minha memória. Sim, eu havia me prostituído, sim, no exterior. Havia viajado e tido várias noites de sexo com Jonas, um cara rico, que em troca disso, me deu muito dinheiro - o suficiente para que eu quitasse a dívida da casa onde todos moramos!
Tenho vontade de gritar isso tudo a plenos pulmões. Preciso desse alívio também. Não está sendo nada fácil para mim. Nunca foi. Desde o primeiro dia. Aliás, sou eu, na verdade, a maior vítima da história, e não o pai ou a mãe. Sou eu a salvadora da pátria, a heroína que se sacrificou em prol de todos. Mas em vez disso, de gritar a plenos pulmões, de jogar tudo isso na cara, choro. Soluços golpeiam meu corpo e ferem meu coração.
— Você não precisa explicar mais nada — diz o pai, com profunda tristeza e amargura. — Só quero que deixe essa casa.
— Osmar, por favor...
— Ou ela ou eu, mulher! Você escolhe — retruca ele, controlando-se para ou não me agredir ou não desabar em lágrimas — porque aqui nessa casa não tem mais espaço pra nós dois.
Não me importo com a casa. Estou sofrendo porque dói demais ver a decepção e a rejeição nos olhos dele. Dói mais ainda ver o sofrimento que estou causando à mãe.
— Eu nunca pensei que um dia sentiria tanto desgosto na minha vida... — ele continua, a voz falha, virando-se de costas provavelmente para que ninguém o veja chorar — De agora em diante esqueça que tem um pai porque vou esquecer que tenho uma filha.
— Pai... — minhas lágrimas não param de descer e os soluços golpeiam meu corpo todo — por favor...
Ignora que estou implorando e, com passos lentos, some do meu alcance.