Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 25 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 25

 

JONAS

— EU SEI, EU SEI... mas você sabe, se eu pudesse, não estaria aqui. Jamais. — ouço sua voz um pouco chorosa dizer a alguém.

Paro. Por um momento me pergunto "mas que porra é essa?", mas então logo me dou conta de que só pode estar falando ao telefone. Nenhum filho da puta teria a ousadia de entrar em minha suíte e pegar a minha mulher - ainda que temporariamente.

Empurro a porta delicadamente porque não quero que note a minha presença. Pelo contrário. Quero escutar mais da sua conversa e saber do que se trata - e principalmente, saber com quem está falando.

Eu a avisto sentada na cama, com o telefone no ouvido. Ela é linda. Ainda que não acredite nisso. Os cabelos estão bagunçados de uma forma natural, mas a deixam sexy. Está usando um shortinho e uma camiseta de tecido. Suas pernas lisas e brilhantes estão à mostra, me fazendo um convite. Imediatamente lembro do momento em que estive entre suas coxas, em que meu corpo esteve por cima do seu delicioso corpo, em que meu pau se enterrou em sua boceta quente e apertada.

Olhos castanhos assustados estão sobre mim agora, me trazendo de volta à realidade. Verônica parece apreensiva. Está claro que não esperava me ver. Também está claro que não queria me ver. Na verdade isso é o que mais me incomoda. Não sei explicar o que sinto por dentro, mas é um sentimento que arde, que me golpeia porque em toda minha vida acreditei que era irresistível.

— Eu tenho que desligar agora. Depois a gente se fala... — ela diz a seja lá quem for que esteja do outro lado da linha.

Imagino que seja um cara. Todo homem possui essa coisa arisca de se sentir ameaçado por outro homem. Como um exímio macho, odeio saber que pode haver um outro rondando o meu território. Tenho certeza que o meu semblante está duro agora e não me importo de esconder o que sinto. Não nesse momento.

Mãos delicadas colocam o telefone de volta ao gancho enquanto seus olhos de chocolate continuam me encarando - provavelmente se perguntando o que estou fazendo em sua frente ou se estou bravo. Bom, bravo é pouco. Estou puto pra caralho! Primeiro porque ela não pareceu gostar da minha volta; segundo porque é possível que estivesse falando com outro homem.

Verônica permanece com a expressão de quem foi pega no flagrante enquanto fazia algo errado. Será que fazia algo errado? Será que conversava com o namorado pagodeiro? Será que contou a ele o que acontece entre a gente? Será que os dois estavam planejando alguma coisa quando cheguei? Já vi casos em que namorados planejam se envolver com pessoas ricas para depois um deles dar o golpe. Bom, a culpa seria minha se isso acontecesse. Fui eu que iniciei essa merda toda.

Eu a observo calmamente de onde estou, ainda parado na porta. Fecho a porta atrás de mim com naturalidade, o meu autocontrole prevalecendo. A examino minuciosamente, consciente de que ela está receosa com a minha presença. Afundo as mãos nos bolsos da calça.

— Tudo bem? — pergunto, a examinando.

— Sim... está — responde, endireitando-se na cama. Seus cílios expressivos fitos em mim.

— Estava falando com alguém? — quero saber. Nada tira de minha cabeça que estava falando com o namorado, provavelmente se lamuriando e até mesmo revelando coisas sobre mim.

— Não... quero dizer, com ninguém importante.

Sei.

— Certo — dou mais dois passos à frente, me afastando da porta — Sabe que eu posso conseguir a chamada se quiser, não sabe? — digo, sem mesmo pensar no que estou dizendo. Mas é a desconfiança falando mais rápido.

— Como é? — me lança um olhar de incredulidade e surpresa, sua boca de repente solta um riso nervoso, mas tenho certeza que não é de humor — Isso é um tanto humilhante. Você não acha?

Dou mais um passo à frente, chegando cada vez mais perto.

— Com quem estava falando, Verônica?

— E por que eu deveria contar? Isso não estava no contrato, sabia?

— Bom, se tivesse agido com naturalidade quando cheguei, eu não teria motivos pra desconfiar.

— Bom, é que talvez eu não ache que seja da sua conta.

Ah, porra.

Permaneço parado, as mãos afundadas nos bolsos. Já entendi o que aconteceu, isso tem cara de vingança. Na certa ficou com raiva porque fui à Miami encontrar outra mulher. Paula. Por mais que eu não tenha admitido, Verônica é esperta demais para ser enganada.

— Ah, você está errada. Tudo o que está aqui, e isso envolve você, é da minha conta — digo.

Levo os meus passos lentamente até o telefone e o coloco no ouvido. Começo a discar para a administração do hotel. Verônica permanece me lançando um olhar de quem está completamente chocada e chateada. Um homem atende do outro lado e começo a falar em inglês com ele enquanto Verônica resmunga e me lança um olhar de protesto.

— Não acredito que esteja fazendo isso! — briga.

— Isso o quê?

— Ah, você sabe. Solicitando o registro das minhas conversas! — ela se levanta da cama, tentando fugir de mim, mas seguro o seu pulso, a impedindo de ir.

— O que pensa que está fazendo agora?! — grita, tentando se desvencilhar de mim.

O homem do outro lado continua me perguntando o que desejo e bato o telefone na cara dele, desistindo de continuar com isso. A disputa com Verônica, sem dúvidas, é mais importante. Ela luta para se soltar de mim e acabo me dando conta da idiotice que estou fazendo. Eu a solto. Ela corre para fora do quarto, batendo a porta com raiva. Respiro fundo, me perguntando o que estou fazendo. Penso nas palavras que disse. Isso é humilhante! De fato, a cena foi constrangedora e humilhante. Eu passei dos limites.

Alguns minutos depois de nossa discussão, deixo o quarto e a procuro por cada canto da suíte, mas não a encontro em lugar nenhum. Caminho até o banheiro e tenho certeza de que está lá dentro. Giro a maçaneta, mas a porta está trancada. Bato suavemente.

— Verônica — chamo, tentando ser mais gentil — Eu admito que passei dos limites. Me perdoe. Não pedi o registro das ligações, se isso a consola.

Nenhuma resposta.

— Verônica? — chamo de novo, dando batidinhas na porta, mas não há resposta.

Suspiro profundamente. Afasto-me da porta. É melhor dar um tempo a ela. Vou até à sala e caminho até o bar para pegar um pouco de bebida. Coloco duas doses do Jack Daniel's em meu copo e afundo no sofá. Depois de beber, pego o meu notebook e dou uma olhada nos novos projetos das joias. As horas passam e me lembro que Verônica não saiu do banheiro durante todo esse período.

***

Aproximo-me outra vez da porta do banheiro e chamo:

— Verônica? — dou batidas suaves na porta — Tudo bem aí?

Nenhuma resposta.

— Olha. Me desculpe. Vamos conversar.

Nada.

— Pelo amor de Deus, não pode ficar trancada nesse banheiro a noite toda... vamos conversar como dois adultos, certo?

Nada ainda.

Forço a maçaneta da porta, começando a achar que há algo muito errado. Continuo forçando a porta, até me afastar um pouco, dar impulso e jogar o meu corpo duramente contra ela, arrombando-a na hora. Parte do banheiro aparece para mim e meu coração dispara quando a avisto desmaiada no chão.

— Verônica!

Corro até ela, me agacho, tomo seus pulsos e posso ouvir sua pulsação. Isso me deixa um pouco mais aliviado.

— Verônica? — eu a chamo, tentando despertá-la e logo sinto o quanto todo o seu corpo está pegando fogo. Ela finalmente desperta, confusa e grogue, os olhos vermelhos.

— O que... o que aconteceu?

— Calma. Você vai ficar bem. Você está com febre. Vou chamar um médico.

Eu a pego com gentileza e a ergo nos braços com facilidade. Eu a carrego de volta para o quarto. A deito com cuidado na cama. Puxo o edredom sobre o seu corpo.

— Eu estou bem... só um pouco fraca, acho. Lembro que a minha cabeça ficou pesada de repente...

— Você precisa de um médico. Fique aqui, que já volto — digo.

Corro de novo até o banheiro à procura da caixa dos primeiros socorros que sempre há nas suítes de hotel. Com ela em mãos, volto para o quarto e encontro Verônica em pé, querendo andar, se apoiando em algo.

— Não. Você precisa deitar — eu a pego pela cintura enquanto resmunga que está bem, que não tem nada de mais, só uma febre — Você é sempre teimosa assim? — eu a coloco outra vez nos braços.

— Eu não pensei que executivos soubessem cuidar de pessoas doentes — brinca e isso não me soa ruim.

Sorrio com esse comentário.

— Você está muito enganada, doçura. Eu sei fazer muitas coisas boas também.

Ela sorri.

— Você me chamou de doçura?

— E você é.

Gosto da sensação de suas mãos quentes em meu pescoço enquanto se agarra em mim para que eu a leve de volta para a cama. Eu a coloco cuidadosamente na cama e ela se aconchega nela. Pego o termômetro e meço a sua temperatura.

— 39º. Essa febre precisa baixar.

— Vou ficar bem, Jonas. É só uma febre. Você nunca teve febre na vida?

— Já.

Pego o celular do bolso e disco novamente para a administração do hotel. Dessa vez solicito um médico ao quarto o mais rápido o possível.

Desligo. Observo Verônica voltar a fechar os olhos. Ela não parece bem.

É só uma febre. Você nunca teve febre na vida?

Um flashback vem em minha cabeça.

— Jonas? — ouvi a voz do meu irmão assim que ele abriu a porta do meu quarto — Tudo bem aí? Você precisa de alguma coisa?

— Cadê a Zuleica? — gemi, choroso, mas eu não queria chorar. Eu sabia que não podia chorar. Era um garoto de sete anos e garotos não choravam, certo?

— Ela não veio hoje. É folga. Esqueceu? Todos os domingos ela tira folga.

— É verdade — suspiro, a garganta inflamada doendo, meu corpo queimando em febre — E o papai?

— Não está. Foi ao evento. Ele e a mamãe. Os dois foram. Ela disse que era um evento de gala e não podia perder por nada porque já tinha comprado o vestido.

— Ela devia ter ficado pra cuidar de mim... — resmunguei, tremendo de frio, meus olhos ardendo, as lágrimas descendo por meus olhos que provavelmente estavam vermelhos.

Eu só não sabia se as lágrimas desciam por causa da febre alta ou por causa da mágoa que eu sentia pela minha mãe ter me deixado doente em casa. Estava claro que o evento de gala e toda aquela idiotice era mil vezes mais importante que um filho doente. Fechei os olhos, sentindo a febre de 39º me dominar. Eu costumava ter essa febre.

— Você quer um pouco de água ou posso voltar pro meu vídeo game? — ouvi a voz do meu irmão perguntar. Eu não podia julgá-lo. Ele só tinha 9 anos.

— Pode ir jogar. Eu vou ficar bem.

A porta se fechou em seguida e eu soube que estava sozinho outra vez no quarto escuro enquanto minha cabeça doía e meu corpo ardia em febre.

— Está frio... — a voz fraca de Verônica me traz de volta à realidade.

Pego um cobertor dentro do armário e a cubro cuidadosamente com ele, tentando deixá-la cada vez mais aconchegada. Apago a luz para que toda essa claridade não a incomode e afundo na poltrona em frente à cama para velar o seu sono. Não vou deixá-la sozinha. Jamais.

O celular de repente toca e é o recepcionista avisando que o médico já está à caminho da minha suíte. Agradeço. Desligo. Quando o doutor bate na porta minutos depois, deixo Verônica sozinha apenas para abrir a porta e receber o homem. Eu o cumprimento e levo o médico até o quarto onde Verônica está. Ele a avalia e a medica. Em inglês me pergunta o que aconteceu e explico que viemos de Paris e que ela parecia bem até o dia anterior. Ele me explica que a febre vai logo baixar com a medicação que deu e que essa virose provavelmente se deu por conta das viagens e da mudança de clima. Assinto. Ele deixa outras medicações e uma lista de alimentos que ela precisa comer para se sentir melhor. Eu o acompanho até à saída e agradeço.

Volto para a poltrona, observando-a dormir. Estou mais aliviado agora que Verônica foi medicada e que logo ficará boa. Eu não sei o que faria se algo grave acontecesse. Por causa de mim a garota está ali. Enquanto estivermos juntos fora do país serei o seu responsável. Relaxo minha nuca na parte dura da poltrona e travo uma luta contra o sono. O quarto está na penumbra. Não quero dormir porque Verônica pode precisar de mim durante a madrugada e eu quero estar pronto para socorrê-la, caso isso aconteça. Lembro da frase que ela falou a respeito dos executivos cuidarem dos outros. Essa é, provavelmente a ideia que no geral as pessoas têm de homens como eu, que somos egoístas, arrogantes, desumanos. Bem, isso pode até ter um fundo de verdade. Todavia tenho que admitir que essa garota tem a capacidade de trazer o melhor de mim, algo especial que me motiva a ser melhor a cada dia. É sexo, claro que é. Mas talvez não seja apenas isso.