Como uma Joia
Capítulo 32
VERÔNICA
— MÃEEEE! — grito assim que chego em casa, algum tempo depois. As minhas duas malas ao meu lado.
— Filha! Oh, meu Deus, filha, finalmente você chegou! — vem ao meu encontro, toda sorridente e emocionada.
Nos abraçamos com força, como se não tivéssemos nos vistos há um bom tempo. É bom estar de volta em casa. E melhor ainda poder abraçá-la outra vez e sentir seu cheiro gostoso.
JONAS
CHEGO À COZINHA do casarão e sorrio porque a encontro de costas, completamente distraída enquanto prepara a comida. A mulher redonda e da cor de jambo é a única coisa positiva que trago da minha infância. Sempre foi para mim a melhor versão boa que eu poderia ter de uma mãe.
Aproximo-me de mansinho, em silêncio, ficando cada vez mais próximo, até que estico minhas mãos e tapo seus olhos. Zuleica grita na hora e não consigo segurar a risada. Largo seus olhos e ela se vira para mim, me dando a maior bronca:
— Seu danado! Quase me matou de susto!
— O que você pensou que eu fosse? Um bandido? — provoco, ainda rindo.
— Ora, sei lá... eu não pensei em nada... o meu coração só saltou do peito.
Ainda me divertindo com a cena, beijo sua bochecha fofa carinhosamente.
— Ah, mas só podia ser você mesmo, o tenista mais metido do mundo!
— E bonito — acrescento. — Mais bonito do mundo.
— E também convencido! Ah, vem cá!
Ela me puxa para um abraço gostoso e macio enquanto pergunta como fui de viagem.
— Foi tudo bem, como sempre.
— Você está cheiroso — se afasta do abraço e ajeita a minha camisa branca impecável, como se temesse amarrotá-la — Ah, mas isso não é novidade nenhuma — e volta a fazer o que estava fazendo no fogo — Bonito desse jeito, nem precisa ser tão vaidoso.
— Eu gosto.
— É por isso que as moças ficam em polvorosa — fica falando para si mesma, fazendo suas observações sobre a minha vida amorosa.
— Hum, o que está preparando de bom? — me aproximo mais de perto do fogão para ver o que está fazendo. Pelo cheiro parece delicioso.
— Eu teria preparado aquele molho especial que você tanto gosta se soubesse que estava chegando. — diz.
— Não se preocupe comigo. Já comi alguma coisa pelo caminho — eu me afasto e abro a geladeira, em busca de algo para beber — Além do mais, não vou almoçar em casa.
— Você não gosta mesmo daqui — comenta, não me surpreendendo. Zuleica sempre fala demais — Fica em hotel ao invés de ficar na própria casa... depois chega de viagem e, mal chega, já sai...
— Você sabe, é uma casa muito grande pra mim. Às vezes me sinto sozinho.
— Devia encontrar uma moça pra casar. Pretendentes não faltam. Seria bom encher essa casa enorme com crianças.
Penso na ideia. Até sorrio, imaginando a cena.
— Quem sabe um dia? Ainda não estou pronto para isso.
— Vocês homens sempre falam isso. Até ficarem velhos ou sofrerem de amor.
Bebo um pouco de suco, guardo a garrafa e abandono o copo em qualquer lugar. Caminho para fora da cozinha e nesse instante me lembro que trouxe presentes de viagem para ela.
— Tem presente lá na sala. Acho que vai gostar.
Eu já estou saindo da cozinha e virando o corredor, mas a ouço dizer:
— Ah, meu filho, obrigada!
VERÔNICA
ACORDO BEM CEDO na manhã seguinte, aproveito que todo mundo em minha casa está dormindo e vou à padaria. É um sábado agradável, embora esteja frio e nublado.
— Bom dia, Verônica. Você andou sumida, hein. Como está?
— Bom dia, Regina. Estou bem, obrigada. Eu estive sumida mesmo. Estava viajando. Só ontem à tarde voltei.
— Oh, que legal. E aí, vai querer o de sempre? Pão fresquinho e quinhentas gramas de mortadela?
— Isso mesmo. E mais o pão doce do meu pai. Obrigada. Ele adora.
— Ok. E por falar no Seu Osmar, como é que vai ele? Tá bem?
— Está bem, sim, graças a Deus. Eu já não o via assim tão bem há muito tempo.
Regina vai pegar os pães, depois corta a mortadela e volta com meus pedidos. A gente se despede e vou para o caixa pagar as compras.
Quando já estou fora da padaria, caminhando na esquina da rua, alguém surge do nada, gesticulando em minha direção, me dando um grande susto.
Cidão.
— Ai, que susto, Cidão! — seguro as sacolas de compras contra o peito. — Isso é jeito de aparecer?
Dá mais um passo e para em minha frente.
— Quero conversar — anuncia.
Olho para a sua aparência e me assusto com ela. Está mais cafona e mal vestido do que nunca. A camisa muito colorida não combina com a calça capri. A barba parece que não faz há meses. A boina azul na cabeça deve estar toda ensebada de caspa. Misericórdia. Agora compreendo por que as pessoas sempre me perguntavam o que eu havia visto nele. Realmente não dá para entender. Cidão não tem boa aparência, não tem estudos, não tem emprego, e ainda por cima, é machista e abusivo.
— Se for pra discutir, prefiro que não — digo a ele, ansiosa para chegar em casa e tomar o meu café da manhã.
— Não é pra discutir, porra. É pra saber a verdade.
— O quê? Como assim a verdade? Do que está falando? A gente já terminou, Cidão. Acorda. E isso há muito tempo. Eu já expliquei tudo a você. Por favor, me deixe em paz. Não comece a me atormentar agora.
Dou um passo para a frente, simulando ir, mas sua mão segura o meu braço com firmeza.
— O que foi fazer no estrangeiro? Por que me deu um chute na bunda e logo em seguida viajou?
— Me solte. Terminei porque não te amo mais... — nunca te amei de verdade!, era o que eu deveria gritar na cara dele, talvez assim me deixasse logo em paz, mas não tenho coragem de humilhá-lo — Olha — suspiro — acho que já falei tudo o que tinha pra falar. Vamos deixar essa história pra trás, ok? Não vale a pena brigar. Agora me solte, quero passar!
Ele não obedece.
— Me solte, Cidão! — grito, brava — Me deixe em paz de uma vez por todas!
Eu me desvencilho dele e corro, seguindo o meu caminho. Seguro as compras com mais firmeza em meus braços e, quando chego na metade da rua, olho para trás. Cidão continua na esquina, com o olhar sombrio, me olhando ficar cada vez mais distante dele. Meu coração está acelerado. Minhas mãos tremendo. Meu Deus, eu nunca o vi assim em toda a minha vida. Se eu soubesse que chegaria a esse ponto, sequer teria me envolvido com ele. Bom, é melhor deixar para lá. O fato é que terminei com Cidão e não voltarei atrás. Só quero que fique longe de mim.
Ao chegar em casa, já mais calma, tranco a porta da sala e sigo para a cozinha. Não vou falar para os meus pais sobre o episódio com Cidão. Afinal, eu mesma quero esquecê-lo.
— Bom dia, família! — sorrio, feliz por ver o pai e a mãe.
Faz tanto tempo que não tomamos café juntos. Pouso as sacolas na mesa e vou tirando a mortadela, depois os pães. Pego o pão doce do pai e o entrego a ele.
— Ah, filha, obrigado. Você lembrou — sorri, pegando o pão, já se sentando à mesa.
— Sempre lembro, pai — beijo o seu rosto carinhosamente.
Vou até à mãe, que está em pé, passando o café, e beijo também o seu rosto.
— Bom dia, querida — seus lábios se esticam num sorriso terno.
Nesse momento Vanessa surge, ainda de camisola, e bocejando.
— Bom dia — minha irmã diz antes de se sentar à mesa.
Lembro do episódio lá fora com Cidão e por um segundo penso em comentar com eles, mas pensando bem, é melhor não. Não quero que se preocupem com isso. Cidão é só um sem noção que vai ter que aprender a aceitar as coisas como elas são. Afundo na cadeira entre o pai e Vanessa e corto o meu pão com a faca. Deixo Cidão de lado e penso nas coisas boas. Estou feliz. Ao menos é bom saber que a dívida da casa vai ser quitada e finalmente vamos voltar a dormir em paz.
— Estava só esperando você chegar da padaria para que eu passasse o café — a mãe comenta, trazendo o bule de café para a mesa — Então, como dormiu, minha querida?
— Muito bem, mãe — levo o meu primeiro pedaço de pão à boca.
O pai, ao meu lado, sentado entre mim e Vanessa, vira sua segunda página do jornal.
— Verônica, minha filha, uma coisa não entendi muito bem... como foi que conseguiu tão rapidamente o dinheiro todo pra quitar a dívida da casa?
— Ora, Osmar, a menina não já explicou? — a mãe sai em minha defesa — Foi trabalhar no exterior. Lá se paga muito bem!
— Mas tanto dinheiro assim, Selma? De uma hora pra outra? Até pra quem volta da Europa, é difícil de acreditar...
— Foram três semanas, pai — digo em minha defesa, mesmo assim me sentindo mal por ter que mentir para eles.
— Duas — corrige ele, mexendo na página do jornal. — Foram duas semanas. E ontem você voltou pra casa. Pode ter se esquecido, mas eu não.
Sinto o meu rosto esquentar na hora.
Oh, sim, é verdade. Ele tem razão. Eu estava tão preocupada com outras coisas que sequer me lembrei de contar certinho os dias.
— Se eu fosse você não teria mais voltado pra casa — Vanessa diz, levando seu primeiro pedaço de pão à boca. Só agora percebi que está folheando uma revista da Avon.
— Bom, pai, lá realmente se paga bem — explico, tentando convencê-lo de que realmente consegui o dinheiro de uma forma honesta e plausível. — E, como disse, o dinheiro vai estar na conta até o início da semana que vem. Portanto não se preocupem, a vida voltará ao normal.
— Deus te ouça — Vanessa diz, seus olhos na Avon — Já pensou ter que morar embaixo da ponte?
— A gente tem que agradecer a menina, Osmar — sorri a mãe, toda orgulhosa, se sentando à mesa para também tomar o seu café da manhã.
O meu peito aperta. Sinto tristeza e vergonha. Eu queria tanto que tudo tivesse sido diferente.