Como uma Joia
Capítulo 39
VERÔNICA
— JONAS? — exclamo ao abrir a porta e encontrá-lo do outro lado — O que está fazendo aqui?
Seus lábios esticam em um sorrisinho cínico. De camiseta vermelha, jeans claro e óculos escuros no rosto, está lindo e charmoso, como sempre e para o meu desespero. No entanto, mesmo vestido de uma forma tão despojada, consegue manter o ar imponente e impecável. Qualquer um que o olhasse agora saberia que está diante de um cara importante. E há todo um magnetismo que emana dele.
— Como você está, doçura? Será que posso entrar?
— Claro... mas... claro, entre...
Tira os óculos escuros lentamente dos olhos, ainda esbanjando o sorriso de canto da boca que tanto mexe comigo.
— O Augusto contou onde me encontrar, não foi?
— É. Mas pra falar a verdade, tive que vir e ver com os meus próprios olhos como você está.
— Como estou? Bom, estou ótima, como sempre — forço um sorriso de quem está feliz e muito bem.
Engulo em seco em seguida. Penso um pouco, nervosa. Não gostaria de encontrá-lo num momento como esse. Não quero ter que dar explicações sobre a minha mudança de endereço.
Jonas pisa na sala com seus sapatos italianos e fica cada vez mais claro o quanto sua presença pode ser perturbadora. Observo-o andar pela minúscula sala do apê e olhar ao redor. Cruzo meus braços no peito, tentando de alguma forma me proteger dele. Não por ser perigoso, mas porque entregar meu coração a esse homem significa correr riscos.
— Quer se sentar? — convido, me esforçando para parecer tranquila.
— Não, obrigado. Estou bem assim.
Não sei o que dizer a ele, então mantenho meus braços cruzados, e falo:
— Então foi mesmo o Augusto que contou onde eu estava — tento demonstrar segurança.
— Na verdade, eu praticamente o obriguei a dizer.
— E por quê? Olha, se veio falar da proposta, eu já disse que v...
— Não é sobre a proposta. Eu precisava saber onde estava. E principalmente, saber como estava. Apesar de tudo, nada do que sinto mudou.
Pisco. Não sei o que dizer. Ouvi mesmo o que disse? Eu o encaro com atenção. Por que ele faz isso? Por que tenta me fazer acreditar que está apaixonado e que entre nós dois pode dar certo? Tenho medo de amá-lo, de me perder nesse amor e de me decepcionar depois. Sempre lembro da cena de Paula no hotel e não quero terminar como ela.
— Bom, Augusto falou sobre a proposta de emprego... confesso que não esperava por isso.
— Gostaria que aceitasse.
— Eu não sei... sinceramente não sei se é uma boa ideia, Jonas. Você sabe, nós dois...
— Claro que é uma boa ideia. Prometo me comportar. Augusto deve ter explicado tudo. Posso ter sido um canalha com você antes, mas não farei nada que possa prejudicar nós dois. Nem mesmo a minha empresa.
— Mesmo assim, eu não sei...
— Já tem algum outro emprego em vista? Acredito que não, mas caso tenha, saiba que dobramos a oferta. Quero muito que venha para a Luxus trabalhar comigo, Verônica, e, para ser franco, duvido que consiga algo melhor que a minha empresa.
Não tenho uma resposta. Apenas suspiro. Não é à toa que Jonas está no topo dos negócios. Ele tem o poder de persuasão, a maneira certa de convencer as pessoas.
Dá alguns passos à frente e me encara de um modo penetrante que só ele sabe fazer.
— Por que você me quer, Jonas? Quero dizer, para o cargo? Poderia contratar qualquer outra pessoa. Eu sequer tenho experiência na área, você sabe.
— Escolhi você porque é de confiança. Além disso confio em seu potencial. Tenho certeza de que não vai me decepcionar.
— Mas...
— Mas? Mas o quê? É só vir trabalhar conosco e ponto.
— Não sei... desculpe, acho que estou um pouco confusa — cruzo novamente meus braços no peito e afundo no sofá simples do apartamento.
Sem mesmo olhar, sinto Jonas se sentando também no sofá de dois lugares à minha frente.
— Se está achando que vou tentar me prevalecer do fato de ser seu chefe, fique tranquila, que isso não vai acontecer. Sei dividir as coisas. Pode não acreditar, mas até mesmo um cara promíscuo como eu sabe seguir regras.
Meus olhos procuram pelos azuis dele.
— E veio aqui só pra tentar me convencer?
— Caso fosse preciso.
Permaneço o encarando. Tento não pensar no período que estivemos juntos e no quanto foi gostoso e especial. Eu não posso me punir dessa forma. Jonas levanta-se e afunda as mãos nos bolsos do jeans. Também fico de pé.
— Fiquei sabendo que saiu de vez da casa de seus pais. É verdade?
Essa pergunta me pega de surpresa. Não sei o que dizer. Tento disfarçar. Não quero falar sobre isso com ele. Não com ele.
— Bem, tive alguns contratempos... nada de mais. Está tudo bem.
Traz seus passos mais à frente, me avaliando, me estudando, então chega ainda mais perto de mim e toca meu queixo com carinho e delicadeza. Ele vai me beijar. Sei que vai. Por um momento tudo em que penso é sentir seu beijo de novo. Mas antes que feche meus olhos, vejo suas sobrancelhas erguidas.
— O que foi isso? — toca em meu lábio inchado e só então me dou conta que não deveria ter visto isso.
Instantaneamente esquivo-me de seu toque e recuo, me sentindo mal com as lembranças. Desde o dia da agressão tento não pensar muito no assunto para não me odiar por ter ficado tanto tempo com um cara como Cidão.
— Estou bem, Jonas... — tento fugir de seu olhar atento, de sua pena. — Já passou. Estou bem.
— Seu lábio está machucado. O que aconteceu? Foi o seu pai que fez isso? — sua pergunta me surpreende. Por que não dizer me choca?
— Não. Não foi o meu pai. Claro que não... meu pai nunca faria uma coisa dessa.
Dá mais um passo para perto de mim.
— Seu namorado então — afirma, sua fisionomia está mais endurecida agora.
— Não quero falar sobre isso...
— Eu sei que foi ele... que filho da puta!
Seus olhos de um azul meio dia se tornaram meio acinzentados agora. Será raiva?
— Devia denunciá-lo — diz.
— Eu sei. Devia. Mas passou. Não quero mais pensar nisso — cruzo meus braços novamente, tentando me manter segura e firme. Suspiro — Estou bem agora. É o que importa.
Seu celular toca de repente, Jonas resmunga algo, consulta o visor e interrompe a chamada.
— Bom, preciso ir agora. A empresa não consegue ficar muito tempo sem mim. Mas sobre a proposta que fiz, gostaria muito que aceitasse o cargo.
— Será que eu posso pensar um pouco?
— Claro. Estarei esperando, Verônica.
Permanece me observando - o meu lábio, provavelmente. Me pergunto se estou tão feia assim. Desvio o olhar. Me sinto horrível. Jonas chega mais perto. Toca meu rosto com delicadeza.
— Se esse cara voltar a incomodar, me avise — deposita um beijo em minha testa — Se cuide, doçura.
Gira o calcanhar e segue até a porta. Em seguida vai embora e some do meu campo de visão.
Só agora solto todo o ar que mantive preso esse tempo todo. Afundo no sofá. Eu o amo! Se aceitar o emprego, como vou deixar de amá-lo?
JONAS
— ENTÃO TU É O cara que gosta de cantar de galo no terreno dos outros, né? — uma voz masculina fala enquanto estou abrindo a porta da minha Mercedes.
Como é?
Eu me viro para o sujeito e o reconheço na hora. É o pagodeiro, o filho da puta do ex de Verônica. Não há como não reconhecê-lo. Parece um rato de esgoto. A mesma aparência desleixada e suja, o ar de vagabundo que conferi quando o conheci. Eu o avalio de cima a baixo, sabendo que tudo o que sinto por esse miserável é desprezo.
— Não vai responder? — continua, me encarando.
É sério que achava que tinha alguma chance de competir comigo? Olho para a sua roupa de merda. Camisa barata, calças mais largas, boina imunda na cabeça. Me pergunto como Verônica conseguiu ficar com um cara chinfrim como esse. Ele, sem dúvida, enlouqueceu quando levou um chute na bunda.
— Não se lembra de mim, bacana? Será que devo refrescar sua memória?
— Lembro de você — tento administrar a raiva que sinto e não partir para cima dele logo de cara — Não devia ter tocado nela.
— Ah, é? Experimenta levar chifre pra ver. É aqui que se encontravam enquanto riam de mim?
Por um momento o lábio inchado de Verônica invade a minha mente e incontrolavelmente meu sangue ferve dentro do corpo. O sujeito continua falando e só sei que não vou ficar em paz se não der uma lição nele.
— Quero saber se aquela piranha contou que...
Antes que termine a frase, eu o acerto com um forte murro na boca, descontando toda a ira em mim. Há certas coisas na vida que abomino mais que tudo. Agressão contra mulheres é uma delas. Eu nem penso mais no que estou fazendo e no que essa minha atitude poderá acarretar à minha imagem futuramente. Só sinto meus punhos doloridos por tanto encontrarem o rosto do sujeito. Eu o espanco, sem dó nem piedade. Finalmente o filho da puta está estirado no chão, cuspindo sangue. Ensaia um xingamento, mas nem tem mais força para abrir a boca. Dou um pontapé bem forte em seu estômago, fazendo-o se contorcer de dor.
Eu me agacho até seu lado e seguro com força alguns fios de seu cabelo imundo.
— Por que não se levanta daí e reage? É mais fácil bater em mulher, não é?
— Filho da p... — grunhe, mas o xingamento não consegue sair de sua boca ensanguentada.
— Se eu souber que chegou perto dela outra vez, será um homem morto. Juro a você. Não sabe com quem está lidando.
Largo seu cabelo sujo, me afasto de seu corpo mole e me ponho de novo em pé. Olho em redor. Aparentemente ninguém testemunhou a cena. Sigo até à minha Mercedes, entro nela e coloco o carro em movimento. Enquanto vou tomando distância, coloco os óculos escuros de volta ao rosto. Penso na surra que acabei de dar no desgraçado. Isso me fez sentir melhor. Acelero o carro enquanto a raiva vai diminuindo aos poucos. Tento não pensar na imagem de Verônica sendo agredida. Respiro fundo. Ela fez bem em meter o pé na bunda daquele desgraçado. Puxo o celular do bolso e disco para Augusto, que não demora a atender.
— Senhor?
— Avise que vou me atrasar um pouco hoje.
— Como quiser.
Desligo. Em seguida, em um impulso, pego o primeiro recuo e volto para a direção do apartamento onde Verônica está vivendo.