Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 20 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 20

 

VERÔNICA

 

TRANCADA NO QUARTO, não consigo pensar em outra coisa que não seja na loucura que acabei de cometer e - principalmente - em toda a confusão que está a minha vida.

Como tive coragem de empurrar o Jonas e sair correndo da suíte dele? O que, afinal, deu na minha cabeça? E se ele estiver morrendo de raiva agora? E se me mandar de volta pra casa? Se fizer isso, o que vou fazer? Certamente ele vai me mandar embora e dizer que depois dessa humilhação quem não quer mais agora é ele! Que homem aceitaria uma coisa dessa? Ainda mais um homem rico e seguro de si como ele! Está claro que coloquei tudo a perder! Não tem mais jeito, acabei de cavar a minha própria sepultura... pior: a da minha família. Querendo ou não, aquele homem é a solução para todos os meus problemas.

Calma, Verônica.

Respiro fundo. Afundo na beirada da cama, tentando reorganizar os meus pensamentos. Ai, caramba. Bom, o mais inteligente agora é esperar a poeira abaixar. Suspiro. Levo minhas mãos ao rosto. Calma, está tudo bem. Se ele quiser me mandar embora, paciência. Darei tudo de mim e conseguirei de alguma forma juntar o dinheiro para pagar a casa.

Subitamente olho para a porta e avisto a maçaneta girar, como se alguém tentasse entrar. Em seguida a maçaneta volta ao lugar. Sei que é ele, Jonas, que está lá fora, atrás da porta. Prendo a respiração, como se ele pudesse de alguma forma me ouvir ou sentir. Espero. Vejo a sombra de seus pés se afastar da porta e sei que ele está indo embora.

Permaneço na cama, mas agora começo a abrir a presilha da minha sandália cara. Faço isso com um pé e depois com o outro. Abandono as sandálias no chão e volto a me aconchegar na cama. Puxo um travesseiro até mim e me abraço nele. Tento não pensar no Jonas e no que rolou esta noite. Foi muita decepção para um momento. Só quero dormir e esquecer que estou aqui, nesse imenso quarto de hotel, pronta para ser seu objeto sexual - isso se ele ainda quiser levar essa história à frente.

JONAS

 

LEVO OS MEUS PÉS até à suíte de Verônica e pego na maçaneta da porta. Eu a giro, mas a porta não se abre. A garota se trancou lá dentro. Estava claro que ela faria isso. Encosto a minha testa na madeira da porta. Gostaria de falar alguma coisa para Verônica e mostrar que não sou esse monstro que ela está pensando. Suspiro. Não vou forçar a barra. Imagino o quanto esteja assustada e confusa, especialmente com a revelação de que sempre fora eu desde o início. Eu finalmente largo a maçaneta e me afasto da porta. Volto para a minha suíte. Neste momento o meu celular toca. O nome de Paula aparece no visor enquanto me decido se vou atender ou não. Faz dias que não telefono para ela. Respiro fundo antes de atender. Sei que sou um cafajeste por enrolá-la tanto, ainda que eu nutre um pouco de sentimento por ela. A questão é: isso não é o suficiente para eu querer me casar. Claro que não. O celular não para de chamar. Finalmente o levo ao ouvido.

— Olá, Paula! — digo.

Paula sorri do outro lado da linha, a voz macia como a de uma felina.

— Demorou... o que será que está acontecendo, meu super Jonas? Anda me evitando?

— Não é isso — esfrego a minha mão esquerda no rosto — Eu tenho trabalhado muito ultimamente. Você sabe, a Luxus é tudo pra mim.

— Acho que só me enrola — suspira com desânimo — O problema é que o amo mesmo assim.

— Me diga, honey, o que anda fazendo de tão interessante longe de mim?

Paula volta a rir.

— Muitas coisas.

— Ah. Muitas coisas? Que tipo de coisas?

— Compras, claro... mas hoje quero saber de você. Onde está, Jonas? Em que país?

— Na França. Mais precisamente em Paris.

— Oh! Como eu queria estar com você aí em Paris... amo a cidade. Posso voar até aí e encontrá-lo...

— Não, Paula, melhor não — corto, mesmo sabendo que o meu tom sai áspero. — Quero dizer, não é uma boa ideia... ando muito ocupado e talvez nem consiga dar toda a atenção que você merece.

— Oh, Jonas, estou com tanta saudade... por que você faz isso comigo?

— Tenho uma ideia melhor — afundo no sofá. — Posso encontrá-la depois de amanhã. Vou ter uma reunião na Florida e prometo passar aí em Miami pra vê-la. Palavra de honra.

— Depois de amanhã? — parece pensativa, e, em seguida, sorri maliciosa. — Oh, mas o que você está planejando, hein, garanhão?

— Surprise, baby. Surprise.

Dá a gargalhada gostosa que tanto gosto.

— Okay, baby. Então, nos veremos depois de amanhã. E se me enganar, será um homem morto, Jonas Malta. Entendeu?

— Eu morreria feliz se fosse a seu lado, honey. Bye.

Ao desligar o telefone, eu o abandono na mesinha de centro. Suspiro. Sim, sou um canalha. Sim, e não me envergonho disso, é verdade. Mas nunca incentivei ninguém a gostar de mim. Por mais que eu minta para Paula, sempre deixei bem claro quem sou de verdade. Um homem ambicioso e frio, que é capaz de tudo para conseguir os seus objetivos - não um príncipe encantado. Também tenho a consciência de que tenho uma namorada linda e cheia de gás, e mesmo assim, desejo outras - no momento só Verônica. Mas antes dela já tive outras mil puladas de cerca.

***

Ao nascer do sol, tomo um banho e coloco um moletom preto. Me encaro no espelho e bagunço meu cabelo preto com as pontas dos dedos. Antes de deixar o quarto, pego uma camiseta branca e vou a vestindo pelo caminho, até chegar na sala de jantar, onde encontro Augusto, como sempre a postos.

— Bom dia, senhor. Espero que tenha tido uma boa noite de sono — soa, discreto e formal, como de costume.

— Bom dia, Augusto. Dormi muito bem, obrigado. Sente-se e tome café comigo.

Olho para a mesa farta e variada e toda essa visão já abre o meu apetite. Augusto puxa uma cadeira cuidadosamente sem fazer ruídos e senta-se em frente a mim. Enquanto despejo o café preto na minha xícara, sinto sua atenção em mim. Olho para a janela enorme de vidro lá fora e constato que a manhã em Paris está ensolarada e parece mais quente que o normal.

— Tem notícias da Verônica? — pergunto — À propósito, ela já acordou?

— Não sei, senhor. Quero dizer, talvez ela ainda esteja deitada.

— Certo — tomo o meu primeiro gole do café — Quero ficar a par de tudo o que acontece — digo — Principalmente em relação à garota.

Consulto a hora no pulso.

— São sete e meia. Tenho que ir. Vou encontrar dois empresários daqui a pouco e vou almoçar com eles. Talvez até jogue algumas partidas de tênis antes de voltar para o hotel. E quando isso acontecer — olho diretamente para seus olhos castanhos — Quero encontrar a garota tranquila e feliz. Entende o que quero dizer?

Parece pensativo e por um segundo preocupado com a minha última frase.

— Acho que entendo, senhor.

— Ótimo.

Eu me levanto da mesa, e sigo de volta para o quarto.

VERÔNICA

 

NÃO QUERO SAIR do quarto. Tenho medo de esbarrar em Jonas no caminho e a verdade é que não sei o que faria se isso acontecesse. Ainda não estou pronta para lidar com isso. Sequer sei o que dizer a ele, mas tenho a intuição de que me mandará embora. Meu celular inesperadamente toca, causando palpitações em meu coração. Reconheço o nome de Augusto no visor, então isso me deixa um pouco mais aliviada.

— Bom dia, senhorita, sou eu, Augusto.

— Oi, Augusto, bom dia.

— Dormiu bem?

— Oh, sim, obrigada.

— Bom, não é nada de mais, só queria mesmo saber se está tudo bem e se não está precisando de alguma coisa.

— Oh, não, não estou precisando de nada. Não se preocupe.

Mexo o meu cabelo, mordendo meu lábio inferior, me preparando para o momento em que ele mencionar o chefe e dizer que a ordem é me colocar no primeiro voo que aparecer. Não tenho ideia do que será da minha família agora, mas sou forte o suficiente para erguer minha cabeça e arrumar as minhas malas.

— Não vai sair do quarto? — Augusto quer saber — Já são dez e quarenta da manhã. Faz bela manhã lá fora. Podemos ir às compras, se quiser, ou mesmo almoçar em um restaurante ao ar livre. As recomendações que recebi foram para deixá-la tranquila e feliz.

Pisco os olhos e tento absorver o que acabou dizer, especialmente as últimas palavras.

— Como é?

— Exatamente isso que ouviu.

— Ele falou isso pra você?

— Sim. Essas mesmas palavras. Tranquila e feliz.

— Mas e então — gaguejo porque realmente estou surpresa com a ideia de que Jonas não ficou furioso e não quer me mandar embora —, onde ele está agora?

— Bom, ele foi a um almoço de negócios. Deve demorar um pouco.

Mais aliviada ao ouvir isso, relaxo meus músculos e afundo na beirada da cama.

— Certo, entendi.

— E o que me diz do passeio?

Penso um pouco. Talvez a ideia não seja tão ruim, afinal, Jonas está fora e eu não poderei ficar a vida inteira trancada nesse quarto de hotel.

— Está bem. Você pode me dar quinze minutos? Vou só tomar um banho e me aprontar.

— Fique à vontade. Tome o seu café primeiro. Estarei esperando.

***

Após almoçarmos em um restaurante ao ar livre e conhecer mais um dos pratos típicos da cidade, a gente volta para o hotel e até aceito a ideia de entrar na piscina enquanto um Augusto - não mais engravatado, como de costume, mas ainda assim completamente formal e desfocado ali, fica por ali perto, tomando um suco de frutas. Por um momento esqueço o lado ruim da viagem e consigo curtir a água deliciosa.

— Venha, Augusto, entre na água! — grito para ele enquanto estou boiando — Não acho justo estar nessa piscina incrível enquanto você está aí com essa roupa quente — brinco.

— Eu me contenho com a sua alegria, senhorita, e com o meu suco — me mostra a taça.

— Ah, para. Isso não é nada comparado aqui dentro. Venha!

Insisto tanto que ele sorri e se levanta dizendo que irá colocar uma roupa apropriada. Eu me pergunto se ele vai fugir de mim, mas o homem surge alguns minutos depois vestindo uma cueca azul marinho. Ele pula na piscina e boa parte da água cai em meu rosto. Sorrio e dou um mergulho. Quando volto outra vez à superfície, respiro todo o ar que ficara preso e afasto boa parte da água fresca do meu rosto. Nesse instante algo subitamente me chama a atenção. Na verdade, não é exatamente algo, e sim alguém. Jonas. Ele está com as mãos enterradas nos bolsos do jeans, me observando com atenção. Surpreendida, desvio o olhar. Augusto, ali perto e também dentro da piscina, sai imediatamente de onde está e vai murmurando vários pedidos de desculpa enquanto vai ao encontro do patrão. Vejo os dois trocarem poucas palavras e um Augusto muito tenso se afasta. Jonas continua onde está. Depois de tudo o que acabou de acontecer, não há mais clima. Imediatamente saio da água e logo me cubro com a saída de praia. Ao passar por ele, tento manter meu queixo erguido. Não devo nada a ninguém.

— O que foi? — me indaga — Já cansou da piscina?

— Já fiquei tempo o suficiente — fito seus olhos escondidos pelos óculos de sol.

— Parecia estar se divertindo.

— É, eu estava.

— Então por que não volta?

Dou de ombros.

— Acho que já fiquei tempo o suficiente.

— Isso é por que estou aqui? — retira os óculos escuros do rosto e os pendura na gola da camiseta vermelha — Você parecia muito bem quando Augusto ainda estava por perto.

— Deve ser impressão sua. Acho melhor subir e me trocar — dou um passo à frente, mas ele segura o meu braço, me impedindo de ir.

— Por acaso está me esnobando? — rosna, baixo, para só eu ouvir. Meus olhos recaem em sua mão grande e firme na minha pele. Ele provavelmente se dá conta do que acabou de fazer, então me solta.

— Me desculpe — murmura, colocando os óculos de volta ao rosto.

— Com licença, senhor, acho melhor...

— Não me chame de "senhor", porra. Quantos anos acha que tenho?

Eu o encaro. Ele me encara de volta. Seus olhos novamente escondidos pelos óculos.

— Você sabe a droga do meu nome.

— Jonas — repito, ainda encarando-o — E já que comentou isso, quero dizer uma coisa: você pode até me obrigar a voltar pra piscina e a fazer o que quiser. Pode também me obrigar a seguir para a sua suíte agora mesmo e a realizar os seus caprichos. Mas não pense que vou voltar a vê-lo como antes. Você nem de longe é o cara que conheci.

Dito isso, apresso os meus passos e sigo o meu caminho de volta para o hotel.