Como uma Joia
Capítulo 47
VERÔNICA
ENQUANTO ME TROCO, penso na noite anterior que Jonas e eu tivemos. A gente havia se amado intensamente. Agora sorrio por ter a certeza de que toda aquela chateação no caminho de volta para casa por achar que não me queria na viagem não passava de uma preocupação boba, pois, no fundo, Jonas se importa, sim, comigo e me deseja muito. E só estava querendo me preservar de dias chatos e solitários dentro de um quarto de hotel em São Paulo.
Sorrio, satisfeita. Jonas sabe ser amável quando quer. Sim, e como sabe! E é muito carinhoso na cama. A frieza é apenas uma capa que usa de vez em quando, principalmente para lidar com os negócios. E a cada dia tem agido como um namorado e me surpreendido mais.
À essa altura, já deve estar chegando ao destino.
Encaro-me no espelho. Avalio meu rosto, minha pele, meu cabelo. De repente, ouço uma batida na porta.
— Sou eu, querida, Zuleica — fala a voz, do outro lado. — Está tudo bem? Não vai descer para o café? Está um belo dia lá fora.
— Bom dia, Zuleica — sorrio ao abrir a porta e encontrá-la — Desculpe. Acho que perdi a hora... acordei às sete, mas estava com tanto sono, que voltei a dormir.
— Tudo bem. Não precisa se explicar, muito menos pedir desculpas. Está um lindo dia lá fora. Venha, preparei um café dos deuses pra você.
Assim que descemos a longa escada, eu a sigo à cozinha. Há um cheiro maravilhoso pairando no ar. Contemplo a mesa farta e a imagem imediatamente abre o meu apetite.
— Fique à vontade, querida. Espero que goste.
— Obrigada. Você é um amor.
Afundo na cadeira, diante da mesa. Provo a primeira fatia do bolo de chocolate e não tenho palavras para descrever o quanto ele é bom.
— Hmmm, meu Deus, Zuleica, isso é divino — parto uma segunda fatia e levo à boca — Você tem mãos maravilhosas.
Zuleica sorri, orgulhosa.
— Que bom que gostou. Faço bolos variados todas as manhãs. Ainda bem que aprovou.
— Gostar é pouco. Eu amei! — como mais uma fatia. — Venha, coma comigo.
— Oh, não, meu bem. Já comi muito hoje. Isso tudo é pra você. Sabe, adoro cozinhar. Principalmente para as pessoas que gosto. O guri saiu tão cedo de casa hoje, que nem deu tempo de preparar algo gostoso pra ele. Mas quando voltar, vou fazer a torta de maçã que tanto gosta. Vai adorar experimentar também.
— Tenho certeza que vou — limpo o canto de minha boca com guardanapo e me preparo para um quarto pedaço do bolo.
— Mas, então, já sabe o que vai fazer durante o resto do dia? Ainda mais sozinha nesse casarão?
— Vou chamar minha amiga — comento, após mastigar. — Vou ligar pra ela daqui a pouco. Foi uma sugestão do Jonas, sabia?
— Oh, posso imaginar — senta-se na cadeira ao lado da minha. — Ele sabe ser encantador quando quer. Só precisa de um pouco de incentivo. Espero que continuem se dando bem.
Levo o copo de suco de abacaxi à boca para dar uma golada enquanto penso no que Zuleica acabou de dizer.
— Você deve conhecê-lo há muito tempo, não é?
— Oh, sim, e posso afirmar a você, menina: ele está apaixonado.
Sorrio, meneando a cabeça, tendo minhas dúvidas, mas torcendo para que ela esteja certa.
— Eu não sei... acha mesmo?
— Talvez nem ele tenha se dado conta disso ainda, querida. Só acho que um pouco de paciência nunca faz mal a ninguém. E quer uma dica? Não o pressione. Bicho acuado, foge — me lança uma piscadela antes de se levantar da cadeira e me deixar sozinha na cozinha.
JONAS
HAVIA CHEGADO cerca de uma hora atrás. Subitamente a campainha toca, não me surpreendendo, pois já imagino que seja Paula. É a única que sabe onde estou hospedado. A campainha continua tocando, então resmungo um palavrão enquanto me dirijo à porta.
Quando a abro, a encontro do outro lado, me encarando escondida através de enormes óculos escuros. Sorri, mexendo o cabelo loiro brilhante de uma forma sensual.
— Oi, Paula — eu a cumprimento, sem entusiasmo algum.
O curioso é que a mulher em minha frente continua linda e estonteante. É a imagem perfeita, o tipo de garota que qualquer homem gostaria de ter ao lado e também de ostentar como um troféu. No entanto, para mim, ela é só uma pessoa que conheci. Não sinto nem mesmo aquele tesão que antes despertava em mim.
— Olá, baby. Posso entrar? — tira os óculos escuros do rosto e me revela seus olhos azuis.
Suspiro, ficando de lado e dando espaço para que entre. Depois que Paula passa por mim, fecho a porta e volto para dentro da suíte atrás dela.
— É assim que vai me tratar agora, Jonas? Com toda essa frieza? Desde quando as coisas começaram a mudar?
— O que você quer, Paula? Fala logo — me sento no braço do sofá, um tanto impaciente — Não vim à cidade por divertimento. Acabei de chegar de um voo, estou cansado. Daqui a pouco vou ter uma reunião. Me diz o que quer e pronto.
— Uau, você está tão lindo com essa camiseta vermelha — chega perto de mim e pousa as mãos com unhas enormes pintadas de rosa em meu colarinho.
Em seguida agarra meu pescoço e começa a se esfregar em mim. Eu a afasto com delicadeza e me desvencilho de seu toque.
— Se veio até aqui pra mais uma de suas sessões sensuais, lamento informar, mas perdeu seu tempo. Não estou com tempo para sexo selvagem.
Permanece imóvel, me encarando, os lábios rubros entreabertos, provavelmente surpresa e perplexa por eu tê-la rejeitado. Homem nenhum rejeita uma mulher linda e fogosa como Paula.
— Eu não vim pra mais uma de minhas sessões calientes, honey. Aliás, você tem que admitir que adora isso, mas, na verdade, vim aqui por outro motivo — senta-se no sofá, cruzando as pernas de porcelana perfeitas. — Tenho algo a lhe dizer. Algo que precisa ser dito pessoalmente, e não por telefone.
— Certo. O que é? — puxo a minha camiseta vermelha pela cabeça, me preparando para seguir para o banho — Aumentou sua coleção de sapatos Gucci? — zombo, me livrando da camiseta.
— Não, baby, não foi nada disso. Aliás, o que tenho a dizer é algo muito melhor do que simples sapatos de marca. — levanta-se para se aproximar de mim outra vez. — Estou grávida, Jonas. Gravidíssima de um filho seu.
— Como é? — paro, a encarando — O que acabou de dizer?
— Vamos ter um filho, Jonas. Eu e você. Um little Jonas.
Pisco, perplexo, então, levo minhas mãos para abrirem o zíper do jeans.
— Não está falando sério, está? Me diz que está brincando. Você nunca engravidou em anos, por que esse papo agora?
Dá novos passos em minha direção e puxa o meu jeans para baixo, pronta para me chupar.
— Não, agora não — puxo meu jeans de volta para cima porque não quero ser chupado.
Quero que me conte melhor sobre essa porra de gravidez. Seguro seus ombros e olho bem em seus olhos.
— Você não está grávida. Me fale a verdade.
— Oh, my love, não é história. Realmente estou grávida, Jonas. Vamos ter um filho. Pensei que ficaria feliz — enlaça meu pescoço com os dois braços finos.
— Paula... — murmuro, me desvencilhando dela.
A notícia me pegou de surpresa. Por um momento, não sei o que dizer ou o que fazer. Preciso absorver a informação.
— Oh, Jonas, por favor. Veja — puxa minha mão e a leva até seu ventre seco. — Sinta... é o nosso filho que está crescendo aqui. Nosso mini Jonas.
— É só um grãozinho, Paula — resmungo, puxando minha mão de volta.
E me afasto dela, confuso. Na verdade, puto da vida. Eu não quero filho nenhum!
Eu me dirijo ao bar. Preciso de uma bebida. Pego uma garrafa qualquer do móvel e logo viro o conteúdo dela em um copo para levá-lo à boca.
Mas que porra de notícia é essa? Paula grávida? Como isso foi acontecer?
Enquanto dou o primeiro gole no uísque, vejo Paula ajeitar as madeixas loiras e, em seguida, caminhar para perto de mim. Não gosto do seu sorriso em minha direção. É como se estivesse satisfeita por ter me enganado, como se soubesse que agora possui um trunfo nas mãos. E tenho a absoluta certeza de que usará todas as armas possíveis para me ter de volta.
— Não acredito que não esteja feliz — resmunga, a voz chorosa, se agarrando em meu pescoço — Achei que fosse adorar a ideia — e acarinha meu rosto — Vamos lá, Jonas. Diga que está feliz.
Não há resposta. Me mantenho parado, ainda desgostoso. Não estou pronto para ser pai. Muito menos assim, de uma hora para outra, sem planejamento. Por um momento, me sinto perdido.
— Por favor, preciso do seu apoio nesse momento, Jonas... isso também está sendo assustador pra mim. Pensa que é fácil me ver grávida assim de repente? Ainda mais agora que não estamos mais juntos?
— Eu não entendo... — passo a mão pelo rosto rapidamente. — Você não se cuidava? Não tomava pílula?
— Sim, tomava, claro que tomava. Tomava tudo certinho conforme mandava a bula. No entanto, depois que terminamos, fiquei tão mal, que acabei me confundindo com os dias e horários... aí tive essa grata surpresa. A regra parou de vir, surgiram os enjoos... então, descobri que estava grávida.
— Você acha mesmo que é uma boa ideia levar essa gravidez adiante?
Ela me fita, seus olhos arregalados, simulando choque.
— Como pode me perguntar isso? É seu filho... está insinuando que... — e faz drama, simulando choro. — Está insinuando que não devo ter esse bebê? Eu vou ter esse bebê! Você querendo ou não. É seu filho! Nosso filho!
Esfrego meu rosto e, vendo-a histérica desse jeito, me pergunto se não fui longe demais.
— Eu preciso de um banho — é tudo o que consigo murmurar antes de girar o corpo e seguir para o banheiro, querendo ficar longe de Paula e de toda essa história de termos um filho.