Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 10 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 10

 

VERÔNICA

 

A GENTE VOLTA para o hotel e pega o elevador social. Eu me sinto um pouco desconfortável porque toda a imponência dele é impressionante. Por mais gentil e agradável que ele seja, é perturbador ficar sozinha em sua companhia. E para piorar o meu desconforto, é como se ele soubesse o efeito que causa em mim, o que me deixa completamente intimidada -principalmente porque estamos sozinhos nesse cubículo. Ele faz um movimento com as mãos e as afunda nos bolsos do jeans. Tento permanecer imóvel e inabalável, olhando para a frente e prendendo a minha respiração. Sinto seu olhar em minha direção, mas não o encaro de volta.

O painel finalmente ilumina e indica que chegamos ao estacionamento. A porta do elevador se abre e o executivo da Luxus, muito gentilmente, faz sinal para que eu saia primeiro. Agradeço sua gentileza. Paro no caminho para esperá-lo porque não sei onde está o seu carro. A gente caminha por uns minutos e não há como não reparar nos automóveis bonitos e organizados em fileiras. Penso no Gol 2001 que Cidão comprou recentemente e que acha uma "máquina". Ele não seria nada na frente desses carros importados. Jonas saca o controle remoto do bolso e mira em um carro preto que eu imagino ser uma Mercedes.

O automóvel apita rapidamente e acende as luzes vermelhas. É lindo. Jonas abre a porta do motorista para eu entrar e me afundo no banco cinza e confortável, tomando todo o cuidado do mundo para sujá-lo. O ambiente do carro cheira incrivelmente bem. Ele é tão perfumado quando seu dono. Jonas finalmente se senta ao meu lado, no banco do motorista. Eu me concentro no cinto de segurança enquanto ele liga o motor e dá a partida.

A noite está bem escura e as ruas de Ipanema estão completamente desertas. A gente passa pela praia e eu me perco naquele mar sombrio e silencioso. Jonas me pergunta novamente se estou bem e forço um sorriso para ele, dizendo que sim. É a primeira vez que o encaro desde que entramos no carro. Ele é realmente lindo e charmoso, mesmo usando apenas jeans e camisa. Viro meu rosto para a frente porque não quero ficar pensando no quanto é atraente e no quanto sua aparência me atrai. É algo novo na minha vida. É claro que já admirei muitos homens bonitos da televisão, mas nunca um homem real me envolveu tanto quanto ele tem me envolvido.

— Então, pra onde exatamente estamos indo? — ele quer saber, então me lembro que está me levando pra casa e ainda nem disse onde moro.

— Irajá.

Aciona o que parece ser o GPS e em minutos pega a Avenida Epitássio Pessoa até o Túnel André Rebouças. O trânsito está muito bom porque já é madrugada, então tenho a impressão que levará cerca de menos de meia hora para me deixar em casa. Meu celular começa a tocar, me surpreendendo. Sem olhar o visor, levo o aparelho ao ouvido.

— Oi, filha, sou eu — a voz preocupada de minha mãe soa. É claro que está preocupada. Já passam da meia noite e ainda não cheguei em casa. Mamãe sabia que eu faria um extra, mas não imaginava que eu chegaria tão tarde assim. Nem eu imaginava. E só de lembrar o que aconteceu horas atrás uma tristeza me toma.

— Mãe, estou bem — me forço a dizer — Estou indo pra casa, não se preocupe. Acho que vou levar mais ou menos meia hora pra chegar aí.

— A festa acabou agora? Por que demorou tanto? Você está vindo como? O metrô já deve ter fechado a essa hora...

— Estou de carona com um... amigo.

— Mãe, termine logo essa chamada. Vai acabar com os meus créditos — ouço no fundo a voz de Vanessa resmungar, então a mãe logo me diz:

— Estou falando do celular da sua irmã. Vou ter que desligar pra não gastar os créditos dela. Vem com Deus, filha.

A mãe desliga e eu me sinto mais aliviada por ela estar aliviada por mim.

— Você mora com os seus pais? — Jonas pergunta de repente, parecendo interessado.

— Sim, e com a minha irmã mais nova. Vanessa.

— Bom, sua mãe deve estar preocupada. Vou acelerar mais um pouco — ele pisa no acelerador e fico pensando no que acabou de comentar. É realmente gentil e atencioso. Me pergunto se um homem como ele não tem uma esposa ou noiva. Olho disfarçadamente para suas mãos à procura de algum anel de compromisso ou aliança. Nada.

Quando o carro finalmente pega a Linha Amarela, sei que estamos bem mais próximos da minha casa. Logo vem a Avenida Pastor Martin Luther King e já estamos na Zona Norte. Dentro de dez minutos ele pega a Avenida Monsenhor Félix e então quando finalmente o carro chega na esquina da minha rua, aviso:

— É aqui. Naquele portão azul ali da frente — aponto.

Não me sinto envergonhada em nenhum momento por ele ver a minha casa humilde. Foi o lugar que meus pais compraram e ainda estão pagando com muito sacrifício. Não me envergonho dela. Pelo contrário. Tenho orgulho. É claro que precisa de reforma e pintura, mas com o tempo tenho fé que vamos conseguir fazer tudo isso. A Mercedes do Jonas para em frente ao portão azul descascado e reparo que a sala está acesa - a mãe certamente está me esperando.

— Obrigada — sorrio para ele antes de me soltar o cinto de segurança — Você foi muito gentil e generoso a noite toda.

— Foi o mínimo que pude fazer — fala todo charmoso — principalmente depois do que aconteceu lá no meu quarto. Eu lamento muito. Você não merecia — estica o braço e sua mão pega na minha, massageando suavemente. É gostoso sentir seu toque — Sei que o que vou dizer não é muito confortador, mas estive com o canalha do Moreira e avisei a ele que vou estar do seu lado, caso decida levar o caso adiante.

— Eu não vou — o sorriso sai do meu rosto e ele parece surpreso com o que acabei de dizer.

— O que quer dizer?

— É que não vou denunciá-lo... bom, acho que não vale a pena. Nós dois sabemos que isso não vai dar em nada. Na verdade, tudo o que quero agora é esquecer o que aconteceu.

Jonas leva a mão ao rosto, esfrega sua linda face e suspira, parecendo um pouco decepcionado com a minha decisão.

— Acho que você deveria pensar melhor sobre isso, mas não vou julgá-la nem interferir na sua vontade — sua mão quente pega novamente na minha de uma forma que me deixa arrepiada —só quero que saiba, que se precisar de mim, pode me procurar. Olhe — leva sua mão ao bolso da camisa e me entrega um cartão — Aí está o meu número. Pode me ligar a hora que quiser.

— Obrigada.

Silêncio. Eu o encaro, ele me encara. A gente permanece se encarando. Parece que nenhum dos dois está disposto a se despedir.

— Olha — ele diz — Sobre o que aconteceu no quarto entre nós, me desculpe. Eu não devia tê-la beijado e tocado daquela forma, especialmente depois do que Moreira fez... não sei o que deu em mim na hora... confesso que tenho pensado muito em você...

Estou perplexa. Confesso que tenho pensado muito em você. Nunca poderia imaginar que um cara rico como ele pensaria numa simples camareira como eu. Olho para sua mão na minha. Gosto disso. É uma mão grande, firme e ao mesmo tempo macia. Gosto da sensação que ela causa em mim. Lembro dessa mão segurando a minha cintura e deslizando por minha bunda. Por um instante desejo não só ser tocada pela mão, mas por toda a extensão de seu corpo. Meu Deus, o que estou pensando?

— Você é linda — fala baixinho enquanto seu dedo polegar e o indicador estão segurando meu queixo, me obrigando a encará-lo nos olhos.

Fecho os meus olhos, já esperando pelo beijo, mas duas batidas no vidro da janela nos interrompem, cortando todo o clima.

Olho para a pessoa atrás do vidro. Cidão. Meu coração acelera.

— Se acalme, ele não pode nos ver — Jonas diz — O vidro é filmado.

— Mas como ele sabe que sou eu que estou no carro?

— Bom, tenho certeza que é possessivo e ciumento.

Cidão continua batendo no vidro da janela, parecendo nervoso e agitado. Jonas faz menção de sair do carro, mas toco em sua mão.

— Tudo bem, é o meu namorado.

— Na primeira batida da janela, eu já soube.

— Fique aqui, por favor. Vou falar com ele — peço, quase suplicando. Sei o quanto Cidão é ciumento e bronco. Vai armar a maior confusão se ver Jonas.

Empurro a porta para deixar o carro e encontro Cidão na minha frente.

— Que negócio é esse? Mulher direita não vem do trabalho e chega em casa uma hora dessa! — grita comigo — Principalmente na companhia de outro homem. É um homem que está aí dentro, não é? Me fala.

— Cidão, para. Eu acabei de vir do trabalho, eu tive um dia de cão, você não tem ideia. Me deixe chegar em paz, por favor.

Eu o puxo para longe do carrão e para dentro do quintal da minha casa. Torço para que Jonas vá embora, mas o carro não sai do lugar, para o meu desespero. Não quero que haja qualquer confusão. Não quero nem pensar que eles possam se ver ou trocar ofensas. A mãe aparece no quintal e só então Cidão se acalma um pouco mais. A gente entra em casa. Digo a Cidão que não quero conversar agora, que estou muito cansada e chateada.

— O que foi? Aconteceu alguma coisa no trabalho? — quer saber.

— É melhor você ir, Cidão. Amanhã a gente conversa com calma. Por favor.

— Tá legal.

Finalmente se despede da mãe e vai embora. Eu o acompanho até lá fora na verdade para ver se Jonas já foi embora. Para o meu alívio, já. Fico preocupada com ele porque já é bem tarde. Espero que chegue bem no hotel.

***

— Ah, filha, eu estava tão preocupada — a mãe vem em meu encontro, toda inocente, o sorriso no rosto, e controlo a vontade de chorar. Oculto tudo o que estou sentindo por dentro porque não quero que saiba as coisas que aconteceram no hotel. Quero esquecer tudo o que passei no quarto da cobertura, o cheiro daquele homem nojento, sua boca nojenta, seu toque.

— Ainda bem que esse emprego é bom e que você está feliz nele. Agora descanse, vá dormir, que amanhã você vai acordar cedo.

— Amanhã vou estar de folga, mãe.

— Ora, melhor ainda então. Venha, sente-se aqui, vamos conversar — ela me puxa pela mão e me conduz até o sofá simples de dois lugares, o único que ainda temos — Vou fazer um cafezinho pra gente. Faz tempo que a gente não toma um e conversa um pouco, não é verdade?

— Deixa que eu faço, mãe. Você deve estar cansada.

— De modo nenhum. Não estou mais cansada que você, que trabalhou a noite toda — seu sorriso é terno — Fique aqui. Hoje é minha vez de mimar você. Tem feito tantas coisas por nós, Verônica. Você é uma filha muito boa.

Sorrio e beijo sua mão.

Ela se levanta e segue para a cozinha. Eu me deito no sofá minúsculo, então ouço passos e sei que é o pai que está saindo do quarto. Ele me cumprimenta, meio sonolento.

— Oi, filha. E aí, o Cidão foi buscar você?

— Não foi, não, pai. Ele está cansado. Esteve tocando no pagode.

O pai resmunga, contrariado.

— Você é boa demais pra ele. Lembre-se disso quando resolver casar.

— Como você está, pai? Como estão as dores no peito?

— Estão melhorando, filha. Obrigado por se importar. Sua irmã vive o dia inteiro em casa e nunca me pergunta como estou.

Ele caminha lentamente, levando seus passos cansados para a cozinha. Já sei o que vai fazer: beber mais um remédio antes de voltar para o quarto e dormir. Nesse momento Vanessa vem do corredor e entra na sala. Não sei se ouviu o que o pai falou sobre ela antes de ir para a cozinha.

— Você está me devendo vinte reais — ela diz, me encarando — A mãe estava toda preocupada porque você não chegava em casa e pediu meu celular emprestado pra te ligar. Gastou quase todos os meus créditos.

— Ah, como você é cara de pau, Vanessa! — brigo com ela — Ela nem ficou cinco minutos comigo na linha. Como pode ter gastado vinte reais dos seus créditos?

— Bom, cada operadora cobra de um jeito, Verônica. Só sei que eu tinha dez a mais e já não tenho mais.

Que cretinazinha.

— Bom, ok, vou pagar os seus vinte de crédito quando você me pagar os quinhentos que está me devendo. Já esqueceu?

— Eu não esqueci coisa nenhuma. Vou pagar. Já disse que vou pagar. Não precisa ficar jogando na cara.

— Não estou jogando sua dívida na cara. Foi você que surgiu agora na sala me cobrando vinte reais.

— Está bem. Esquece então. Vou dormir. Boa noite.

Vanessa gira o corpo e leva seus passos de volta para o quarto. Respiro fundo, irritada. Não sei o que acontece: fomos criadas pelos mesmos pais, mas minha irmã é uma ingrata, cara de pau, exploradora. Fico muito chateada e revoltada com a forma como trata nossos pais. Eles não mereciam uma filha como ela. De onde estou ouço os chinelos de minha irmã irem de volta para o quartinho que dividimos. Me pergunto que tanto sono é esse que sente. Não faz nada o dia inteiro. Tinha um emprego até meses atrás, mas desde que foi mandada embora, se acomodou com o seguro desemprego. Já avisei a ela que isso não é para a vida inteira, que ela deveria estar procurando outro emprego ao invés de dormir até o meio dia.

"Venho do pagode, é por isso que não consigo acordar cedo", sempre diz.

"Deixe os pagodes de lado. Eles não vão pagar suas contas", digo de volta, mas ela dá de ombros. Mas sei que minha irmã tem o mesmo defeito do meu namorado: não gosta de trabalhar. Quer tudo fácil. O sonho dela é arranjar um homem rico para sustentá-la e lhe dar todo o mimo que nossos pais nunca tiveram condições de dar. Suspiro. Deixo Vanessa e Cidão de lado. Lembro-me de Jonas. Pego o cartão que me deu. Penso em ligar.