Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 15 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 15

 

 

VERÔNICA

 

EMPURRO A PORTA do quarto e encontro Vanessa terminando de se trocar. Respiro fundo. Ela está em casa. Inclusive olhando para a minha direção. Fecho a porta atrás de mim com cuidado e anuncio:

— A gente precisa conversar.

Minha irmã suspira e então fala com desdém:

— Se é por causa da sem-vergonhice que presenciei lá fora, pode ficar sossegada, que não vou dizer nada ao chifrudo.

— Não é isso, Vanessa — respiro fundo, sentindo-me um pouco aliviada e esperançosa de que a gente se entenda ao menos uma vez na vida — Foi só um beijo — tento explicar — Na verdade, estou meio confusa. Esse cara chegou há poucos dias em minha vida e confesso que tem me deixado balançada... mas você como ninguém mais sabe que eu não faria uma coisa dessas com o Cidão... ainda que eu queira mesmo terminar com ele. Não estamos bem há anos. Hoje mesmo vou conversar com ele e romper tudo...

— Ah, tá — ela desdenha — Vai contar também sobre os beijos que trocou com o gostosão? Duvido. Você é uma sonsa dissimulada.

Sinto minhas sobrancelhas arquearem. Observo a fisionomia de Vanessa, sua raiva e inveja embutidas em um olhar malicioso, de quem não está nem aí para a tristeza de Cidão e que só está mesmo preocupada com o trunfo que tem em mãos. Mas no fundo mesmo, está furiosa. Vanessa, sem dúvidas, está revoltada por eu ter interrompido o que ela acha que seria a sua "grande chance", mas por outro lado está feliz por ter uma carta na manga contra mim. Isso está visível em seu rosto. Estreito meus olhos e chego mais perto dela.

— O que fiz pra você me odiar tanto? Por que sempre faz questão de me infernizar, de me provocar? Por que não me suporta?

— Ah, por quê? É sério que você ainda me pergunta? — solta uma risada sem humor — Bom, vamos lá. Passei parte da noite interessada num cara e você apareceu no meu caminho, como sempre faz. Acho que é você que não me suporta! E hoje tive a confirmação de que você não é essa santa que todo mundo acredita!

Estreito meus olhos e tudo o que sinto agora é pena. Lamento por ela ser tão vazia e pequena como é.

— Sabe o que se chama isso? Inveja. Não sei o porquê, mas no fundo você sente inveja de mim! Eu não tenho muito nem sou nada especial, mas você me odeia por quem sou — dou mais um passo até minha irmã, ficando mais perto dela — Você é vazia e pequena. E se não sabe, conheci aquele cara lá fora muito antes de você! Para o seu governo, tenho fugido dele desde o início da noite!

— Pois é, e estou me perguntando como conseguiu fisgar um homem como aquele. Ah, já sei. Está na cara que ele não só deu aqueles beijinhos em troc...

Antes que termine a frase dou-lhe um tapa bem dado no rosto e Vanessa geme, surpresa por eu ter batido em sua cara.

— Nunca mais fale assim comigo — rosno baixo, me controlando para não segurá-la pelos cabelos e bater ainda mais — Não tenho sangue de barata.

— No fundo sabe que tenho razão — sua mão ainda está no local onde dei o tapa —, que a minha vida inteira precisei concorrer com você para chamar atenção dos pais, que sempre recebi esmolas enquanto você era a princesa da família! A vida inteira você sempre foi a filha perfeita. Eu sempre fui a errada. Mas sabe de uma coisa? Aprendi hoje que você não é melhor que ninguém. Você é uma sonsa, mentirosa e vadia!

Acerto outro tapa no rosto da minha irmã e nem me reconheço mais. Tudo o que sinto é raiva, mágoa e revolta. Vanessa está novamente com a mão no rosto e eu estou me perguntando como ela tem coragem de ser essa pessoa ingrata. A minha vida toda fiz tudo por ela, para ajudá-la, sempre me sobrecarreguei para protegê-la. Sempre me esforcei e me matei de trabalhar para ela não ter que ficar com a pior parte de ajudar os nossos pais. Sempre tentei ser a amiga e compreensível irmã mais velha que faz tudo em prol da irmã caçula.

— Eu ajudo em casa, lavo, passo, ajudo a mãe e o pai. Eu pago pelas contas e dou um duro danado pra colocar comida aqui em casa. Não vou mais aceitar ofensas gratuitas, sua preguiçosa e ingrata!

Vanessa permanece com a mão no rosto e tudo o que sinto é a minha respiração acelerada. Ela grita de repente e vem para cima de mim. Agarra meu cabelo enquanto me xinga de coisas horríveis. Agarro o seu cabelo de volta e a jogo com força contra a cama. Subitamente a porta se abre e a mãe e o pai aparecem, assustados e gritando que paremos com a briga. O pai me puxa de cima de Vanessa que continua gritando e me xingando.

— Vocês pensam que têm a filha mais perfeita do mundo, não é? Vocês não sabem de nada! A queridinha aí estava aos beijos com outro homem lá fora! A verdade é que a filha perfeita de vocês não passa de uma vagabunda!

Voo para cima de minha irmã outra vez, mas o pai me segura com força, me impedindo. Vanessa ri com satisfação por ter acabado de me desmascarar na frente de nossos pais, então continua:

— Puta fingida!

A mãe grita com ela, mandando-a calar a boca. Eu me sinto humilhada e envergonhada. O pai finalmente me solta, chocado com o relato de Vanessa, então deixo o quarto sem falar nada com ninguém e, em seguida, saio de casa. Ajeito minha bolsa, sentindo a culpa me golpear, então sigo para o bar da Beth. O pagode já está bem mais fraco agora. Jonas e os amigos dele já foram embora. Cidão sorri ao me ver, mas antes que diga qualquer coisa, eu o puxo para um canto.

— O que foi, gata? Aconteceu alguma coisa? Você parece agitada.

— A gente precisa conversar.

Ele assente, percebendo que só pode ser realmente agora sério.

— Cidão — falo firmemente, olhando em seus olhos castanhos — vim aqui terminar tudo entre a gente. Eu não quero mais, já não suporto mais... — suspiro, me esforçando para ser sincera porque nós dois não merecemos mais viver nessa mentira — Eu andei pensando muito e decidi que não estou mais feliz e nem fazendo você feliz...

— Que negócio é esse? Do que tá falando? É claro que tá me fazendo feliz. Você sempre me fez feliz. Eu não posso viver sem você, Verônica. Sem você não sou nada... o que é isso agora?

— Cidão, escute, por favor — seguro em seus ombros e olho no fundo de seus olhos — Acabou. Não amo você — meus olhos marejam porque eu não queria estar falando uma coisa dessas na cara dele, mas não posso mais adiar essa conversa — Me desculpe... eu lamento tanto... acontece não quero mais continuar como estamos... não quero fingir algo que não sinto. Eu não mereço, você não merece. Nós não merecemos. Vamos parar por aqui.

Não diz nada, só me encara de um modo duro e perplexo. Sinto a dor em seus olhos e com todo o meu coração lamento por isso.

— Me desculpe, Cidão.

Ele está inconsolável. Seu semblante logo cai e Cidão não consegue esconder de ninguém o quanto está sofrido e o quanto o mundo está desabando a seu redor. Não quero mais vê-lo desse jeito pra baixo e também não quero que me convença a voltar atrás na decisão como sempre faz, então giro meu calcanhar e caminho apressadamente para a saída do bar.

— Verônicaaaa — eu o ouço me chamar, mas não paro. Preciso acabar com esse ciclo vicioso que virou nosso relacionamento.

Pego o meu celular com as mãos trêmulas enquanto alcanço a rua e disco para Érica, que me atende logo no primeiro toque. Conto a ela resumidamente tudo o que aconteceu nas últimas horas e pergunto se posso dormir esta noite em seu apartamento.

— É claro que pode! Nem precisa perguntar. Venha, que estarei te esperando — diz do outro lado.

Sorrio, me sentindo um pouco mais calma e aliviada agora.

— Obrigada, amore. Você é demais.

— Imagina. Você é a minha melhor amiga.

JONAS

 

— OLÁ, SENHOR — Augusto me cumprimenta assim que piso meus pés na cobertura.

— Olá, Augusto. O que ainda está fazendo aqui?

— A senhorita Julia o espera há cerca de uma hora — anuncia enquanto estou abandonando minha carteira e a chave do carro na mesinha de centro. Nesse momento avisto Julia sorridente dentro de um vestido vermelho e sexy.

— Oi, Jonassss — ela diz e confesso que estou surpreso. Me pergunto se superou o nosso último encontro. No episódio anterior ela saíra revoltada, alegando que eu a tinha mandado embora logo assim que a comi. Aparentemente sua revolta passou.

— Oi, Julia. Não esperava vê-la tão cedo — começo a desfivelar o relógio do meu pulso.

— Eu não sou uma mulher que guarda mágoa — sorri, maliciosa, aquele olhar de quem está louca para trepar.

— Hum. Você sabe que gosto de mulheres livres, independentes, que não dramatizam tudo.

— Bom, vou deixá-los sozinhos — Augusto pigarreia, nos lembrando que ainda está presente. Em seguida se despede, todo formal, antes de girar o calcanhar e fechar a porta às suas costas.

Afundo minhas mãos nos bolsos do jeans, pensando que tudo o que queria esta noite era ter Verônica em minha cama, especialmente com as pernas bem abertas para me receber. No entanto a empata foda da irmã dela atrapalhou tudo. Eu já estava com ela quase no papo quando a irmã vigarista apareceu. Não sou capaz de expressar o quanto me sinto frustrado e irritado. No entanto, agora, Julia poderá ser uma espécie de meu prêmio de consolação. Passar a madrugada entre suas pernas, metendo em seu corpo de porcelana, provando seus lábios naturalmente vermelhos não deixa de ser uma boa opção, ainda que não me seja nenhuma novidade. Já conheço esse corpo de cor e salteado, já o tive de todas as formas possíveis.

Levo meus pés para perto dela, então afundo minha mão no bolso, querendo garantir que possuo preservativos. Um homem como eu nunca passa uma noite sozinho, a não ser que queira. Um homem como eu sempre está prevenido. Estou diante de Julia. Seus olhos verdes brilham. Sua boca vermelha clama por um beijo. Seus seios quase saltam do decote do vestido. Levo meu braço até sua cintura e minha boca alcança a sua. Instantaneamente se agarra em mim e diz o quanto me ama. Não correspondo às suas declarações de amor, mas gosto de ouvir e sentir o que causo a ela. Logo estamos na cama, eu provando todo o seu corpo e me aliviando nela. Em minha opinião existem mulheres para casar, outras para serem usadas como troféu e algumas outras para apenas me dar prazer na cama. Julia está inclusa no terceiro caso.

Horas mais tarde, abro os olhos e sinto pernas e braços espalhados sobre mim. Julia. Passo a mão pelo meu rosto e vejo tudo escuro à minha volta no quarto. Eu me desvencilho dela cuidadosamente para não acordá-la. Visto minha cueca e saio do quarto. Pego o meu celular e disco para Ricardo, que sempre me socorre nos momentos em que preciso. Ele possui uma agência especializada em investigações e é o melhor no que faz. Toda vez que a Luxus precisa de ajuda para ferrar com alguém ou para se livrar de ameaças capazes de pôr tudo a perder é Ricardo que entra em ação e nunca perde uma guerra. E pago muito bem a ele por isso. Além do mais, em todos esses anos trabalhando juntos, sua agência com a Luxus, nossa relação se ampliou para uma boa amizade.

— Diga, Jonas — sua voz entra na linha. Não está sonolenta. Ricardo dificilmente dorme cedo porque está sempre trabalhando.

— Preciso que uma pessoa descubra que a casa onde mora não está quitada, como ela acredita. Preciso que ela pire com isso e seja capaz de fazer qualquer coisa para resolver esse problema.

Ele dá uma risadinha do outro lado do telefone e diz:

— Às suas ordens. Mande as informações em um relatório por e-mail, que vou dar uma olhada.

— Preciso que faça isso com urgência.

— Pode deixar comigo.

— Ótimo. Boa noite.

— Boa noite, Jonas.

Desligo o aparelho. Caminho para a janela da sala de estar, me sentindo o grande cretino filho da puta que sempre fui. Nunca antes desejei uma mulher e usei armas sujas para tê-la a meu bel prazer, nunca precisei fazer isso, até encontrar Verônica, a camareira suburbana que tem ferrado com a minha cabeça. Eu até poderia seduzi-la e tê-la. Já estava no caminho certo. Tê-la seria só uma questão de tempo. Sou capaz de fazê-la ficar aos meus pés, contudo não é isso o que tenho em mente. Não quero que se apaixone, não quero que me ame ou viva por mim. Tudo o que quero é que role na minha cama e que esteja disponível para atender aos meus caprichos. Não quero que seja minha amada ou mesmo minha namorada, só quero que seja minha amante, minha prostituta exclusiva, minha mulher na cama, e que entenda que quando tudo não for mais divertido e terminar, sairá da minha vida tão repentinamente como entrou.

Largo o celular. Caminho até o meu notebook e começo o relatório. Depois que dou todas as informações a respeito de Verônica e da família dela, envio tudo para o e-mail do meu contato. Sei que dentro de dias ou mesmo de horas terei tudo o que quero.