Como uma Joia
Capítulo 36
VERÔNICA
MEUS OLHOS SE ABREM. Pisco. Está escuro e imagino que seja por causa da cortina fechada. Olho em volta e a memória me vem à cabeça. Estou no quarto de Jonas. Estivemos juntos. Aliás, passamos a noite toda juntos. A nossa última noite.
Meus olhos procuram por algum sinal dele, mas não há nada, exceto o seu cheiro inconfundível impregnado em minha pele. Por um momento sou tomada por uma sensação de alívio, por outro, estou frustrada. Imaginava que dessa vez ele estaria comigo quando acordássemos.
Esfrego meus olhos e me sento na cama. Tento me concentrar em outra coisa, mas com o cheiro de Jonas em cada parte do meu corpo fica difícil fazer a minha mente trabalhar. Suspiro. A nossa noite, apesar de tensa no início, terminou quente e satisfatória para ambos. Ele havia sido mais delicado e carinhoso que das outras vezes. E eu me sinto um pouco perturbada agora porque precisava manter meu coração resguardado e falhei desastrosamente nessa missão. A verdade é que me sinto bem ao lado Jonas. Com ele, sinto uma realização que nunca senti antes. Quando me toca ou me beija, não quero outra coisa além disso.
Desço da cama e sigo para o banho. Enquanto estou embaixo da água morna, me ensaboando, tento pensar nos prós e contras de amá-lo. Mais nos contras que nos prós. Primeiro: Jonas tem a realidade completamente oposta à minha. É rico, de boa família e é um cara de grande influência nos negócios.
Pra que me envolver então?
Depois de ontem à noite certamente nunca mais nos veremos. Ele provavelmente esquecerá o meu nome daqui a alguns dias. E logo conhecerá outras garotas. E seria burrice da minha parte me envolver com um homem como ele. De fato, Jonas é lindo e tem uma pegada deliciosa, mas também é frio e promíscuo. O que Suzana falou para mim semanas atrás é verdade e eu sempre soube disso. Ele sabe ser cruel no que diz respeito a relacionamentos. Não tem coração.
Me lembro muito bem do dia em que a ex-namorada dele nos flagrou no hotel. Pude ver o sofrimento dela, o modo como sofria, como seu coração parecia ter sido partido ao meio.
Ah, chega de pensar nessas coisas, Verônica.
Depois de sair do quarto e tomar o café da manhã sozinha na sala de jantar, pergunto à Zuleica onde ele está.
— No jardim, querida. Acho que está limpando a piscina. Acordou bem cedo hoje e foi correr. Depois tomou um banho, o café, e está no jardim até agora. Acho que está um pouco chateado com alguma coisa. Não falou quase nada.
Eu me abraço instantaneamente e aliso meus braços, me perguntando o porquê de ele possivelmente estar chateado. Acho que não falei nada errado ou fiz nada que pudesse deixá-lo assim. Bom, provavelmente é alguma coisa relacionada a negócios.
Zuleica murmura que precisa ir ver o almoço e eu caminho até a sala de estar. Chego perto da porta de vidro que dá para o jardim, pensando se devo ir agora atrás dele. Acho que sim.
Já do lado de fora, eu caminho e o encontro próximo à piscina, como Zuleica falara minutos atrás. Jonas não me vê. Está de costas, agachado, mexendo na água. Veste apenas um moletom preto. Nada de camiseta. Olho em nossa volta. A manhã está ensolarada e agradável. O céu de um azul muito claro contrasta com o verdejante jardim da mansão.
— Bom dia — digo, finalmente, tentando puxar assunto.
Jonas se vira rapidamente para me encarar, só agora notando a minha presença.
— Bom-dia — responde, sério, mantendo toda a sua concentração na tarefa que está fazendo.
Ajeito uma mecha do cabelo que cai no meu rosto enquanto penso no que falar a ele. Então tudo o que consigo dizer é:
— Você tem uma bela casa. É bom estar aqui.
Não responde, mas assente com a cabeça. Parece compenetrado na piscina. Imagino que esteja utilizando algum purificador ou algo do tipo.
Como continua em silêncio, volto a observar o lugar. O jardim é bem cuidado, os canteiros perfeitos, tudo feito com muito bom gosto e certamente resultado do trabalho de um ótimo paisagista. Volto a olhar para a direção dele e para o que está fazendo. Permanece agachado perto da piscina e de costas para mim. Não sei o que falar e também não gosto de ficar parada aqui feito uma idiota. Pigarreio.
— Obrigada pelo jantar de ontem. Foi maravilhoso.
Continua de costas, mas pelo menos responde:
— Não foi nada... desculpe não poder te dar atenção agora. E quanto à casa, pode conhecer o resto, se quiser.
Uso novamente os braços para abraçar a mim mesma. Não é frio. A manhã está quente e ensolarada. Devo essa sensação estranha ao fato de estar nervosa.
— Adoraria... mas infelizmente não posso... preciso ir.
Jonas vira o rosto imediatamente, me encarando. Está sério. Acho que não gostou de ouvir o que acabei de dizer, que preciso ir. Será que sentiu como se eu tivesse acabado de lhe dar um soco no peito? Ou talvez me achou indiferente? Bom, até acho que há lógica para se ofender com a minha pressa de querer ir embora e ficar longe dele. Tenho certeza de que muitas mulheres dariam tudo para estarem aqui no meu lugar, com ele. Eu até gostaria também de permanecer, mas não quero me machucar.
— Por que tanta pressa? — indaga, finalmente se levantando e me encarando. — O dia mal começou. Não precisa ir assim tão depressa.
— Bom... é que só quero ir pra casa. Você sabe, tenho uma família me esperando.
— E um namorado também — conclui, então parece arrependido em seguida por ter falado isso sem pensar.
Não respondo. Eu já não estou com Cidão há um tempo, mas a ponta de ciúmes que senti na frase de Jonas me deixa satisfeita. Pode ser loucura, mas gosto de saber que sente algo por mim.
— Certo — diz, um pouco impaciente. — Vou pedir ao motorista que a leve.
— Na verdade, não precisa. Posso ir sozinha. Vou ficar bem.
Jonas para bem mais perto de mim e me avalia. Acho que a forma como sempre recuso suas ofertas o deixa confuso e ofendido. Leva as mãos aos bolsos da calça. É atlético, forte, gostoso. Tento não focar seu peito amplo e largo. É inacreditável como mesmo vestindo apenas um moletom, consiga ser irresistível.
— Bom, se não quer o motorista, eu mesmo posso levá-la então.
— Prefiro ir sozinha.
Permanece me encarando, me analisando e provavelmente estudando as razões para eu agir assim.
— Por que insiste tanto em me evitar?
Passo a língua úmida pelos lábios secos, nervosa.
— Desculpe. Não quero menosprezar você.
— Não é o que parece.
— Eu não sei... talvez... talvez seja só mesmo o meu jeito... prefiro me virar sozinha. Sempre fui assim.
Ele não está convencido e nem mais interessado no que falo, mas não diz mais nada. Mas sei que está irritado.
— Certo, vamos ao que interessa. Venha, vou preparar o seu cheque.
Engulo em seco. Não gosto da forma que usou para falar, como se eu fosse, de fato, uma prostituta à espera do pagamento, todavia, eu o sigo de volta à mansão, sem questioná-lo.
Quando chegamos à sala de estar, Jonas vai até o rack e pega um talão de cheque. Não leva muito tempo para fazer todo o procedimento.
— Aqui está. Todo seu. — Estica a mão para me entregar o pedaço de papel.
Novamente uma sensação horrível me toma. É estranho. Como se eu estivesse aqui pegando o meu pagamento por várias noites de sexo. Mas o problema é que foi exatamente isso que aconteceu e agora não sei lidar com a realidade. Sinto-me uma pessoa inferior, sem honra. Tenho vontade de amassar tudo e jogar na lata do lixo. Mas não posso — minha família depende de mim.
O movimento de Jonas pegando uma garrafa de bebida no bar me chama a atenção. Vejo-o jorrar uma dose no copo e, então, beber logo em seguida.
— Acho que estou viciado em você... — murmura de repente, colocando o copo de volta à mesa.
Me encara.
Não há resposta. Apenas o encaro de volta. O que eu poderia dizer? Jonas volta para perto de mim com passos lentos, até chegar bem mais perto de modo que nossas respirações se misturam. Suas mãos grandes de repente vão até à minha cintura e me puxam para mais perto de seu corpo forte e duro.
— Quero que fique comigo mais um pouco... — mergulha o rosto no vão entre meu pescoço e ombro, me causando arrepios, sua barba pinicando minha pele — Por favor, diga que sim... — o homem praticamente implora. — Ouviu? Ainda quero você...
— Eu não posso... — meus olhos estão fechados, estou amando essa sensação de seus lábios em minha pele, sua barba me tocando, seu cheiro me inundando, suas mãos grandes me segurando, seu corpo duro contra o meu, mas preciso dizer não. Diga não, Verônica! Não! Ele tem que aprender a ouvir não! Precisa entender que dinheiro não é tudo! — É que não sou uma espécie de objeto que você vem, pega e usa quando quer.
— Eu posso lhe dar o que quiser... joias, roupas caras, viagens... mais cem mil... — sussurra, a voz aveludada, rouca, quente, seus lábios ainda chupando minha pele — O que me diz? Mais cem mil por uma semana...
— Não, Jonas... não posso... — meu corpo diz que sim, mas eu preciso gritar que não — Eu não posso... não estou à venda...
Insiste, agora segurando minha nuca e beijando os meus lábios.
— Por favor, pare... — empurro seu peito gentilmente.
— Duzentos mil então... o dobro... o que me diz...?
Eu não sei o que acontece, mas lhe dou um tapa na cara. Vejo o seu rosto virar e se manter parado. Estou tremendo agora. Nem sei como fiz isso. Levo a minha mão à boca, chocada com o que acabei de fazer. Eu bati nele! O que deu em mim pra bater nele? Bom, ele não devia ter falado aquelas coisas...
Jonas leva a mão ao rosto e alisa o local onde bati. Não me diz nada. Nem eu digo nada. Fico parada, esperando sua nova reação.
— Certo, vou levá-la pra casa — é tudo o que diz.
***
Ambos ficamos em silêncio durante todo o percurso. Gosto quando Jonas liga o som e então uma música eletrônica começa a tocar porque assim o vazio com a falta de conversa não se torna tão desconfortável. Penso no que aconteceu meia hora atrás em sua casa. Não vou pedir desculpas pelo tapa que dei porque ele não me pediu desculpas pelas coisas que falou.
Quando a Mercedes-Benz estaciona perto do meio-fio, em frente ao portão velho da minha casa, minhas mãos soltam o cinto de segurança da minha cintura e meus olhos encaram os azuis dele.
— Obrigada pela carona — digo, sendo sincera.
Por mais que eu tenha recusado inúmeras vezes, no fundo, gosto dessa coisa que tem de sempre querer me proteger.
— De nada — responde friamente e desvia o olhar.
Sei que ainda está chateado por eu ter recusado continuar sendo sua garota prostituta.
Bom, mas essa é a minha decisão. Se quiser algo realmente sério, que me diga e me trate como uma mulher de verdade, não como uma profissional. No entanto a despedida é sempre difícil e muitas vezes somos capazes de fazer coisas patéticas sem pensar. É o que faço agora, na pura emoção do momento. Fico avaliando sua fisionomia bonita, me perguntando porque ele tinha que ter aparecido na minha vida para bagunçar tudo. Detesto a ideia de que estou apaixonada e de que nunca mais vou vê-lo.
Sem pensar duas vezes, me inclino até o seu banco e toco carinhosamente seu rosto. Jonas me encara, surpreso com a minha mudança de comportamento. Acarinho sua barba rala, seguro seu rosto com as minhas mãos, encosto meus lábios nos seus e tudo o que sinto em seguida são nossos lábios se tocando e nossas línguas se enrolando. Sinto sua mão firme segurar minha cintura enquanto mergulho cada vez mais na paixão do momento.
— Vamos ficar mais um tempo... — geme em minha boca antes de intensificar ainda mais o beijo.
— Eu não posso.
Afasto meus lábios dos seus, meu corpo de seus braços e empurro a porta do carro para fugir disso tudo e, principalmente, da minha fraqueza. Paro na calçada e vejo o momento em que põe o carro em movimento e sai do meu campo de visão e, provavelmente, para sempre da minha vida.