Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 1 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 1

 

JONAS

 

A CONSTRUÇÃO é inovadora e impecável. O piso branco brilhante, as pilastras da mesma cor e estilo monumental, paredes lisas, sofás e cadeiras decoradas, luminárias que deixam o ambiente com um aspecto mais familiar e aconchegante. Já é tarde da noite quando chego ao Gallante Hotel, localizado na zona sul da cidade, e dirijo-me à recepção. Meu assessor Augusto, que costuma me acompanhar na maioria das viagens, está orientando o mensageiro no que diz respeito às malas.

— Boa noite — falo ao rapaz magro atrás do balcão, enquanto procuro meu celular em um dos bolsos do paletó — Fiz uma reserva.

— Boa noite, senhor Malta — responde, um pouco cauteloso. Já sabe que não sou do tipo que perde tempo com papo furado. Dizem que sou altivo por natureza, e possuo uma excelente aparência, olhar intimidador, gestos bem definidos, e obviamente, muito dinheiro no bolso. Já ouvi dizer que sou arrogante e vaidoso, de acordo com a opinião masculina, e um homem extremamente bonito e sexy, que sabe fazer barbaridades na cama, segundo a opinião das mulheres. E isso é verdade. Ao longo dos meus trinta anos, tenho muita história para contar. O sujeito da recepção se apodera da chave, e então me entrega.

— Tenha uma boa-noite, senhor Malta.

— Obrigado — murmuro, já dando-lhe as costas.

— A gente se encontra no jantar, Jonas? — indaga uma voz, de repente, às minhas costas. É de Moreira, um sujeito baixinho, calvo e barrigudo. Nem me dou ao trabalho de fitá-lo.

— Não sei, Moreira, estou cansado — dirijo-me ao elevador — Acabei de vir de um voo insuportável, estou com o corpo esgotado e a cabeça formigando. Você pode imaginar.

Moreira é um dos diretores da Luxus e um homem que costuma ser um tanto inconveniente e bajulador. Chegou à empresa anos mais tarde que eu e meu irmão, mas nunca o considerei um amigo como o próprio Moreira gosta de dar a entender. Temos apenas o trabalho na Luxus como algo em comum, embora existam outras coisas que nos ligue, como por exemplo, a ambição. Todavia, Moreira vai além disso. Não é apenas ambicioso, mas também ganancioso, além de instável e meticuloso.

— Os empresários vão estar aqui — comenta, seguindo-me pelo elevador — Não acha uma boa ideia termos uma conversa sobre negócios?

— Prefiro dormir — retruco, categórico, antes que o ascensorista feche a porta do elevador.

— Os chineses gostaram da ideia — insiste, enquanto consulto o celular e ignoro grande parte das ligações perdidas e mensagens não lidas — Os caras têm dinheiro a balde e estão impressionados com o projeto. Por que não fechar uma parceria?

Não respondo. Apenas olho para o visor do aparelho e constato que são onze horas da noite. Suspirando, penso que o que desejo ter neste momento é uma cama quente, limpa e aconchegante.

— Conversei com Ralph e ele me assegurou que os caras são confiáveis — prossegue o mala sem alça do Moreira, me irritando — Ele mesmo já fechou negócio com eles uma vez no passado. Por que não aproveitamos essa grande oportunidade?

Eu o encaro e vejo seus olhos pretos brilhando.

— Pensa na dinheirama que vamos ganhar à custa deles!

O alarme no painel apita avisando que acabamos de chegar à cobertura e então a porta se abre. Saio primeiro. Moreira vem logo atrás.

— O que me diz?

— Hoje não, Moreira. Já falei, estou cansado pra caralho e se tivesse que ir a um jantar de negócios, provavelmente nem conseguiria raciocinar direito. Para ser franco, nem mesmo se eles aparecessem com uma loira pelada, eu iria.

Moreira dá uma risada, dizendo poder imaginar a cena. Sabe muito bem que sou um mulherengo incorrigível, e que se estou falando que seria capaz de ignorar até mesmo uma mulher pelada, é porque realmente estou ferrado de cansado.

— Essa foi boa, Jonas. Muito boa! Certo, amanhã então a gente conversa melhor. Boa noite, amigo. Ah! E sonhe com a loira!

Não sorrio com a piada. Não há graça nela. Aliás, nem mesmo me despeço. Ponho a chave-cartão na entrada da porta e a abro. Dou graças a Deus por finalmente me ver livre do bosta do Moreira. Bem sei que não posso confiar de olhos fechados no miserável. Aliás, nele nem ninguém. Trabalhar em grandes corporações é mesmo essa merda. Ninguém é seu amigo de ninguém e esperteza é fundamental. Mais que gentileza. Caso pisque a porra dos olhos por alguns segundos, pode sofrer uma rasteira quando novamente os abre. No fundo, o que todos querem é status, poder e dinheiro. E eu, como o CEO da Luxus, principalmente. Dirijo-me à suíte principal. Tiro o paletó e a camisa e, em seguida, os sapatos e a calça. Entrarei debaixo do chuveiro e logo depois me jogarei na cama.

VERÔNICA

A gente tem um bom emprego, meninas. Então vamos agradecer a Deus e dar o nosso melhor em mais um dia.

Ajeito o cabelo enquanto ouço Leila, a supervisora, falar. Desde que cheguei aqui há duas semanas ela sempre fala a mesma coisa em toda manhã. Suspiro. Sou uma das novas camareiras do famosíssimo Gallante Hotel. Sim, Leila, sei que devo a Deus e, também a Érica o emprego.

Bom, Érica é a minha melhor amiga. Nos conhecemos no segundo grau. Após o término dos estudos, cada uma seguiu para um lado, mas a amizade prevaleceu. Enquanto Érica tinha arranjado o emprego no Gallante, eu tinha ido trabalhar com telefonia, todavia, não costumava ter muita sorte nos empregos que arrumava. Era só passar alguns meses e, então, era dispensada. Sempre a mesma agonia. No início até achei que o problema fosse comigo, no entanto, percebi que sempre tentei dar o melhor de mim e ser uma funcionária exemplar. O fato é que me faltava algum ingrediente, e isso era "sorte". A gota d'água foi ficar desempregada pela última vez, então resolvi aceitar a recomendação de Érica, que trabalhava como camareira no hotel. Apesar da minha pouca experiência, está sendo interessante mudar um pouco de área, e quem sabe dessa vez o emprego não engrena?

— Hoje Ângela e Regina vão ficar nos andares 5, 6 e 7; Celina e Cláudia nos 11, 12 e 13... — Leila avisa.

— Essa semana a casa parece cheia — confidencio no ouvido de Érica.

— Fim de semana se aproximando, meu bem — comenta, mascando chiclete — mas vai se acostumando com isso, pois independente de fim de semana o hotel é sempre cheio.

— Érica e Verônica — Leila diz — andares 18, 19 e... cobertura!

— Hora da ralação — resmunga Érica antes de seguirmos para um dos elevadores de serviço, que fica na ala oeste do hotel.

Começo a refletir que, apesar dos dessabores, trabalhar em um grande lugar como o Gallante é uma ótima oportunidade. Está certo, não recebo o melhor salário do mundo, mas pelo menos vai dar pra ajudar com as contas de casa. Além disso, as generosas gorjetas que ganho com frequência de alguns hóspedes fazem tudo valer ainda mais a pena. Muitos deles são executivos de grande porte, homens com muito dinheiro e status. Entramos no elevador e Érica aperta o botão no painel.

— Viu ontem o último capítulo da novela? — quer saber.

— Não — ajeito o meu uniforme — Você sabe que não assisto a novelas. Prefiro filmes.

Sou uma garota de vinte e quatro anos que ainda mora com os pais e a irmã mais nova. Vivemos no Irajá - pois é, um bairro no subúrbio carioca. A casa onde moramos é pequena. Há apenas uma cozinha, sala, banheiro e dois quartos. Divido um com Vanessa, minha irmã caçula. Meu pai, um porteiro aposentado, passou toda a juventude se matando de trabalhar para sustentar as filhas e a esposa, uma humilde dona de casa.

— Chegamos — comenta Érica, quando alcançamos o 17º andar.

Andamos pelo hall até nos dirigirmos ao primeiro quarto. Essa é a melhor parte do trabalho. Ficamos deslumbradas com todo o luxo e requinte que o Gallante proporciona aos clientes e nos divertimos comparando suíte com suíte. E dessa forma o tempo parece passar mais rápido e quando nos damos conta, já é fim do expediente.

— Veja isso! — observo a mobília da primeira suíte — Chiquérrimo!

Érica passa a mão pelo aparador. Ela é loira, baixa, um pouco cheinha, como ela mesma costuma dizer, e muito espontânea.

— Como esse povo nada em dinheiro! Sabe, fico impressionada. Será que a gente consegue mudar de vida algum dia?

Sorrio com desânimo.

— Não sei. Mas acho que com esforço e trabalho duro, tudo é possível.

— Ah, tá! No dia de São Nunca!

Solto uma risada desta vez. Érica continua:

— Mas pense bem, Verônica. Você não acha muita injustiça esse povo ter tanto dinheiro enquanto a gente rala pra caramba pra não ter nada?

Dou de ombros.

— Ah, sei lá. Não almejo riqueza — caminho até à louça de porcelana que está sobre a mesa de madeira ali no canto da sala — Ainda que concorde que dinheiro é sempre muito bem-vindo, quando de origem lícita. Mas juro, viveria feliz toda minha vida se apenas tivesse uma casa melhor para morar e condições de dar um pouco mais de conforto aos meus pais.

Minha amiga suspira profundamente enquanto explora os outros móveis da suíte.

— Mas como eu gostaria de encontrar um homem rico que me tirasse daquele buraco de onde vivo!

— Hum, melhor trabalhar, que contos de fadas não existem.

***

As horas se passam e após arrumarmos as camas dos quartos do 18º andar, subimos até a cobertura.

— Uau...

— Olha isso...

— Seja lá de quem for, é de alguém que tem muita grana — comento.

— Fala sério. Quem precisa de tanto luxo assim?

— Homens vaidosos e amantes de si mesmos, meu bem. Enquanto tem gente passando fome no mundo. É inacreditável.

— Veja isso — Érica comenta, sentando-se sobre o sofá vinho revestido de camurça sintética.

— Pelo menos, ele tem bom gosto. Essa sala é o sonho da minha mãe — corro para tocar as lindas cortinas blackout.

— Faz tempo que não venho aqui. Que tal dar uma olhada na vista?! — grita Érica, excitada, correndo até a varanda.

Talvez mais excitada que Érica, vou ao seu encontro e examino o belíssimo dia que faz lá fora.

— Uau. Lindo.

— Perfeito, não?

O céu está puro azul, sem nenhuma nuvem ou qualquer outra coisa. O sol brilha e observo alguns hóspedes lá embaixo tomando banho nas lindas e azuis piscinas. Perdemos alguns segundos admirando a vista perfeita desse dia alegre e ensolarado. Está tão quente que nenhuma brisa leve toca o meu rosto ou tira os meus fios de cabelo do lugar.

— E as suítes? — lembra Érica, de repente — Vamos! — dirige-se até o amplo hall, que dá para o que parece ser a suíte principal. Eu a sigo. Érica empurra a porta devagar, até que entramos.

— Já sou fã desse quarto — Érica anuncia.

Aproximo-me da cama, ponho a mão no lençol vermelho. Pura seda.

— Quem é o milionário? — pergunto.

— Ouvi dizer que é o executivo da Luxus, aquela rede de joalheria caríssima. Jonas é o seu nome. Acho que já vi o cara estampado em várias revistas. É um sujeito lindo.

— E, com certeza, possui muitas mulheres à volta — concluo.

— E você tem dúvidas?

— Bom, acho que ele não vai se importar se a gente deitar um pouquinho na cama dele, não é? — brinco, subindo no colchão.

Érica me observa, divertida.

— Maluca. O que vai fazer?

— Nada de mais. Apenas aproveitar um pouquinho desse conforto que esse quarto maravilhoso pode proporcionar... bom, e se a gente pular um pouquinho nesta linda cama forrada por pura seda? Não acha que ele vai se importar, certo?

— Desça já daí, sua louca! — gargalha, levando as mãos à boca.

— Ah, o que foi, Érica? Só estou me divertindo um pouco... venha e veja como é macia! Qual o problema de subir aqui? Acho que a cama não vai despencar com os meus 55kg!

— Ah, é? Quero ver você fazer uma dança sensual aí em cima então, espertinha!

— Uma dança sensual? Oh, aqui em cima? Ora, já que você insiste...

Puxo o lençol de seda do colchão e cubro-me com ele, deixando uma das pernas à mostra, como uma dançarina sensual.

— Que dança você quer que eu faça?

— Que tal a dança do ventre?

— Assim? — começo a remexer meu quadril.