Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 8 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 8

 

 

JONAS

 

— VOCÊS PRECISAM de ajuda? — chego perto das duas camareiras, fazendo algo que nunca pensei em fazer, só porque estou a fim da morena e preciso causar uma boa impressão nela.

— Ah, obrigada, senh... — a gordinha fala, mas é logo interrompida pela amiga.

— Não, está tudo bem — a morena diz, me encarando e me mostrando o quanto é decidida.

— Imagina. Eu faço questão — pego a tábua pesada de suas mãos delicadas enquanto minha mente foge do meu controle e já está no que essas mãos pequenas e macias podem fazer em meu corpo.

— Obrigada — ela agradece, parecendo meio encabulada. Tenho certeza de que nesse grande hotel nenhum homem costuma ser gentil com ela por conta de sua situação como camareira.

— Onde coloco isso? — pergunto.

— Ah, ali naquela mesa — me indica.

Não faço ideia do que seja, mas tenho certeza de que é algo para decorar a festa que darei esta noite. Faço como diz e coloco a tábua pesada na mesa. Fico pensando em como o hotel não se importa com a saúde de suas funcionárias. Elas não deveriam estar fazendo um trabalho pesado como este. Elas são camareiras, afinal, não carregadoras.

— Tem mais? — pergunto a morena, enquanto limpo minha mão na outra.

Vou até o corredor onde há várias tábuas como as que acabei de carregar. As funcionárias finalmente relaxam e se concentram em outros serviços por ali perto. Há muita coisa para se fazer. Outros funcionários carregam o equipamento de som, outros cuidam da decoração no teto e das paredes. Outros cuidam dos utensílios. O que vejo é que ninguém fica sem fazer nada.

Quando finalmente termino de carregar as tábuas pesadas, as camareiras seguem para os outros cômodas da cobertura para cuidar da limpeza. Nesse momento Moreira aparece sorrindo e perguntando o que estou fazendo.

— Você está trabalhando? — seus olhos castanhos se arregalam em minha direção.

Estou de camiseta e jeans, então imagino que eu esteja parecendo mesmo um carregador de móveis ou coisa do tipo. O mala do Moreira começa a beliscar alguns aperitivos da festa enquanto permaneço concentrado em carregar as tábuas.

— A festa ainda não começou, Moreira — digo a ele.

— É, eu sei, eu sei — ri sem graça e afasta a mão das comidas — Eu estava querendo saber se precisa de alguma coisa...

— Que tal me ajudar com essas tábuas?

— Por que está carregando isso? Não é serviço pra você. Eles têm funcionários pra isso!

— Eram duas funcionárias que estavam fazendo esse serviço sozinhas. Eu posso ajudar.

Levanta a sobrancelha e sei o porquê. Eu realmente não sou do tipo que sai sendo generoso com as pessoas em meu redor, a não ser quando há segundas intenções envolvidas, como é o caso.

— O que você anda planejando, Jonas?

— Não me olhe com essa cara de idiota. Rápido, venha me ajudar.

— Está bem.

Ele vem, pega uma tábua, mas a derruba na mesma hora no próprio pé. Enquanto o sapo gordo está gemendo de dor, estou rindo da cena. Sem dúvida, isso já me fez ganhar o dia.

— Está rindo? Caramba, eu poderia ter quebrado o dedão do pé, Jonas!

— Levante-se e aja como um homem. Se as camareiras conseguiram fazer isso, você também consegue.

— Aquela morena gostosa? Cara — chega perto de mim e confidencia: — Estou louco pra pegar ela. De hoje não passa...

— Do que está falando? — eu o interrompo, o fitando atentamente.

— Ora, aquela camareira que esteve na sua cobertura.

Dou passos à frente e paro perto dele, meu rosto quase colado ao seu.

— Nem pense nisso. Antes mesmo de assediá-la, acabo com a sua festa.

Ele me encara, atônito, provavelmente absorvendo minhas palavras ameaçadoras. Mando ele ir embora e volto para as tábuas.

VERÔNICA

 

— UAU, ELE É TÃO GENTIL... — Érica confidencia comigo enquanto seguimos pelos cômodos da cobertura — Bem que você comentou que ele foi agradável no elevador.

— Sim, mas infelizmente há poucos desses por aqui.

— E sobre o careca engravatado? Aquele todo elegante que nunca tira o paletó mesmo quando o dia está quente?

— Eu nem quero pensar nesse homem, Érica. Nem nele e no outro — me lembro do baixinho, barrigudo e gordo que me intimidou mais cedo, que possui mesmo na testa a frase "não presto". Só de pensar nesse homem sinto náuseas. Então me lembro também do careca que tem me perseguido recentemente. Ele passou dos limites quando veio com aquele papo de acompanhante de luxo! Quem pensa que é? Será que nunca ouviu falar em assédio sexual antes? Suspiro com raiva, me sentindo uma tola por ter sido tão passiva. Devia ter xingado e denunciado!

— Verônica? — Érica me chama, me tirando dos devaneios — Tudo bem?

— Oh, sim...

— Esse cara, o ricaço da cobertura quero dizer, é realmente maravilhoso. Estou quase pedindo uma selfie com ele. O que você acha? Será que vai recusar? Acho que não, né? Será que tem Face? Adoraria poder marcar, mas ele não faz o tipo de quem tem Facebook. Provavelmente Instagram.

Depois que a gente termina a limpeza e troca os jogos de cama e de banho, Érica e eu deixamos o quarto. Cada centímetro da cobertura está com funcionários trabalhando por causa da festa. Meus olhos miram todos os lados, mas não encontro mais o bonitão da Luxus. Isso me deixa um pouco desanimada.

***

— Por que você ainda não chegou em casa?

— Estou trabalhando, Cidão, já falei.

— Até essa hora? Você é uma escrava do hotel agora?

— Vou ficar além do meu expediente. Esta noite está tendo uma festa, então é uma grande oportunidade para ganhar um extra.

— Hoje Os Malandros vão tocar no Bar da Dona Beth. Eu pensei que você iria comigo.

— Eu não posso, Cidão. Mas tenho certeza de que o show será um sucesso.

— Você anda se encontrando com outro? É isso? Anda me colocando chifre? Porque se for isso, você sabe, vou surtar. Eu mato quem for, eu fico louco...

— Pare de falar bobagem. Está vendo como não dá pra conversar com você? Você é muito ignorante e idiota! Só fala e só pensa bobagens! Eu tenho que desligar e voltar ao trabalho. Bom show!

Bato o telefone na cara dele e juro a mim mesma que vou romper com Cidão assim que estiver outra vez com ele. Não dá mais. É impossível permanecer com alguém totalmente diferente de mim. O meu celular começa a tocar, mas sei que é ele, então ignoro. Logo a voz de Vanessa vem em minha cabeça. "Ele é um atraso de vida. Enquanto estiver com ele, perderá a chance de conhecer outros caras interessantes". Sinceramente nunca gostei do modo como minha irmã costuma se desfazer das pessoas -especialmente o Cidão, mas é fato que ela tem razão. Cidão não é alguém que soma em minha vida. Pelo contrário. Ele tenta me atrapalhar no trabalho, não me compreende, não sonha os meus sonhos e também não sonho os dele. A gente com certeza ficará melhor separado.

O meu celular finalmente para de tocar e respiro aliviada. É bom que o show seja longo e ele esqueça de mim pelo resto da noite. Pego o elevador de serviço e confiro a hora no visor do meu celular. Já são onze e quinze. A festa está rolando na cobertura. Não tive como não notar a quantidade de carrões estacionados no estacionamento e a quantidade de pessoas bonitas e elegantes. Só gente rica. No andar da cobertura só existe ela, então o som de música alta não incomoda nenhum vizinho. Empurro a porta, entrando na sala e o som fica ainda mais alto enquanto vejo corpos dançando, casais se beijando e luzes coloridas girando no teto, dando aquele aspecto bonito. Sigo pelos corredores. Entro na cozinha Encontro Érica flertando com um dos garçons e eles nem se importam que estou logo ali atrás. Sorrio.

Érica sempre comenta que não dá sorte nos relacionamentos que arruma. Espero que dessa vez a coisa flua. Saio da cozinha, já que está tudo bem e sigo para o quarto. Não há ninguém. Nem mesmo o bonitão, o anfitrião da festa. Não o vejo há horas, desde que nos ajudou com as tábuas. Eu não deveria de qualquer forma estar pensando nele. Começo a arrumar as poucas coisas que estão fora do lugar e nem sinto alguém abrir a porta e se aproximar de mim. De repente um hálito de bebida fala em meu pescoço.

— Eu sabia que iria encontrá-la aqui, sua gostosa — a voz fala, me assustando e me fazendo virar para trás. É o baixinho barrigudo, nojento, que está outra vez em minha frente. Ele tem os olhos escuros brilhantes e um sorriso malicioso por trás do bigode de Hitler.

— Estou terminando o serviço. Me deixe em paz — grito a ele, me virando e tentando me soltar de seus braços, mas ele me segura com força e diz:

— Não antes de me dar uma boa chupada.

— O quê?!

Tento socá-lo, mas é em vão. Me agarra, eu grito, mas o som da festa abafa qualquer barulho que venha dali. Ele ri, comentando que parece que estou em desvantagem, e que ninguém irá aparecer.

— Além do mais — diz, me apalpando com a mão livre — Se você disser não pra mim, será sua última noite de trabalho. Vou denunciar ao gerente o que você andou fazendo na cama de um dos hóspedes. Nessa mesma cama aqui.

— Vá pro inferno, desgraçado! — cuspo na cara nojenta dele, de tanto nervoso e nojo que sinto.

Ele solta um dos meus braços, surpreso com a minha atitude. Limpa o rosto, então me dá um tapa na cara.

Caio na cama, abalada com o tapa, então ele volta a me agarrar, deitando-se sobre mim, forçando seu peso contra o meu, suas mãos segurando o meu rosto, sua voz dizendo que precisa de um beijo.

— Não! — grito, mas minha voz parece só ser ouvida por eu mesma.

De repente desiste e sai de cima de mim. Não... espere. Há alguém conosco no quarto agora. Esse alguém o puxa de cima de mim. Eu me ajeito na cama, ainda abalada e trêmula. Vejo o anfitrião da festa socar o amigo e derrubá-lo no chão. O baixinho tenta se explicar, mas o dono da Luxus o puxa com força e o joga para fora do quarto.

Ele se volta para mim.

— Você está bem?

Ainda estou trêmula.

— Estou... eu acho... — murmuro.

Não paro de tremer, meu coração ainda está acelerado. Estou nervosa, mas ao mesmo tempo aliviada por ele ter aparecido. Eu me levanto da cama e me jogo meus braços em volta de seu pescoço e choro enquanto murmuro obrigada.

— Está tudo bem — sussurra, a voz rouca, beijando a lateral da minha cabeça, depois seus lábios vão tocando minha bochecha, depois meu queixo e por último meus lábios. Miro seus lábios por alguns segundos, nossas respirações misturadas e nossos corações acelerados são as únicas coisas capazes de serem ouvidas. Seu perfume gostoso mexe com a minha cabeça. Ele inclina o rosto para a frente outra vez, pronto para me beijar, seus lábios mornos tocam os meus, fecho meus olhos, sua mão desce por meu bumbum, sua língua entra na minha boca, meu corpo vai relaxando aos poucos, minhas mãos tocam delicadamente seu peito duro e forte, mas então alguém bate na porta e coloca a cabeça dentro do quarto, chamando por ele.

— Jonas, você está aí?

Ele se afasta lentamente. Diz para a pessoa que já vai, então o sujeito sai, fechando novamente a porta. Jonas me encara.

— Sinto muito.

Estou sem palavras. Ele me beijou e me apalpou e não achei ruim. O que aconteceu? Por que não senti nojo ou raiva? Por que quase cedi?

— Você realmente está bem? — insiste, me encarando, parecendo preocupado.

— Sim...

— Quero que saiba que se precisar de mim pra testemunhar o que aconteceu aqui, é só me procurar.

Ele gira o corpo e sai do quarto, me deixando sozinha lá.