Como uma Joia
Capítulo 38
JONAS
SAIO DO BANHO, a toalha enrolada em minha cintura, e me encaro no espelho. Vejo meu semblante bonito e impecável refletido nele. Por um momento paro para pensar no cara que sou, no cara em que os anos me transformaram. Observo esse sujeito frio, arrogante e orgulhoso. Sim, sou eu. Dizem que não tenho um coração. Mas que se foda! Estou feliz pra caralho, e na verdade, nem um pouco preocupado com o que acham ou deixam de achar de mim. Se as pessoas me odeiam ou me veneram, isso não me importa também. O que importa é que sou poderoso e bem-sucedido no que faço. Tenho apenas trinta anos e praticamente mando e desmando numa das maiores empresas do país.
Ah, a Luxus...
Ela é tudo para mim.
Quem não se enquadra na empresa ou não é bom o suficiente, simplesmente cai fora. Essa é a regra do jogo. Simples assim.
Ainda me encarando no espelho, passo a mão pelo cabelo úmido. Tenho um ótimo visual e a plena certeza de que consigo seduzir qualquer mulher e deixar qualquer uma aos meus pés. Ah, as mulheres... colecionei muitas ao longo dos anos... de todas, Verônica estranhamente foi a única que realmente me deu trabalho... linda, quente, folgada, fala o que pensa e joga na minha cara nem sempre as coisas que espero ouvir.
Verônica...
Ofereci a ela duzentos mil por mais uma semana de paixão, mas se recusou. Que tipo de mulher recusaria duzentos mil por uma semana comigo? Aquele namorado chinfrim não pode ser melhor que eu... não chega nem aos meus pés, porra. Respiro fundo, a raiva me tomando toda vez que penso em sua recusa. Não sei o que posso fazer para consegui-la de volta, o que posso fazer para convencê-la, para deixar de resistir.
Preciso dela outra vez em meu quarto, em minha cama, de preferência com as pernas abertas e gemendo embaixo ou em cima de mim...
Um barulho vindo da cama, de repente, me faz virar para trás. É Paula remexendo-se entre os lençóis. A loira, no entanto, ainda dorme profundamente. Algumas horas antes a comi com força e paixão. Não posso negar, ela é gostosa. Todavia acontece com Paula o mesmo que acontece com Julia e com todas as outras que se atiram em mim: acaba o sexo, eu viro-me de lado.
Agora me visto silenciosamente para não acordar Paula. Saio de casa e entro em minha BMW. Sigo para o clube, onde encontro Luiz Miguel, Ricardo e Henrique. Jogo algumas partidas de tênis com eles. Depois disso parto para a Luxus. Há muitas coisas importantes para resolver. Enquanto seguro o volante com uma mão, disco para Augusto, que atende após o primeiro toque.
— Senhor?
— Oi, Augusto. Preciso que me faça um favor.
Silêncio.
— Quero que procure Verônica outra vez. Quero que a procure pessoalmente, já que o telefone dela parece inexistente agora.
— Talvez ela não queira mais ser encontrada, senhor.
— Não importa. Preciso que a encontre. É algo importante. Ela não pode fugir de mim assim.
— Certo. E o que quer que eu diga a ela, caso a encontre?
Penso nisso enquanto meus olhos concentram-se na estrada à minha frente.
— Quero que faça uma proposta de emprego a ela.
— Uma proposta de emprego na Luxus, suponho.
— Sim, na Luxus. Quero que Verônica venha trabalhar comigo — explico. — como minha secretária exclusiva. Um cargo que acabei de criar.
— Certo, mas e se... bom, e se mesmo assim, ela recusar?
Penso nisso. Seria péssimo. Nenhuma mulher recusaria um cargo como esse, mas Verônica é diferente de quase todas que conheci. Talvez o fato de ter de ficar tão próxima a mim a incomode. Por isso preciso ser esperto e cauteloso.
— Se mesmo assim ela recusar, proponha uma outra vaga a ela. Apenas convença Verônica a ir para a Luxus. Use sua inteligência e bom senso, que sei que tem de sobra. Até mais.
Desligo o telefone. Piso fundo no acelerador e sigo para a empresa. Preciso me distrair com mais trabalho o possível. Preciso trabalhar até tarde, trabalhar como um louco. Se ficar pensando muito nessa mulher escorregadia, vou enlouquecer.
VERÔNICA
— AUGUSTO? — falo, surpresa, vendo-o na porta do apartamento de Érica.
— Senhorita Verônica — me cumprimenta, todo contido e formal, como sempre.
Eu o observo, completamente surpresa porque não entendo o que veio fazer e como me encontrou aqui. Desde que saí da casa dos meus pais, estou morando com Érica.
— Desculpe-me aparecer de repente, mas é que precisava encontrá-la. Será que podemos conversar?
Hesito por um momento, mas então concordo.
— Bom... sim, entre — afasto-me da porta para que ele entre.
Depois que passa, fecho a porta atrás de mim, me perguntando o que Augusto deseja comigo. Tudo bem que ficamos bem próximos durante a temporada em Paris, mas depois disso não o vi mais. Eu o observo agora. Na certa, está aqui por ordem do patrão. Não posso dizer que isso é terrível porque, no fundo, tudo o que mais quero é saber sobre Jonas.
— Sente-se, por favor — digo, sendo educada.
— Obrigado.
Intrigada e não conseguindo mais conter a curiosidade, cruzo meus braços no peito.
— Como me encontrou aqui?
Augusto ergue os olhos para mim enquanto se senta no sofá.
— Bom, estive na casa de seus pais e conversei com sua mãe. E ela me contou onde eu encontraria você.
— Ah — sento-me, diante dele, no outro sofá, e pigarreio: — Você aceita alguma coisa? Uma água, um café?
— Aceito um copo de água. Obrigado.
Afasto-me apenas para ir até à cozinha e trazer um copo de água fresca para ele. Augusto agradece antes de beber todo o líquido. Pousa o copo vazio na mesinha de centro e volta a me encarar.
— Eu sei que está se perguntando o que vim fazer aqui, mas vou explicar. Tenho uma proposta de trabalho pra você.
Sei que minhas sobrancelhas estão erguidas agora. Ele realmente me pegou desprevenida.
— Uma proposta de trabalho?
— Isso mesmo.
Logo me dou conta de que isso só pode ter o dedo de Jonas, e por mais que eu sinta muita falta dele, não quero ter que voltar a servir como seu objeto sexual. Suspiro, o desânimo me tomando. Por que Jonas insiste tanto em me humilhar?
— A pedido do Jonas, presumo — digo a Augusto.
— Sim, mas não se preocupe. É apenas uma proposta de trabalho. Algo estritamente profissional. Posso lhe assegurar. Meu patrão gostaria que você avaliasse a ideia de vir trabalhar conosco na Luxus.
— Na Luxus? — sei que meus lábios estão abertos em formato de um O.
A Luxus é tudo o que mais importa para o Jonas. Ele vive a empresa, bebe a empresa, respira a empresa. O tempo que estivemos juntos pude perceber que a Luxus é o seu grande e único amor.
— Sim. Como secretária. Como deve saber, a Luxus é uma das maiores empresas do Brasil. Não tenha dúvida de que é uma proposta excelente, mas deixe-me explicar: você seria uma espécie de secretária exclusiva. Não faria o trabalho mais difícil, apenas o mais específico. Teria um ótimo salário, ótimos benefícios e tudo o que uma empresa de peso como a Luxus pode proporcionar.
Respiro fundo, confusa, dividida, não sabendo se isso é bom ou ruim. Trabalhar num lugar como a Luxus é o sonho de qualquer garota humilde como eu. É claro que seria magnífico. Mas a questão é: vai ser bom pra mim ficar esbarrando em Jonas? Como sua secretária exclusiva, terei que interagir com ele o tempo todo. Será que vou conseguir isso sem me envolver romanticamente? Será que vou conseguir superar tudo o que rolou entre a gente?
— Secretária exclusiva — repito, avaliando os prós e contras — Bom, eu não sei... nunca trabalhei como secretária antes e não fiz nenhum curso específico na área... não sei se vai ser uma boa ideia... além do mais, por que estão me oferecendo o cargo? Tenho certeza de que vocês recebem mais currículos e indicações que se possa imaginar.
Augusto pigarreia um pouco. Talvez tente me convencer, mas não forçará a barra. Não é do feitio dele. Apenas me fará sentir mais confiante.
— Bom, não sei se você reparou, mas meu chefe costuma ser um tanto sistemático. E realmente prefere pessoas de confiança. Ou alguém que pareça ter uma boa índole e muita perspectiva profissional. Quanto à experiência, isso não é tão importante. As atribuições do cargo são bem simples e você terá um treinamento qualificado.
Penso outra vez. É realmente uma proposta incrível. É óbvio que um emprego como esse é tudo o que preciso. Seria muito bom para ser verdade, afinal, quantas garotas desejariam ter um trabalho como esse numa empresa de grande porte? Teria dinheiro para pagar minhas contas, poderia voltar a cursar a faculdade e ainda teria condições de ajudar Érica com as despesas do apartamento. O problema é... Jonas. Afinal, é o grande chefão da empresa e eu teria que ficar mais próxima dele do que deveria e não sei se estou preparada para isso. O que tivemos foi forte demais para ser esquecido tão facilmente. Ainda não esqueci como é estar em seus braços, como é o seu cheiro gostoso, o gosto de sua boca, a força de seu corpo... perturbada, passo a mão pelo rosto e suspiro.
— Eu não posso, Augusto. Me desculpe. Agradeço por ter vindo aqui e por terem pensado em mim para o cargo, mas não posso.
— Tem certeza?
Não respondo.
— Senhorita, garanto que não sofrerá nenhum tipo de assédio. Não se preocupe. Meu patrão tem seus fetiches, mas é um homem sensato, que sabe dividir o pessoal do profissional.
Passo minha língua pelo lábio inferior, dividida entre sim e não. Ah, meu Deus, o que faço?
— Eu não sei...
— Talvez não esteja preparada para dar uma resposta agora. Compreendo — tira um cartão do bolso do paletó — Aqui está meu telefone. Se mudar de ideia, pode me procurar.
— Obrigada — pego o cartão de sua mão.
— Bom, eu vou indo. Fique bem, senhorita.
— Você também, Augusto. Vou acompanhá-lo até a porta.
Após levá-lo até a porta e voltar para a sala, afundo no sofá e fico me perguntando se devo aceitar ou não a proposta.
— O que faço, meu Deus? — suspiro.
JONAS
EU O VEJO entrar no meu escritório. Estou pensativo, atrás da minha imensa mesa, ainda perturbado com meus próprios pensamentos. Augusto me cumprimenta, mas respondo com uma pergunta:
— Falou com ela?
— Falei, senhor.
— Então, o que ela disse?
— Ela pediu um tempo.
Levo meu copo de uísque à boca, absorvendo o líquido amargo e a resposta também amarga.
— Um tempo?
— Sim, senhor. Um tempo pra pensar. Deixei meu cartão com ela, caso precise entrar em contato.
Eu me ponho de pé, tentando ignorar a porra dos sentimentos confusos que estou sentindo agora.
— Então ela pediu um tempo?
— Sim, senhor.
Suspiro enquanto minhas mãos estão posicionadas no tampo de vidro da mesa.
— Nem o cargo na Luxus é o suficiente? — digo comigo mesmo — Que inferno. Ela é escorregadia demais. Impenetrável. Certo — respiro fundo, me endireitando, buscando novamente o meu autocontrole — Então, Verônica precisa de um tempo? Tudo bem, darei esse tempo a ela.
— Ela parece estar passando por uma fase complicada, senhor...
Eu o encaro na mesma hora, surpreso com esse comentário.
— Como assim uma fase complicada? Ela acabou de salvar a casa dos pais. Deveria estar feliz.
Augusto pigarreia.
— Parece que houve uma briga e ela saiu de casa... eu estive hoje no apartamento da amiga dela. É lá que a senhorita Verônica está morando agora.
— Uma briga — fico pensando nisso, avaliando a informação — E você sabe o porquê da briga?
— Não sei, senhor.
Observo sua expressão facial. Vejo nela que não me diria a verdade, mesmo se soubesse. Se pudesse, protegeria a garota das minhas garras. Augusto é mesmo um cara muito digno. Eu o admiro por isso.
— Obrigado, Augusto. Pode ir agora. Caso Verônica entre em contato, me avise.
— Sim, senhor. Com licença.
Depois que ele sai, permaneço preso em meus pensamentos. Verônica não está mais morando na casa dos pais. Houve uma briga. Ela saiu de casa. O que aconteceu?