Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 4 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 4

 

 

JONAS

REBATO a bola para o adversário que está do outro lado da rede. Não nos conhecemos, mas estamos jogando uma partida de tênis em uma das quadras do hotel. Eu sempre me dirijo às quadras quando acordo pela manhã e sempre que tenho disponibilidade. Tênis é um dos meus grandes hobbies. No clube que frequento, sou aclamado. Ninguém me tira do pódio. E todos sabem o quanto sou competitivo e levo as partidas a sério - assim também como levo a sério as corridas de kart. Não gosto de perder e detesto me sentir humilhado. Nesse instante avisto Augusto se aproximar da beira da quadra e tenho a certeza de que tem algo importante a me dizer. Ou ele não faria isso. Augusto me conhece o suficiente para saber que não deve me interromper em uma partida de tênis. Então concluo que alguém me procura através do celular. E por mais que eu esteja em um hotel, eles sempre me encontram. Essa é uma das desvantagens de ser o diretor executivo de uma empresa de grande porte como a Luxus.

— Telefone para o senhor! — anuncia um Augusto todo sem graça e cauteloso, de paletó, com o celular na mão. — É seu irmão, Júlio. Disse que é importante.

— Ele disse sobre o que é? — pergunto enquanto rebato um saque.

— Não. Apenas que é importante!

Comemoro o ponto feito e, em seguida, dirijo-me ao fundo da quadra para um novo saque.

— Diga a ele que depois ligo.

— Certo.

Augusto parece contemplar a bela jogada que faço e, em seguida, uma longa sequência de bate-rebate. O meu adversário é bom, mas sou melhor. Ninguém precisa me dizer para eu saber. Ninguém me supera numa partida de tênis - especialmente quando estou inspirado. Pra finalizar consigo um match point. Comemoro com discrição. O outro jogador sorri conformado com a derrota e vou até a rede, cumprimentá-lo. Meu assessor se aproxima de mim e me oferece uma toalha branca. Seco meu rosto suado, então Augusto me entrega o celular. Julio está me ligando outra vez.

— Jonas — a voz pastosa do meu irmão entra na linha. — Seu assessor disse que você estava ocupado...

— Pois como pode ver, não estou mais. O que tem de tão importante pra me falar?

Pigarreia.

— Estou ligando pra saber sobre o encontro com os empresários. Moreira me disse que eles apresentaram uma boa proposta esta semana e estão realmente interessados.

— Ah, então é isso. Suponho que Moreira tenha te informado também sobre os riscos. São vários milhões perdidos em jogo, caso o projeto seja um fiasco.

— Sim — parece engolir em seco — mas podemos ganhar muitos milhões também.

— É uma hipótese um tanto relativa. E não estamos num bom momento para arriscar.

O idiota do meu irmão fica em silêncio por algum momento, parecendo absorver a informação. Em seguida, diz:

— A empresa não é só sua, Jonas... também tenho minha parte nisso tudo...

— Tem razão. A empresa não é só minha, mas sou o CEO. Talvez você não se lembre, mas a palavra final é sempre a minha.

Parece engolir em seco outra vez, e então pigarreia:

— Eu sei, eu sei, mas... bom, será que podemos conversar sobre isso uma outra hora? Podemos marcar uma reunião.

Respiro fundo, tentando controlar a impaciência que sinto toda vez que meu irmão mais velho tenta demonstrar que entende alguma coisa de negócios quando na verdade é um grande idiota. Lembro-me das vezes em que o nosso pai disse isso e exatamente por isso me tornei o CEO e não meu irmão.

— Se você insiste, podemos discutir isso numa próxima reunião. Vou marcá-la e, em breve, comunicarei. Estou indo para a Europa daqui a dois dias e ainda não sei quando vou voltar.

— Tudo bem.

— Certo. Agora preciso desligar.

— Tchau, Jona...

Desligo a ligação antes mesmo de ele terminar de se despedir e então sinto Augusto me encarando.

— A senhorita Paula também ligou esta manhã — avisa.

— E ela deixou algum recado?

— Apenas pediu que retornasse a ligação.

— Obrigado — volto a secar meu rosto com a toalha. Levo meus pés de volta para o hotel. Augusto vem atrás de mim, me atualizando sobre tudo o que tem acontecido na Luxus desde que cheguei ao hotel. Pegamos o elevador, em silêncio, e logo chegamos até à cobertura. Nesse momento coloco o celular no ouvido para falar com Paula. Caminho pela sala e fico intrigado ao observar a porta do quarto aberta. Aproximo-me. Percebo que há alguém lá dentro. Reconheço a linda camareira. Sim, a morena que havia dançado sensualmente na minha cama outro dia desses.

Caralho, eu paro. Como seu corpo é curvilíneo e gostoso, mesmo estando com o simples uniforme. Fico observando se inclinar um pouco para forrar a colcha e seu bumbum arredondado fica ainda mais visível. Meu corpo logo esquenta e meu pau começa a dar sinal de vida. Eu mergulharia em seu corpo facilmente aqui mesmo no quarto, a jogaria nessa mesma cama que está arrumando e a faria nunca mais se esquecer de mim. Eu sou bom em levar mulheres pra cama. Meu único defeito é não levá-las a sério depois disso.

— Jonas? — a voz de Paula soa em meu ouvido, me tirando dos devaneios. — Você está aí, baby?

— Oi, estou aqui, pode falar — respondo, mas meus olhos estão fixos nos movimentos da camareira gostosa, que se vira num pulo e me encara, aparentemente preocupada.

— Com licença, senhor — murmura de repente, parecendo um pouco desconfortável na minha presença e ainda mais desconfortável do que no dia que nos encontramos no elevador.

Passa por mim, murmurando licença outra vez. Tapo o bocal do celular por um momento e viro-me para Augusto.

— Vá atrás dela! Rápido! Descubra quem é!

Confuso, o homem arregala os olhos, mas logo em seguida se move e sai atrás da morena.

VERÔNICA

— EI, SENHORITA! Por favor, espere! — alguém grita atrás de mim.

Congelada, prendo minha respiração. Ah, não. O que fiz dessa vez? Não é possível que eu tenha deixado o travesseiro fora do lugar ou alguma coisa do tipo... prestei atenção a todos esses detalhes justamente porque sei o quanto esse tal executivo da Luxus, por mais que seja lindo e por mais que tenha me defendido outro dia desses no elevador, pode me prejudicar. Eu já subi em sua cama. Pior: dancei sobre ela. Não sei por que ainda não me denunciou, mas a verdade é que estou em suas mãos.

Eu me viro para o homem que está a poucos metros de mim. No entanto, não é o bonitão da Luxus. É um sujeito careca. Bem elegante e está com as duas mãos unidas na frente de seu terno.

— Sim, senhor?

— Perdão — diz, parecendo um pouco hesitante — Desculpe-me, mas qual é o seu nome, senhorita?

— Meu nome? — mordo meu lábio inferior.

Por que ele quer saber o meu nome?

— L-Leila — titubeio a primeira coisa que me vem à mente. O homem engravatado permanece me encarando e me observando. Ah, meu Deus, o que esse homem quer? Engulo em seco, mas sustento seu olhar.

— Bom, Leila, desculpe a minha curiosidade... hmm, você trabalha há muito tempo aqui no hotel?

Por que ele quer saber?

Eu o analiso. Deve ter uns cinquenta anos. Ou talvez um pouco mais, no entanto se for, é bastante conservado. Apesar do pouco cabelo, possui um rosto liso e jovial.

— Apenas há alguns meses... o senhor deseja alguma coisa?

— Oh, não... desculpe-me. Pode ir.

Assinto, aliviada, me viro outra vez e sigo depressa o meu caminho. Não entendi o que aconteceu, mas só sei que preciso sair daqui o mais rápido o possível.

JONAS

— E ENTÃO? Falou com ela? Descobriu alguma coisa? — pergunto a Augusto assim que ele aparece outra vez na minha frente.

— Bom, senhor, só que a moça se chama Leila e que trabalha há pouco tempo no hotel. Há alguns meses, segundo ela.

— Leila — repito — acrescento gelo em meu uísque.

Levo o primeiro gole à boca e me mantenho preso em meus pensamentos. Leila... bom, ela não tem cara de Leila. Mas isso é o que menos importa agora. Deve ter uns vinte e poucos anos. Talvez seja casada. Ou não. Mas é muito provável que tenha namorado. É bonita e gostosa demais para estar sozinha. Várias teorias bombardeiam a minha mente e não consigo controlar o que meu corpo sente. É claro que já desejei muitas mulheres ao longo da minha vida e tive praticamente todas as que desejei, mas nunca aconteceu uma coisa dessa com uma camareira. Eram sempre mulheres com quem eu flertava em festas ou em eventos, ou até mesmo secretárias, mas nunca camareiras, porra.

— O senhor está bem? — Augusto quer saber, seus olhos em meus movimentos.

Leila... morena, curvilínea. Tem pernas bonitas e compridas, lábios carnudos, olhar de quem não se impressiona facilmente, seios duros, cintura fina, bunda arrebitada, quadris... ela é gostosa. Fato. Caminho até Augusto e o encaro.

— Quero que me faça um favor — dou mais um gole do uísque. — Quero que procure essa garota e faça uma proposta.

Bebo mais um gole da bebida enquanto controlo a vontade de rir do olhar confuso que o homem me lança.

— Uma proposta?

— Isso, uma proposta. Vou viajar dentro de alguns dias pra Paris e, depois da França, irei para a Inglaterra e talvez também para a Itália. Quero que convença a Leila a ir comigo — bebo o último gole do copo. — Vai ser uma boa proposta, ela não vai recusar. Vou oferecer muito dinheiro. Vou consultar meus advogados e pedir para que providenciem um contrato. Quero que você cuide também disso para mim.

O homem continua me fitando como se eu fosse um bicho de sete cabeças ou como se não entendesse nada do que sai da minha boca.

— Senhor, com todo respeito, me desculpe, mas acho que não entendi...

— Quero que convença a Leila a ser minha acompanhante de luxo — explico e em seguida divirto-me com sua expressão que de confusa passou a ser perplexa. — O que foi, Augusto? Acha a ideia bizarra?

Ele engole em seco. Em seguida, arrisca:

— Muito, senhor...

— Bobagem. Não quero uma prostituta profissional. Quero uma mulher comum. Desde que a vi, ela não sai da minha cabeça.

Ele pigarreia, completamente desconfortável com a conversa.

— Mas o senhor tem tanto dinheiro... pode ter a mulher que quiser...

Abandono o copo vazio na mesinha de centro.

— É essa que quero. Pelo menos, por enquanto. Gostei de Leila e ela vai ser minha.

Continua me fitando, mas ignoro seu olhar de perplexidade, e prossigo:

— Já tive muitas mulheres em toda a minha vida, Augusto. Você como ninguém sabe disso. Talvez seja bom algo diferente agora. Uma nova aventura. Uma suburbana. Ela conseguiu chamar a minha atenção.

Augusto não comenta mais nada agora. Estico meus lábios num sorriso, me divertindo da maneira como ele me encara.

— É tão moralista assim? Está escandalizado com a ideia?

— Um pouco, senhor...

Abandono o copo vazio na mesinha de centro.

— Bom, preciso que você a procure, e então faça a proposta. Não precisa se preocupar, vou lhe dizer exatamente o que falar.