Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 7 de 48

Páginas do PDF

Como uma Joia

Capítulo 7

 

 

VERÔNICA

— O HÓSPEDE DA COBERTURA, o senhor Jonas Malta, vai precisar de toda a nossa atenção esta noite — Leila começa anunciando para todas as camareiras reunidas — Ele dará uma grande festa. E acho que todas vocês já compreenderam que esse é um hóspede muito importante. Alguém tem alguma dúvida?

Como ninguém diz nada, apenas nos entreolhamos com discrição, Leila leva seus pés para longe de nós e só então o grupo vai se dispersando aos poucos. Érica sorri para mim e pisca.

— Adoro festas. A gente sempre fica mais invisível nelas e até consegue beliscar algumas guloseimas.

Reviro meus olhos e suspiro.

— Pois estou pensando em até que horas essa festa vai durar. Eu sei que vamos ganhar um extra por ficarmos por mais horas, mas e se virar a madrugada toda?

— Ah, não se preocupe. Qualquer coisa a gente pede um táxi pelo aplicativo e racha a corrida. Além do mais, amiga, depois de a gente aprontar no quarto do bonitão gostoso e você dançar toda sensual na cama dele, nada pior pode acontecer. Pra ser honesta, ele foi muito generoso. A essa hora a gente poderia estar no olho da rua.

"É verdade", penso comigo mesma e neste instante a imagem do homem alto, elegante, atlético e impecável toma a minha mente. De todos os hóspedes, esse foi quem conseguiu a minha atenção.

***

Estou empurrando um carrinho cheio de lençóis brancos e limpos que deverão ser levados para a cobertura. Entro no elevador de serviço e aperto o botão da cobertura no painel. Antes que o elevador se feche, duas mãos gordas forçam a abertura e um homem de terno entra. Eu o reconheço na hora. É o baixinho barrigudo que de vez em quando aparece na cobertura. Acho que é amigo do executivo da Luxus, o tal Jonas. Ele está me encarando agora e isso me deixa um pouco incomodada. Não gosto que fiquem me encarando tanto. Além do mais, nunca sei exatamente o que esses homens ricos querem de fato. Desvio meu olhar para outro ponto do elevador, mas subitamente o sujeito chega perto de mim e sussurra perto de meu ouvido:

— Sabe, você é uma moça muito bonita.

Não respondo.

— Ouviu? Eu disse que você é uma moça muito bonita — desce seus olhos por meu corpo na maior cara de pau.

Permaneço imóvel, olhando para a frente, agindo como se ele fosse algum ser invisível.

— Que foi? Está se fazendo toda de difícil? — a ponta de seu dedo gordo alisa meu braço.

— Senhor, não me toque — me afasto para o lado, tentando ficar mais longe dele. Meus olhos percorrem o painel e agradeço a Deus quando o elevador apita e a palavra cobertura aparece iluminada no painel.

As portas de aço se abrem. Empurro o carro para fora do elevador, mas sinto o homem atrás de mim.

— Sei de algo sobre você — sussurra insistentemente em meu ouvido, me perseguindo insistentemente.

— Não quero problemas, senhor... por favor... me deixe trabalhar ou então eu o denunciarei por assédio.

Ele dá uma risada amarga.

— Me denunciar? Ora, se enxergue, mocinha. Você sabe com quem está falando? Na verdade, sou eu que tenho algo a dizer — segura meu braço, me forçando a parar — Sei o que você e a sua amiguinha fizeram na cama do meu amigo outro dia. Vocês não foram denunciadas por sorte, mas posso cuidar disso num estalar de dedos. O que acha que o gerente vai fazer se descobrir que duas camareiras estavam brincando no quarto de um hóspede importante?

Puxo meu braço de volta bruscamente, me soltando de seu toque. Eu lhe dou as costas e continuo seguindo o meu caminho, desejando ficar o mais longe desse homem.

Sinto-o vir atrás de mim outra vez. Segura meu braço e rosna:

— Isso não acabou aqui — seu tom é de ameaça e em seguida larga meu braço, me deixando seguir.

Olho para trás a tempo de vê-lo pegando um elevador social. Respiro aliviada.

***

Ao fim do expediente, aguardo por Érica, que avisou que se atrasaria um pouco esta tarde, mas como não tenho coragem de ir embora e deixá-la sozinha, permaneço à sua espera no estacionamento. Consulto meu celular. Subitamente sinto a presença de alguém atrás de mim. Viro-me e reprimo um grito ao ver o careca engravatado, o mesmo que me abordou dias atrás na cobertura. O homem desce os dedos pelos botões do paletó azul-marinho, parecendo nervoso.

— Leila? — diz para mim.

Eu o encaro, sem saber o que dizer. Penso no nome errado que lhe dei outro dia desses, então me sinto culpada por ter mentido.

— Sim... o senhor deseja alguma coisa?

— Será que podemos conversar um minuto? Prometo não tomar muito o seu tempo.

— Não sei, senhor... estou esperando minha amiga e ela vai chegar a qualquer momento...

— Verônicaaaa! — Érica grita de repente, surgindo do elevador, aparecendo sorridente na nossa frente.

O homem olha para ela, depois de volta para mim. Eu o encaro, sabendo que estou ferrada.

— Verônica? — ele repete.

— Oi — Érica não está mais sorrindo, está um pouco sem graça e preocupada, perguntando se atrapalhou alguma coisa. Morde o lábio inferior e fala: — Acho melhor te esperar lá fora...

Tento fazer sinal para Érica permanecer, mas ela sequer percebe e segue o seu caminho pelo outro lado do estacionamento.

— Então seu nome verdadeiro é Verônica?

Desvio o olhar, novamente envergonhada por ter mentido.

— Por que mentiu?

— Bom, porque não sei sequer quem o senhor é — sou franca.

— Certo, entendo — ele diz — Também não quero que tenha uma má impressão de mim.

— O que o senhor deseja?

Ele suspira profundamente, parecendo mal saber como começar a conversa.

— Eu tenho uma proposta para lhe fazer, Verônica. É isso. Uma grande proposta, ouso dizer.

— Uma proposta? — sei que meus olhos estão arregalados e minhas sobrancelhas erguidas agora.

— Bom, admito que olhando por uma perspectiva superficial, é algo um tanto bizarro, mas antes de qualquer coisa, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Espero que não se ofenda com ela.

— Me ofender? Estou completamente confusa.

O homem está na minha frente pela segunda vez, fala sobre uma tal proposta e então me pede para não me ofender com o que vai falar? O que, afinal, quer?

— Bom, desculpe a minha indiscrição, mas você poderia me dizer o quanto ganha aqui nesse hotel?

— O quê?

Permaneço o encarando, completamente chocada e surpresa, começando a acreditar que esse homem tem algum problema de cabeça.

— Desculpe, sim, eu sei que essa é uma pergunta muito pessoal e até mesmo mal educada, mas confie em mim, isso é importante.

— Por que quer saber o quanto ganho?

— Veja bem, digamos que você receba uns mil e quatrocentos reais por mês — ele começa — Certo. E quanto você acha que conseguiria juntar em mais ou menos um ano de trabalho? — Sorri, tentando descontrair o clima. — É boa em matemática? Vamos lá.

Essa conversa já está me deixando irritada. Por que, afinal, esse homem está me fazendo esse tipo de pergunta?

— Deixe-me dizer o quanto você conseguiria juntar em um ano de trabalho, Verônica — responde a própria pergunta, percebendo o quanto a cada segundo fico ainda mais perturbada. — Exatos dezesseis mil e oitocentos reais.

Arqueio as sobrancelhas, completamente atônita com o rumo da conversa. Por que diabos esse sujeito está falando isso? O que está acontecendo?

— Desculpe-me, senhor, mas não acho que seja da sua conta — recuo meu primeiro passo, me afastando dele, mas o homem me lança um olhar de súplica.

— Espere. Você vai entender.

Respira fundo e prossegue:

— Tentarei ser o mais breve e objetivo o possível. É o seguinte: uma acompanhante de luxo pode conseguir uma boa quantia de dinheiro em pouco tempo, se desejar. Além de poder viajar pelo mundo afora, frequentar os melhores restaurantes das cidades e conhecer lugares incríveis onde nunca imaginaria pisar os pés — faz uma pausa para respirar, mas seu olhar nunca abandona o meu. — Basta dizer sim a uma proposta.

— O quê?! O senhor é mesmo louco e repugnante! — digo, descontrolada, porque isso tudo já foi longe demais.

— Calma, espere...

— Vá se ferrar! — corro para longe desse louco pervertido. Olho para trás e ele não está mais me perseguindo, para o meu alívio. Se estivesse, eu juro que gritaria.

Não sei ao certo o que sinto, só sei que estou chocada, indignada e chateada, sentindo várias coisas ao mesmo tempo. Bem que Leila comentou no primeiro dia de treinamento que as camareiras deveriam ter muito cuidado com os hóspedes masculinos e com o assédio, que é uma realidade para quem vive no ambiente de hotéis. Há uma gama de homens de todos os tipos que pensam que por terem dinheiro o mundo vira em torno deles e que, portanto, podem ter tudo o que quiserem. Nojo. É tudo o que sinto. Primeiro foi o baixinho lá no elevador e agora é esse careca... O que há com esses homens?

Logo deixo o estacionamento. Um pouco nervosa com tudo o que aconteceu lá dentro, encontro Érica com os olhos grandes e brilhando e sei que está se corroendo de curiosidade.

— O que aquele careca charmoso queria com você? — pergunta, afobada. — Ei, você parece tensa. O que aconteceu? Está tudo bem?

— Não, não está. Venha, eu te conto tudo no caminho.

JONAS

ESTOU no sofá da sala de estar, teclando no meu notebook. Ao meu lado, como de costume, há um copo de uísque pela metade. Minutos mais cedo eu estava discutindo sobre negócios com um outro grande sócio da Luxus. A verdade é que independentemente de onde eu esteja ou de que hora seja, minha vida é respirar a empresa que há muitos anos se tornou a coisa mais importante para mim. Suspiro e massageio meu rosto. Acho que preciso de uns minutos. Coloco o notebook de lado, pego o meu copo de uísque e me levanto do sofá. Levo os meus passos até à janela de vidro e fico observando o movimento lá embaixo do hotel. As pessoas caminham, mulheres bonitas entram e saem da piscina, crianças brincam enquanto o fim da tarde anuncia a noite que estar por vir. Sinto o clique da porta, mas não preciso me virar para saber que Augusto chegou e está nas minhas costas.

— Então, encontrou a garota? — pergunto a ele enquanto levo meu copo de uísque à boca.

Ele parece hesitar, respira fundo, então diz:

— Sim, senhor, eu a encontrei.

— E falou com ela?

O homem não responde, então finalmente me viro de frente para encontrar um semblante constrangido e hesitante.

— Falou ou não falou?

— Falei, sim, senhor.

— E então?

— Bom, eu nem sei como começar... — pigarreia, parecendo pensar no quanto tudo o que o mandei fazer é absurdo. — Quero dizer, não foi uma conversa simples... ela pareceu bastante... ofendida...

— Ela disse não? — meu copo de uísque está mais uma vez à caminho da boca.

— Não com essas palavras, senhor, mas pela forma como reagiu... certamente.

Dou mais um passo à frente e abandono o copo na mesinha.

— Então, está me dizendo que a garota recusou a proposta de duzentos mil?

Augusto pigarreia outra vez antes de prosseguir:

— Bom, ela saiu correndo, fugindo de mim como se eu fosse algum estuprador... temo até que me acuse de assédio.

Sorrio, zombando do medo absurdo que ele tem de tudo. Enquanto Augusto continua me atualizando do que aconteceu minutos atrás entre ele e a garota, uma onda de raiva por ter sido rejeitado me aplaca com força. Detesto a forma como me sinto rejeitado. Pior que isso: odeio me sentir humilhado.

Augusto continua comentando sobre o breve encontro que teve com a camareira do hotel onde estamos hospedados, mas não estou mais interessado no que ele está dizendo. Eu o interrompo:

— Certo. Dê um tempo a ela antes de procurá-la outra vez — ordeno e sei que minha frase o surpreende.

— Perdão, senhor?

— Quero dizer que voltará a procurá-la. Mas não agora.

— Senhor, com todo o respeito, eu não acho que seja...

— Você não é pago para achar ou deixar de achar alguma coisa. É pago para fazer o que mando.

O homem engole em seco. Assente, não querendo discutir comigo ou mesmo me provocar. O que quero é que volte a procurá-la.

— Reparei que ela não usa aliança, então não deve haver um marido ou mesmo um noivo na parada — comento.

— Talvez haja um namorado — arrisca.

— Ou não.

— Precisa de mais alguma coisa, senhor?

— Sim. Quero que descubra mais sobre ela. Quantos anos tem, onde mora, os lugares que costuma frequentar, as pessoas com quem costuma sair, e me traga todo o relatório o mais breve o possível.

— Eu farei isso.

Assim que Augusto some do meu campo de visão, volto ao sofá e aciono na minha mente o momento em que a garota dançou com sensualidade sobre a minha cama. Talvez uma nova tática a faça mudar de ideia...