Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 24 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 24

 

VERÔNICA

APÓS TER dormido duas vezes com o Jonas, me sinto menos nervosa e assustada agora, afinal de contas, é como se o pior já tivesse passado. Sei lá. Não sei explicar. Acho que por mais que tenha sido estranho dormir com um cara que não é meu namorado a experiência não foi tão ruim como imaginava. O mais aterrorizante: eu posso ter gostado mais do que deveria. Ah, claro que gostou, Verônica! O cara é um gato e ainda por cima um deus grego na cama! Não negue, pois você também não é de ferro!

Agora só me pergunto como vai ser depois que voltar para casa e tudo isso terminar. Suspiro. Um dia isso tudo vai acabar. Mais cedo ou mais tarde. E só tenho medo de estar envolvida demais quando isso acontecer.

Como Jonas prometera dias atrás, seguimos para Nova Iorque. Havíamos chegado no sábado à tarde e preciso admitir que ainda há um pouco de desconforto com a ideia de compartilhar a mesma suíte com ele.

Neste momento estou sozinha porque Jonas saiu horas atrás com a desculpa de que iria à Flórida tratar de negócios. Ainda lembro-me do momento em que me avisou que viajaria. Eu estava sentada na beirada da cama quando de repente se agachou até mim, sua íris em um azul suave, e disse:

— Vou dar uma breve passada em Miami. Não pensei em levá-la comigo porque você não iria gostar — tocou meu rosto com a ponta do polegar — Talvez eu volte no dia seguinte, se não for possível tomar um voo de volta ainda hoje. Mas se for muito difícil pra você ficar aqui sozinha, posso fazer um esforço.

Por um lado, sabia que precisava ficar sozinha e colocar minha cabeça no lugar. Por outro lado, no fundo, eu já estava me acostumando com a sua companhia.

— Tudo bem, posso esperar você chegar — respondi.

Permaneceu me encarando, sua testa franzida, seu rosto masculino bonito me analisando. Suspirou de leve, ainda que seu semblante não tivesse mudado. Na maioria das vezes parecia imperturbável. Nem uma linha sequer parecia denotar incômodo ou irritação, a não ser que eu o rejeitasse, claro.

— Tem certeza que vai ficar bem?

— Claro, não se preocupe.

Algo dentro de mim dizia que ele iria se encontrar com alguma de suas amantes. Abri a boca para questionar, mas nem ao certo sabia o que dizer.

— Ao menos o Augusto me fazia companhia...

Seu semblante mudou instantaneamente. De leve e imperturbável passou a sério e impaciente. E por que não dizer que ficou ofendido?

— Precisa entender que o Augusto não tem nada a ver com nós dois e com o que vamos fazer aqui — seu tom saiu duro e ao mesmo tempo controlado — Não havia o porquê dele permanecer em Nova Iorque.

— E as suas outras amantes? Elas têm a ver? — as palavras foram mais rápidas que eu.

Vi sua sobrancelha negra e grossa arquear na hora.

— O que quer dizer?

— Você entendeu o que eu disse, Jonas.

— Certo — suspirou profundamente, levantando-se e se afastando de mim.

Deu-me as costas. Começou a abrir a própria camisa para trocá-la.

— Você deixou claro no contrato que nossas transas seriam sem proteção e me obrigou a fazer exames para garantir que estivesse seguro. Sem falar que deixou estipulado que não posso me envolver com outro homem enquanto estivermos juntos. Bom, eu acho que tenho o mesmo direito de exigir isso.

— Não vamos falar sobre o contrato agora — a camisa saiu pelos seus ombros largos e fortes enquanto ele ainda permanecia de costas para mim.

— Ah, não? Vamos falar quando voltar dos seus outros encontros?

— Você tem que entender que sou eu que banco a diversão. Eu tenho alguns privilégios.

Sua camisa já havia saído do corpo e Jonas seguiu para o banheiro, me deixando sozinha e chateada com a resposta dada.

Voltando ao agora, ainda não acredito no que me falou. Eu que banco a diversão. Eu tenho alguns privilégios. Então ele pode continuar transando com quem quiser e fazer tudo a seu bel prazer. E tenho que aceitar porque, afinal, é ele quem está me pagando por estar aqui. Bom, isso não faz sentido nenhum. O problema é que não pensei em todas essas questões quando concordei em assinar o contrato.

Estou olhando pela janela as ruas. Nova Iorque é, de fato, um lugar mil vezes mais movimentado que Paris. Jonas já partiu e estou sozinha na suíte. Com toda franqueza, talvez seja melhor mesmo assim, que eu fique sozinha. Tê-lo sempre por perto me deixa inquieta e apavorada com a ideia de que ainda sou apaixonada por ele, mesmo ele sendo um homem cafajeste. Acontece que não posso evitar as sensações de meu corpo quando Jonas está por perto, especialmente me tocando ou me beijando.

Já telefonei para a minha mãe e para a Érica. Prometi ligar outra vez para as duas. Acho que ficar sozinha vai ser bom por causa dos telefonemas que vou dar.

JONAS

QUANDO CHEGO em frente à porta do vigésimo andar do elegante Collins Avenue King's, em Miami, nem preciso bater na porta para avisar que estou aqui, pois ela se abre imediatamente e em seguida sou calorosamente puxado pela mulher de pele de porcelana e cabelos dourados. Com ela em minha cintura, consigo entrar com um pouco de dificuldade por conta dos agarrões e beijos com os quais sou recebido. Eu precisava encontrá-la antes que começasse a desconfiar e colocasse todo o meu plano com Verônica por água abaixo. Eu não quero perder Paula, mas não sou capaz de abrir mão da minha aventura em Nova Iorque. Além do mais, Paula é fácil de ser enganada. Tudo o que preciso fazer é lhe dar um pouco de atenção e lhe proporcionar uma boa trepada. E assim continuo tento tudo sob o controle.

VERÔNICA

AS HORAS parecem disparar e nesse instante converso com Érica pelo telefone. Horas atrás eu já havia ligado para casa e compartilhado com a mãe todas as experiências vividas em Paris e atualmente em Nova Iorque. Ela obviamente ficou encantada. E está mais aliviada, mais segura de que estou bem. Mesmo através do telefone, sem poder vê-la, eu soube.

Também expliquei que agora estava nos Estados Unidos e não mais na França. Que Nova Iorque é uma linda e movimentadíssima cidade norte-americana. É um sonho conhecê-la. E disse que estou feliz. Claro que omiti muitos detalhes — os mais sórdidos da viagem — contudo, fiquei mais aliviada quando a mãe pareceu feliz e menos preocupada do outro lado da linha. Perguntei pelo pai e também senti um grande alívio quando fui informada de que ele já está começando o tratamento.

Após matar a saudade de casa e me despedir da mãe, liguei para Érica e com ela pude desabafar melhor.

— E aí, como é Nova Iorque? Eu sempre tive vontade de conhecer Nova Iorque! Mas nunca tive grana, é claro. São coisas que só fazemos em sonhos — Érica comenta animada, ao telefone.

Na minha mente a visualizo esparramada na velha cama de solteiro que tem, comendo algumas guloseimas, com os olhos brilhando.

Dou uma risadinha. Estou morrendo de saudades da minha amiga.

— Então, vai voltar quando? — quer saber.

— Eu não sei ainda. Acho que será logo depois da nossa passagem por aqui. Estou torcendo pra que isso aconteça. O Jonas ainda não confirmou nada, e também evito ficar perguntando...

— Entendo... e falando nisso, como você está? Pela sua voz, parece bem.

— Sim, apesar de tudo, estou bem — suspiro, me sentindo bem e não tão mais solitária, agora que estou conversando pelo telefone — Minha rotina é basicamente ir a alguns eventos na companhia dele e o resto... bom, você já deve imaginar.

— E ele... quero dizer, ele a trata bem? Se esse homem, por mais lindo e gostoso que seja, for abusivo ou escroto com você, denuncie!

Rio, agora visualizando a minha amiga toda séria e brava, mesmo que isso seja quase impossível.

— Ele não me maltrata não. Está tudo bem. Na medida do possível, tenta ser gentil e atencioso. Imagino o esforço que esteja fazendo.

— Menos mal então — suspira — Mas você disse que já estará de volta... e como será? Não ia ter que ficar com o cara ao longo de um mês?

— Não sei, provavelmente vou ter que ficar com ele nessas duas semanas depois que voltarmos ao Brasil. Mas, sinceramente — suspiro de novo — não quero mais falar disso ou de mim. Me fale sobre você. Como vão as coisas por aí? Está tudo bem no hotel?

— Ah, você sabe, amiga. Tudo na mesma. Eu ralando pra caramba, feito uma condenada pra ganhar uma merreca!

Rio mais uma vez. Sinto falta das nossas conversas animadas. É até uma coisa triste de se dizer, mas a verdade é que com Érica tenho mais afinidade do que com a minha própria irmã. Além disso com ela consigo ser eu mesma. Há coisas que converso com a minha amiga e que não posso conversar com a minha mãe, inclusive - não que a mãe não seja confiável e compreensiva, mas não gosto da ideia de vê-la preocupada ou decepcionada.

— Você, pelo menos, está aí viajando, curtindo o mundo, conhecendo gente nova, comendo do bom e do melhor... eu aqui já até perdi as esperanças de ter um gringo interessado em mim.

— Ah, Érica, não fale uma bobagem dessa nunca! Estou pagando um grande preço por isso, você sabe. Preferiria mil vezes estar aí ralando a ter que ficar dormindo com um sujeito que mal conheço.

— Tá, tudo bem, entendo o que você está falando. Mas, poxa, o cara é lindo pra cacete! E rico! Podre de rico! E isso faz muita diferença.

— Não sei... — tento encontrar as palavras certas — ele não é exatamente ruim, admito... até no convívio, às vezes me surpreende, mas mesmo assim... é estranho porque eu gostava dele, tinha uma impressão diferente do que era e depois que descobri sobre a proposta me dei conta de que tudo era uma fantasia da minha cabeça. Ele não é diferente dos outros homens. Além disso, dinheiro não é tudo.

— Sim, sei, mas sou daquelas que preferem um rico bonito a um feio pé rapado.

A gargalhada explode das nossas gargantas.

— Ah, Verônica, por falar em pé rapado... sabe quem andou me procurando outro dia desses? Aquele seu ex-namorado pagodeiro.

— O Cidão? Sério? E o que ele queria?

— Ah, imagina. Você. Ele só pensa em você. Está obcecado. Queria saber se você tinha ido mesmo viajar à trabalho... o porquê... com quem... fez um monte de perguntas. Um interrogatório completo.

— E você não disse nada, né, Érica?

— Claro que não! O cara está doido. Ele não aceita a ideia de você ter viajado sem falar com ele. Na verdade, não aceita a ideia de você ter dado um pé na bunda dele.

— Minha mãe comentou que Cidão andou fazendo perguntas, e ela até mesmo me questionou sobre o fim do nosso namoro — suspiro — espero que o Cidão me esqueça de uma vez e vá viver a vida dele.

— Terminar com ele foi a melhor coisa que você fez. Esse cara não é confiável, Verônica. Não gosto dele.

Mordo meu lábio inferior, pensando nas palavras de Érica. Nunca vi Cidão como um vilão ou alguém que não fosse do bem, no entanto, suas últimas atitudes me levavam a duvidar de tudo o que eu sabia sobre ele. Acho que tenho dedo podre para homens. Primeiro me enganei com Cidão. Agora com Jonas.

Após me despedir de Érica e desligar o telefone, corro até à sala e sento-me na mesa, ansiosa pelo almoço que já havia sido entregue. Estou faminta e a comida cheira muito bem. Olho para o relógio no pulso e constato que já são quase duas da tarde. Àquela altura Jonas já deveria estar em Miami, provavelmente para encontrar alguma mulher. Ou talvez a namorada socialite. Lembro-me muito bem dos olhares femininos em direção a ele na festa. Também lembro que ele estava rodeado de muitas delas quando voltei do banheiro. Ah, Verônica, não seja tola. Você é pobre, mas não burra. É claro que um homem como ele - bonito, gostoso, sedutor e rico - não precisa ficar atrás das mulheres. Elas é que se atiram nele.

No entanto, Jonas garantiu a mim que voltaria no mais tardar amanhã. Tento afastá-lo dos meus pensamentos. Quanto mais pensar nesse homem, mais apaixonada por ele ficarei. Dou uma garfada na massa que está no prato.

— Hmmm, que delícia... — fecho os olhos, adorando a sensação da comida se derretendo na minha boca — Maravilha...

Sirvo-me de um pouco de suco de morango enquanto meus pensamentos vão novamente até Jonas. Ah, meu Deus, por que não consigo parar de pensar nesse homem? Que tipo de homem é ele? Onde estão seus pais? Ele dirige mesmo uma empresa? Ele parece jovem demais para ter um cargo tão alto. Com quantos anos iniciou a carreira que todos dizem ser brilhante? Ele sempre foi rico? Bom, provavelmente. Como é a namorada dele? Será que é estonteante? Provavelmente. E por que ele me mantém nesse quarto de hotel? Por que é um pleno cafajeste sem coração? Suspiro. E o que eu sou? Uma vagabunda? Não, não quero pensar numa coisa dessa. Eu preciso dessa grana, caramba, e logo! E quanto a Jonas... eu adoraria poder dizer que é uma merda ficar com ele, que o cara cheira mal ou é horrível. O problema é que isso não é verdade. O fato é que beija bem, transa gostoso, e na cama me faz sentir a mulher mais especial e desejável do mundo. E agora tenho medo de me apegar ainda mais...

Depois de comer a sobremesa, pego o meu celular e acesso o Google. Procuro por Jonas Malta e avisto algumas fotos dele em eventos, na empresa que se chama Luxus, em capas de revistas e em matérias na Forbes e em outros tipos de artigos sobre negócios. Acesso a um vídeo no Youtube onde ele fala sobre o prêmio que ganhou e um outro em que ele inaugura uma das filiais da Luxus na Itália. Procuro por sua namorada e encontro várias fotos dele ao lado de uma loira linda e estonteante. Bato a tela do Notebook, me sentindo mal. Não quero mais procurar nada sobre ele. Eu nem devia ter pesquisado tudo isso, para começo de conversa. Agora que sei quem é a namorada dele e toda a realidade em que vivem, que é extremamente diferente da minha, tudo o que quero é voltar para casa e nunca mais ter que vê-lo.