Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 48 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 48

 

VERÔNICA

 

O MEU CELULAR TOCA. É o número do Jonas. Vejo seu nome no visor. Pego o aparelho, toda empolgada, porque já estava ansiosa por sua ligação.

— Oi, amor — digo, pronta para perguntar E aí, chegou bem?

— Quero deixar uma coisa bem clara, queridinha... — uma voz feminina surge, me deixando completamente paralisada — Não vou desistir dele. Nunca. Conheço muito bem seu tipo. É só mais uma que passou pela cama dele. Logo Jonas se cansará e voltará pra mim, como sempre faz.

Pisco várias vezes, sem saber o que dizer ou o que pensar. Quem está do outro lado da linha? É a loira socialite, ex de Jonas? Mas o que está fazendo com o celular dele? Meu Deus, levo as mãos à boca, tentando encaixar as peças desse quebra-cabeça. Então Jonas estava com a ex em São Paulo? Meu peito começa a doer e não consigo raciocinar direito. Tudo começa a fazer sentido. Por isso Jonas insistiu que eu ficasse em casa?

— E tem mais — sua voz grave diz, me trazendo de volta à realidade — as coisas vão começar a mudar. Sei que está vivendo com ele na mansão, mas Jonas não ficará mais com você quando nosso filho nascer. Isso mesmo que ouviu. Estou grávida. Não dou nem dois dias para a brincadeira de casinha de vocês acaba...

Antes que termine a frase, desligo o telefone em sua cara. Não quero mais ouvir nada. Já é o suficiente. Revolta. Mágoa. Decepção. Tristeza. Tudo junto. É o que sinto. E muita raiva de Jonas. E muita raiva de mim mesma por ter sido boba a ponto de acreditar nas mentiras dele. Eu devia saber que estava apenas me iludindo. E o pior é que, no fundo, desde que aceitei vir morar com ele, sabia muito bem que estava pisando em terreno minado. Sabia que a reputação de Jonas não era uma das melhores, que era um risco me envolver com ele.

Jonas, pelo jeito, só queria mesmo se aproveitar do meu corpo e se divertir comigo. Sempre demonstrou atração física, e não foi à toa que me contratou para um tour de paixão em Paris, depois em Nova Iorque. Como a atração é forte, resolveu me trazer para a própria casa.

Cafajeste.

Não sou capaz de conter as lágrimas que descem quentes e insistentes pelo rosto. Como fui estúpida... extremamente estúpida e cega... como pude imaginar que queria realmente algo sério comigo? É só uma brincadeira de casinha, como a ex dele mesmo zombou. Jonas certamente se casará com ela. Claro. Terão um filho. Formarão uma família perfeita. Ele está em São Paulo à essa altura em uma suíte de hotel com ela e os dois devem estar rindo às minhas costas.

Respirando fundo, me ponho de pé, num pulo. Não quero ficar mais nesta casa. Nem por mais um minuto. Pegarei minhas coisas e irei embora para nunca mais voltar.

JONAS

 

AO SAIR DO BANHO, vestindo uma camiseta branca e uma calça de moletom preta, eu a avisto deitada na minha cama e algo chama a minha atenção. O meu celular está em suas mãos. A minha cabeça não demora muito tempo para trabalhar e concluir tudo. Imediatamente corro até ela e arranco meu aparelho de suas mãos.

— O que pensa que está fazendo? — praguejo, irritado, me perguntando como conseguir desbloqueá-lo.

Noto que a última chamada havia sido para o celular de Verônica. Não acredito que Paula ligou para ela. Ah, merda. Encaro Paula. Detesto ver a expressão de satisfação em seu rosto.

— Como conseguiu desbloquear? — quero saber, a avaliando.

— Peguei seu telefone assim que o abandonou no aparador. Você não percebeu, mas ele estava conectado no YouTube. Uma de suas entrevistas. Fiquei vend...

— E aí teve a maldita ideia de infernizar minha vida — concluo, exasperado, e irritado comigo mesmo por não ter verificado o celular antes de abandoná-lo no aparador — O que disse a ela?

Dá de ombros e volta para a cama.

— Apenas a verdade, Jonas.

— Que verdade?

— Sobre nós. Que estamos nesse quarto de hotel e que vamos ter um filho.

— Cretina — rosno, tentando controlar a raiva e a vontade de segurar em seu pescoço e apertá-lo até que perca a respiração.

— Você nunca falou comigo desse jeito... — me encara, simulando perplexidade.

— Você não tinha o direito de entrar no meu quarto, pegar o meu telefone e fazer ligações sem o meu consentimento.

— Jonas, por favor, tente entender... essa mulher acabou com a nossa vida... roubou você de mim... é uma vagabunda. Pensa que não sei que a colocou dentro de casa?

— Você vai embora daqui agora — eu a puxo pelo braço, sem paciência alguma e, sem gentileza, e a conduzo para fora do meu quarto.

Não me importo com seus protestos e com sua simulação de choro. Pelo corredor, Paula implora para que eu a deixe explicar tudo melhor, mas não quero ouvir mais nada.

Abro a porta de madeira e a ponho para fora de minha suíte, tendo o cuidado de não empurrá-la com força, para que não caia e depois me acuse de agressão física.

— Jonas! Não acredito que está fazendo isso comigo! Não acredito que está fazendo isso por causa dela!

Volto rapidamente até o interior da suíte, pego sua bolsa e a arremesso em seus braços.

— Acabou, Paula. Supere isso.

— Jonas!

Bato a porta em sua cara e não me importo se está chorando lá fora ou implorando para que eu abra novamente a porta e a deixe entrar.

 

***

Por causa da confusão que Paula causou, decidi voltar mais cedo para casa. Verônica não atendia mais meus telefonemas, então me dei conta de que só poderia me explicar pessoalmente.

Nesse exato momento, piso na mansão e me surpreendo por encontrar Verônica na sala de estar, ao lado de sua amiga. Meus olhos percorrem rapidamente o ambiente e logo em seguida encontram os seus. Largo as malas no chão e abro a boca, mas logo me dou conta de que não sei o que dizer e se eu disser qualquer coisa fora de hora posso acabar estragando tudo. É um momento delicado. Preciso convencê-la de que não tive nada com Paula e que não a estive enganando esse tempo todo.

Verônica cruza os braços na altura do peito e ergue o queixo ao me encarar, sustentando o olhar. A amiga dela pigarreia, aparentemente percebendo o clima ruim entre nós dois, mas já imagino que saiba de tudo o que aconteceu.

— Você deve ser o nosso anfitrião — diz a amiga, sem graça, esticando a mão para me cumprimentar — Prazer, sou a Érica.

Aperto sua mão, a reconhecendo na hora. Ela também trabalhava no hotel com Verônica e, inclusive, estava no meu quarto no dia em que vi Verônica dançar em minha cama.

— Lembro de você. Como vai?

— Ótima — sorri, parecendo ter ficado emocionada com o fato de eu ter me lembrado dela.

Volto a encarar Verônica, um tanto ansioso. Na verdade, queria poder ficar a sós com ela e explicar a minha versão da história. Preciso explicar o que realmente aconteceu entre Paula e eu em São Paulo. Ou seja: nada.

— Bom, acho melhor deixar vocês dois conversarem — Érica fala, toda sem graça, se afastando de nós em seguida.

— Estou indo embora — Verônica anuncia, ainda me encarando.

— Não vai nem me deixar explicar? — indago, chateado por saber que já tomou uma decisão sem ao menos ouvir o que tenho a dizer.

— Falei com sua ex pelo telefone — começa, e imagino que tenha chorado porque seus olhos estão avermelhados. — Ela me disse que vocês estavam juntos no hotel e que vão ter um filho.

— Verônica — aproximo-me um pouco, tentando manter a calma e agir com inteligência.

Sei que a conversa será difícil, afinal, como vou explicar que havia conversado dias antes por telefone com Paula e que já tinha combinado encontrá-la em meu quarto de hotel?

— Não é o que está pensando, Verônica.

— Bom, se não é o que estou pensando, então me explique por favor o que aconteceu. Estou aqui, Jonas. O meu primeiro impulso foi ir embora. Eu já havia arrumado minhas coisas, mas aí pensei: 'Caramba, devo dar a ele pelo menos o direito de se explicar". Por isso fiquei esperando você voltar pra casa. Então, por favor, me explique o que está acontecendo.

Suspiro.

— Certo. Não aconteceu nada entre Paula e eu. Ela me encontrou no hotel porque tinha algo a me contar. Disse que era algo sério, por isso a recebi. Descobri sobre a gravidez hoje pela manhã. Fiquei tão atordoado com a notícia que fui para o banho esfriar a cabeça. Quando voltei, descobri que Paula tinha usado meu celular pra ligar pra você.

— E por que acha que devo acreditar nisso? — leva as mãos ao rosto, parecendo confusa e exausta emocionalmente — Tudo está contribuindo para eu acreditar que vocês estiveram juntos.

Afundo as mãos nos bolsos do jeans. Não sei mais o que dizer. Se não acredita na minha versão dos fatos, será impossível convencê-la.

— O que quer que eu diga, Verônica? Eu não sei mais o que fazer.

— Talvez seja melhor ser franco. Assumir que foi para São Paulo matar a saudade da sua ex, que ainda sente tesão por ela. Eu só peço que seja sincero comigo. Mesmo que me machuque, fale a verdade.

— Não tive nada com a Paula — reafirmo — Se eu quisesse trepar com ela, acha mesmo que precisaria pegar um voo até São Paulo?

— Eu não sei, Jonas... — limpa o que parece ser o vestígio de lágrimas, tentando se recompor. — Você já mentiu tanto... eu não sei o que pensar... sinceramente você não é muito confiável.

Levo uma das mãos ao rosto, esfregando-o, tentando me conter, tentando pensar numa forma de convencê-la que, ao menos dessa vez, sou inocente.

— Como posso acreditar que ela apareceu no seu quarto de hotel e que não rolou nada entre vocês? — insiste.

— Você precisa confiar na minha palavra. Esse é o problema. Você não confia. Sendo assim, não sei mais o que fazer pra convencê-la de que não fiz nada.

— Tudo bem. Talvez seja melhor terminarmos por aqui...

Entreabro meus lábios, mas não consigo dizer nada. Permaneço afastado de Verônica e agora sou eu que estou chateado. Como pode confiar nas merdas que Paula falou e não confiar em mim? Será que sou tão canalha assim? Será que não mereço nenhum voto de confiança?

É certo que fiz muitas coisas erradas e coisas das quais Verônica, inclusive, não tem nem ideia - se tivesse, me odiaria -, mas em relação ao que aconteceu ontem, sou inocente. E agora há uma amargura dentro de mim por ouvi-la dizer na minha cara que não sou confiável.

Viro-me de costas para Verônica e pouso minhas mãos no vidro da porta dupla da entrada, por onde passei minutos atrás. Preciso de um tempo para pensar, de um tempo para absorver tudo isso. Descobri hoje que serei pai. Não estou preparado para isso. E talvez também não esteja preparado para continuar essa relação séria com Verônica. Luiz Miguel tem razão, eu pareço um homem casado agora, um domesticado. Estou perdendo a mim mesmo.

— Certo. Vou pegar minhas coisas... — ouço dizer atrás de mim, mas não me volto para ela.

Ouço seus passos seguirem apressadamente pelo corredor e, em seguida, começarem a subir a escada. Acho que ficou magoada porque não insisti. Lidar com mulheres é sempre muito complicado. Nunca é possível entender o que realmente querem. Então, Verônica vai mesmo embora? Apesar de todas as minhas tentativas de lhe dizer a verdade?

O meu coração diz que devo impedi-la de ir. Já! Que se há alguma forma de mantê-la comigo, devo entrar em ação agora. Que ela, provavelmente, foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Todavia, a minha razão retruca e diz que isso é o certo, que devo mesmo deixá-la partir, que o nosso romance não vai dar mesmo em nada, que mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria.

Minutos mais tarde, ouço Verônica descer lentamente a escada, segurando apenas uma mala. Tenho certeza de que todas as roupas e presentes que lhe dei não estão lá dentro. Ela é orgulhosa demais para pensar nessas coisas materiais.

— Tem certeza que vai? — dou passos até ela, todavia paro no caminho.

Verônica não diz nada. Acho que, no fundo, não quer ir embora, mas está muito magoada para dizer que quer ficar. E quanto a mim, não sei também se é uma boa ideia mantermos algo tão sério assim. Eu a quero, mas não do modo como deseja. Bom, nem sei ao certo...

— Certo. Me deixe ajudar com a mala então — caminho até onde está e pego a mala de sua mão.

— Não tem necessidade, Jonas.

— Eu insisto.

A gente sai da mansão e avisto a amiga dela esperando no jardim. Érica informa que chamou um táxi de aplicativo e que o motorista já está esperando lá fora. Eu as acompanho até o portão de ferro preto e enorme. Olho para o céu. O tempo mudou de repente. O céu está carregado e escuro agora, anunciando que uma chuva logo virá.

Após acomodar a mala no porta-malas do táxi estacionado em frente à mansão, me dou conta de que esse é o último momento. Ou falo agora ou depois que ela for, será tarde demais.

— Verônica — começo, a encarando.

Quero lhe dizer muitas coisas, mas não sei nem mesmo como começar. Sou um cara bom com as palavras quando tenho que convencer alguém nos negócios. Sou implacável e certeiro. Mas na questão de amor, sou uma negação. Consigo seduzir facilmente as mulheres e levá-las para a cama, mas agora com Verônica, que é um caso mais sério, não consigo sequer dizer "fique, gosto de você aqui comigo". A frase está em minha cabeça, mas não sai pela minha boca.

O táxi buzina, chamando-a, enquanto Érica já está aconchegada no banco traseiro, só nos observando do lado de fora.

Verônica me encara, seus olhos castanhos implorando para que eu diga alguma coisa, para que eu diga que a quero e que preciso dela, que ela precisa voltar para dentro de casa e desfazer a mala, que a gente pode tentar.

Seus olhos me dizem que se eu insistir mais um pouco e me mostrar apaixonado, ela cederá. Que só quer que eu peça que fique, que só quer que eu a abrace, que beije seus lábios e diga que só existe ela. Mais ninguém.

Abro a boca, tentando acabar com toda essa angústia, com toda essa tortura, desejando muito que fique, mas também não sabendo se logo em seguida vou me arrepender.

Verônica ainda me encara. Ainda espera. Quer um romance, mas eu só quero sexo.

O táxi buzina de novo, o motorista pergunta se ela vai.

— Adeus, Jonas — finalmente diz, parecendo arrasada e decepcionada por eu não ter tentado mais.

Meus olhos seguem seu movimento. Eu a vejo entrar no carro. Vejo o automóvel partir em seguida, mas permaneço em pé, minhas mãos afundadas nos bolsos do jeans. Pisco, dizendo a mim mesmo que vai ficar tudo bem. No entanto, meu peito aperta. Há uma angústia ao ouvir o carro e vê-lo se afastar cada vez mais.

Antes que o carro vire a curva e suma do meu campo de visão, vou para o meio da rua e corro até ele, gritando que espere, que não vá. A chuva que estava prometendo cair, por fim, cai - bem gelada e fina sobre mim. O táxi finalmente sai do meu alcance. Eu paro no meio do caminho, derrotado, me dando conta de que é tarde demais.

Deixe-a ir, Jonas. Será melhor assim. Ela te odiará se um dia descobrir que foi você que armou tudo e fez da vida dela um inferno. Aquela maldita proposta. Um segredo que precisará levar para o túmulo.

AINDA NÃO É O FIM.

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