Como uma Joia
Capítulo 19
VERÔNICA
ESTOU NERVOSA. Já é noite e o aguardo na sua suíte. Uma bela suíte, por sinal, mas o meu nervosismo é tanto que sequer consigo ficar olhando em volta e admirar o lugar. Tudo o que consigo fazer é tremer e unir os dedos de uma mão nos dedos da outra. Augusto me deixara aqui, à espera do homem. Disse que o patrão dele não demoraria. Em seguida, havia ido embora, deixando-me sozinha, aflita e insegura.
"Calma, Verônica, tente manter a calma".
Respiro fundo. Descruzo minha mão da outra e as desço em meu vestido. Eu o aliso. Estou dentro de um longo de seda amarelo bem sexy e calçando saltos de quase quinze centímetros. Meus cabelos estão soltos e cuidadosamente penteados, com leves cachos nas pontas. O batom vermelho valoriza meus lábios carnudos, os brincos de ouro e a sombra nos olhos completam o visual.
Estremeço quando, de repente, a porta se abre e avisto uma sombra surgir nela. É ele. Só pode ser. Para. Me olha de um modo que me faz congelar. Não. Não só a maneira de me olhar me faz congelar. Tudo nele me faz congelar. Novos passos seguros para a frente e, então, nossos olhos finalmente se encontram pela primeira vez. Pisco. Perco o ar. A confusão vem em minha cabeça imediatamente e me desorganiza toda. Pisco várias vezes, tentando reorganizar a minha mente. Não. Não é possível. Não pode ser. Pisco de novo, mas permaneço o vendo ali bem em minha frente, a poucos metros de mim.
— Você? — minha voz sai surpresa, confusa e incrédula — O que está fazendo aq...?
E então tudo começa a fazer sentido.
— Verônica, eu não queria que fosse assim — diz.
Eu o encaro.
— Você... por quê? — por que ele? Eu nunca imaginaria ele! Não o cara em quem apostei todas as fichas da minha admiração e confiança — Por quê?
Nesse momento ele afunda as mãos nos bolsos do terno azul marinho perfeito. Nossos olhos não se deixam por nenhum momento.
— Desde que a vi dançando em minha cama de hotel, não consegui mais tirá-la da minha cabeça.
Recuo um passo.
— Fiquei louco. Só sabia que precisava de você.
— Verônica, eu...
Recuo outra vez. Não quero mais ouvir o que tem a me dizer. Por que eu fui tão estúpida? Levo minhas mãos ao rosto e uma série de imagens passam em minha mente. Jonas me salvando do amigo dele no quarto de hotel, Jonas na porta do hotel, se oferecendo para me levar pra casa, Jonas sendo gentil, Jonas aparecendo repentinamente no pagode, Jonas ofertando dez mil por mim no concurso, Jonas me seduzindo...
— Meu Deus, como eu fui tão burra?
— Verônica...
Eu o encaro novamente, agora mágoa e decepção me tomando por completo.
— Por que agiu como se fosse o homem mais honrado do mundo?
— Eu não queria causar uma má impressão em você. Você começou a me ver como um homem gentil e a confiar em mim. Eu não queria perder aquilo por nada. Eu a desejava, mas não queria perder a sua admiração. Sabia que me odiaria no momento em que soubesse de tudo, como parece estar fazendo agora.
Por mais que eu o encare e que eu ainda sinta uma coisa forte por esse homem, não aceito o modo como me tratou, como for ardiloso, frio, falso. Estou tão confusa e nocauteada com a revelação que nem consigo mais saber ao certo o que fazer.
Ele, então, chega ainda mais perto, com passos lentos, de um predador que só está examinando a presa.
— Verônica, não sinta raiva de mim — diz, a voz baixa. — Eu preciso de você.
Limito-me a encará-lo. Estou estática e o olhar dele é penetrante demais para que eu consiga fazer qualquer coisa, até mesmo desviar os olhos. Em segundos ele já está na minha frente, bem mais perto, e perco o ar quando sinto o primeiro toque de sua mão. Ela é macia, mas dura, firme. Seus olhos azuis não saem dos meus no instante em que leva minha mão gentilmente aos lábios.
— Será que a gente pode começar de novo?
— Bom, vim fazer o que estava descrito no contrato. Sou uma profissional agora e prefiro que me veja dessa forma porque será dessa forma que o verei.
Ele parece engolir em seco, talvez surpreso com o que acabei de lhe dizer, mas então, assente.
— Será como quiser — diz.
Jonas gira o calcanhar de repente e se afasta de mim. Sigo seus movimentos com os meus olhos e o avisto ir ao bar para se servir com alguma bebida.
— Você quer beber um pouco? — pergunta de onde está, enquanto vejo o líquido âmbar atingir o seu copo de vidro.
— Não, obrigada.
Ele termina de se servir e começa a fechar a garrafa.
— Está decepcionada, eu sei, mas espero que eu possa melhorar essa situação — guarda a garrafa no local onde a pegou e volta lentamente para perto de mim, ainda que não tão perto como anteriormente.
Detesto saber que o Jonas que eu conhecia é diferente de tudo o que pensei que fosse, que ele não passa de um personagem, que ele na verdade é o oposto do que conheci. Estou trêmula, olhando para o cara à minha frente e tentando ainda lidar com todos os sentimentos contraditórios que sinto.
— Você está linda — elogia, seus olhos em mim e sua boca no uísque.
Aproveito esse momento para observá-lo melhor. É praticamente impossível não me sentir desconfortável com essa presença onipotente tão próxima à minha. De fato, ele é um homem magnífico com M maiúsculo e tem um olhar extremamente intimidador. Não está mais tomando seu uísque agora. Seus olhos estão em mim, sabendo provavelmente que eu o estudo agora. Seu queixo é firme e seus cabelos escuros parecem mais negros do que eu me lembrava. Sua colônia tomou conta do ambiente desde que ele passou pela porta e tenho medo de que ela possa ser capaz de me fazer fraquejar, mesmo eu não devendo.
— Você está bem? — quer saber.
Como eu poderia estar bem depois de tudo o que descobri? No entanto respondo a ele:
— Sim, estou.
— Bem-vinda à Paris. Podemos sair pra conhecer a cidade amanhã, se gostar da ideia — comenta, atencioso. — Tenho um compromisso na parte da manhã, mas nada que tome muito o meu tempo e me impeça de sair com você à tarde. Teremos a tarde toda livre. E posso te mostrar alguma parte da cidade.
Não sei o que responder. Não sei o que pensar. Foi por isso que Augusto foi impedido de me revelar a identidade do patrão? Obviamente que sim. O que me sugere o quão calculista Jonas é. Engulo em seco. Na verdade, adoraria sair para conhecer Paris, mas não na companhia dele. Agora que o vejo como realmente é todo o encanto ficou para trás. Acabou. Eu gostava mais do antigo Jonas. Eu estava me envolvendo por ele... me apaixonando... não por esse que me quer como uma prostituta... e quanto a conhecer Paris, prefiro ir sozinha ou até mesmo na companhia de Augusto, que é alguém com quem já me sinto um pouco mais à vontade, se for o caso.
— Verônica — continua ele, chegando mais perto. —, preciso que me perdoe e realmente que não haja formalidades entre a gente. Me chame de Jonas. E saiba que não precisa se sentir obrigada a fazer o que não quer. Isso aqui é uma viagem, não uma prisão. Portanto, espero que se divirta.
Divertir-se? Está brincando? Bom, isso fala o cara que me enganou esse tempo todo, que fingiu ser outra pessoa quando na verdade é uma totalmente diferente.
Nesse momento o celular dele toca e eu imagino que possa ser sua namorada. Ou talvez seja apenas uma ligação do trabalho.
— Eu preciso atender — diz — eu já volto.
Ele me dá as costas, põe o aparelho no ouvido e começa a falar com a pessoa do outro lado. Olho para a imensa porta de vidro que dá para uma varanda e vou até lá. Um pouco de ar me fará bem. Em fração de segundos eu me pego observando a vista encantadora da cidade. Paris é um sonho. Não há nada que explique o que a cidade é e o que estou sentindo. Olho para trás e Jonas ainda está tendo uma ligação de dentro da suíte. Suspiro. Volto o meu olhar para a bela vista e tento relaxar, ainda que isso seja difícil e angustiante. Fecho os olhos e tento me perder por alguns minutos, até que uma brisa de repente atinge minha pele e deixam meus pelos dos braços eriçados. Estremeço mais ainda quando sinto que não estou mais sozinha aqui fora.
Eu me viro para a frente e encontro um par de olhos azuis bem vivos. Deus, ele é mesmo lindo. E extremamente sexy. Tem um sorriso perfeito nos lábios e seu olhar parece ser capaz de penetrar a alma. Todavia um alerta apita em minha mente. Não, você não tem que se envolver com ele. É só sexo. Algo carnal. E pago. E ainda que ele esteja se esforçando para ser atencioso e agradável, ele te enganou! Te iludiu! Encarnou um papel esse tempo todo!
— Gostou? — indaga. Como não respondo, diz: — Venha ver isso — pega a minha mão, e me conduz até o outro lado da varanda. Ao chegarmos lá, aponta para uma luz brilhante, que de longe parece ser apenas um ponto amarelo no meio de toda a cortina azul do céu. — Está vendo?
— É a Torre Eiffel — sorrio por um único momento, minha voz num sussurro, meus olhos mirando o ponto, completamente encantada.
Realmente isso tudo é incrível e acho que nunca teria uma oportunidade linda como essa um dia se não fosse.... bom, se não fosse por ele e pela situação. Nunca havia imaginado que um dia estaria aqui, em plena Paris, vendo a famosa torre, mesmo que de longe. E isso, sim, parece um sonho. Mas também haverá um momento que se tornará um pesadelo.
— Gosta do que vê?
— É incrível — sussurro.
— Podemos ir até lá amanhã ver de perto, se quiser.
— Eu não sei...
De repente a brisa fria surge de novo e eriça todo o meu corpo.
— Está com frio — pega outra vez em minha mão. — Venha, vamos entrar. Há uma lareira lá dentro.
Jonas abre o caminho e me deixa passar primeiro. Assim que passa pela vidraça, fecha a enorme porta e me segue. Ele tem razão. Aqui dentro da sua suíte está bem mais quente. Sinto-me melhor no calor da sala aconchegante, a lareira acesa, apenas os abajures iluminando o cômodo. Jonas aproxima-se devagar. O momento parece propício para uma investida, mas... as luzes da sala estão apagadas e apenas os abajures iluminam todo o ambiente. Aproxima-se mais lentamente, toca meu braço delicadamente. Sinto minha pele arrepiar com seu toque. Cerro meus olhos e tento pensar que estou em outro lugar e não nessa situação.
Pousa o dedo indicador no meu lábio, brincando com ele, e lentamente começa a beijar meu braço... depois o pescoço, o ombro. Estremeço ainda mais com seu toque — não sei o que é pior: o frio ou seus lábios contra a minha pele agora. Jonas, então, passa a segurar minha cintura com uma das mãos, e me puxa para si. Suspiro. Por um momento, fico sem ação, sentindo meus seios contra a dureza de seu peito. Minha nossa, ele é enorme e duro! Estou tão tensa, tão nervosa... tensa demais para esboçar qualquer reação. Ele continua beijando meu corpo insistentemente, até que afunda o rosto na curva de meu pescoço e me deixa sem ar. Ah, meu Deus... isso é maravilhoso. No entanto uma confusão paira em minha mente. Ele não quer romance comigo, quer apenas me levar pra cama e fazer de mim seu brinquedo de luxo... eu estava prestes a me apaixonar por ele, a lhe entregar meu coração... e agora tudo o que sei é que quer me usar.
Uma sensação estranha vem em mim e não consigo relaxar. Eu o empurro com delicadeza, então fujo de seus braços. Sequer espero pela sua aprovação. Simplesmente passo por um Jonas imponente, poderoso, e caminho até à saída. Sinto seu olhar de surpresa e confusão atrás de mim, mas ele não vem atrás para me impedir de ir. Puxo a maçaneta da porta e me retiro da suíte, deixando para trás um homem que tenho certeza de que não está acostumado a ser rejeitado.