Como uma Joia
Capítulo 3
VERÔNICA
LEVO um susto quando o barulho estronda no quarto escuro e silencioso. O meu velho celular Motorola. Eu havia chegado em casa três horas atrás, tomado um banho e comido rapidamente o jantar. Em seguida caíra na cama. Ficar acordada até tarde assistindo a filmes na televisão já não fazia mais parte da minha rotina. O celular continua resmungando e sem mesmo consultar o visor, sentindo meus olhos embaçados de sono, levo o aparelho ao ouvido.
— Oi, princesa! — fala uma voz bem familiar, do outro lado da linha.
Cidão. Meu namorado.
Pelo tom de sua voz, está sorrindo. E no fundo ouço muita algazarra e ruído.
— O que foi, Cidão? — bocejo, esfregando um dos olhos tomados por sono — Já é tarde... estou cansada...
— Onde você tá, minha joia rara? Eu tô aqui no Zinho bar te esperando. O pagode tá começando agora. Você não vem?
— Que pagode, Cidão?! — reclamo, irritada e indignada. — São duas da manhã! Pelo amor de Deus! Você sabe que levanto às cinco pra trabalhar todo dia! Esqueceu?
— O quê? Fala mais alto, joia rara. A ligação tá baixa... pô, minha deusa, não comentei ontem com você que Os Malandros iriam tocar? — Ele ri como uma criança excitada com alguma novidade idiota. — Convidados de honra, princesa. Sabe o que é isso? Os parças e eu estamos com moral. Hoje a noite é nossa.
Reviro os olhos e tenho certeza que apertaria seu pescoço se Cidão estivesse aqui na minha frente. Como ele é sonhador e imaturo. Está na cara que o dono do bar vai dar mais um calote neles.
— Verônica — sua voz me chama outra vez — você tem que vir. Sabe que a mulherada cai em cima de vocalista de pagode.
Reviro meus olhos outra vez. Se Cidão soubesse o quanto desejo me livrar desse compromisso que tenho com ele...
— Só quero saber que tenho que dormir pra acordar cedo amanhã, Cidão! Boa noite e bom show — desligo a ligação.
E como não quero correr o risco de ter meu sono interrompido outra vez, já que Cidão não é do tipo de desistir tão fácil, desligo o aparelho. Em seguida, afundo minha cabeça outra vez no travesseiro. Respiro fundo. Penso um pouco. Cidão não é um cara ruim. Mas sei lá, a gente já não anda bem faz tempo. Acho que nunca deu certo de verdade. Além do mais, ele é tudo o que não admiro em um homem: sonhador, imaturo, acomodado, iludido, boêmio. Para piorar, não gosta de trabalhar. A desculpa que sempre dá é que não há emprego tão bom para ele e também que não nasceu para ouvir merda de chefe nenhum, todavia sei muito bem que o problema é preguiça. Conheço muito bem suas artimanhas e posso decifrá-lo perfeitamente. Às vezes tenho vontade de romper com ele. Na verdade, já fiz isso várias vezes, mas em todas elas Cidão chorou muito e se humilhou de uma forma que me fez voltar atrás na decisão. No fundo, não sei o que será de nós dois. Acho que desde o início só houve pena e gratidão. Cidão foi quem ajudou a minha família quando chegamos no bairro. Exceto um grande carinho por ele, não sinto mais nada.
***
Quando acordei na manhã seguinte já eram seis e meia e isso significava que eu estava super ferrada! Me arrumei, saí de casa sem mesmo tomar o café, corri. Agora são exatamente sete e quinze e estou entrando, completamente nervosa, no Hotel. Por causa do fato de eu ter desligado o telefone para ficar livre do Cidão, acabei não tendo o alarme para apitar. Sem querer perder tempo, levo meus passos para o primeiro elevador que encontro pela frente. Quando me dou conta, estou paralisada diante dele.
Olhos azuis...
Cabelos castanhos escuros, quase negros...
Olhar sedutor e sexy...
O ricaço da cobertura, o mesmo que me flagrou dançando em sua cama na manhã anterior. Meu Deus, o que me deu na cabeça pra subir na cama do cara e fazer aquela dança idiota? Agora nem posso mais encará-lo. Merda!
Um calafrio percorre minha espinha e uma vontade absurda de enfiar a cabeça no primeiro buraco pela frente vem. Não consigo sequer balbuciar um "bom-dia". Me recolho à minha insignificância. Dou um passo à frente, mas desvio o olhar.
— Ei! — grita o ascensorista, com ar autoritário. — Você não pode entrar aqui. Tem que pegar o elevador dos funcionários!
Sim, sei disso, mas como estou muito atrasada, achei melhor arriscar. Se ele não me barrasse eu seria capaz de chegar mais rápido ao 11º andar, onde encontrarei Érica com o meu uniforme. Mas agora estou tão envergonhada que nem consigo resmungar nada. O elevador para, mas antes que eu saia, uma mão segura meu pulso.
— Espere — uma voz profunda soa perto do meu ouvido.
Ergo meus olhos outra vez para encarar o cara. Caramba! Como é lindo! E alto. Elegante. Cheio de vigor. Voz rouca perturbadora. Desço meu olhar para a sua mão em minha pele e estremeço toda. Ouço o ascensorista murmurar um pedido de desculpas, mas o sujeito ao meu lado levanta uma mão, mandando que ele fique em silêncio.
— Pra qual andar, senhorita? — indaga o executivo, me fazendo erguer os olhos para fitá-lo outra vez.
— 11º andar... por favor...
Ele mesmo aperta o botão número 11. O ascensorista pigarreia, parecendo envergonhado. Nós três permanecemos em silêncio até chegar a minha vez de descer. Quando o número no painel aparece e a porta se abre, a vergonha não me deixar virar nem mesmo para agradecer. Apresso os passos para fora e sigo quase correndo para o encontro de Érica. Eu a vejo no local combinado - uma espécie de um quarto desativado.
— Até que enfim chegou! Quase não consigo despistar a Leila. Venha, aqui tá seu uniforme.
— Você não sabe o que aconteceu comigo agora há pouco... — estou sem fôlego por ter corrido e começo a me trocar rapidamente — Vim no elevador social e o ascensorista me barrou.
— Não brinca — me auxilia a colocar as roupas.
— Ele me mandou sair.
— Sério? E aí?
— E aí que... lembra daquele ricaço lindo... o da cobertura? Ele me defendeu.
Érica abre ainda mais a boca, parecendo não acreditar na minha história.
— Sério? — esse "sério" dela sai bem mais longo. Sai "sériiioooo?
— Sério. Então... ele, o cara da Luxus, bom, ele não parece ser tão esnobe assim. Ainda bem que só estávamos nós três no elevador, pois eu não sabia onde enfiava a minha cara.
Érica ergue as duas mãos, parecendo pensativa e absorvendo a história.
— Espere aí. Está me dizendo que aquele pão maravilhoso e podre de rico defendeu você, uma simples camareira, que ainda por cima fez travessura na cama dele outro dia desses?
— Isso mesmo... Hum, pronto. Terminei. Vamos?
— Vamos! Antes que a Leila nos mande pro olho da rua. E no caminho vai me contar tudinho o que aconteceu nesse elevador!
***
O CÉU já está estrelado quando chego sozinha ao Zinho bar. Érica, que a princípio, iria comigo, mudou de ideia na última hora, alegando que estava muito cansada e um tanto desanimada para pagode esta noite e, portanto, iria direto para a casa. Suspiro. O bar está cheio de gente e encontro um pouco de dificuldade para procurar Cidão. Contudo, não preciso me inquietar, pois ele logo me encontra. Aparecido Bezerra Pinto é o verdadeiro nome do meu namorado. Completou trinta anos meses atrás e nutre um sonho muito antigo de ser artista. "Gente importante, joia rara. Um dia você vai ver.", ele costuma dizer. Sinto o quanto anseia por isso, mas tenho medo de que sofra uma grande desilusão. Toca em um grupo musical que mistura samba e pagode, Os Malandros, e vive dizendo que um dia seu talento será finalmente reconhecido. Cidão não é dado ao trabalho, muito menos aos estudos, mas consegue se virar vivendo de bicos e de apresentações musicais em alguns bares pelas redondezas. Nos conhecemos há quatro anos e desde que "namoramos" Cidão não consegue nenhum emprego de carteira assinada. "O que você vê nele?", as vizinhas me perguntam. "Você merecia coisa melhor, moça", outras falam. "Você parece ter pé podre para namorado. Foi escolher logo o duro e ridículo do Cidão?", minha irmã sempre zomba. Suspiro outra vez. A verdade é que nem eu mesma sei o que deu em mim quando aceitei ficar com ele. Acho que foi mesmo gratidão. Ele foi o único que saiu da quadra onde estava jogando uma pelada quando minha família e eu chegamos de mudança. Pena que seus defeitos sobressaem sobre suas qualidades. Não sou apaixonada por Cidão. Nunca fui. Mas com o passar dos anos, aprendi a sentir um carinho especial por ele. No entanto, verdade seja dita, não imagino o resto de minha vida ao lado dele.
— Você veio, joia rara. — Sorri, beijando meu rosto. — Ô, que surpresa boa!
— Vim direto do trabalho, Cidão, mas não posso demorar. Você sabe, trabalho em um hotel e estou sempre exausta. Além do mais, meu pai anda muito doente ultimamente.
— Mas mal chegou e já tá pensando em vazar? Que porra é essa? — resmunga, voltando a me beijar, enquanto me esquivo. Por um momento detesto seu beijo. Já é visível que a nossa relação vai de mal a pior.
— Você não entende... — me afasto um pouco de seu toque — Ei. Escute. Olhe à sua volta. Não é isso o que quero pra mim, Cidão... pra minha vida — dou um longo suspiro — Desculpe, mas não quero perder meu tempo e meus fins de semana em rodas de samba.
Sorri, fitando-me, com os olhos escuros brilhando.
— Ainda vou ser muito rico, minha joia. Muito rico mesmo. Vai ver. E vou te dar um vidão. Isso aqui é só o começo. Ainda vem muita coisa boa. Acredite.
Suspiro outra vez, cruzando meus braços na altura do peito, completamente descrente disso, mas, prefiro me calar.
— Venha, vamos sentar — me conduz até uma mesa de bar qualquer.
As aparentemente infinitas horas passam e quando o pagode finalmente acaba, dou graças a Deus por isso e porque vou poder ir direto para a casa. Cidão me acompanha até o portão. Tentando evitá-lo ao máximo, forjo uma breve despedida e imediatamente entro porta adentro. Estou exausta, sem paciência e sem tempo para namorar também. Eu me sinto muito mal com isso, mas a verdade é que tento evitar ao máximo seu beijo. Fizemos sexo apenas duas vezes em todos esses anos de namoro e nenhuma delas foi satisfatório pra mim. "Você deve romper tudo de uma vez", minha consciência avisa e sei que é o certo a se fazer, mas ainda não sei como.
A primeira vez que tentei uma coisa parecida, Cidão chorou e implorou para que eu mudasse de ideia. Me mandou várias mensagens via celular no dia seguinte e gastou boa soma de dinheiro só me telefonando. No entanto, agora me arrependo amargamente por ter voltado atrás. Não dá mais. É um tipo de relacionamento que vem acabando comigo e me sufocando. "Ele é um verdadeiro atraso de vida. Enquanto você ficar com ele, como vai conhecer outros caras que realmente valham a pena?", Érica comentou uma vez. Deito-me na cama e penso se algum dia vou encontrar alguém que realmente mexa com meus sentimentos. Contos de fadas não existem, é verdade, mas será que nem ao menos o cara ideal, vou encontrar algum dia? Lembro-me do casamento dos meus pais e sorrio. Eles parecem se amar. Sentimento recíproco- não só uma das partes envolvida. E é isso o que quero para minha vida.
Alguém empurra a porta, me tirando dos meus pensamentos. Vejo Vanessa, minha irmã mais nova.
— Seu namorado está se achando o verdadeiro artista — seu tom é de puro deboche.
Ela se senta em sua cama e começa a tirar os saltos dos pés. Assim como eu, Vanessa também estava no pagode no Zinho Bar. Só que diferente de mim, que estou doida para me livrar do meu namorado, ela quer arranjar um namorado lá. Vanessa sempre comenta que está à procura de um bom partido, que segundo ela, é um cara que ganhe bem, tenha carro e a leve para jantar fora.
— Ve, será que você pode me arranjar trezentos até semana que vem? — me encara, seus olhos castanhos escuros tomando conta dos movimentos do meu rosto.
— Eu já te emprestei duzentos na semana passada e você ainda não me pagou, Vanessa.
— Eu sei, mas é que preciso muito dessa grana. É coisa importante. Juro que vou pagar tudo junto depois e com juros.
Suspiro, saindo da minha cama de solteiro, e vou até à minha cômoda, onde guardo praticamente todas as minhas coisas. Pego um livro no qual guardo meus documentos e dinheiro. Tiro trezentos reais e entrego à Vanessa.
— Você é a melhor irmã do mundo — sorri e guarda o dinheiro que lhe dei na bolsa dela.
— Posso saber pra que é?
Ela me encara, o sorriso amarelo no rosto.
— Eu vi um vestido lindíssimo no shopping e jurei a mim mesma que vou tê-lo.
— Um vestido de trezentos?
— Ah, mas ele é magnífico. Quando vê-lo, vai babar. E ele ficou perfeito em mim.
— Vanessa, a gente deveria estar economizando. Você sabe, o pai está doente e as coisas não estão fáceis. Além do mais, a mãe dá o maior duro, passando roupa pra fora e o que ela ganha é muito pouco. Eles precisam de nós.
— Eu sei, eu sei, tá? Não venha com esse ar de filha generosa, querendo me fazer sentir a vadia da filha egoísta e insensível não, porque isso não vai dar certo.
Cruzo meus braços no peito, mas me calo.
Vanessa sequer tira o vestido que usou no pagode. Ela se deita na cama, puxa o lençol até seu corpo e então me deseja um breve "boa noite".