Como uma Joia
Capítulo 5
VERÔNICA
OLHO distraidamente pela janela do metrô lotado enquanto estou voltando para casa em mais uma viagem cotidiana e cansativa. A imagem do homem lindo e musculoso vem subitamente à minha mente. Na verdade, ela não sai da minha cabeça desde aquele dia em que fui flagrada em sua cama. E tudo só piorou depois do episódio do elevador. Como é mesmo o nome dele? Ah, sim. Jonas. Ele havia sido antipático e até mesmo duro comigo e com Érica na suíte quando me viu em sua cama, no entanto, não posso julgá-lo. O cara nos pegou fazendo bagunça em sua suíte. E nós somos as funcionárias do hotel, não as convidadas dele! Para ser sincera, ele se mostrou bastante compassivo ao não nos denunciar à gerência.
Mordo meu lábio inferior, sentindo algo estranho tomar meu ser. Ah, meu Deus, Verônica, não. Você é a garota serena e pés no chão. Deixe as ilusões para Vanessa e Érica. A verdade é que nunca liguei para homens ricos e bonitos, mas agora a imagem do cara lindo não me deixa em paz por nada. Enquanto estive em sua cobertura, a sua colônia importada me confundiu e me perturbou o tempo todo, me impedindo de trabalhar normalmente. Em um dado momento de loucura, peguei seu travesseiro e o aspirei. O cheiro gostoso masculino estava lá. Estava no quarto inteiro. E até mesmo agora não abandona as minhas narinas. Sua altura sobre a minha, o modo como seus olhos azuis soaram sedutores e selvagens horas atrás quando me viu outra vez em seu quarto... oh, não, Verônica. Não. De jeito nenhum. O que aquele homem rico e poderoso iria querer com você? É apenas a camareira do hotel onde ele está hospedado! Em breve ele irá embora e nunca mais o verá - a não ser nas capas de revistas das bancas de jornais.
Quando o metrô para na estação da Central do Brasil, saio juntamente com o mundo de gente que estava comigo no vagão. Ajeito a minha bolsa a tiracolo em um dos ombros e percorro o caminho da estação. Minhas pernas estão doendo por eu estar tanto tempo em pé. Foram quase cinquenta minutos de viagem. Preciso ainda pegar um ônibus até chegar em Irajá, onde moro. Pois é. A rotina é cansativa. Dou sinal ao ônibus e agradeço a Deus porque por sorte, ele está vazio e é um ônibus rápido, que não vai ter muitas paradas até chegar no meu bairro.
Passo pela roleta e sinto um olhar masculino me acompanhando. "Que rabinho gostoso...", o sujeito murmura e então faço cara feia para ele, me contendo para não mandá-lo à merda. É assim que os caras sem educação e escrúpulos agem. Nos comem com os olhos como se fossem meros animais selvagens. Caminho pelo coletivo e me sento no banco perto da janela. Suspiro. Logo a imagem do cara, Jonas, me volta à mente. Eu tento a todo custo mudar meus pensamentos, mas então eles voam até Cidão. Ainda que eu não sinta nada por ele, tenho que respeitá-lo!
Os minutos passam e quando finalmente chego em casa, encontro o meu pai em frente à tevê.
— Oi, pai — dou-lhe um beijo carinhoso no rosto.
— Oi, querida — sorri com o meu beijo, mas permanece mirando a tevê — O Cidão não foi buscar você? — ele ainda mantém os olhos no jogo do Flamengo.
— Ah, não. O senhor sabe, não gosto de depender de ninguém.
— Mas um namorado tem que ser gentil, ainda mais com uma namorada bonita feito você. Ele não pode dar bobeira. Os outros gaviões ficam de olho — ri consigo mesmo e sorrio de volta, sabendo que mesmo que eu pedisse, Cidão não me buscaria no ponto de ônibus. O tempo dele é longo, mas ele só o gasta com o samba e o pagode.
Levo os meus passos para o corredor estreito que dá nos quartos e quando empurro a porta, encontro minha irmã toda risonha e animada, olhando os produtos da Avon e as maquiagens da Mary Kay que a Cristiane provavelmente trouxe.
— Oi — digo a elas.
— Oi, Verônica! Corre aqui e vem ver o que eu trouxe. Agora estou revendendo Mary Kay também. Posso até conseguir uma promoção bacaninha pra você.
— Eu não sei, Cris, ainda não recebi pagamento. Eu não gosto de fazer dívida, você sabe que gosto de pagar tudo direitinho.
Vejo Vanessa resmungar e fazer cara de pouco caso porque eu disse isso. É que ao contrário de mim, minha irmã está sempre contraindo dívidas de Avon, das calcinhas da Demillus e de várias outras coisas e acaba que no final nunca é ela a pagar. Vanessa costuma dizer que se pudesse ter escolhido, teria nascido numa família rica e elegante. Ela adoraria ser socialite, aquele tipo de pessoa fútil que aparece nos reality shows.
"Se eu fosse tipo uma irmã do Neymar, eu seria mil vezes mais feliz", disse.
"Eu acho que se você arranjasse um emprego, você seria tipo mil vezes feliz também", disse nesse mesmo tom a ela, que fez cara feia, contrariada porque toquei bem em sua ferida.
— Ah, Verônica, vem cá — Cris pede e sei que ela precisa muito de ajuda. Ela trabalha com Avon há uns bons anos e sei que é uma forma de conseguir um extra. Cris vive com a mãe idosa e tem um filho pequeno pra criar — Que tal esse batom? Vai fazer o Cidão ficar louco. Pede pra ele comprar pra você. Namorados têm mesmo que presentear as namoradas.
— Cidão? — Vanessa zomba — É mais fácil um camelo passar por uma agulha. Além do mais, ele não tem onde cair morto. Não sei o que a doida da Verônica ainda faz com ele.
— Não seja tão dura, Vanessa — eu me sinto na obrigação de defender o Cidão, ainda mais porque ele não está presente para fazer isso por si mesmo. Além do mais detesto o modo como minha irmã gosta de humilhar os outros. Viro-me para Cris e digo: — Eu vou dar uma olhada nos produtos sim — sorrio para a Cris porque não custa nada ajudar. Mesmo estando apertada, posso comprar algumas coisinhas.
Depois que Cris vai embora, tomo um banho e ajudo a mãe na cozinha, colocando os pratos na nossa mesa simples de ferro. O pai está sentado na cadeira, contando como ajudou o vizinho na oficina esta tarde. Ele ignora o fato de que está doente e que precisa se cuidar. Vanessa vem do quarto e afunda a bunda na cadeira, sem mesmo se oferecer para ajudar em alguma coisa. Ela já tem vinte e dois anos e age como se fosse ainda adolescente. Detesto também a forma como ignora a doença do pai e como explora a mãe nos serviços domésticos. Mas ao invés de reclamar, faço eu mesma a minha e a parte dela.
— Como foi o seu dia, filha? — a mãe quer saber, me encarando, sempre com o semblante cansado.
— Foi bem, mãe — respondo. Faço questão de dizer que está tudo bem para ela não ter que se preocupar.
A gente janta reunido na mesa e depois de escovar os dentes, caio na cama. Ando tão cansada, que logo pego no sono.
***
No dia seguinte, Leila me manda ir para a cobertura, mas tento convencê-la a mandar Érica em meu lugar.
— Qual o problema com a cobertura? — a supervisora arregala seus olhos castanhos mel em minha direção.
— Bom, é que... — balbucio, mas acabo me atrapalhando com as palavras porque na verdade não há razões para esse meu pedido — é que, sei lá...
— Todo mundo quer a cobertura, Verônica. Não seja boba. É o andar mais luxuoso do hotel. E onde está o hóspede mais gostoso.
Engulo em seco.
— Agora chega de "mas". Andem! Comecem a trabalhar!
Érica me puxa pelo braço e cochicha em meu ouvido:
— Que história é essa de se livrar da cobertura? O que está acontecendo, que eu ainda não sei?
— Esqueça isso, Érica. Não é nada, é que... você sabe, desde aquele dia que dancei na cama do cara da Luxus, me sinto mal de ter que vê-lo...
— Mas você o viu no elevador e disse que ele a tratou muito bem. Então ele não pode estar bravo com o lance da cama.
— Mesmo assim, eu não me sinto à vontade. Além do mais, sou nova aqui. Só de pensar que posso perder o emprego, fico louca. Meus pais precisam de mim.
— Certo. Mas sabe que se precisar pode falar comigo.
— Claro que sei. Obrigada.
Érica e eu nos despedimos quando ela desce num andar anterior ao meu. Suspiro e me obrigo a respirar fundo quando estou sozinha no elevador. Quando o painel acusa a cobertura, peço a Deus que me ajude. Quando já estou na frente da porta, digo a mim mesma: "se controle, Verônica. Vai ficar tudo bem".
Passo pela porta e um alívio vem porque não há ninguém. Ajeito o meu uniforme e levo os meus passos até o quarto. Quero fazer o serviço muito bem feito, mas o mais rápido o possível. Só de pensar na ideia de ser pega outra vez, meu peito palpita. Giro a maçaneta da porta da suíte com cuidado, mordendo meu lábio inferior. Novamente não há ninguém, então começo a cuidar do jogo de cama.
Estou distraída com o trabalho quando de repente sinto a presença de alguém me vigiando. Não quero olhar para trás, mas sei que só pode ser ele ali atrás de mim. Tento fingir que não o sinto. No entanto, meu corpo é mais rápido que meu cérebro. Eu me pego o encarando e lá está o executivo, os ombros encostados no batente da porta, os braços musculosos cruzados na altura do peito, deixando seus bíceps mais acentuados. Engulo em seco, mas tento disfarçar. Sua altura é perfeita, o modo como ele se faz intimidar é assustador. Seus olhos são os azuis mais lindos que já vi, mas ao mesmo tempo que são suaves, são misteriosos e selvagens. E agora estão analisando o meu corpo. De uma maneira sutil, mas não tem como eu deixar de notar. Tenho certeza de que há um leve O formado em meus lábios.
— Olá — ele é o primeiro a quebrar o silêncio do quarto e sua voz tem um quê rouco que me abala. Ele não está sério como da primeira vez que o peguei me espiando. Agora há um pequeno esticar em seus lábios.
— Senhor, eu vim a trabalho — me explico, porque da outra vez ele perguntou exatamente isso: vieram a trabalho ou à diversão? — Estou apenas arrumando as coisas. Não se preocupe, já vou sair.
Ele olha em redor, provavelmente procurando por minha amiga.
— Está sozinha?
— Sim — engulo em seco.
— E hoje não tem dancinha — seu sorriso se abre mais um pouco e ele se afasta da porta. Chega um pouco mais perto e fico completamente sem ação porque foi impressão minha ou ele acabou de zombar do episódio da dança?
— Hum, por falar nisso, senhor, quero muito agradecer por ter se calado. Poderia ter nos denunciado e não o fez. Obrigada.
— Eu não denunciaria — ainda está me encarando, com os braços musculosos cruzados, como se estivesse bem mais relaxado e descontraído hoje.
— Mesmo assim, obrigada.
Seus olhos não deixam de me avaliar por nenhum momento, mas não estão no meu corpo agora. Me dou conta de que devo voltar a trabalhar, então murmuro a ele que vou terminar o serviço no quarto para depois cuidar da limpeza dos utensílios. Ele não diz nada e de repente leva o celular ao ouvido para falar com alguém. Enquanto estou arrumando as coisas, eu o ouço fazer algumas ligações. Depois volta a ficar em silêncio e sinto como se estivesse me analisando. Mas não quero encará-lo para ter certeza.
De repente a campainha toca e ele sai do quarto para atendê-la. Termino de arrumar as coisas e então caminho para a sala. Avisto um outro sujeito. O baixinho e barrigudo. Esse me encara. Os dois estão conversando sobre negócios e então gosto de me sentir invisível ali. Me mantenho de costas para eles, limpando o balcão de madeira. É como se eu não estivesse presente e gosto disso. O hóspede da cobertura vai até a suíte principal pegar alguma coisa e o seu amigo fica na sala sozinho observando as coisas. De repente viro o meu rosto e ele está me avaliando também atrás do copo de uísque. Eu me viro de volta para a frente, me concentrando em meu trabalho. Eu me abaixo um pouco com cuidado para passar o pano no vidro super limpo da mesa. Sinto o sujeito gordo mais perto de mim, às minhas costas, e sinto o seu hálito em meu ouvido.
— Que traseiro lindo você tem.
Por um minuto acho que vai passar a mão em mim, então me viro na mesma hora para ele, que me encara e leva o copo de uísque à boca. Ele desce o olhar malicioso outra vez em meu corpo na cara de pau - é a mesma coisa que o amigo fez lá dentro do quarto, mas apesar de tudo, o olhar do outro não me incomodou tanto. O baixinho chega mais perto de mim e seu dedo polegar toca meu queixo.
— Você é uma graça — ele é mais baixo que eu e é nojento.
Nesse momento ouvimos o executivo voltar para a sala e então o baixinho se afasta de mim. Tenho vontade de vomitar, mas me viro de costas para ele. Me obrigo a terminar o trabalho. Quando finalmente termino, saio da cobertura, pensando em não voltar mais lá.