Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 14 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 14

 

 

JONAS

 

— SABE DE UMA COISA? — a tal Vanessa fala em meu ouvido, surgindo atrás de mim — Não desisto tão rapidamente das coisas.

Ela contorna meu corpo e fica outra vez na minha frente. Eu a olho de cima a baixo e reconheço que a garota é determinada. Até começo a me perguntar se valeria a pena comê-la. De fato, não é de se jogar fora. No entanto, falta alguma coisa nessa embalagem à minha frente. Sem dúvida a irmã é uma opção muito melhor.

— Então, você não vai dizer nada a respeito? — insiste, jogando os braços em volta do meu pescoço, nem mais se importando de disfarçar que está se jogando aos meus pés.

— Você é realmente determinada, tenho que admitir — levo meu copo de cerveja para mais um gole.

— Isso é um ponto positivo ou negativo?

— Depende da perspectiva. Mas seria realmente positivo, se eu, de fato, estivesse interessado — retiro gentilmente seus braços de volta do meu pescoço — Quem sabe um outro dia? Agora preciso fazer uma ligação. Com licença.

Afasto-me da garota atirada e finalmente deixo o bar, levando o meu celular ao ouvido.

— Augusto — digo assim que meu assessor atende do outro lado da linha — Conseguiu descobrir alguma coisa sobre a garota?

— Sim, senhor — pigarreia — ela mora com os pais numa casa no subúrbio...

— Isso eu já sei, porra. Quero saber de algo mais significante.

Parece pigarrear outra vez do outro lado.

— O que o senhor não sabe é que essa casa onde moram não está devidamente quitada.

Paro na hora porque esse comentário realmente ganha a minha atenção.

— Como é? Me explique isso melhor — eu me afasto mais do bar porque o barulho ensurdecedor do pagode atrapalha a ligação.

— Ainda faltam cerca de trezentos mil para a casa ser quitada, senhor. E o prazo está perto do fim. A família corre o risco de perder o lugar onde mora.

— Tem certeza disso? — recosto-me na lataria do meu carro e afundo uma mão no bolso, me sentindo um grande filho da puta, mas um filho da puta com um trunfo na mão.

— Infelizmente sim, senhor.

— Trezentos mil para conseguir dentro de um prazo... — falo comigo mesmo, mas sabendo que Augusto ainda está na linha — Isso parece impossível para uma família humilde como a dela.

— Sim — suspira — O pai é um porteiro aposentado e a mãe uma dona de casa. E quanto a filha, ela não ganha muito no hotel. A situação é realmente complicada. Sem falar que o pai está doente.

— Ela não teria recusado a proposta se soubesse dessa dívida, o que me leva a crer que Verônica não sabe de nada. O pai provavelmente está escondendo isso da família toda e talvez esse segredo esteja o matando.

— O senhor pensou rápido.

— Eu sempre penso rápido, Augusto. Meu cérebro é como uma máquina. Bom, imagino que isso seja tudo. Vou desligar. Aproveite a noite com a sua família.

— Obrigado, senhor.

Desligo o telefone e caminho de volta para o bar. Recosto-me na parede de azulejos e cruzo os braços no meu peito enquanto assisto a casais sambando e mulheres de vários tipos sorrindo para mim. No entanto só tenho olhos para ela. Ela, porra. De repente alguém no microfone anuncia um concurso feminino de samba. Explica que o dinheiro arrecadado por cada garota que participar irá para uma casa de caridade e a que receber o maior valor será eleita a Musa do Bar.

Grande porra, penso comigo mesmo. Onde estou com a cabeça para me enfiar em um lugar como esse?

Diante dos meus olhos cerca de dez candidatas se levantam das mesas e se organizam no salão. O grupo do namorado de Verônica começa a tocar e as garotas começam a sambar. Verônica está entre elas. Meus olhos se perdem em suas pernas longas, na forma como suas coxas se movem dentro do vestidinho micro, como seus quadris se mexem, seus seios pulam, seu bumbum balança. Fico perdido nessa imagem, babando, me imaginando tocando seu corpo, mergulhando em sua carne. Começo a sentir meu pau endurecer. Olho para o vocalista do grupo cantando uma música que fala de traição enquanto não faz ideia de que estou com o pau duro, louco para comer sua namorada. Se ele soubesse o que eu faria com ela agora... eu meteria fundo, rebolaria dentro de sua boceta, a deixaria inchada de tantos golpes que eu daria. Mais que isso, a deixaria lambuzada.

De repente uma mulher mais velha passa com envelopes pequenos, explicando novamente que no concurso, a garota que tiver mais dinheiro como votos será a Musa do Bar. Grande merda. Puxo na carteira um talão de cheque e escrevo uma quantia que sei que ninguém ali será capaz de dar além de mim e dos meus amigos. Coloco o cheque no envelope e escrevo o nome de Verônica. Sei que vencerá por causa do que estou apostando nela. Entrego o envelope à mulher, que sorri e agradece.

— Obrigada, lindo. Boa sorte para a sua escolhida.

— Ela não precisa de sorte. Só precisa de mim — respondo a ela, sem deixar de olhar Verônica sambando.

— Isso que é um homem de convicção — elogia antes de se afastar de mim.

Desencosto da parede e sigo até o bar para pedir uma cerveja. Eles não têm uísques. Nesse caso a cerveja bem gelada vai ajudar. O cara me entrega a garrafa e fico ali tomando o primeiro gole enquanto vejo as garotas sambarem. Quando a música finalmente termina, Verônica está sorrindo e adoro ver esse sorriso em seus lábios carnudos. Ah, o que esses lábios poderiam me proporcionar... adoraria tê-los me chupando enquanto eu segurasse com força seus cabelos longos.

VERÔNICA

 

— E A NOSSA VENCEDORA deste ano é... Verônica! — a voz de Ulisses anuncia no microfone e meu coração acelera na hora porque em todos esses anos só ganhei esse concurso uma vez.

— Eu? Ele está falando sério? — sorrio para as meninas, que sorriem de volta e me aplaudem. Olho para a direção de Vanessa e ela está toda séria, com cara feia por ter ficado para trás. Passo pelas meninas e caminho até o palco, onde me esperam.

Ulisses me dá os cumprimentos e comenta que em meu nome recebemos cerca de dez mil em cheque. Fico completamente assustada, meu ar some e então a imagem de Jonas vem imediatamente à minha cabeça.

Foi ele.

Procuro por seu rosto na multidão, mas não o encontro em lugar nenhum. De repente ouço os aplausos em minha direção e então finalmente o avisto com as costas no azulejo, os lábios esticados em um sorrisinho cínico e malicioso. Ele está me aplaudindo também.

Ulisses no microfone me pede para sambar mais uma vez e brinca dizendo:

— Cidão, não fique enciumado, mas sua namorada merece nossos aplausos. E aí, Cidão, foi você que investiu pesado nos envelopes para a sua amada? — ele brinca, deixando Cidão completamente envergonhado. Sei que ele não tem condições nem de colocar nota de cem.

Começo a sambar enquanto a música de Alcione toca e então tudo volta a ficar em segundo plano. Só vejo Jonas em minha frente, me aplaudindo de onde está, sorrindo, seus olhos azuis cheios de malícia vidrados em mim, e não consigo deixar de olhar de volta para ele. É como se fosse um imã. Ele me atrai assim como pareço atraí-lo. É uma ligação estranha, mas algo que me deixa bem. Me sinto bem quando estou em sua companhia e quando está apenas me encarando. Ele tem o poder de me fazer sentir bonita, atraente, sedutora, sexy, ele tem o poder de me fazer sentir especial como nenhum outro cara foi capaz.

Horas mais tarde, depois de receber o bilhete de Jonas, caminho até o lugar marcado. Avisto o carrão preto com os faróis desligados. Não sei o que estou fazendo. Você tem namorado, Verônica. Pare com isso agora. Acontece que meus pés tomam vida própria e caminho mais alguns passos, até que Jonas se vira para mim, as mãos afundadas nos bolsos do jeans. Ele me olha de cima a baixo e sorri, satisfeito com o que vê.

— Por um momento tive medo de que não viesse — chega mais perto de mim e toca o polegar em meu queixo.

— Foi você que deixou aquele cheque, não foi?

— Você deveria ganhar.

— Obrigada. Você fez algo maravilhoso. Não sabe o quanto estou feliz por ter ajudado o centro de caridade. E você só tem feito coisas boas desde que o conheci.

Ele sorri e é algo tão bonito de se ver. Seu polegar e indicador levantam o meu queixo, me fazendo o fitar melhor. E gosto de seu toque em minha pele.

— Eu seria capaz de dar o mundo a você — rosna baixo, não escondendo o quanto está louco por mim.

Toco em sua mão que está sobre o meu rosto, mesmo sabendo que isso não vai acabar bem. De repente ele traz seu corpo para mais perto do meu, seus 1,85m de altura ficando ainda mais evidente. Gosto do calor de seu corpo atlético tomando todo o meu. Meu rosto se ergue para olhar o dele. Nossos olhos se encontram. Meus olhos se fecham e sinto seus lábios mornos nos meus.

Abro os meus lábios para os dele, sua língua entra e se aperta contra a minha, logo as línguas se movem e jogo meus braços em volta de seu pescoço duro. Gemo baixinho, adorando sentir a dureza de seu peito contra meus mamilos, a força de seus braços musculosos em volta de mim, a sua barba pinicando meu rosto, suas mãos grandes coladas em minha bunda, seu membro volumoso contra meu umbigo.

— Vamos pra outro lugar... — sussurra em meu pescoço — preciso de você esta noite...

Estou tão fora de mim que sou capaz dessa loucura, continuo o beijando, mesmo sabendo o crime que estou cometendo. Serei capaz de ir com ele para qualquer lugar e de me entregar de cabeça, corpo e alma.

— Olha só isso... — uma voz surge do nada, atrás de nós, parando nossos beijos e amassos.

Viro-me e dou de cara com Vanessa, de braços cruzados, e uma carranca no rosto capaz de me matar.

— Agora entendi tudo — ela diz, seus olhos pegando fogo de raiva — Você, como sempre, entra em meu caminho e atrapalha a minha vida. Odeio você, Verônica! Odeio você! — essa última frase foi entoada de forma histérica.

Minha irmã gira o corpo e corre de volta pelo caminho por onde veio.

— Eu preciso ir... — digo ao Jonas, estou em choque, me sentindo suja e indigna — Por favor, esqueça o que aconteceu aqui... eu não posso... adeus.

— Verônica! — ele grita, mas não posso continuar a ouvi-lo.

Corro para longe dele, desejando que não venha atrás de mim, que não insista mais. Eu não me viro para trás porque não quero fraquejar outra vez. Eu não sei o que Vanessa vai fazer, se vai contar tudo para o Cidão e promover um inferno. Eu só quero ir pra casa e colocar minha cabeça em ordem. Está tudo uma bagunça e o pior é que nem sei ao certo como começar a arrumar.