Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 12 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 12

 

VERÔNICA

— ESSA MAQUIAGEM é nova? — Vanessa pergunta enquanto estou me maquiando na frente do espelho.

— É, foi a que ganhei de aniversário da Érica.

— Caramba, parece muito boa. Deixou até você com cara de atriz de novela. Me empresta? — ela nem espera eu dizer sim ou não, já vai tomando a base líquida da minha mão e pegando as outras maquiagens que estão na minha cama — Você também vai ao pagode esta noite?

— É, vou. Hoje é sexta e quero me divertir um pouco. Além do mais, Os Malandros vão tocar. Prometi ao Cidão que iria.

— Eu também vou. A Gleice garantiu que virão rapazes da Zona Sul esta noite, já que um grupo de pagode bem famoso, que não é Os Malandros, claro, vai tocar. Não posso perder isso por nada. Quem sabe meu príncipe encantado não esteja entre eles?

Começo a pôr os brincos em minha orelha enquanto minha mente está bem longe de Vanessa e dos olhos de cifrão dela. Estou pensando em terminar de vez com Cidão e já imagino o quanto essa conversa vai ser difícil.

— Pronto. Estou um espetáculo — minha irmã se avalia na frente do espelho após usar minha maquiagem. De repente vira o rosto para mim e me avalia também — Você até que é bonita, Ve. Mais até que eu. O problema é que não tira proveito disso. Se eu tivesse esse seu corpo e cabelo, eu já não estaria mais morando aqui nessa humilde casa do Irajá. Eu já estaria casada com algum coroa do hotel.

Reviro meus olhos, não acreditando no que acabei de ouvir. Como podemos ser tão diferentes uma da outra mesmo depois de termos tido a mesma criação?

— Você não sabe o que fala. Nem tudo é só dinheiro, Vanessa. Há mais que isso. Se não fosse, muitos ricos não estariam se suicidando. Você acha mesmo que casar com um homem só porque ele tem grana vai fazê-la feliz?

— Ficar com um pobretão é que não vai — dá de ombros — Acontece que sou muito sincera e não dou a mínima para essa coisa de politicamente correto. A verdade é que prefiro ser uma rica feliz do que uma pobretona amargurada. Não quero andar de ônibus e de trem a minha vida toda. Não quero comprar produtos da Avon e mal ter dinheiro pra pagar.

— Você pode trabalhar e se manter, Vanessa. Por que acredita que apenas tendo um homem rico vai conquistar o que quer? O mundo está mudando. Mulheres estão trabalhando, conquistando. O problema é que você gosta das coisas fáceis.

— E quem pode me julgar? — ajeita os cabelos encaracoladas e sorri outra vez para o espelho — Bom, é melhor eu ir indo. A gente se vê lá.

Vanessa sai rebolando e eu começo a ajeitar meu cabelo enquanto penso na amargura da minha irmã. Lamento tanto por ela pensar dessa forma, de dar mais valor ao que as pessoas têm do que ao que elas são. Lamento por saber que o mundo não é um mar de rosas e que pessoas como a minha irmã tendem muito a sofrer. Sem falar nas coisas que já não nego que ela possa fazer para ter o que quer. Andar com homens casados, se submeter a ser amante ou até mesmo a se prostituir em troca de dinheiro. Lembro dos homens do hotel e tenho certeza de que se fosse minha irmã ela consideraria a ideia daquela proposta. Ela aceitaria duzentos mil, jantares e viagens em troca de sexo.

Meu celular toca e sei que é Cidão. Atendo rapidamente e digo a ele que já estou de saída. Pego minha bolsa e caminho pela sala. Beijo o rosto do pai que está vendo o noticiário e saio de casa. O Bar da Beth fica duas ruas acima da minha. Quando chego na esquina, vejo o movimento de longe. Muitos carros elegantes, mulheres sambando e pessoas conversando. Cumprimento as vizinhas e Mari me chama para a mesa dela. Quando o Cidão surge no palco, me sinto constrangida pelas coisas que ele fala.

— Aquela ali é a minha musa, o outro lado da minha laranja, o amor da minha vida. Verônica, fique de pé pra todo mundo te vê.

Tento esconder meu rosto, mas as pessoas aplaudem, fazendo barulho e as meninas na minha mesa falam para eu levantar. Para não deixá-lo humilhado, levanto rapidamente e volto a me sentar. Cidão termina dizendo que a música que vai começar a tocar foi feita em minha homenagem. Eles não são tão bons quanto acreditam que são, mas para uma sexta à noite qualquer música ao vivo é legal. Acabo me soltando aos poucos e caindo no samba ao lado das garotas.

De repente algo acontece e é como se fosse câmera lenta. Eu o vejo do outro lado, me olhando, os olhos fitos em mim como se eu fosse a única coisa do mundo. Perco o ar. Paro de sambar. É como se fôssemos só nós dois agora e nada mais importasse, como se nada fizesse mais sentido. Ele está com os lábios esticados num lindo sorriso, seus olhos azuis brilhando em minha direção, fazendo meu coração bater loucamente. Pisco várias vezes para ter certeza de que estou vendo miragem, mas ele continua do outro lado da rua, me encarando.

O barulho da música fica em segundo plano, não consigo ver mais nada, só ele. Alguém fala comigo e só então me dou conta do que está acontecendo. A música ainda não acabou e Cidão está cantando bem alto no microfone. Jonas permanece com os olhos em mim e eu permaneço com os meus nele. Nesse instante ele leva o celular ao ouvido e então sinto o meu tocar na minha bolsa. Pego o aparelho e me dou conta de que é ele que está me ligando.

— Você parece uma deusa do samba — a voz mais máscula e profunda soa do outro lado da linha, me deixando quente.

Estou tão nervosa e ao mesmo tempo surpresa que dou um breve sorriso e pergunto:

— O que está fazendo aqui?

— Tem muito barulho... não consigo ouvi-la direito. Será que pode vir até aqui fora?

Mordo meu lábio inferior, me perguntando se é uma boa ideia. Olho para o palco e Cidão está muito concentrado e envolvido no show que está dando. Além disso Jonas tem sido gentil e bacana comigo ultimamente, pode ser considerado um amigo.

— Está bem.

Desligo o celular, o guardo outra vez na bolsa, digo para a Mari que já volto e em seguida saio do bar. Gosto da brisa em meu rosto, balançando meu cabelo e o meu vestidinho curto. Estou usando saltos, então meu vestido está mais curto ainda e minhas pernas longas. Ajeito-o, puxando-o para baixo, mas não adianta muita coisa. Atravesso a rua e o encontro ainda sorrindo e com as mãos cruzadas no peito amplo e forte. Ele fica muito bem dentro de camisa e jeans. Seus olhos descem por minha cintura e depois para as minhas pernas de fora.

— Oi — sorrio para ele — Como veio parar aqui?

— Vim com amigos. Eu não esperava encontrá-la aqui.

Seus olhos avaliam meu cabelo, depois descem por meus seios, cintura, me analisando completamente.

— Você está linda.

Mesmo sem graça, digo:

— Obrigada.

Jonas chega mais perto, diminuindo a nossa distância.

— Eu não tinha ideia de que conhecia uma Rainha da Bateria — brinca.

— Ah — sorrio, sentindo meu rosto esquentar — Não sambo tão bem assim.

— Foi lindo.

Olho para o lado, puxando o ar e o soltando devagar.

— E cadê os seus amigos?

— Foram até um caixa 24 horas. Logo estarão de volta.

Permanece me avaliando.

— Será que podemos dar um passeio e conversar um pouco?

— Eu não sei...

— Não vai demorar muito.

Ele se move até o carro e usa o controle remoto para abrir a porta do carona. Agradeço e afundo no banco. Ele dá a volta e se senta na frente do motorista. Põe o automóvel em movimento. A gente conversa sobre como está a noite e sobre o que fizemos nas últimas horas. Ele para o carro na Avenida Monsenhor Félix e então me encara.

— Fiquei esperando seu telefonema a respeito do episódio lamentável no hotel, mas você não entrou em contato.

— É — abaixo a cabeça, me sentindo chateada por ter desistido rápido — Eu decidi não levar isso à frente. Resolvi esquecer. Não quero me expor e expor a minha família.

— Se ele a intimidou, posso cuidar disso e...

— Não, ele não me intimidou.

— E o hotel?

— Não — minto, mas então suspiro, porque afinal, o hotel também não me intimidou e sim me aconselhou — eu pensei bem e decidi isso.

— Tem certeza? Posso cuidar das coisas pra você.

— Não, tudo bem, eu prefiro esquecer tudo aquilo.

— Certo — responde, mesmo parecendo contrariado com a minha decisão.

Ele se vira de lado e me encara, seus olhos azuis brilhando no escurinho do carro. Subitamente sua mão toca meu queixo e meus olhos encaram os seus. Estou sem reação, do mesmo modo que fiquei quando ele me beijou e me tocou na cobertura.

— Não quero ser repetitivo, mas você está realmente linda — sussurra, rouco, seus olhos agora presos em meus lábios.

Pisco, me sentindo fraca, louca para ele me beijar. Não consigo dizer nada. Fecho os meus olhos e tudo o que sinto em seguida é o calor dos seus lábios. Parece estranho. Ele é um executivo rico e eu sou apenas a camareira do hotel onde está hospedado. Logo seus lábios forçam passagem e sua língua invade a minha boca. Gemo baixinho à medida que ele empurra mais sua língua para dentro da minha boca num beijo intenso e possessivo.

— Eu não posso... — balbucio, tentando fugir de sua boca e organizar meus pensamentos e emoções. Ponho minhas mãos em seu peito forte, empurrando-o delicadamente para longe.

Ele suspira, frustrado, mas respeita minha decisão.

— Certo — segura o volante e liga novamente o carro.

Não dizemos mais nada um ao outro. Eu me jogaria nesse beijo e em outras coisas mais se não existisse o Cidão na minha vida. No entanto, infelizmente existe. Penso em romper tudo com ele esta noite, mas enquanto isso não acontece, ainda sou namorada dele e lhe devo respeito e lealdade.

Quando Jonas volta a me deixar em frente ao Bar da Beth, eu o encaro:

— Tenho que sair agora. Boa noite, Jonas.

Ele não responde.

Me solto do cinto de segurança e empurro a porta delicadamente. Quando já estou fora, bato a porta com cuidado e atravesso de volta para o bar.

***

Mais tarde, avisto Jonas ao lado de outros dois rapazes e todos os holofotes estão na direção do trio, obviamente. De fato, não há como não olhar para eles com curiosidade. Pela forma como se vestem e pela boa aparência que possuem, está claro para todos que são caras ricos e que moram na Zona Sul. Cidão me pega de repente pela mão e me leva para a frente dos rapazes.

— Olá, rapaziada, tudo bem com vocês? Sejam bem-vindos — diz para os rapazes ricos — Sou Cidão, o vocalista dos Malandros. Vocês devem ter me ouvido — começa a apertar a mão de um por um, tentando ser simpático e fazer média — Essa aqui é a minha namorada.

Sou obrigada a apertar a mão dos amigos do Jonas e quando chega a vez de apertar a mão dele, não escondo o meu nervosismo. Horas mais cedo eu estava trocando beijos com ele.

Ai, caramba.

— Como vai? — ele leva minha mão aos lábios, fazendo de conta que não nos conhecemos, e então quando puxo minha mão de volta sinto algo nela. Um pedaço de papel. Disfarço e seguro o papel entre minha mão fechada.

Quando finalmente Cidão e eu afastamo-nos dos rapazes, digo a Cidão que preciso ir ao banheiro. Lá pego o pedaço de papel e leio o que está Jonas me escreveu.

Passei a noite inteira olhando pra você. Preciso vê-la onde estivemos. Jonas.

Respiro fundo. Parte de mim diz que é loucura. A outra parte só diz que precisa ir.