Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 35 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 35

 

VERÔNICA

O DIA PASSOU rapidamente e agora já é noite. Eu não sei por que ainda me surpreendo quando conheço um novo restaurante. Já devia ter me acostumado com o fato do meu acompanhante ser um homem extremamente rico e sofisticado. Para ele não vale um bom, tem que ser o melhor.

O lugar em que estamos hoje, por exemplo, emana poder, riqueza e sofisticação. Metade da aristocracia carioca deve estar jantando aqui, suponho. Já há uma mesa reservada para nós dois e não posso deixar de reparar como o maitre faz questão de sorrir o tempo todo e de tratar o Jonas como se ele fosse algum rei. Jonas puxa a cadeira gentilmente para que eu me sente nela. Em seguida dá a volta e se senta em minha frente.

Por um momento meus olhos se perdem em sua beleza e charme. Está lindo no terno preto com gravata da mesma cor. O visual contrasta com a claridade dos olhos.

— Você está linda — diz, me estudando da mesma forma como avalio sua boa aparência.

— Obrigada. Você também está ótimo.

Sei que estou bonita dentro de um elegante longo preto que possui um decote perfeito em forma de V, me deixando sensual. Jonas o aprovou desde o momento em que pôs os olhos em mim na portaria do prédio de Érica, onde concordamos de nos encontrar.

— Uau. Está linda — disse, me estudando da cabeça aos pés.

Pegou em minha mão e a levou aos lábios, como um cavalheiro. E eu só me sentia estranha por estar tão bem vestida num lugar simples como aquele. Os poucos vizinhos ali perto nem disfarçaram o quanto estavam curiosos com a cena. Todavia nem poderia julgá-los. Quem não estaria? Jonas me conduziu ao carro preto e abriu a porta para que eu entrasse primeiro.

— E então, o que vai querer beber? — indaga de repente, me trazendo de volta ao agora.

— Ah, sim — pego o cardápio da mesa e começo a folheá-lo sem pressa — Bom, eu não sou muito fã de bebidas alcoólicas, mas você poderia me ajudar com alguma hoje. O que me sugere?

— Bom, se quer a minha opinião, deveria provar o Cheval Blanc 1947. Não é tão doce nem tão amargo. Você vai gostar.

— Posso confiar em você?

— De olhos fechados, doçura.

Doçura. Sorrio. Estou me acostumando com esse modo carinhoso de me chamar. Sua voz sempre fica mais sexy quando me chama dessa forma e eu sempre sinto um calor entre as pernas quando o ouço me chamar dessa forma.

— É sério que não gosta de bebidas? Nem cerveja?

— Nenhum pouco — admito — Por quê? Acha que sou careta por isso?

— Jamais. Algumas pessoas não gostam mesmo. Principalmente mulheres. Eu respeito. Sabe, reza a lenda que a mulher de um bêbado era a mais bela de todas da Europa. Então, um dia, cansada de ser trocada noites e dias pelo marido por causa de suas bebedeiras, ela lhe lançou um desafio: "Ou eu ou o vinho", avisou. Ele, então, respondeu: "Quando pode se mudar?".

Dou uma risada. É a primeira vez que o ouço contar uma piada. Gosto disso. Gosto muito de perceber o quanto Jonas superou as minhas expectativas. No início, quando descobri que era ele quem havia me feito a proposta, fiquei chocada, frustrada, chateada, decepcionada. Jurei a mim mesma que o trataria com frieza e que não me envolveria mais do que já estava envolvida.

Acontece que os dias se passaram e nós ficamos cada vez mais próximos e envolvidos. Fui conhecendo mais sobre sua história, sobre sua vida, seus hábitos. Nossas conversas ficaram mais verdadeiras e íntimas. Passei a notar os momentos em que era generoso com algum funcionário do hotel e o quanto era incrível quando encontrávamos uma criança em algum lugar. Resumindo, caiu por terra a promessa de que eu nunca mais me apaixonaria. Cá estou, um pouco triste por hoje ser a nossa última noite juntos.

— Boa noite, cavalheiro. Madame. Desejam fazer o pedido? — um garçom pergunta.

— Um uísque pra mim e um vinho para a senhorita, por favor.

— Certo. E algo para comer?

— Ainda vamos escolher. Avisarei quando decidirmos.

— Sim, senhor — ele anota as bebidas que queremos e se afasta.

JONAS

 

APÓS O JANTAR, chegamos ao casarão. A sala de estar está apagada. Levo os meus passos até o abajur apenas para manter uma claridade um pouco mais agradável. Vejo Verônica afundar-se no sofá e gosto dessa ideia. É algo estranho. Não sou do tipo de homem que leva mulheres para casa. Nem mesmo Paula frequentava esse lugar. Nossos encontros eram sempre mantidos em hotéis ou na casa dela. Nunca na minha. Até porque eu mesmo não costumo ficar em minha própria casa. Mas com Verônica é diferente. Não sei por que decidi trazê-la para cá outra vez e não para qualquer outro lugar disponível. Só sei que agora estamos aqui e, mais do que nunca, me sinto bem em casa.

— Você quer beber alguma coisa? Um refrigerante? Um suco? — pergunto enquanto volto para perto dela.

— Oh, não, estou bem assim. Obrigada.

Agacho-me diante de seus olhos castanhos avaliadores e me pergunto o que, de fato, vi nessa mulher. É óbvio que é sexo, mas tenho a sensação de que há algo a mais por trás disso. Só não sei o que é ainda. Sua mão lentamente toca o meu rosto, me surpreendendo, e começa a me acarinhar.

— Por que você faz isso comigo, Jonas? — indaga, me tocando ainda.

— O que faço com você?

— Por que me olha dessa forma? Por que me faz acreditar que existe algo além do que fazemos? Por que às vezes me deixa iludida?

— Você é tão especial, doçura — agora é minha vez de tocar seu rosto liso e delicado. — Se ao menos soubesse disso, entenderia o que me faz agir assim com você. Queria que essa noite não acabasse.

— Eu também não queria...

Pego em sua mão. Abro a boca para falar alguma coisa, mas não sei ao certo o quê. O curioso é que sempre sou bom com as palavras, sobretudo na hora de seduzir uma mulher. No entanto fecho a boca porque não tenho certeza do que dizer. Sinto algo diferente esta noite. Um misto de ansiedade e desânimo. Ansiedade pelo fato de tê-la aqui ao menos por mais uma noite e por poder possuir sua boca, sua pele, seu corpo. Ainda hoje isso tudo será meu. E tristeza por saber que essa é a última vez. E que há a possibilidade de Verônica nunca mais querer me ver de novo depois desta noite. Não porque me odeie como à princípio pareceu odiar, mas porque assim como eu, compreende que não é só sexo. E talvez, assim como eu, queira fugir disso tudo, apagar o que sente.

Meu dedo abandona o seu rosto e a ponta dos seus dedos voltam para o meu, deslizando pela minha barba feita. Permaneço com meus olhos a estudando. Teve vontade de dizer que a quero por mais um tempo, que não quero que vá embora depois de hoje, mas as palavras simplesmente não saem de minha boca. Deixo isso para lá. Não quero bancar o adolescente apaixonado e idiota agora.

— Vou sentir sua falta — é tudo o que consigo dizer.

Ela não responde, mas pela expressão em seu rosto tenho certeza de que diz silenciosamente "eu também".

Finalmente me levanto e pego em sua mão, conduzindo-a gentilmente para fora da sala de estar. Ao pisar no quarto escuro, paro em sua frente e acarinho seu rosto. Beijo sua boca enquanto minhas mãos seguram sua cintura e puxa o seu corpo para mais perto do meu.

Nossas bocas se unem por um bom tempo, até que finalmente levo Verônica para a cama. Contudo quero que o último momento seja especial e perfeito. Sim, para ela. Não quero que seja apenas uma transa selvagem como das outras vezes. Quero que seja algo realmente bom para ela e desejo do fundo do meu coração — se é que tenho mesmo um — que ela se sinta bem e amada.

Sei que não faço amor. Apenas sexo, sem o envolvimento romântico. E já fiz sexo variadas vezes e com muitas mulheres. Mas nunca amor. É um pouco diferente agora. Nesse momento, trocamos beijos e carícias suaves e gentilmente forço o peso de meu corpo sobre o dela na cama. Eu a possuo com ternura, com paixão e profundidade. Rolamos pela cama, entre beijos e carícias, cheios de desejo. E de amor.

***

Abro os olhos lentamente e começo a piscá-los. Eu me dou conta de que estou em meu quarto, deitado na minha cama - e que não estou sozinho nela. Olho em volta. O quarto está uma penumbra e não sei ao certo se ainda é noite ou se já é dia. Pego o meu relógio na cabeceira da cama. O visor me informa que são cinco e quinze da manhã. Estico o braço e coloco o relógio de volta ao lugar.

Viro para o lado e encontro Verônica adormecida, de bruços, com os cabelos espalhados pela cama. Meus lábios se esticam lentamente em algo que imagino que seja um sorriso. Meu coração se enche com algo bom, talvez ternura. É bom sentir sua presença aqui, por mais incomum que isso pareça até mesmo para mim. Ergo minha mão e toco delicadamente seus cabelos, não querendo acordá-la. E agora, que está acabando? O que vou fazer? Bom, provavelmente voltar à minha vida de sempre: trabalho, mulheres, partidas de tênis e curtição. Ainda sou jovem e tenho as melhores coisas da vida: dinheiro e beleza. Seria mesmo idiotice querer alguém para mim. Verônica é maravilhosa, mas há outras mulheres que são especiais também por aí. Afasto minha mão de seu cabelo.

Fico olhando para o teto, embora esteja tudo escuro. Está muito cedo ainda para levantar, mas já perdi o sono. Afasto o lençol cuidadosamente do corpo para não acordá-la. Verônica sequer se mexe. Às cinco e pouco da manhã qualquer pessoa está em seu mais profundo sono.

Eu me levanto da cama e sigo para o banheiro — um banho frio para me despertar por inteiro. É o que faço. Relaxo embaixo da água fria, sentindo-a deslizar por toda minha pele e corpo. Do nada minha mente vai até à noite passada. Tudo havia saído como planejado. Havíamos jantado fora e depois transado várias vezes durante a madrugada.

Passando as mãos pelos cabelos molhados, me pergunto se estou começando a ficar confuso em relação à garota. Isso não é bom. Não posso perder o controle. Desde o início era para ser apenas uma aventura. Não posso me envolver. Por mais bonita e especial que seja, Verônica é apenas uma garota qualquer. Uma camareira de hotel que havia chamado a minha atenção. Eu, de fato, havia me sentido incrivelmente atraído por ela. Eu a levei para a cama e tive bons momentos com ela. Mas acabou. Foi uma aventura, um sexo gostoso, uma diversão. Várias outras mulheres já haviam passado por minha vida, e consequentemente, por minha cama. Verônica não foi a única e agora não pode começar a desequilibrar meu mundo.

Paro de pensar nisso tudo. Sentindo o meu corpo já congelado embaixo da água, desligo o chuveiro e pego uma toalha limpa. Saio do boxe, a toalha enrolada em minha cintura. Vou até à pia e me encaro no espelho. Não perca o controle, Jonas. Não esqueça disso. Pego a escova e a pasta para escovar os dentes. Depois disso, volto para o quarto e encontro Verônica ainda adormecida na cama. Puxo uma calça de moletom da gaveta e uma camiseta branca. Calço meu par de tênis. Vou correr um pouco. É a melhor forma de colocar meus pensamentos em ordem. Só sei que preciso voltar ao meu normal.