Como uma Joia
Capítulo 34
VERÔNICA
NA MANHÃ SEGUINTE, acordo e lembro-me de que não passei a noite em casa. Ficara tão tarde que acabei cedendo ao Jonas e dormido em seu quarto. Exatamente em cima de sua cama. Agora, levanto-me rapidamente, ajeito o meu cabelo e visto a minha roupa. Eu não o encontro por perto. Acho melhor tomar um banho antes que apareça e me veja toda descabelada assim.
Depois do banho, saio do quarto e olho em volta. Nem sinal do Jonas. Desço as longas escadas de mármore preto e nem sei por onde começar a procurar. O lugar é imenso. Eu nunca vi uma mansão antes em minha vida. Mas agora estou aqui pisando em uma.
— Bom dia — uma voz feminina surge do nada e viro-me para dar de cara com uma senhora.
É uma mulher bonita, de formas redondas e a pele cor de jambo. Seu sorriso é amável e amistoso.
— Como vai, querida? Eu sou a Zuleica. Você deve estar com fome, não?
— Oh, não, na verdade, não quero incomodar... já estou de saída.
— Imagine. Não será incômodo nenhum. Pelo contrário, será um prazer. A mesa já está pronta. Venha, vou mostrar o caminho.
Ela é tão educada e atenciosa, que acaba me convencendo a aceitar o café. Zuleica me conduz à sala de jantar mais linda que já vi. Uma mesa gigantesca e repleta de coisas gostosas e frescas está montada à minha frente, me convidando. Sorrio enquanto puxo uma cadeira para sentar.
— Como foi a sua noite? Dormiu bem?
— Oh, sim, obrigada — começo a me servir com um copo de suco de laranja e pão fresco.
— Você deve ser muito especial pro guri, pois ele não costuma trazer pessoas pra casa — Zuleica comenta de repente.
Eu a encaro e ela está meio que me estudando agora.
— Ah, é?
— Nem mesmo as namoradas.
Dou uma mordidinha no pão, enquanto fico pensamento nessa informação. Por que Jonas não leva nenhuma mulher pra casa, mas me trouxe pra cá? Isso não faz sentido.
— A senhora trabalha há muito tempo pra ele?
— Sim, desde que ele era um menino. Na verdade, eu trabalhava na casa dos pais dele quando o Jonas e o irmão eram crianças. Eu era a babá deles.
— Deve conhecê-lo muito bem então.
— Oh, sim, o suficiente. — Sorri. — No fundo é um bom rapaz, mesmo quando tenta fingir o contrário.
— Poxa, me desculpe pela grosseria, eu nem disse meu nome. Sou a Verônica — estico a mão para cumprimentá-la.
Zuleica aperta a minha mão enquanto comenta que sempre achou Verônica um nome bonito.
— Se eu tivesse uma filha daria esse nome a ela. Mas Deus só me deu filhos homens, inclusive os postiços — brinca.
— Nada é por acaso — brinco com ela.
— É verdade.
Ela me observa tomando o meu café.
— Vou deixar você à vontade agora. Qualquer coisa, estou por aqui.
— O café da manhã está uma delícia. Obrigada. Foi um prazer conhecê-la, Zuleica.
— O prazer foi meu — responde antes de sair e me deixar sozinha.
Meu pensamento voa até as coisas que falou a respeito de Jonas. Ele nunca trouxe nem mesmo a namorada até aqui, mas trouxe a mim, uma acompanhante de luxo. Querendo ou não, é tudo o que sou no momento.
JONAS
PELA MANHÃ, olho para a porta porque há vozes ecoando lá fora. Subitamente a porta se abre e vejo a mulher entrar, agitada, enquanto um Augusto todo nervoso e chateado está atrás, dizendo que ela não deveria ter entrado dessa forma.
— Mãe? O que está acontecendo aqui? — quero saber, me levantando.
— Eu avisei que o senhor não deveria ser incomodado... — explica Augusto, se desculpando.
— E desde quando uma mãe incomoda um filho? — zomba Stela, largando a bolsa numa poltrona.
— Tudo bem, Augusto. Pode ir. Deixe comigo — digo a ele, respirando fundo e tentando controlar a irritação que sinto por vê-la.
Augusto sai, fechando a porta atrás de si e eu me sento novamente na cadeira, os olhos em minha mãe.
Espalhafatosa, bonita e curvilínea, apesar dos seus cinquenta e sete anos. A última vez que a vi estava loira. Agora seus cabelos estão tingidos de ruivo. Os olhos continuam mais verdes que uma esmeralda. De fato, é a versão humana de uma gata. Mas quem a conhece sabe muito bem que está mais para uma cascavel.
— Quanto tempo, filhote — diz, me avaliando — Faz tempo que a gente não se vê. Nem parece mais que somos mãe e filho...
— E quando foi que parecemos? Ah, deixe-me lembrar, quando eu tinha uns seis ou sete anos. Antes de você se mandar com seu amante.
Eu a observo. Sua presença é algo que não me agrada, mas vou tentar conter a irritação, sendo mais irônico e bem humorado o possível.
— Vamos lá — digo — O que você quer? Já me encher o saco de manhã?
— Ora, mas por que toda essa agressividade, Jonas? Sou sua mãe, ainda que não goste disso — cruza as pernas. — É assim que um filho deve falar com a própria mãe? Porque a verdade é: querendo ou não, o sangue sempre falará mais alto.
Não respondo. Ela tem razão. Querendo ou não, sempre teremos o mesmo sangue correndo pelas veias.
— Chega de papo furado, Stela. O que você quer? Estamos só nós dois aqui. Pode tirar a máscara. Vá direto ao assunto. É dinheiro, não é? Deixe-me adivinhar: aquele dançarino de cabaré levou tudo o que você tinha.
— Como você é desconfiado, menino — descruza as pernas, ficando desconfortável do nada, então sei que acertei na mosca qual é o problema. — Por que está sempre na defensiva, Jonas? Não entendo por que esse temperamento tão difícil comigo.
— Conheço você, mamãe — zombo. — Se está tudo bem, você viaja, vive a sua vida e nem se lembra do próprio nome. Mas se o dinheiro acaba, aí você reaparece. Ressurge das cinzas. Revela que ainda está viva. Mas quer saber? Eu não me importo.
Não responde. Só franze a testa e mantém a boca aberta, simulando que está ofendida. E fico estudando essa pessoa que depois de todos esses anos se tornou uma desconhecida para mim.
— Está bem, você venceu — diz, mexendo nos cabelos ruivos — Estou aqui porque preciso de dinheiro. Gastei muito esse mês e quase não sobrou nada para as contas. Então, se há ainda um pouco de amor e compaixão por sua mãe, por favor, me ajude.
Sorrio. Mais amargura em meu sorriso que ódio ou outra coisa. Nunca vou esquecer que me abandonou quando eu ainda era pequeno. Abandonou a mim e ao meu irmão.
— Certo.
Puxo a minha carteira do bolso da camisa, pego algumas notas de cem e estico a ela, que já está com os olhos brilhando sobre o dinheiro.
Pega da minha mão e começa a contar nota por nota.
— Mil reais? Só isso?! Não pode ser um pouquinho mais? — reclama, chocada e decepcionada — Isso não dá pra quase nada, Jonas!
— Que tal arregaçar as mangas e começar a trabalhar? Você não é nenhuma velha.
— Ah, vá pro inferno, seu cretino! Essa porcaria de empresa deveria ser minha! Fui eu que aturei aquele maldito do teu pai!
Sorrio com gosto, com prazer porque adoro vê-la chateada e contrariada. Há um sabor de vingança nisso tudo.
— Só está colhendo o que plantou. Preferiu deixar seus filhos pra trás e fugir com um pé rapado. Agora você não tem direito a nada, Stela. Nenhum tostão.
— E os anos infelizes que passei ao lado dele? Tive você e o seu irmão por causa dele! Eu nunca quis filhos!
— Vá embora da minha frente.
Seus olhos verdes me fuzilam com raiva.
— Vai se arrepender de fazer isso comigo, Jonas. Vai ver.
Guarda o dinheiro que lhe dei na bolsa, gira o calcanhar e sai bufando da minha sala. Eu não me importo com o que disse e com a raiva que sente de mim. Nunca esquecerei o dia que saiu de casa para ir viver com seu primeiro amante- um músico dez anos mais jovem. Eu tinha sete anos, corri até ela e implorei que ficasse. Eu disse que a amava e que não poderia ver sem ela, a minha própria mãe. Eu chorava e ela fugia de mim, corria para o táxi que a levaria para longe. Sequer olhou para trás enquanto eu corria, seguia o carro, chorando e pedindo que voltasse.
"Mãe, não vá! Por favor, não vá", eu dizia, aos prantos. "Mãe, volta!".
Até que o carro se afastou demais e minhas pernas não aguentaram acompanhá-lo. Ajoelhei no chão, no meio da rua, a chuva caindo sobre mim, e chorei. Chorei como nunca. Mas ela foi embora sem olhar para trás. E nunca mais voltou. Nenhuma carta, nenhum telefonema. Nada. Era como se tivesse apagado meu irmão e eu de sua vida. Então só reapareceu quando Júlio e eu já éramos homens e já nos preparávamos para administrar a empresa. Acontece que nunca mais foi a mesma coisa. Ela não era mais a minha mãe. Não havia mais amor, carinho, respeito. Só mágoa. As coisas nunca mais seriam como antes. E eu nunca esqueceria que um dia ela escolheu nos abandonar.