Como uma Joia

Isadora Raes · Capítulo 16 de 48

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Como uma Joia

Capítulo 16

 

JONAS

— CAROS SENHORES, estou aqui para lhes informar que não farei mais parte do grupo Luxus e, portanto, passo todas as minhas ações para o CEO Jonas — Moreira diz isso, tentando soar natural, mas é nítido o desconforto e a amargura em sua voz, no entanto, ninguém dá a mínima para isso. Especialmente eu.

Contenho o meu sorriso vitorioso nos lábios e me sinto mais uma vez implacável, insuperável, alguém que nunca será combatido por ninguém. Moreira já estava no topo da minha lista negra. O que ocorreu com Verônica foi a gota d'água.

Moreira, que ainda permanece patético em pé diante de todos, finalmente olha para mim e então faço sinal de que seu discurso já foi o suficiente. O filho da puta se despede e se retira em seguida. Assim que a porta atrás dele se fecha, me levanto da mesa e digo a todos:

— Reunião encerrada. Vamos todos voltar ao trabalho.

Todos se levantam e aos poucos vão dispersando. Augusto, que esteve todo o tempo em pé ao lado de minha cadeira, se aproxima e me entrega uma pasta cheia de relatórios. Pego a pasta e sigo com ela para a minha sala, sentindo Augusto atrás de mim.

— Feche a porta — ordeno assim que entro na sala, e ele obedece.

Coloco a pasta na minha mesa enquanto folheio papel por papel. No entanto não é sobre os relatórios que quero pensar ou falar agora. O assunto que está na minha cabeça nesse exato momento não tem nada a ver com a Luxus.

— Eu tive que cancelar minha viagem para a França. Quero que compre novas passagens — digo a ele.

— Sim, senhor.

— A ideia era eu levar alguém comigo, você sabe, mas tive que mudar os planos.

— Está se referindo à camareira, senhor?

— O nome dela é Verônica — eu o encaro pela primeira vez desde que chegamos à minha sala e logo em seguida me sinto patético por estar me importando com o modo como o meu assistente se refere a ela.

Vou até o bar e me sirvo com um pouco de uísque.

Ela é só uma camareira, Jonas. Uma garota bonita que só serve pra cama. Nada mais, porra. Que porra está havendo com você, Jonas?

Augusto pigarreia, nitidamente preocupado.

— Tudo bem, senhor?

— Está — digo, o encarando — Quero que compre novas passagens aéreas. Ida e volta. Pra mim e pra ela.

O homem fica estático ao meu lado e por causa disso volto a encará-lo.

— Não fui claro?

— Mas o senhor... acha mesmo que ela dirá... sim?

— Não tenho dúvidas disso. Agora vá e faça o que mandei.

— Claro.

Augusto passa pela porta, me deixando sozinho na sala. Caminho até o bar e me sirvo outra vez com uísque. Enquanto bebo um gole minha mente voa até Verônica e suas curvas. Eu não sei o que acontece comigo porque é a primeira vez que fico tão maluco por uma mulher. O fato de ela ser difícil mexe ainda mais com a minha libido. Tenho certeza de que quando a tiver em meus braços, será a melhor trepada da minha vida.

***

No fim da tarde dirijo a minha Mercedes até Irajá, onde Verônica mora. Eu já decorei o trajeto e não me importo com o tempo que levo para chegar lá, contanto que eu chegue. Ajeito os óculos escuros nos olhos e piso no acelerador, pensando no que vou dizer a ela dessa vez quando encontrá-la. Pego o meu celular. Eu até poderia ligar, mas a minha precipitação só faria com que ela se esquivasse de mim. O ideal é pegá-la de surpresa. Guardo o celular no lugar.

Finalmente paro o meu carro em frente ao portão azul da humilde casa. Disco seu número, mas Verônica não atende. A chamada acaba entrando na caixa postal. Bufo, me sentindo um idiota. Levo o meu punho até o meu queixo enquanto fico pensando. Finalmente empurro a porta e saio da Mercedes. Sinto os olhares de curiosidade dos vizinhos sobre mim e sobre o meu carro. É óbvio que um automóvel como esse nunca pisou nessa rua. Levo meus passos até o muro da casa e procuro pela campainha, mas não há nada.

— Oie — uma voz feminina soa atrás de mim e me viro até uma mulher magra, que embora não seja feia, é muito maltratada — Quer que eu chame alguém da casa pra você? — ela se aproxima de mim, vestindo shorts e blusa — Sou Mere, a vizinha deles.

— Oi — estico a mão educadamente para cumprimentá-la — Sou Jonas. Estou procurando a Verônica. Sabe me dizer se ela está em casa?

— Olha, eu não sei... não vejo a Ve desde o dia do pagode, mas posso conferir pra você.

Passa por mim, depois pelo portão e entra no quintal, gritando:

— Verônicaaaa! Dona Selmaaa! Vanessaaaa! Tem alguém aíiii?

Ajeito meus óculos escuros no rosto e olho em volta do bairro. É um local bem humilde, casas pequenas, mal construídas, muitos muros sem pintura e portões descascando. Há uma pequena pracinha no meio da rua e algumas crianças brincam livremente ali.

— Oii — uma voz de repente me faz virar para a frente e vejo a irmã de Verônica, aquela que me deu mole e depois nos pegou no flagra no dia do tal pagode.

Ela também está de shortinho e decote. Está sorridente, ajeitando os cabelos cacheados, os lábios carnudos.

— Ah, meu Deus, se eu soubesse que você viria, eu teria me arrumado antes — comenta.

— Como vai? — estico a mão para Vanessa, me esforçando para ser gentil e agradável, mesmo sabendo que esse tipo de garota não merece a minha atenção.

— Você está de carne e osso na minha frente? Jura? — de repente se vira para a vizinha e diz — Pode ir, Mere. Obrigada.

A tal Mere vai embora, mas Vanessa sequer se vira para se certificar disso. Admito que ela é uma garota bem interessante, mas há algo em seu interior que não aprovo.

— A sua irmã está? — sou logo direto ao assunto.

— Bom, ela não está. Mas talvez eu me recorde de onde ela foi e conte a você — me encara, seus olhos castanhos brilhando.

Seguro a sua cintura, sabendo que ao contrário da irmã, é uma tremenda vigarista.

— Certo. Que tal um jantar aqui perto? — colo meus lábios em sua orelha — A gente pode se conhecer melhor. Afinal, eu não vim de Ipanema até aqui à toa, baby.

— Um jantar? Uau. É claro que aceito — sussurra de volta em meu ouvido — Você é maravilhoso... eu só vou me arrumar rapidinho. Você pode entrar e me esperar.

— Eu posso esperar aqui fora.

— Ah, não, por favor. O bairro é perigoso... tem tido muito assalto — toca meu rosto com carinho — Não quero que se arrisque.

Vanessa abre o portão azul para mim e tento ignorar todo o meu senso crítico e a minha prepotência ao entrar na casa.

— Venha, só não repare a bagunça. A casa é simples, coisa de pobre.

Logo entramos na minúscula sala de estar que é menor que o meu banheiro.

— Manhêeee! — ela grita para alguém — Temos visitaaaa!

Logo uma senhora negra e bonita do mesmo estilo das filhas aparece na sala e me encara com surpresa e vergonha.

— Oh — ela está sem graça.

— Olá, sou o Jonas. Como vai? — estico a minha mão para cumprimentá-la e ela a aperta, toda sem graça, explicando que está cheirando a comida.

— Você trouxe um rapaz e nem me avisou nada, Nessa... se eu soubesse, tinha preparado alguma coisa...

— Ah, não, não se preocupe comigo — digo.

A mãe de Verônica me encara e de cara gosto dela. Tem um ar de quem possui um bom coração

— Você pode se sentar e me esperar — Vanessa diz, espalmando suas mãos pequenas em meu peito, me empurrando no sofá e me obrigando a sentar, agindo como se tivéssemos toda essa intimidade. Cobrinha desgraçada.

Estou afundado no sofá velho de dois lugares enquanto Vanessa diz que não demorará muito para se aprontar e a ouço dizer para a mãe pelo caminho do que parece ser o quarto que eu a convidei para jantar.

— Vocês se conhecem há quanto tempo? Ele parece ser um rapaz da Zona Sul, Nessa...

— Shhh, fale baixo, mãe... por que nunca fica feliz com as minhas conquistas? — Vanessa diz para a mãe e elas não têm a ideia de que estou ouvindo toda a conversa — Foi sempre assim... vocês sempre apoiam ela e nunca me apoiam...

Olho em volta da sala e me pergunto onde está Verônica. Olho para o lado e avisto um retrato da família reunida. Meus olhos se perdem no sorriso de Verônica. Me pergunto se o pai delas está em casa, mas pelo jeito não está. Em fração de minutos, Vanessa volta para a sala, toda arrumada, perfumada, maquiada, o cabelo pranchado solto e bonito.

Eu me levanto na hora e me obrigo a dizer que ela está linda.

— Então, vamos?

— Vocês não vão esperar nem um cafézinho? — dona Selma pergunta, mas quero mesmo ir embora antes que Verônica apareça e me veja chamando sua irmã para sair.

— Foi um prazer conhecê-la — levo a mão da senhora aos meus lábios, me despedindo dela.

Vanessa agarra em meu braço e quando saímos pela porta a ouço sussurrar "me deseje boa sorte" para a mãe.

Quando já estamos na calçada, abro a porta da minha Mercedes para que Vanessa entre e se sente. Dou a volta e me sento atrás do volante.

— Esse carro é incrível — comenta, apalpando o sofá macio — deve ter custado uma nota, hein.

— Não custou mais do que tenho para dar — respondo quando já estou tocando o volante e fazendo o carro se mover.

Dou a partida e estaciono no primeiro restaurante que encontro a poucos quilômetros. A gente se senta numa mesa e deixo a irmã de Verônica folhear o cardápio à vontade.

— Posso pedir qualquer coisa mesmo? Tem certeza? Não vai reclamar não, né?

— Claro que não. Peça o que quiser — levo meu copo de vinho ao lábio enquanto penso em quanto tempo vou precisar aturar essa garota para saber sobre a irmã dela.

Chamo o garçom e Vanessa diz o que quer.

— O que vai querer, senhor? — ele me pergunta.

— O mesmo que ela.

Vanessa levanta os olhos para o rapaz e dispara:

— Faça por merecer e então terá a gorjeta.

Espero o cara se afastar, então encaro a garota à minha frente. Decote que deixa seus seios redondos à mostra, boca vermelha suculenta, sorriso de quem está louca por uma boa trepada. Eu poderia passar a noite com ela, fodê-la toda e assim não perderia meu tempo e minha viagem. A garota tem um corpo atraente e embora seja escrota, é pegável. No entanto, não chega nem ao dedinho mindinho do pé da irmã. E não sou idiota, se eu trepar com ela, minhas chances com a irmã serão anuladas.

— Então me diga, onde está a sua irmã?

— Você não sabe?

— Eu não estaria perguntando se soubesse.

— Bom, ela terminou com o namorado ontem, acho que ficou muito mal com isso... apesar de tudo, o Cidão é um cara legal e no fundo, tenho certeza de que eles se amam.

— Mesmo? — levo minha bebida outra vez ao lábio para um gole e sorrio porque sei que tudo o que diz é uma tentativa de tirar a irmã da jogada. Acontece que a irmã é o cerne do jogo. Não cheguei tão perto para perder Verônica agora.

A nossa comida vem juntamente com novas bebidas e consigo retirar de Vanessa que a irmã dela está provavelmente na casa de uma amiga, Érica. Confirmo que essa é a camareira que trabalha com Verônica lá no hotel. Para a minha noite ficar perfeita e a prova de que o jantar não foi perda de tempo, consigo o endereço de Érica.

Após o jantar, a gente deixa o restaurante e Vanessa se recosta na lataria do meu carro.

— E então, mereço um beijo por ser tão boazinha com você, não mereço? — Vanessa sorri, toda oferecida para mim.

Chego bem perto dela e coloco meus braços em volta de seu corpo, a enjaulando. Ela toca meu rosto e cola os lábios carnudos em minha orelha.

— Você é um gostoso. Eu topo um motel agora mesmo, se quiser.

Não, não vou cair nessa. Antes que meu pau endureça, mantenho minha cabeça focada no meu objetivo. Verônica.

Colo meus lábios em sua orelha do mesmo jeito que fez segundos atrás comigo.

— Você é uma delícia, acontece que não consigo tirar sua irmã da cabeça — sussurro.

Seu sorriso se desfaz na hora e sei que por essa ela não esperava. Eu me afasto de seu corpo e aceno para um táxi.

— O que está fazendo? — ela quer saber, se desencostando do meu carro, me olhando, chocada.

— É um táxi pra você — aceno enquanto o táxi para.

— Por quê? Você não gostou de sair comigo? — resmunga — Não vai me levar pra casa?

O táxi para na nossa frente. Abro a porta traseira e a conduzo gentilmente até o banco. Fecho a porta, interrompendo o que quer que ela iria dizer. Bato na lataria do carro para que o motorista dê logo o fora e tire essa vadia de perto de mim. Subitamente o meu celular começa a tocar e vejo o nome do Ricardo na tela. Penso em não atender, mas sei que ele só pode ter algo muito importante a me dizer.

— Fala — digo com o celular no ouvido.

— Amanhã um telegrama direcionado à Selma dos Santos chegará em mãos. A esposa e filhas saberão sobre a dívida da casa.

— Certo. Obrigado.

— Boa noite, amigo. Tenho certeza de que terá lindos sonhos esta noite.

Desligo o meu celular, me sentindo aliviado e cheio de esperanças. Tenho certeza de que em breve Verônica virá até mim. Descarto a ideia de procurá-la no endereço da amiga. Logo ela será minha por livre e espontânea vontade. Ricardo tem razão. Terei sonhos lindos esta noite. Entro no meu carro e sigo em direção ao hotel.