Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 8
O I Festival de Teatro de Estudantes do Nordeste, em julho de 1962, em Caruaru e Recife, Pernambuco, era um evento integrado na pauta da esquerda camponesa que naquele momento agitava o estado. Miguel Arraes, que seria eleito governador em outubro, avançava na aliança com os camponeses. A cidade de Jaboatão dos Guararapes, conhecida sutilmente por Moscouzinho, eleitora na década de 1940 do primeiro prefeito comunista brasileiro, tinha mandado um contingente enorme e inflamado de ativistas. O teatro, acreditavam quase todos aqueles jovens saídos de vários estados, deveria estar engajado na grande obra de transformação nacional. Deveria ser uma das mãos a ajudar a colocar o proletariado no poder e acabar de vez com a arte alienante da burguesia! A reforma agrária começaria pelo palco!
Eis o clima do festival patrocinado pelo Ministério da Educação, politizado da coxia à bilheteria, passando pelas bandeiras vermelhas que cobriam o cocoruto da plateia — tudo isso, no entanto, até que entrasse em cena o Grupo de Orla, do Rio de Janeiro, para apresentar A bola, a serra, a liça, três textos curtos de Tite de Lemos.
“Eu quero tomar café”, dizia o primeiro ator a subir ao palco — ele se chamava Zózimo Bráulio, conforme assinado no programa. A estrutura era meio de coro grego, ou jogral, ou sabe-se lá o quê. Ele dizia a fala e cruzava o palco, misterioso, seguido pela mesma nuvem de pó azulada que acompanharia os demais personagens. Estavam carregados de uma forte maquiagem branca. Usavam malha unissex que lhes torneava o corpo e dava um componente erótico ao espetáculo, deixando-o ainda mais estranho.
A explicação para aquilo sumiu com o tempo, assim como sumiram os bonequinhos de cerâmica que nos intervalos do festival todos compraram na famosa feira de artesanato de Caruaru — numa época em que seu grande artista, Mestre Vitalino, ainda estava vivo (morreria meses depois, em janeiro de 1963). Para os padrões teatrais do futuro, a nuvem de pó azulado nas cabeças remeteria a alguma montagem da Ópera Seca, a companhia de vanguarda criada por Gerald Thomas nos anos 1980. Depois de Zózimo Bráulio, os outros atores diziam frases igualmente soltas — mas sempre repetindo que também queriam tomar café. Já os outros grupos do festival queriam mesmo era tomar o poder no Brasil.
O Orla apresentava pela primeira vez ao público nordestino a última novidade em dramaturgia: uma montagem pautada pelas lições do Teatro do Absurdo, uma das modas da virada para os anos 1960 e que tinha em Ionesco e Samuel Beckett os seus mais ilustres representantes. Tinha ido parar ali porque Sebastião Lacerda havia conseguido um canto para a turma num DC-3 militar, sem pressurização, que seguia para Pernambuco. Do Rio a Recife foram, no total, incluindo as paradas, vinte e quatro horas ionescas — sem tomar café. “Nada deve fazer sentido, quanto menos sentido melhor”, acreditava Renato Machado, que dirigia a turma.
Ninguém sabia que a peça ia ser apresentada num festival com tamanha efervescência esquerdizante. As influências do grupo misturavam a descontinuidade da Nouvelle Vague francesa, a incomunicabilidade dos filmes de Michelangelo Antonioni, o surrealismo de Luis Buñuel, o existencialismo de Jean-Paul Sartre e o absurdo teatral. Tudo servido com raspas do pó do chifre de rinoceronte de Ionesco. Nonsense total. O grupo soava à frente do seu tempo, mas longe também da luta de classes. Nenhum de seus membros entendia muito bem do que tratava o texto. Todos, porém, confiavam no vanguardismo de Tite.
O estudante cearense José Wilker, cujo grupo se apresentava com uma leitura esquerdista da peça infantil A volta do camaleão Alface, de Maria Clara Machado, estava na plateia. De início, achou a montagem do Orla bonita, ousada, e ele sabia o que dizia, pois uma década depois estaria no Rio atuando em peças de vanguarda. Aos poucos também foi ficando entediado. Considerou a encenação, com o país pegando fogo, despropositada.
As vaias logo se fizeram ouvir — e amplificadas por um requinte de crueldade da época. A plateia, da mesma maneira que meio século depois só sairia de casa com seus celulares, estava armada com os rádios transístores da marca Spica, a última palavra em modernidade. Wilker se lembraria para sempre da cena. Além das vaias, todos ligaram os rádios no mais alto volume para deixar claro o repúdio e o protesto contra os cariocas.
O Orla começara em 1959, no mesmo ano de estreia do grupo paulista Oficina, que se consagraria no cenário teatral brasileiro. O teatro era moda, mexia com o impulso criativo daquela geração. A ideia surgiu em reuniões de alguns representantes da turma de Zózimo no Andrews. Renato Machado e Ary Coslov gostavam de teatro, tanto que o primeiro teria, no futuro, carreira de ator e o segundo, de diretor. Levaram para as reuniões Tite de Lemos, irmão de criação de Renato, o escritor Heitor O’Dwyer e os irmãos Alberto e Marcos Flaksman, alunos do Colégio Pedro II, no Humaitá. Os encontros eram na casa de Renato. Zózimo frequentava alguns, pautados principalmente pelos laboratórios de Stanislavski, “a pesquisa da emoção”. Um dos exercícios era feito com todos os atores deitados no chão e se tocando, para que os sentimentos aflorassem — era boa desculpa cultural, num tempo de forte repressão, para se tocar o corpo do outro.
Outro exercício era imitar o circuito dos profissionais de teatro do Rio. Depois dos ensaios, ia-se ao La Gondola, na Sá Ferreira, no Posto 6, e dali, a pé, pela areia da praia de Copacabana, de madrugada, até o outro canto da praia, no Leme, no La Fiorentina — as duas cantinas italianas funcionavam como pontos de encontro da classe. Na primeira, Paulo Francis, por causa de um comentário sobre Tônia Carrero (“não sei se dormi com ela, não costumo dormir com mulheres da idade da minha mãe”), foi cuspido na cara pelo amigo da atriz, o ator Paulo Autran. Na outra, o diretor de cinema Anselmo Duarte, ganhador da Palma de Ouro em 1962 por O pagador de promessas, disse: “Ganhar em Cannes é fácil, difícil é ser elogiado na Fiorentina.”
Zózimo acompanhava a turma a algumas sessões do Teatro Tablado, porém sem grandes interesses na questão dramatúrgica. Curtia os amigos, sim, seu gosto por elementos da cultura crescia, sim, mas era uma maneira também de encontrar Marcia, participante discreta do Orla — na aventura de Caruaru e Recife ela assinava, sem estar lá, os figurinos.
Quanto à participação de A bola, a serra, a liça no festival, no Jornal do Commercio de Recife o crítico M.C. classificou a montagem de “medíocre”. Sua colega, Maria José Campos Lima, discordou: “Foi um espetáculo correto, contudo monótono no emprego do estilo de Beckett. Não era para Caruaru...” Nelson Xavier, que mais tarde faria carreira como ator de peças engajadas, era colaborador da coluna TV&Teatro no mesmo jornal. Considerou tudo muito alienado no artigo “No quarto ou na praça?”, justo num momento em que “o povo é massacrado no Rio, de onde vem essa juventude dourada de cabelos azulados”.
No programa da peça, os dois personagens feitos por Zózimo são identificados como Falador Vivo e Graves, sem nome próprio, essa caretice que não cabe no mundo do absurdo. Foram suas únicas apresentações como ator do Grupo de Orla. Os amigos dizem que a timidez e o ar cínico, além da ligeira gagueira, ajudaram-no a imprimir mais humor ao texto. De início, ia ao festival apenas para cuidar da produção. Na última hora, no entanto, Ary Coslov precisou ficar no Rio e Zózimo prontificou-se a entrar em cena. Atuou com as roupas do colega, quase a metade de seu tamanho, o que acabou funcionando, pois a malha ficou mais justa e risível. Não comprometeu no fiasco geral das coisas. Sua melhor arte era outra.
Zózimo era ótimo dançarino de twist. Tinha aprendido na temporada parisiense — sim, ela serviu para alguma coisa —, e quando chegou de volta ao Rio a novidade ainda não tinha estourado. Participava de concursos de dança (seu twist era do tipo europeu, com o mesmo amassa-barata nos pés divulgado pelo cantor americano Chubby Checker, mas com um jogo de mãos mais coreografado) e chegou a ganhar um deles, com Celina Affonseca Andrade de partner, no programa Hoje é dia de rock, que Jair de Taumaturgo apresentava na TV Rio, no Posto 6. O dinheiro do prêmio Zózimo pingara na caixinha que ajudou a levar o Orla para o Nordeste.
Depois da última apresentação do grupo na turnê nordestina, num clube do Recife, houve uma festa regada a twist. Zózimo, bem-vestido, já sem a malha da peça, foi para o meio da festa com um atrativo extra ao lado. Seu par, ex-ficante, era Duda Cavalcanti, agora namorada de Renato. Ela também participou do grupo como atriz. Foi, segundo o crédito no programa da peça, a Vadia na montagem de A serra, enquanto Renato fazia o Vadio. Uma das performances dela em Caruaru era cruzar o palco, aos pulos, repetindo “modesta, porém honesta”. Duda continuava um segredo carioca. Tinha feito apenas uma série de fotos, clicadas por seu namorado no final dos anos 1950, Otto Stupakoff, que permaneceriam inéditas.
Sem saber, Caruaru foi palco da primeira audição pública do mito — a performance de Zózimo e Duda dançando ao ritmo de “Hit the road, Jack”, cantada por Ray Charles, foi sensacional. O clube parou para vê-los exibir toda a graça e descontração de dois jovens moderninhos da Zona Sul carioca. Em seguida, Zózimo voltou à pista com a segunda mulher mais bonita do baile, uma pernambucana associada do clube — e aí foi demais para o machismo nordestino.
Os rapazes locais não gostaram de todo aquele sucesso. Dessa vez nem era uma questão de protestar à la Nelson Xavier com alguma frase do tipo “twist numa hora dessas, enquanto o povo do Rio é massacrado?”. O que aconteceu em seguida foi por ciúme mesmo, inveja e todo aquele coquetel de sentimentos mesquinhos que move a humanidade diante de exibições de superioridade.
Depois das danças, Zózimo, Alberto Flaksman e Renato saíram do salão para fumar um cigarro e foram cercados por um grupo de dez jovens do clube. Ao ouvir o primeiro “veado”, e mesmo com a absurda desvantagem numérica, foi Zózimo, o brigão de outros capítulos, quem topou a provocação. Partiu para cima do autor do grito e acertou um belo cruzado no queixo do sujeito. Seguiu-se um lamentável festival de pugilato, com os cariocas levando a pior. Duda entrou na roda e tentou retirar Zózimo, todo amarfanhado, de baixo de cinco nordestinos que o pugilavam de tudo que é jeito. A refrega só teve fim quando um diretor puxou o revólver que levava na cintura e deu um tiro para o alto.
Todos a salvo no Rio, o Orla, sem Zózimo em cena, ainda montou uma peça de vanguarda, na qual o texto era dito em câmera lenta, com as palavras beeeeeeeem esticaaaaadas. Depois houve uma mudança de rumo. Contaminado pela época, o grupo procurou repertório engajado e, sem que o público protestasse ou percebesse, encerrou a carreira em 1965. Renato Machado continuaria por algum tempo sua trajetória de ator, até abraçar o jornalismo. Marcos Flaksman seria um importante diretor de arte, Tite de Lemos se tornaria jornalista.
Para o resto da vida, sempre que Alberto e Zózimo Bráulio se cruzavam, comentavam às gargalhadas que haviam enfrentado a turma de Lampião e que aquilo, nas mãos de Beckett, teria dado uma peça do Teatro do Absurdo. O título, inventado por Zózimo, seria “Abilino e Braulino em Caruaru”.
No Rio, a única referência à passagem do Orla pelo festival foi feita no jornal O Globo, na coluna Reportagem Social, de Ibrahim Sued. O registro, certamente conseguido por Boy, amigo do colunista, indicava que tinha sido um sucesso.