Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 16
Em 21 de agosto de 1972, uma nota colocou Zózimo de novo na mira dos militares. Como das outras vezes, não escrevera nada aparentemente desafiador à ordem constituída da nação, mas os militares da época eram homens muito sensíveis — e um funcionário do Dops, sempre alerta, anotou o que classificou de “notícia em detrimento dos valores nacionais”. A nota intitulava-se “Fittipaldi, o corredor de duas bandeiras”. O piloto estava para ganhar seu primeiro título na Fórmula 1 e Zózimo explicava por que, quando ele subia ao pódio, o hino não era o brasileiro e sim o inglês:
• Quando Emerson Fittipaldi procurou se filiar à
Federação Internacional de Automobilismo soube que era
necessário levar uma apresentação de uma federação
nacional. A brasileira, entretanto, conturbada por guerra
interna, alegou não ser ele ainda um nome importante.
Emerson procurou a inglesa, que o indicou. Apesar de levar
no capacete e no carro a bandeira brasileira, Fittipaldi corre
oficialmente pela Inglaterra, como demonstrou o hino inglês
executado no momento em que ele subia ao pódio em
Zeltweg.
As centrais militares de informação não gostaram. Em 8 de setembro de 1972, dezoito dias depois da publicação da nota — tudo bem mais lento que o carro de Fittipaldi —, o Dops da Guanabara produzia, com carimbo de confidencial, um relatório. O papel trazia o timbre da Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Educação e Cultura, do Rio. Seu texto, a seguir, é publicado na íntegra para que se saboreiem, com toda a sua exuberância de erros (não falta a clássica vírgula separando o verbo do sujeito), a escrita truncada e o pavoroso estilo dos redatores escondidos nas casernas. O pau comia nos porões, a língua também era massacrada no papel. Não era linguagem cifrada, para esconder no seu bojo segundas intenções — era equivocada mesmo. Na linha de “assunto” vinha “Zózimo Barrozo do Amaral”:
O colunista em epígrafe do Jornal do Brasil, vem se
evidenciando de forma negativa e tendenciosamente.
Com relação a “Fitipaldi, o corredor de duas bandeiras”,
ele noticia que “o corredor corre oficialmente pela
Inglaterra, em razão de não ter sido bem recebido pelo
órgão brasileiro é que, após suas vitórias, a bandeira inglesa
é hasteada, e o hino inglês é entoado”, fato aquele
desmentido pela Confederação Brasileira de
Automobilismo, entidade máxima da direção nacional que
afirma tais notícias serem falsas, por ser o referido corredor
registrado naquela confederação, com carteira internacional
de piloto no 20, licença de concorrente n o 30, devidamente
autorizada pelo Conselho Nacional de Desportos.
Que o referido colunista pretendeu com tal notícia
incentivar o sentimento de injustiça, em detrimento dos
valores nacionais.
O relatório do Dops carioca foi distribuído pela Área de Serviço de Informações, que coordenava a divulgação desse papelório de arapongagem, com cópias para o I Exército, SNI/ARJ, DSI/MEC, Cisa, Cenimar. Dessa vez Zózimo não foi recolhido aos costumes. O episódio ficou por isso mesmo, apenas um grito de alerta distribuído internamente para que todos ficassem atentos: era um lobo que se escondia por trás da pele de cordeiro e de colunista social.
Os homens estavam atentos. Isso funcionava tanto para o bem (mostrava que a coluna era referência, com o plus qualitativo de ser reconhecida como inimiga dos militares) quanto para o mal (todo cuidado era pouco, porque no xadrez da Barão de Mesquita agora não se servia sequer queijo nacional). A coluna, desinteressada de qualquer proselitismo político, porém de olho na informação, se firmou como um espaço de peso logo na primeira metade da década de 1970. Era um período horroroso para a captura de notícia.
Nos arquivos do general Golbery do Couto e Silva, então chefe da Casa Civil, está esta nota publicada em 7 de março de 1975 por Zózimo com o título “O ilustre passageiro”:
• Ontem, às dez da manhã, a Rural placa OF-0972, de
Brasília, transitava pelo Viaduto Paulo de Frontin exibindo
comodamente refestelada ao lado do motorista a bela e
imponente figura de um dálmata. Pelo tamanho, brilho do
pelo e as deferências com que era tratado pelos demais
ocupantes do veículo oficial, é de se supor que o passageiro
deva ocupar no mínimo um importante cargo de assessor na
capital.
O arquivo de Golbery era depositário dos maiores segredos do regime, e a inclusão da nota — não seria a única de Zózimo naquelas pastas — só avançava a carreira do colunista. O general mandou que se fizesse a investigação e logo em seguida surgiu a informação, anotada por Heitor Aquino Ferreira, secretário particular do presidente Ernesto Geisel, de que o carro era do Ministério da Fazenda. Conduzia a funcionária Alice Campos Homem, que teria se apiedado de um cachorro atropelado. Como os taxistas não o quisessem transportar, ela botara o cachorro no carro oficial para levá-lo ao veterinário. A história acabou aí, mas Golbery anotou embaixo: “Veja que romance, vale o alerta.”
O “romance”, no caso, tinha o sentido de “lorota”. Golbery, segundo um especialista em seu pensamento, não acreditava no que havia sido apurado. Não pediu que se investigasse a funcionária, contudo, segundo seu tradutor, o “romance” podia ser lido como “vocês estão pensando que me enganam?”. Era um bom flagrante da ditadura, feito por quem estava dentro dela: alguém que queria reprimir e dispunha de um serviço de informações para isso, só que era vítima o tempo todo das mentiras internas. O dono da bola sabia que seus companheiros de jogo não eram confiáveis.
Nos arquivos de Golbery há outras passagens de Zózimo. Quando a coluna noticiou, em 1975, que o painel de Portinari do Colégio Cataguazes fora vendido ao governo de São Paulo por 40 milhões de cruzeiros na mesma época em que o governo do estado se queixava da falta de grana, Golbery mandou investigar. O chefe da Agência Central do poderoso Serviço Nacional de Informações (SNI), general Sebastião Ramos Castro, explicou que “esse painel foi vendido por interferência do [político mineiro] José Aparecido”. A questão não foi adiante porque o valor real era bem menor, 4 milhões de cruzeiros, considerado razoável para o caixa da instituição. O importante desses documentos é que não deixavam dúvidas: aos poucos Zózimo firmava-se como uma das estrelas do jornalismo nacional.
Nesse período, o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi visitar o JB e almoçou no restaurante de ares parisienses que a diretoria montara no nono andar, com Nascimento Brito operando de chefe supremo. Numa eleição recente para o Senado, o então MDB vencera o partido do governo, a Arena, e JK cravara no almoço uma boa frase quando lhe perguntaram o que aconteceria em seguida: “Não sei, mas soltaram o monstro.” “E quem é o monstro?”, perguntou o editor Elio Gaspari. “O monstro é a opinião pública. Ela olha, está aqui, está ali, está em todos os lugares.” JK acertara a previsão. A opinião pública sentiu-se mais forte e iniciou uma série de reclamações. Daquele dia, no entanto, o que o ex-presidente registrou em sua agenda foi o seguinte: “Visitei o JB. Cumprimentei o Zózimo.” Nenhuma menção à boa frase que cunhou nem a Nascimento Brito nem a qualquer outro da oligarquia do jornal. O colunista, por seu lado, sem deslumbramento, nem piscou. Não mencionou em sua agenda, a página do jornal, a visita do ex-presidente ao seu aquário. O destaque era a chegada do Concorde, o avião em que logo embarcaria até sua Paris querida.
A arrancada da coluna fora boa. Zózimo não era especialista em política, artes ou economia, todavia começava a ter mais notícias de bastidores do que os donos daqueles assuntos. Sem abandonar o champanhe, o caviar e o perfume francês espalhado no cangote de suas madames, inventara outro cardápio de delícias para o grande banquete da informação diária. Ninguém sabia por onde atacaria. Ele soltara o monstro da livre informação na coluna social — e se divertia com o sucesso.
Em 16 de agosto de 1972, publicara um autoelogio debochado com o título “A glória”:
• Da avenida Rio Branco para o mundo: a revista francesa
L’Équipe, especializada em futebol, critica em seu último
número uma nota dada por este colunista contra o Le
Miroir du Foot-ball, outra revista da mesma empresa. O
autor da nota foi buscar inspiração em Sagan para escrevê-
la, pois lhe colocou como título: “Un certain Zozimo.”
O mundo se curvava — e ele caía na gargalhada.
Foi Zózimo quem noticiou, em 19 de abril de 1973, a presença no Rio, almoçando calmamente no restaurante do Country Club, do falsário internacional Fernand Legros. Ele estava com o ator Carlo Mossy, seu ex-namorado (Mossy salvara o falsário de morrer afogado em Copacabana com uma respiração boca a boca e ao recuperar a consciência as primeiras palavras do falsário para Mossy foram “você salvou a sua vida” — além de três anos juntos em Paris, encheu o belo rapaz, louro, de olhos azuis, de condições para fundar uma bem-sucedida produtora de cinema). Após o noticiário de Zózimo, Legros foi preso e extraditado para a França.
Zózimo sabia que não fazia mais do que sua obrigação. Um colunista é pago para dar notícias exclusivas. Mas por mais que Brasília já estivesse de olho nele, por mais que tivesse virado referência, era bom esfregar na cara da concorrência que as coisas iam bem. Em 27 de abril de 1973, ele deixou a modéstia à parte:
• Não é do feitio desta coluna cantar vitória e muito menos
anunciar aos quatro ventos as notícias que antecipa ou os
furos que dá. Mas não posso deixar de registrar como tendo
sido levantados neste espaço os dois assuntos que ocupam
as conversas e as principais páginas dos jornais: o
casamento de Sílvia Amélia Chagas e a presença de Fernand
Legros no Rio.
Sílvia Amélia era uma “pantera”, nome cunhado por Ibrahim, com imensos olhos azuis, enorme cabeleira loura. Ela estava no mundo do colunismo desde a década anterior, apresentada pelo “Turco”, quando se casou com Paulo Fernando Marcondes Ferraz, empresário e jogador de polo. Sílvia Amélia nascera para as páginas, quaisquer que fossem, herdeira de linhagem espetacular. O sanitarista Carlos Chagas, o avô, identificara a doença de Chagas; o pai, também Carlos Chagas, pertencera à Academia Brasileira de Letras. Ao nascer, ela ganhou sua primeira página ao ser musa de poesia de Manuel Bandeira (no livro Mafuá do malungo): “Tudo quanto é puro e cheira:/ — Manacá, jasmim, camélia/ Lírio, flor de laranjeira,/ Rosa branca, Sílvia Amélia!”
Mas, como se via pelas próprias colunas, não se fazia mais dondoca como antigamente. Elas não queriam passar por aquele aborrecimento de se empetecarem para os machos e, de bufê em bufê, engordarem o vazio existencial. Sílvia acompanhou o desbunde dos últimos anos da década de 1960 e transformou-se numa socialite boêmia. Em 1970, separou-se de Paulo Fernando. Sua relação de namorados incluiria Tarso de Castro, Ibrahim Sued e Roberto Carlos. Deixou aflorar seu côté artístico. Dedicou-se à pintura e abriu butique onde vendia camisolas pintadas por ela, com inscrições do tipo “Faça seu gol comigo”. Foi Zózimo quem acompanhou melhor a nova Sílvia Amélia.
Num baile de Carnaval ela foi flechada amorosamente pelo barão francês Gérard Waldner. Sílvia, de sarongue, ele, de summer jacket. A coluna explorou o assunto e foi a primeira a cravar, em 1973, o casamento surpreendente, num castelo na Europa. Zózimo descreveu a cerimônia — não no seu espaço, porque depois de tantas notas sua musa tinha virado obsessão nacional, capa de revista e garota-propaganda de cigarro feminino. A reportagem sobre o casamento saiu na capa do B, num tratamento que só Lady Di e o príncipe Charles teriam. A loura de sarongue virara baronesa, e o Carnaval comemorou ter sido Cupido nessa história. Carlinhos Oliveira, amigo de Sílvia no Antonio’s, mais o poeta Geraldinho Carneiro, cantaram a conquista do barão francês como se fosse vitória da Seleção brasileira. Fizeram uma marchinha, publicada por Zózimo — mais um furo. Waldner virou Valdemar: “O barão de Valdemar/ veio aqui só pra espiar/ O Carnaval, ouriço nacional/ Mas no meio do salão/ Valdemar sentiu-se mal/ Do coração/ E quando viu nossa pantera/ Embarcou levando a fera/ Tanto amor nunca se viu/ Mais uma vez a Europa/ Curvou-se ante o Brasil.”
As mulheres estavam se redesenhando no comportamento — e também na aparência física. Deus estava dando plantão no consultório da rua Dona Mariana, em Botafogo. Atendia pelo nome e estava no jaleco de Ivo Pitanguy. O bisturi mágico do cirurgião plástico virara o novo pincel de Michelangelo e o mundo se boquiabria diante de sua capacidade de recriar rostos. Ninguém se revelava operada por ele, mas Zózimo, com a discrição possível a quem imprimia notícia em uma página de jornal, fazia o serviço. Pitanguy não reclamava — era quem soprava algumas notas.
O furo mais bombástico foi o de que o médico operaria a duquesa de Windsor, na Suíça. A nota saiu em 27 de janeiro de 1970 e teve repercussão internacional. Ibrahim Sued, hóspede de longas temporadas na casa de Pitanguy, na Suíça, ficou mais vulcânico do que nunca. Quase rompeu relações com o cirurgião, que se defendeu dizendo que um suíço passara a bomba, recolhida nos arredores da duquesa, para o concorrente. Também não era verdade. Um amigo de Zózimo conversava sobre uma cirurgia com o médico, no consultório deste, quando telefonou a embaixatriz Glorinha Paranaguá, amiga da duquesa. Ela queria intermediar a operação. Pitanguy acertou tudo, marcou com Paranaguá o dia de seguir para a Suíça e não fez qualquer pedido de discrição ao cliente que estava à sua frente. Não podia supor que ele fosse também fonte de Zózimo e que, em seguida, sairia dali direto para o orelhão mais próximo a fim de informá-lo.
Pitanguy jamais admitiu ser fonte de notas das próprias operações. Um ano depois da duquesa de Windsor, novamente só Zózimo viu o bisturi do médico trabalhar no nariz de Marie-Thérèse Walter, mulher de Picasso, assim como só ele informaria sobre o desenho que o pintor mandara em agradecimento. Ibrahim dizia que “em sociedade tudo se sabe”, mas Millôr Fernandes retrucava, garantindo que, dada a ignorância dos grã-finos, nada por ali se sabia. Fosse qual fosse o sabido, tudo que se sabia agora começava a ser contado primeiro para Zózimo.
Ele e Ibrahim, um no JB, o outro no Globo, por mais que se estranhassem na competição pela notícia, continuavam amigos. As fontes é que não entendiam exatamente o que havia entre eles. Um dia, o diretor da Central Globo de Produções, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, deu um jantar comandado pelo chef Alain Senderens. Como naquele momento conhecia Zózimo apenas de obas e olás, para evitar problemas convidou somente Ibrahim, que, afinal, era funcionário das empresas Globo. Qual não foi sua surpresa quando o colunista chegou à festa levando Zózimo como seu convidado. A propósito, foi uma noite deliciosa. Na saída, Zózimo deixou no livro de autógrafos da adega um comentário: “Je suis avec Monsieur Senderens e não abro.”
O “jornal dentro do jornal” inventado por Zózimo não parava de dar notícias exclusivas, e um dos nichos em que mais prestava atenção era o de artes plásticas. Ele elencou como um vilão desse período o colecionador paulista Pietro Maria Bardi, que dirigia o Museu de Arte de São Paulo, o Masp. Descobriu que para pagar débitos da instituição, Bardi havia vendido o quadro José e a mulher de Potifar, de Paul Gauguin. A denúncia foi publicada um tom acima do que costumava usar, pois envolvia um bastidor particular. Bardi e Gilberto Chateaubriand, o maior colecionador de arte do Rio e meio primo de Zózimo, não se bicavam.
Gilberto era filho de uma francesa com Assis Chateaubriand, o Chatô, o tycoon ex-marido de Maria Henriqueta, a Branquinha, tia de Zózimo. Chatô só assumiria a paternidade de Gilberto com ele já adolescente, ocasionando vários ressentimentos por isso. Por uma daquelas ironias da vida, o tycoon ajudara a forrar o Masp com joias da pinacoteca internacional, enquanto o filho fazia o mesmo com o Museu de Arte Moderna do Rio, o MAM. A rixa era inevitável e Zózimo, que chamava Gilberto de cousin, ficou do lado do “primo francês” — pelo parentesco em segundo grau e pela gravidade dos fatos:
• Enquanto os alertas desta coluna continuarem
provocando do sr. Bardi esse tipo de reação o acervo do
Museu de Arte de São Paulo terá preservada a sua
integridade.
Dessa vez os arapongas do SNI não podiam ter dúvidas. Para usar a linguagem do boletim que o dedurava no caso Fittipaldi, Zózimo com suas notícias pretendia incentivar o sentimento de justiça em prol dos valores nacionais. Seus furos na gestão Bardi provocaram uma fiscalização no Masp. Tudo isso era muito bom, e um colunista dando seus primeiros passos na carreira solo gostava de emplacar essas notícias quentes. “Eu dou alguns furos”, explicou ao repórter Michael Koellreutter, da revista Interview, “mas se você me perguntar quais, eu não seria capaz de me lembrar. Uma coluna com furo e sem sabor está sempre pior do que uma coluna sem furo e com sabor. A ideia se estabeleceu, mas eu não acho que tenha de ser o princípio básico na função do colunista. A minha preocupação é fazer o leitor sorrir de manhã.”
Divertir o leitor e a si próprio — eis a ideia da coisa. De vez em quando, para relaxar, havia Paris, ou algum outro tipo de tíquete que caía em sua mesa para viajar com Marcia. Afinal, como dizia o jornalista Sandro Moreyra, colega de Zózimo no JB: “Trabalhar deve ser bem pior.”